segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Dura lex

Uma vez eu ouvi de uma das pessoas que mais importam para mim, numa situação de despedida: isso não é justo. Acho que algumas pessoas tinham mesmo que receber certas compensações do universo, por suportarem dores que ninguém devia precisar passar... Experiências pesadas demais para qualquer um. Depois delas, tudo devia ser mais suave e feliz. Naquele momento, minha vida passou pela minha cabeça... quase 33 anos... E eu só consegui concordar, com o maior sentimento de impotência: sim, não é mesmo.

E claro que se o universo dependesse de mim, eu nem saberia por onde começar, nem como e por isso, até entendo ele ser essa bagunça que aparentemente é... como se tivesse sido simplesmente largado pra lá... Naquele mesmo ano, alguns meses depois eu estaria lidando com outra situação de despedida, tão intensa, tão grande quanto, dadas as devidas proporções. E também se iniciava a época mais doida e caótica da minha vida. Duas despedidas no mesmo ano... Recomeços grandiosos... Não bastava todas as lições até ali sobre o quanto somos insignificantes diante das leis que regem essa loucura toda e sequer conhecemos.

Mas, dez anos depois... aqui estamos todos outra vez, na virada da maré. E eu só consigo pensar  que depois daqueles 22 anos de peso desnecessário, essa meta já tinha que ter sido batida, sabe? Para que mais  medo, perda, sensação de impotência, vazio, lacunas? Afinal, como acontece com as cólicas mensais, só dói, apenas isso. Serve pra nada. E isso não é justo mesmo.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Marvel Jesus

Sem Internet durante boa parte da tarde, com muitas coisas para resolver e ponderar, até café acabei tomando. Então, sem conexão com a minha equipe de trabalho, acabei lendo algumas coisas e encontrei, por acaso num livro esse parágrafo:

"Eu não fui expulsa dos mutantes, eu fui DEMITIDA. Eu cheguei no estúdio e o Arnaldo e o Sérgio me chamaram em uma sala. Ambos se sentaram na minha frente em uma mesa e eu atrás em outra cadeira. Ali, naquele momento, eles teceram um texto merda de paz e compreensão, mas na verdade era a minha retirada da banda. Eu não estava usando botina de peão de fábrica daqueles que tem ponta de ferro, mas era a mesma coisa. Os dois chefes me demitiram. Eu sou a voz de mais da metade das músicas dos Mutantes mas isso aparentemente não importava para eles. Me afetou? Muito! Saí daquele estúdio cambaleando, entrei no meu Fusca e dirigi por dois quilômetros longe dali, quando resolvi parar. Parei. Saí do carro e chorei aos montes, eu era um lixo escorrendo lágrimas. Não sabia mais o que fazer da minha vida. Achei que os mutantes eram os Mutantes por causa minha, descobri ali que eu era na verdade um produto. Foi tristeza misturada com raiva e desgosto. Esse sentimento me consumiu por meses até eu ter energia de bolar minha carreira solo."

Só quem já passou por algo assim sabe como é se sentir caindo num poço que parece não ter fundo e quando finalmente chegar lá, olhar para o céu. Ninguém devia precisar sentir isso. Especialmente depois de ter feito de tudo para ser o melhor possível, estudar para melhorar e evitar possíveis falhas, aprender coisas novas em tempo recorde, chegar o mais cedo e sair o mais tarde só para que o projeto saia, fazer todos os esforços, doar todo o tempo e energia... Tudo isso, ainda precisando lidar com mais dois empregos, fim de um relacionamento super legal, correria da pipa voada, família louca... Algo assim faz qualquer um questionar se todas as habilidades que parecíamos ter são mesmo reais. Pois, começamos a entrar numa espiral de duvidas a respeito do que sabemos de bom, de nossa utilidade, de nossa relevância, até nosso valor mesmo como pessoa, sabe? Parece que nossa presença nunca fez a menor diferença. E fica ainda pior se a isso se soma toda uma vida do avesso nos mais diversos setores, toda uma história de décadas de inseguranças e experiências que destroem qualquer vestígio de auto apreciação sob qualquer aspecto. Bom que a Rita, pelo menos nesse assunto abordado, se saiu incrivelmente bem. Numa época de tantas desconstruções sem propósito, sem proposições melhores, tanta perda de referências grandiosas e inversão de valores, precisamos desse tipo de história e desse tipo de herói. Não para acreditarmos em perfeição, sacralidade, duendes ou fadas... Nem para transformar todo e qualquer problema da vida em masmorras e dragões, mas para sabermos que existem saídas e é possível derrotá-los.

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quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Presentes de Aniversário

No outro dia, no meu aniversário, acabaram aparecendo pessoas muito queridas, dessas que tenho sempre comigo, das mais altas grifes e por isso mesmo, de baixa manutenção... Um dos requisitos básicos para relacionamentos profundos e reais por aqui. Da maioria eu não tinha notícias há bastante tempo, mas nem por isso deixei de amá-las, considerá-las, lembrar-me delas com carinho, rir de nossas piadas internas, falar sobre nossas aventuras, desejá-las sempre o melhor, torcer por elas... Incluindo aí o autor das Ruelas Eternas, que está fazendo esse enorme favor a todos nós de voltar a escrever por lá.  Não fazem muitas semanas quando cheguei a comentar sobre o Anonimato Diário, do mesmo autor... Deixo aqui registado inclusive o desejo de que aqueles relatos ganhem fôlego para serem retomados também!

Mas, o retorno a todos esses lugares - pessoas são lugares, mundos inteiros - num só dia, no meu aniversário, acabou resgatando sentimentos, esperanças, alegrias, gargalhadas e possibilidades antigas que andavam escondidas em mim. E talvez, nenhum dos amigos saiba disso, mas, apesar da bagunça que ainda está aqui dentro, suas presenças, suas palavras... me recuperaram motivações e esperanças adormecidas também. Agradeço demais por isso!

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Mão de Faca

Ora, ora... Olha só quem saiu da camarinha... Não estou com tempo nem para respirar. O estúdio está a mil. Projetos pessoais de Ilustração, Música, Escultura, Artesanato, Caligrafia... mil coisas, pessoas, acontecimentos e compromissos preenchendo minha cabeça dia e noite. Não tem sobrado muito tempo para essa parte também muito cara, a Escrita! Então, voltei apenas para anotar duas coisas e consolar os fãs sobre uma terceira. Se não, tudo vai acontecendo e depois quando eu quiser ordenar as idéias ficam emboladas como fios de fones de ouvido ou pisca-pisca... Uma aconteceu hoje, infelizmente. A Ialorixá que zelava pela casa de onde vim, voltou para junto de seus guias e guardiões. Infelizmente, só porque ela foi uma pessoa rica em muitos aspectos, esse tipo de coisa sempre me interessa. Perder a riqueza que alguém é, as informações, experiências e possibilidades incluídas aí, pra quem fica, acaba mesmo sendo uma enorme perda. Aguardo notícias sobre o Omolofú ainda. Mas, tenho certeza que para ela o caminho está iluminado, protegido e voltará a contribuir, aprender... seguirá com seus passos de crescimento e não tem como isso ser algo ruim. 
 
A outra coisa aconteceu no início do mês. Ainda não tenho opinião formada, mas foi mais um degrau dentro do meu desenvolvimento sacerdotal. Há um brilho de faca... Faca consagrada! Mais uma guia, mais responsabilidades, mais possibilidades de ajudar se precisarem de mim... E de devolver presentes indesejados, se for o caso. Aconteceram tantas coisas, de tantos tipos e lados... Nunca vivi um resguardo tão intenso. Nunca passei por uma obrigação tão difícil. Então, ainda estou processando, sem muito para traduzir por enquanto. 
 
A terceira coisa, bem, nem tem assim tanta importância, pelo menos para mim. De verdade não tem. Na minha cabeça, a tampa desse caixão foi fechada no final do ano passado. Mas, olha como são as coisas... Quase um ano depois, percebi hoje, por acaso, algo reverberando desta direção. E, nem é por sentir assim tanta vontade de escrever a respeito, é mais porque estou com uma forte impressão de que se eu falar sobre isso, pode confortar vocês, meus fãs, que estão sempre a espreita, seguindo meus passos, tentando encontrar um sinal, uma desculpa e por isso mesmo, sentindo-se tão frustrados até agora. Tenho percebido os olhinhos espreitando na escuridão.  Mais de dois, inclusive. Cultivar uma vida espiritual tem as suas vantagens. Por outro lado, existem coisas que só é melhor ouvir do que ser surdo. Quer dizer, eu mal tenho tempo para respirar. Do ano passado para cá, coisas diversas, diria até, coisas demais, ocupam minha mente, meu coração, minha atenção, meu tempo, demandam minha energia... E então, enquanto estou emaranhada aqui na bagunça de teclas, fios, pincéis e tintas, chegam até mim, essas notícias de gente que eu sequer lembro da existência, ainda se incomodando comigo... ainda se interessando pela minha vida... ainda seguindo meus passos... ainda se inspirando e invejando o que faço... ainda se preocupando... ainda nisso... E aí, eu sinto um alívio enorme de lembrar que, apesar da dor que a trapaça e a ingratidão podem causar, eu tenho quem olhe por mim e por isso, fui livrada de um contexto que em nada me trouxe algo de bom. E quando eu entendi isso, zerou no meu espírito toda e qualquer negatividade a respeito. Fechou ali. Três dias de tristeza e fim. Porque, sabe, a Seres do Lodo Network é uma realidade apesar de sempre me surpreender. Doentes se unem a doentes, e pra eles não há mesmo cura! Me restou desistir de qualquer tentativa de solução feliz, para o meu próprio bem e há muito tempo. Mas, venho aqui, num ato de boa vontade, dizer para vocês que me perseguem, que se importam tanto com o que penso, que se sentem enciumados, que acham que estão em algum tipo de competição comigo (HAHAHAHA!), que enviam suas piores vibrações e continuam agindo das formas mais covardes, burras, infantis e mentirosas possíveis contra mim, que me sinto muito lisonjeada por saber que sou tão importante ao ponto de ser o assunto principal entre vocês! O pomo da discórdia. O axis que faz o mundo de vocês girar. Mas, relaxem, sabe? Sem qualquer sentimento ruim da minha parte. Do fundo da minha alma, nem lembro de vocês. Tenho mais o que fazer por aqui, com minhas dores e alegrias, com a minha vida recheada de experiências enriquecedoras e pessoas das mais preciosas. Não percam seu tempo, sua alegria... momentos que poderiam ser legais, de amor e carinho... desperdiçando falando, fazendo ou sentindo qualquer tipo de mal contra mim. Primeiro porque só faz mal pra vocês mesmos, podem acreditar. O domo de ferro aqui é reforçado. Nada que possam fazer contra mim, irá me fazer cócegas. Depois que... prometo, se acontecer de em algum momento, como esse agora, eu voltar a pensar em vocês, será apenas para desejar tudo de melhor, que sejam muito felizes!

Porque gente feliz não enche o saco.

Cresçam.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Desfibrilador

Nesses dias estranhos, de estranhas sensações e estômago revirado, ansiedade e saco cheio demais... acabei lembrando da Grande Família. E é só isso que tenho para dizer depois de todos esses meses sem tempo para as minhas reflexões vespertinas. Se tem algo que nos levanta para irmos viver e nos recusarmos à derrota é isso. Sem mais.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Achei!

Tema recorrente durante a semana passada... Citei esse trecho de Os Sofrimentos do Jovem Werther, do Goethe, em mais de uma conversa (sintomático? pode ser...) e sabia que tinha transcrito isso. Mas, foi no blog antigo, então demorei a achar. Enfim, deixa aqui agora. Mais fácil.


"Maio, 22

A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou isso. Pois essa impressão também me acompanha por toda parte. Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades ativas e investigadoras do homem, e como todo o nosso labor visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não têm outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existência; quando verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranqüilidade, quanto a certos pontos das nossas pesquisas, por meio de uma resignação povoada de sonhos, como um presidiário que adornasse de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas as paredes da sua célula... tudo isso, Wilhelm, me faz emudecer. Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo! Mas, também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas. Tudo flutua vagamente nos meus sentidos, e assim, sorrindo e sonhando, prossigo na minha viagem através do mundo. As crianças - todos os pedagogos eruditos estão de acordo a este respeito - não sabem a razão daquilo que desejam; também os adultos, da mesma forma que as crianças, caminham vacilantes e ao acaso sobre a terra, ignorando, tanto quanto elas, de onde vêm e para onde vão. Não avançam nunca segundo uma orientação segura; deixam-se governar, como as crianças, por meio de biscoitos, pedaços de bolo e vara. E, como agem dessa forma, inconscientemente, parece-me, que se acham subordinadas à vida dos sentidos. Concordo com você (porque já sei que você vai contraditar-me) que os mais felizes são precisamente aqueles que vivem, dia a dia, como as crianças, passeando, despindo e vestindo suas bonecas; aqueles que rondam, respeitosos, em torno da gaveta onde a mamãe guardou os bombons, e devoram-nas com sofreguidão e gritam: "Quero mais!" Eis a gente feliz! Também é ditosa a gente que, emprestando nomes pomposos às suas mesquinhas ocupações, e até às suas paixões, conseguem fazê-las passar por gigantescos empreendimentos destinados à salvação e prosperidade do gênero humano. Tanto melhor para os que são assim! Mas aqueles que humildemente reconhecem o resultado final de todas as coisas, vendo de um lado como o burguês facilmente arranja o seu pequeno jardim e dele faz um paraíso, e de outro, como o miserável, arfando sob seu fardo, segue o seu caminho sem revoltar-se, mas aspirando todos, do mesmo modo, a enxergar ainda por um minuto a luz do sol... sim, quem isso observa à margem, permanece tranquilo. Também este se representa a seu modo um universo que tira de si mesmo, e também é feliz porque é homem. E, assim, quaisquer que sejam os obstáculos que entravem seus passos, guarda sempre no coração o doce sentimento de que é livre e poderá, quando quiser, sair da sua prisão."

quinta-feira, 23 de maio de 2024

...

Não vou nem perder meu tempo escolhendo as palavras, criando metáforas, escrevendo de forma simbólica, correta. Ouvi a voz do meu pai hoje. Fui na janela e ele se virou para fingir que não viu. Falei com ele da janela e ele fingiu que não ouviu. Deixou um envelope com o porteiro. Saiu pelo portão, atravessou a rua, ligou a moto e foi embora. Nunca quis interagir demais nem mesmo virtualmente e não fala comigo direito há dois anos. Não faço idéia do que seja, apesar das suposições de quem sabe ou acompanha o caso. Triste demais. Gente que me conhece há bem menos tempo que ele, alguns têm uma vida bem mais atarefada, com gente em cima o tempo todo, a maioria sequer conhece a minha história, e mesmo assim consegue parar por um segundo para falar rapidinho, dizer que lembrou de mim, mostrar alguma coisa legal, me trata como filha, diz que me ama, que sente orgulho, me levanta do chão do banheiro quando bebo demais até... se comporta como pai, ou mãe pra mim, me trata assim, para pra tentar me ouvir e entender, não quer que eu volte para casa, muito menos sem trazer uma fruta, um bolinho, um presente... Ele só vai até onde as coisas materiais importam. Claro que sou grata por isso e reconheço que existe ao menos isso. Nunca passei nenhum tipo de necessidade básica material. Mas, é como se eu fosse apenas uma conta, sendo ele muito responsável, nunca deixará de pagar. Nada mais. De resto, a minha existência é apenas uma enorme inconveniência. E eu já devia ter me acostumado. Isso não deveria sequer me surpreender mais, o que dirá fazer algum tipo de mal. Mas, é incontrolável e irritante reconhecer que mal consegui fazer qualquer uma das coisas importantes de hoje. Me embrulha o estômago quando tento falar sobre esse assunto. Vomitei tentando até. Nem comi nada. Só tenho vontade de dormir. Acabei de dispensar uma cliente difícil porque já tem sido perturbação demais na minha cabeça todo o resto. Não estou em condições. Não tenho como resolver, me esforçar, me doar em mais nada com ninguém. Estou realmente esgotada. Não preciso de mais batalhas, na boa. Mais chateação, dificuldade, mais coisas para ter paciência, para tolerar e resolver... Preciso de paz.  

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Só não pode o quê?

Tem sido uma luta... os últimos 42 anos. E só a gente mesmo sabe como são e quais são as nossas próprias batalhas. Só nós sabemos onde dói. Não que não sejam importantes os encontros, empurrões, golpes e abraços que levamos uns dos outros. Eles são, sim. Quanta coisa acontece, somente após certas interações? Mas, tenho pra mim que se conhecêssemos, de verdade o que se passa dentro do outro, até mesmo os beijos seriam mais certeiros. Fazemos, no máximo, uma vaga idéia. Pode ser uma idéia boa, até, mas apenas isso. As palavras procuram traduzir, mas quantas vezes não vimos castelos ruindo por causa delas, também?

Desanimador quando percebemos que apenas a negatividade ressoa no outro. Às vezes, negatividade que nem era direcionada a ele. Já as coisas boas, são esquecidas rapidamente, como se elas não fossem tão maiores que todo o resto. E mais rapidamente ainda, as próprias ações. O chato é que isso indica bem o que há por dentro. Essa ilusão de que se pode sempre cometer os mesmos erros, sem retratação, depois encontrar um pretexto para ser gentil outra vez e continuar de onde se parou como se nada tivesse acontecido, é decepcionante. Fora a reatividade, a pressa com que se sente um desafio, a recepção da imposição de limites como se fossem apenas dificuldades desnecessárias, quando na verdade, ela existe justamente como uma forma de autoproteção em consequência de se haver passado vezes demais pelas mesmas situações que saíram dos limites aceitáveis. Estas sim, desnecessárias.

Qualquer um que se importasse minimamente compreenderia e levaria isso em conta. É psicologia básica. Mas, talvez eu é que seja boba demais de ter levado a sério palavras bonitas... tenha, em vão, confiado nelas. Afinal, existem muitas maneiras mais eficientes de se tirar dúvidas, resolver problemas, encontrar entendimento, até mesmo com elas, as limitadas palavras. E procuro fazer assim. Escrever para entender. Escrever para aliviar um pouco a dor. Fazer analogias, relacionar idéias, associar músicas a momentos... Para deixar os demônios tomarem um sol e assim impedir que me enlouqueçam. Mais. Apenas isso. Entender. Dos mesmo criadores de "Quando eu rezo, acontece.", tem também o "Quando escrevo, resolvo." Sabe? Uma tentativa, cansada, mas uma tentativa, de resolver as coisas. 

Se afastando um pouco e observando isso de cima, o que temos? Alguém que simplesmente seguiu e abandonou? Ou alguém que está tentando fazer ajustes para que as coisas sejam melhores do que estavam? Sinceramente. Não é possível que a miopia e a hipermetropia cerebral tenham se alterado tanto ao ponto de isso não ser tão claro quanto as águas da Lagoa Azul da Nova Zelândia.

Tem sido triste por razões que nem mesmo o moço lá do confessionário que vocês chamam de clínica consegue compreender. Não é pelo que qualquer pessoa tenha feito, ou deixado de fazer. É pelos golpes recentes terem acertado em cheio as mesmas antigas feridas abertas, essas que ninguém tem a mínima idéia de quais são, e a minha crescente falta de ânimo para reagir. Tenho tudo pronto e traçado aqui no mural e na agenda. Cada passo, cada ação, os custos... tudo calculado. Mas, tenho sentido tanto medo... duvidado de tanta coisa sobre mim mesma... uma confusão tão grande... Tenho muitas oportunidades para me divertir, realizar e ser feliz. Todos os dias. Recebido amor de tantas direções, tipos, dimensões...  E mesmo assim... faço o que tenho que fazer, usando forças nem sei de onde, como se eu fosse um androide. Onde encontro energia? Onde encontro coragem? Talvez nessa frasezinha que há muito tempo alguém falou no meu ouvido e simplesmente acendeu um letreiro em neon dentro de mim: "Só não pode parar." Ele tem piscado um pouco.

Mas, isso é coragem, não é? Sentir medo e fazer mesmo assim... continuar?

De quando estudava Estética na Escola de Belas Artes e no Conservatório de Música, lembro de uma passagem em que Sócrates diz que coragem é a mãe de todas as virtudes. Então, sim, não importa como, eu estou fazendo, e isso é coragem. Sem coragem, não tem iniciativa, ação. E somos responsáveis pelo que fazemos e pelo que deixamos de fazer também, a conta chega igualmente. No entanto, não se pode esperar progresso ou mudança em áreas onde não agimos. Desistir é uma idéia, mas só depois da ponderação consciente. Às vezes é a melhor opção mesmo. Mas, para todas as outras vezes, existe o descanso. E aí, a atenção é fundamental. Porque, a coragem é o primeiro anjo a favor de que algo aconteça. Ele abre o caminho para os demais. Mas, onde quer que a luz vá, sempre estará aguardando por ela, a escuridão. Então, depois da decisão, antes mesmo do anjo da coragem, o primeiro a surgir é o demônio da preguiça (medo, estagnação, conformismo, acomodação). E o sucesso dele economiza todos os outros seis.

Só não pode... Já sabe

sábado, 18 de maio de 2024

Sinestesia

O gatinho do outro condomínio sempre vem me cumprimentar todos os dias quando passo, no mesmo horário... Lá tem um monte deles, mas esse, em especial é tão amorzinho, tão bonito, com uma pelagem que parece uma jaguatirica. Gatinhos me deixam quanticamente afofalhada, a existência deles é uma coisa tão linda que sempre me comove. Mas, bichinhos peludos são fáceis de se apreciar mesmo. Inusitado é quando consigo perceber beleza no que é pouco óbvio. É uma forma de olhar e me conscientizo disso toda vez que faço desenho de observação. Tem um jeito certo que se ajusta nos olhos e você começa a ver beleza sinestesicamente. 

Como quando vou completar o tanque de gasolina antes de viajar e na bomba aparece a quantidade exata de litros que imaginei. Penso 15,75 litros e dá 15,75 litros no marcador. Acho essa precisão algo bem bonito. Quando acerto a música que vai tocar a seguir no som do carro e quando consigo construir figuras geométricas praticamente perfeitas... Não acho legal ou divertido. Coisas legais e divertidas tendem a se tornar banais e desinteressantes, mas o que é bonito sempre me é bonito. Outra coisa: amor estabanado. Que parece cachorro, sabe? Aquele amor imenso, meio São Bernardo correndo no chão liso? Aquele amor que erra todos os presentes e acerta todas as presenças? Amor de abraços apertados e beijos que misturam língua e sorriso? Sabe? Amor em que tudo se encaixa, mesmo as peças sendo diferentes? Bonito. Corda cheia de roupa! Que bonito. Bem coloridas... Minha alma se pendura no varal, juntinha, balançando na cara do vento.

Quando as crianças estão correndo e gritando aqui embaixo, com risadas eternas... Acho bonito demais. Acho bonitíssimo quem diz que vai chegar em casa e tomar um vinho. Pode ser qualquer vinho, mas quando o vinho é bem chique e cai gorgolejante numa taça bojuda é dos olhos chorarem rubis de tanta beleza. Pessoa organizada, que mesmo na simplicidade, tem um lugar para cada coisa e mantém tudo impecavelmente limpo, sempre tem à mão o que precisa. Bonito, e muito. Boniteza também é quem faz doce pra dar. Nem prova o doce de tanto que já não aguenta nem o cheiro. Mas, faz. Pra dar. E morre sem dar a receita, mas deixa potes prontos cheios de saudade pros que forem arrumar suas coisas. Aquela pessoa que tem horários e compromissos, está sempre envolvida em algo e cuida de si mesma com carinho.

Quando o clarim toca na homenagem anual a Ogum. O gongá cheio de flores vermelhas. E vão entrando os filhos do Orixá, cruzando espadas de São Jorge para que as bandeiras passem por baixo. Cada uma com um dos nomes do Guerreiro: Beira-Mar, Sete Ondas, Sereia, Iara, Guanabara, de Lei, Rompe Mato, Sete Espadas, Megê, Matinata... BO NI TO. Gente que sabe o que dizer... Apaixonante. Alguém que aprende a escrever na terceira idade. Nossa... Bonito demais. A união que nasce entre os que sofrem muito e os enlutados. Lá pelas altas horas da madrugada, quando a conversa começa a ficar séria e a sinceridade finalmente se sobrepõe ao cinismo, às piadas, à zoeira... As amigas e os amigos se apoiam sobre as dores diárias... As confissões de amor começam a surgir... as acusações dão lugar ao perdão. Quando alguém diz, "Olha, me desculpa." E você vê que é de verdade. Sem, "mas". Sem, explicações. Apenas isso, reconhecimento sereno de um erro, sem afetações, sem dramatizar, sem se humilhar, ou qualquer coisa assim. É bonito demais.

Acho bonito ombros largos e peito forte por baixo de uma camisa com bom caimento. Tudo organizado debaixo do tecido, sem parecer que tá sufocado ou frouxo demais, dá uma sensação de harmonia que acho uma lindeza. Gente que come de tudo e gente que come pouco. Nossa... que bonito.

Sabe aquelas casinhas de sapê? Com telhado de palha, em que se vê os galhos no meio do barro das paredes, bem humildes, no sertão do sertão do sertão? Geralmente tem luz no lampião e um fogão feito com barro e lenha. Aquilo me dói em vários cantos, mas poucas casas são mais bonitas. A aridez cruel da Caatinga, da seca, é de uma beleza perversa. Os pontos riscados pela primeira vez com a pemba na tábua. Mais bonito que bordado de roupa de santo. E quando fazemos odubalê para o Babalorixá no nosso aniversário de Mão de Santo? O rosto encostado no chão e as cruzes que ele faz nas nossas costas. O Ijexá dos atabaques despertando aspectos da nossa alma que nem percebíamos antes. Bonito.

A buzina do moço dos doces ao cair da tarde. Beleza nostálgica. Cachorro correndo, gato parado, galinha ciscando, vó dormindo, pai chegando do trabalho, professora apontando lápis, flores novas no jardim, o sino tocando na igrejinha, bolo assando, pé de feijão crescendo, mãe existindo... que bonito. Também tem os cheiros bonitos. Sabe como é? Por exemplo, cheiro de café é gostoso, cheiro de livro é um cheiro bonito, cheiro de perfume é gostoso, cheiro de cabelo lavado é um cheiro bonito. Sabe? Eu acho. Voz de barítono. Nossa... Aquela voz profunda que tranquiliza até gente possuída. Pessoas cantando e dançando tudo errado, fora do ritmo, mas sendo muito felizes. Se isso não é bonito eu não sei o que pode ser. Cuidar amorosamente de alguém. Muito bonito. Dentes ligeiramente desalinhados, nariz pontudo, rugas de expressão, barbas certinhas, homens firmes, assertivos e amáveis, mulheres que dão um jeito sem se lamentar, pele muito preta e pele muito branca. Algumas cicatrizes. Pessoas com olhos tristes. Gente que sabe tudo sobre sua atividade principal, mas só fala dela, diante de muita insistência. Gente que pergunta só porque quer saber mesmo, sem fazer disso um pretexto para falar de si mesma. Sexo sem timidez. Mãos que acariciam com vontade e nos lugares certos. Quem sabe usar emojis adequados e significativos.

Uma flor pisoteada... Triste... Tanta beleza e falta de palavras para descrever. Quando tem um peixe morto na areia da praia. A solidão prateada do peixe morto é muito bonita. Triste demais, mas muito bonita. Acreditar na possibilidade de coisas que estão além da realidade objetiva é lindo. Saber tudo sobre investimento financeiro e Ciências Naturais. Conhecer as plantas e as estrelas. Escrever cartas... Pessoa que gosta da própria aparência. A cera que escorre das velas acesas. Coragem. Saber conversar. Muito bonito tudo isso.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

E, aqui estamos nós.

Curto coisas antigas, árvores, pedras, pinturas rupestres, pergaminhos... Por isso, sempre que sinto uma movimentação estranha e persistente no ar, em vez de recorrer às estatísticas e ferramentas de monitoramento de tráfego, embaralho as cartas e pergunto: "Quem?" E elas caem das minhas mãos só para descobrirmos o de sempre...

Carma... Devo ter feito guirlanda com a coroa de espinhos, sei lá... O universo sabe o quanto eu gostaria de ter aquela energia sublime das fadas, cercadas por estrelinhas e borboletas, que aparecem com sua presença e suas palavras amáveis, apenas para trazer conforto, beleza, calma e direcionamento, nos momentos de dor e solidão. A minha intenção primeira, acredite, é agir de forma coerente com essa idéia, com a maioria das pessoas. Seria mesmo muito legal, ser doce e etérea, amiga dos passarinhos, esquilos e cervos do bosque, resolver tudo com carinho, cristais, cromoterapia e purpurina mágica. Porém, ah... Também não lido com nenhum ser celestial por aqui... Não é verdade? Então, o que temos para hoje é a minha bota na tua cara e esse meu jeitinho de gremelin exposto ao sol, molhado e alimentado após a meia noite. 

Tô rindo como sempre, me virando, mas não tô bem, não. Nem sei se isso traz alguma satisfação, se é o que vêm aqui para conferir... Enfim, saibam. Já estou cogitando procurar ajuda profissional, só para dar uma noção das coisas. Ideias que não passavam na minha cabeça por vinte anos, voltaram a espreitar... 

terça-feira, 14 de maio de 2024

Onde os chatos não tem vez

Uso um bullet journal pra organizar a vida. Ele tem índice, calendário do ano inteiro, aniversários e datas importantes anotadas, obrigatoriedades para cada mês, horário, cronogramas de projetos, planos de ação, compromissos, listas diversas, gastos e ganhos mensais, controle de hábitos e o que mais considero importante anotar. Todos os dias, antes de ir dormir, listo as tarefas do dia seguinte ali. Mas, por mais disciplinada e comprometida com meus objetivos que eu seja, algumas delas acabam ficando para o próximo dia, o próximo mês e também tem aquelas que ficam para a próxima vida. Ou seja, se eu não me importo em fazer todas as coisas que EU mesma decido para mim, imagina se vou me importar com aquelas que VOCÊ acha que eu deveria fazer.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Ar e poeira

Se a moça que pinta lhe permite olhar por cima dos seus ombros enquanto ela trabalha, se sorri e o convida a ler os seus versos, se murmura uma canção em sua presença... Saiba, você não é mais apenas uma pessoa. Mas, o ar e a poeira que preenche seus pulmões. Quando tudo acabar no mundo, você ainda existirá. Dentro de um vidro de nanquim, de um pincel, de um poema, de uma canção... 

domingo, 12 de maio de 2024

Pernas de 8 Anos

Na sexta, saí no horário de sempre e fui lá, como todo santo dia, manter as minhas pernas com 20 anos por mais tempo... Na volta, para evitar andar pela rua, passei pelo meio fio, em frente a uma oficina de lanternagem que ocupa praticamente todo o espaço com os carros dos clientes, um local que a Guarda Municipal desconhece no Rio de Janeiro. Porque é muito mais simples lidar com carros de moradores parados em frente à padaria por cinco minutos e que sequer atrapalham a passagem de pedestres, do que com donos de oficina que cuidam de carros completamente baleados mesmo que monopolizem a calçada diariamente enquanto durar o dia, né? Então, numa certa parte, o meio fio termina e se torna pedaços de pedra de cimento rachado e areia, onde eu pisei e senti toda a estabilidade sentida por quem anda sobre um monte de bolinhas de gude. Para não cair na rua, acabei me inclinando de forma a me machucar em tantas partes, que passaria facilmente por uma queda de moto. A dor nas mãos me trouxe memórias da minha Cecizinha azul... Tem hematoma na coxa direita, porque devo ter batido na quina do carro estacionado ali, mas bonito mesmo está o joelho direito, rejuvenesceu mais de 30 anos, todo ralado. 

segunda-feira, 6 de maio de 2024

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Sextou

Precisava concluir um Mapa Natal hoje, já fui até paga... Tem outro na fila e entrou uma capa de livro também... fora meu cronograma do deck Lenormand... os meus estudos... ficou tudo bagunçado. Não comi nada hoje e levantei só pra tomar um banho e beber água. Não fui picada por mosquito. Não saí de casa ontem. Acordei me sentindo mal e começou uma febre totalmente maluca agora. Precisava fazer compras... Mas, se levantar para pegar água e ir ao banheiro estão sendo problema... E, nada foi pior do que entrar no banho e ter esquecido a toalha. Enfim, um péssimo dia para não ser milionária e não ter um mordomo.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Samhain

Hoje marca o meio do outono e a preparação para o inverno. Como eu gosto dessa época do ano... O azul do céu é mais intenso, as amendoeiras ficam mais coloridas, os dias estão progressivamente mais frescos... E, apesar de ser dia de soprar canela para dentro de casa e planejar o mês, é o fim do ciclo solar anual. Todo final significa também um início. Tudo o que passa constrói o agora. Então, o momento é bom para refletir sobre as conclusões, o valor de se construir boas memórias, a preciosidade do conhecimento passado através do tempo e da experiência, o amor e a saudade daqueles que já se foram, mas continuam sendo importantes para nós de diversas formas. Depois de viver algumas décadas, a noção dos ciclos e da passagem das horas se torna mais clara. Muitas coisas começam a não fazer mais sentido e outras só fazem agora. Nosso tempo de vida é curto demais para ser desperdiçado. Os planos importantes devem ser traçados e postos em prática imediatamente. Tudo o que se espera levar, deve ser pego com força. Todas as despedidas precisam começar já! Se é necessário dizer alguma coisa, que seja feito com urgência. Aos poucos, o momento da grande travessia chega e, de repente, esse capítulo da história termina. Isso não deveria ser triste, mas só não será se as canções guardadas em nós forem cantadas a tempo. 

terça-feira, 30 de abril de 2024

Carlos Brown

Randomicamente, assim que acordei, lembrei de um menininho do primeiro ano com quem falei rapidamente no recreio há muito tempo atrás. Ele devia ter uns seis anos, me viu sentada desenhando no meu caderno de esboços, próxima à cantina da escola. Sem dizer nada, se sentou e ficou ali, apenas observando. Em silêncio. Era uma quarta-feira anterior ao feriado e eu estava num tempo vago. Havia apenas as crianças da turma dele por ali. Então, para ser simpática, comentei que aquele dia parecia uma sexta-feira e perguntei se ele concordava. Ele disse que sim, parecia mesmo. E continuei:

- Que dia da semana você acha o mais legal, sexta-feira? 

Ele pensou por um tempo e respondeu:

- Professora... Eu não sei... Não sei de um monte de coisas... Acho tudo confuso o tempo todo... sabe?
- Qual é o seu nome?
- Carlos. (?!)
- Olha, Carlos... Eu entendo você... Sinto a mesma coisa. 

Continuei desenhando, o sinal tocou e ele subiu com a turma para a sala de aula. Nem perguntei o nome do cachorrinho dele... Não quis estragar o momento com uma pergunta retórica.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Baixa Manutenção

Celebro qualquer evento significativo e bom, pelo momento, pura e simplesmente, apesar das datas e suas celebrações criarem belos retratos também. Estudo para saber, nada além disso, apesar dos diplomas terem a sua importância dentro da matrix. Trabalho pelo que posso me tornar a partir das minhas atividades, não é tanto pelo ganho material, apesar de essa parte ser bastante relevante, é lógico. E tenho trabalho a fazer amanhã, aula, festa... tudo num lugar só. Por isso, quero colocar algumas coisas em ordem aqui.

Não sei se acontece com todos, mas embora aqueça o coração, sinto dificuldade de lidar com situações de elogio, congratulação... Os motivos são óbvios, para quem conhece toda a história. Bom, a maioria não conhece, e até mesmo quem conhece, nem sempre entende. Simplesmente não sinto que as palavras estão à altura de qualquer coisa que venham me parabenizar ou agradecer. Sinto estranheza, não sei responder... se devo agradecer... tomar para mim realmente... Penso que as boas atitudes, o meu trabalho, os acertos, são coisas normais, consequências, nada de extraordinário, como colocam, quando há sentimentos neste sentido. Também sinto uma certa desconfiança... um receio... Com a mesma alegria que tentam colocar você num pedestal, irão torcer para você cair de lá. O cabaré queimando sempre foi um espetáculo muito maior do que o dia da inauguração. 

Além disso, nascemos juntos por uma razão e não acredito que tenha sido para nos perturbarmos uns aos outros, medir forças. Sozinhos, a necessidade de auto superação não existe. Procuramos ser melhores uns para os outros. Mas, sabe, me concentro no que estou fazendo e só. Se gostarem, bem, se não, o baile segue. Por isso, me entristece bastante perceber que outros estão numa competição, comigo ainda! Quando me dou conta, saio na hora. Mas, é triste perceber que ser algo de bom, ter sucesso em algumas coisas, ser feliz por nada em especial, ofende. Então, acostumei a não esperar por aplausos, apenas fazer o melhor possível e me retirar discretamente seja qual for o resultado. Se for bom, podemos repetir, se não for, nem se preocupe, a última coisa que pretendo é incomodar novamente.

Minha intenção jamais é criar qualquer situação de competição ou cobrança. Acho até que se explicar ou tentar se desculpar, na maioria das vezes (não todas), só traz ainda mais mal entendidos. Se você entra em qualquer tipo de parceria comigo, à menor sombra de medição de forças, desrespeito, falta de companheirismo, deslealdade ou cobrança, estou fora. Tenho perfeita consciência do meu papel, contribuo com tudo que tenho, defendo a parceria até o fim e sou bastante compreensiva. Minha necessidade de tempo e espaço, não tem absolutamente nada a ver com desinteresse. NADA. Espero que compreendam isso também. Na minha cabeça, depois da internet principalmente, todos estão a alguns clicks de distância apenas. E mesmo que eu não veja a maioria das pessoas com quem me importo por muito tempo, elas sempre estão comigo. Nos pensamentos, nas considerações, nas decisões, nas escolhas, nas lembranças, nos meus exemplos e planos. Falo delas, faço por elas e as considero, embora, eu não seja boa para conviver com todos. Convivência diária, rotina, são diferentes de contatos esporádicos mais amenos...  Assim, para a maioria, sou de fácil acesso, para quem entende espaço e tempo, sou de fácil disponibilidade. Para quem é fácil, casca grossa, também sou. Para quem é sensível demais, se afeta com qualquer coisinha, nem se preocupe comigo. Tenho baixa manutenção e só me relaciono com quem também tem. 

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Plenilunio

Acordei tarde. Isso bagunçou totalmente o meu dia. Uma confusão mental e ansiedade extrema atrapalhou também o mínimo de concentração necessária para sentar e esboçar, rapidamente que fosse, os desenhos do dia. Não comi bem, nem saí de casa para fazer as coisas que eu precisava... A pressão sanguínea posso sentir nos olhos. Parei por uns minutos e pensei o que poderia ser. Não tive nenhum sonho como o da outra noite em que eu estava num palco, teatro lotado, tudo em p&b, e de frente para o piano não conseguia lembrar a música. Nada muito fora do comum aconteceu. Tenho estado em paz nos últimos dias até. No máximo, terei um trabalho de fogo para fazer na quarta-feira e precisarei lembrar de algumas orações, pontos, materiais e procedimentos. Mas, nada de muito diferente me perturba no momento. Então, o que poderia ser? Aí lembrei da minha anotação no cabeçalho da agenda no dia de hoje. Fui até a  janela e lá estava ela, maravilhosa, surgindo atrás da serra, a razão de toda essa bagunça. Se ninguém dormir bem hoje ou estiver se sentindo meio agitado ou confuso... já sabe, não é nada demais.  

sábado, 20 de abril de 2024

Da Mesma Matéria

Já falei sobre isso aqui em algum lugar, a parte que mais me interessa em qualquer coisa é o processo. Mas, não foi sempre assim. Quando eu era criança, cheguei a tentar escrever uma história onde nada de ruim aconteceria. Não deu muito certo, é obvio.... Eu precisava tanto sentir segurança, que costumava ser muito ansiosa pelos resultados e por isso, era muito controladora. Precisou acontecer algo bem sério, experimentar o limite do medo e me conscientizar da impermanência enfaticamente, para isso amadurecer em mim, e o que está acontecendo agora, passar a ser mais relevante que o que vem depois. No entanto, processos observados a certa distância continuam sendo mais poéticos. Até mesmo quando se trata da própria experiência, a distância faz belos retratos das cenas mais terríveis. Depois de muito tempo, vamos analisar as aventuras e tudo fica lindo. Mas, só os guias e guardiões sabem o estresse, o desconforto e a luta que foram certas jornadas. Talvez porque exista muita poesia na falta, no passado e na saudade também. Provocam dor. E a dor evidencia a vida, nos possibilitando a consciência da abundância, do presente e do contentamento. 

Assim, nas histórias, as partes que me interessam mais são sempre aquelas onde contam as etapas do aprendizado dos personagens, tudo por que precisam passar, todos os erros, para construir um grande final. O empenho certo, o foco total direcionado a alguma coisa é muito mais interessante até do que a coisa em si. Ela acaba sendo apenas uma consequência, um registro. E depois de uma ou duas dores pelo caminho, aprendemos, por isso, a apreciar as cicatrizes. Elas provam que foi real e apesar de tudo estamos vivos. Por que é isso o que a vida é, um processo. Então, fico muito feliz quando tenho notícias de que alguém está empenhado em alguma coisa e quanto mais global é esse empenho, afetando mais áreas da vida, mais fico feliz. A pessoa está se planejando, estudando, pensando a sua vida profissional ou o seu negócio de forma estratégica, aprendendo a se organizar financeiramente, cuidando da alimentação e do corpo, da aparência como um todo, pondo tudo em prática, em movimento... Até quando são pessoas que já me fizeram algum tipo de mal... não tem como não admirar. 

Às vezes o objetivo final é na verdade apenas uma desculpa. Tipo comprar morangos só para comer creme de leite. As conversas de bar são exemplos disso. Todo mundo bêbado, falando nada que preste, sequer ouvindo os outros, um monte de besteiras e soluções sem sentido para toda e qualquer coisa... E todo mundo feliz por simplesmente estar ali, sem apego ao que vier depois, só pelo conversar, pelo momento, pela companhia... pelas histórias...

Lembro de uma aula em que eu precisava mostrar aos alunos do Ensino Médio a importância dos processos. Para que aprendessem a valorizar seus erros e não demonizá-los. O medo de errar é ruim para qualquer um, mas no início da vida, pode ser fatal. E se misturar com a preguiça, então... Mas, como eu dizia, cada "erro" a mais, na verdade, é um "erro a menos" e assim você acaba encontrando seu caminho individual e único. Só assim, na verdade. Daí vem aquela idéia do Kant sobre a impossibilidade do Ensino e da Psicanálise. É impossível ensinar realmente. Qualquer coisa. No entanto, é possível aprender. Só que é impossível aprender sem se deparar com os erros. Claro, se você aprende a reconhecê-los também e como corrigi-los. Fingir que nada aconteceu, não leva ninguém a crescimento algum. E precisar falar sobre isso, elaborar uma aula, com exemplos obviamente no universo das Artes, acabava tocando em partes minhas tão profundas que tenho certeza, me ensinou muito mais do que a eles... Nessa aula eu os apresentava aos livros de artista, aos sketchbooks, ao Abstracionismo, ao Expressionismo Abstrato, à obra de Pollok e dos artistas do Colorfield e, assim, essas propostas artísticas começavam a fazer um pouco mais de sentido para meninos e meninas de 14 anos, cheios de convicções e preconcepções enfiadas na cabeça deles por adultos que geralmente não entendem de coisa alguma. Recebem um monte de respostas para dúvidas que sequer surgiram ainda. E além disso, tem as redes sociais atrapalhando esse meio de campo também, na medida em que são ambientes onde se vai para expor opiniões. E se você tem acesso a elas numa época em que ainda precisa estar apenas observando, contemplando e recebendo informações, não dá tempo de haver um amadurecimento adequado das idéias antes de pensar em expô-las. E assim, as opiniões acabam sendo pouco valorizadas porque de fato têm pouco valor. Então, o estudo prático das linguagens artísticas, todas, passa a ser essencial por essa razão! Porque elas oferecem experiência real, processo, erro, mais apreço pela jornada do que pelo destino. Ao experimentar, por exemplo, colocar a tela no chão e ir deixando a tinta cair aos poucos com pincéis encharcados ou até mesmo com colheres, abre-se uma série de concepções filosóficas e percepções sobre a realidade e a vida que nenhuma aula expositiva, documentário, palestra, conseguiria. O ser aí, passa à frente do ter. E já que aí para ser é preciso fazer, então o processo ganha prioridade sobre o resultado.  O produto nessa história é um mero registro, a prova de que algo importante aconteceu.

O mundo virtual acaba distanciando as pessoas da realidade. A lógica do download e dos clicks faz acreditar no imediatismo de tudo mais e na não materialidade da vida. A realidade do mundo físico e do tempo de cada coisa vai ficando distorcida, como se pudesse ser substituída ou acelerada e cada vez mais o ontem e o amanhã, o outro lugar, e nunca o aqui e o agora, vão tomando de nós o presente e a experiência sensível, real, objetiva.

Tem um outro detalhe interessante, está até naquela lógica do Goethe: além de o processo nos fazer alertas, vivos, presentes, com o tempo aprendi, se você dá tudo de si nele, os outros começam a torcer por você, a sentir vontade de contribuir, participar. As coisas vão ficando mais fáceis e rápidas assim. Porque você passa a ser exemplo, inspiração. E sem perceber, começa a dar algo aos outros: esperança. Assim, as pessoas passam a querer acompanhar a sua jornada. Vibram com seu empenho, sofrem e eventualmente, aprendem com seus erros... Você acaba mostrando que algo é possível e isso é o suficiente para plantar uma semente de sonho na cabeça de todo mundo e mostrar que agora precisam florescer em objetivos realizados, reiniciando assim a samsara. E essa é a prova de que na verdade, não sou só eu que acho os processos interessantes. Desde que existe gente no mundo, existe erro e portanto, existem também as histórias e os sonhos, os três itens que nos constitui.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Pla(n)tão

Há três dias estava um pouco angustiada pensando nesse piadista. Com tantas notícias sobre guerras lá pelos lados da casa dele, foi simples fazer essa associação e encontrar uma explicação racional para a preocupação aparentemente do nada...  Então, hoje de manhã, recebi umas notícias sobre um temporal super violento ali, há três dias atrás, dizendo que algo assim não ocorria naquela terra há 75 anos. E a coisa está bem mais séria do que parece. A cidade virou um lago. Simplesmente não tem canais, sequer meros bueiros. Os caras "semeiam nuvens", têm acesso às maiores facilidades que a alta tecnologia pode proporcionar, mas não estão preparados para um monte de coisas simples. Detalhe imperceptível e totalmente inesperado assim de longe. Um caos generalizado. Não tá dando pra fazer compras... pedir comida! Tem gente presa no aeroporto há 3 dias.

Estou procurando brincar, trocar memes, fazer piadas com o calor... Tentando não enviar mensagem de cinco em cinco minutos... Mas, pra ser bem sincera, não estou conseguindo ficar em paz. A pior sensação que existe é a de não poder fazer nada diante do sofrimento daqueles com quem me importo. E já é a segunda deste tipo só esse ano. 

quarta-feira, 17 de abril de 2024

De Probleminhas e Guerras

Apesar do cheiro de pizza vindo do vizinho estar me desconcentrando um pouco, estou tentando pôr as pequenas coisas em ordem. Na maioria das vezes eu quero e ao mesmo tempo não quero falar sobre elas, parar pra refletir, analisar... Talvez eu precise mais do que tenho vontade, é isso. E em nome da manutenção do mínimo de sanidade, faço esse esforço, mas nem tanto também. Especialmente quando são miudezas, coisinhas, um furinho a toa na boia... Tendo a não dar tanta atenção, ou procuro não deixar ocuparem espaço na minha cabeça. Mas, quando se tornam um enxame, começa a ficar ligeiramente preocupante. Aí preciso ver um dia para sentir essas pequenas dores pelas quais vou evitando me entristecer por falta de tempo. Hoje acabou sendo um bom dia para isso. Não dormi bem... acordei muitas vezes durante a noite. E talvez isso tenha comprometido o meu horário um pouco, porque não produzi, não estudei, nenhuma idéia ficou boa, minha concentração está uma droga. 

Fui para a academia, pelo menos. Me arrastando pelo caminho. Encontrei a gatinha ali do outro condomínio. Todo dia ela vem me cumprimentar... Mas, aí, fiquei triste por isso também. Lembrei que há três anos, quando eu passei uns dias fora de casa e voltava só pra conferir a comida e a água do Mambo, ele ficou claramente deprimido. Ele tem feito muita falta. E quando começo com essas lembranças vou seguindo num trem fantasma de memórias tristes e pequenas chateações antigas e recentes que nem passam pela minha cabeça normalmente, como se de fato não existissem. Mas, a cabeça é um computador, tudo sempre esta lá em algum nível, por mais inacessível que pareça. 

Estou sentindo muitas dores hoje, nem sei de onde arranjei forças pra ir levantar uns pesos. Talvez tenha sido esse senso de auto preservação. Já que está ruim, se eu me mexo, existe uma chance de encontrar uma posição mais confortável. Ficar parada é desconforto certo. No, entanto, aquele dois de paus hoje de manhã já estava me preparando para o dia. Embora a rotina tenha seguido normalmente, nada pareceu sair do lugar. Fiz um chá, mas nem ouvi música, nem li nada de legal... O silêncio está agradável. Tirando esses projetos de foguete que deram errado passando toda hora aqui na rua. 

Ser introspectiva e introvertida num mundo barulhento onde não respeitam seu espaço, seu jeito, seu tempo, seu silêncio sempre foi motivo de muita frustração. Não para mim, claro. As expectativas depositadas em mim, as projeções, a carência e o egocentrismo de quem pensa que os outros existem para entretê-los ou servi-los acabam tornando as situações pesadas e cansativas para quem não se manca. Isso somado à intromissão e intimidade forçada só contribuem ainda mais para o Himalaia, onde me refugio, ficar ainda mais alto e distante do resto do mundo. E só eu sei o que me fechou, o que me tornou cautelosa e isolada. Disponibilidade zero para marias mijonas, vitimistas e chorões. 

Sempre existe muita oportunidade para mostrar o seu valor na minha vida, pra quem se interessa. Mas, raramente acontece. E meu critério não é assim tão alto. Poderia ser. Não é. E nem vou entrar numa reflexão sobre isso porque o assunto é outro. Em especial, no ano passado houveram centenas dessas oportunidades. Teve polícia... Ministério Público... Gente louca em excesso. Precisei de muitas coisas, dessas que qualquer pessoa que se importasse o mínimo comigo poderia oferecer. Mas, como sempre, eu estava sozinha. Curioso, pois, sempre houveram aqueles que praticamente levei no colo. Gente com quem passei dias inteiros oferecendo apoio, conforto, companhia. Gente por quem eu arrisquei coisas extremamente importantes, por quem eu iria até o inferno tirar satisfação com o demônio, por quem fiz malabarismos com meu tempo, meus compromissos, meu dinheiro, meu espaço. E que estaria, de um jeito ou de outro, completamente incluída como parte da minha vida. Porque, podem me achar maluca, não entender absolutamente nada sobre a forma como vejo as coisas, mas para a alegria ou a tristeza dessas pessoas, eu sou de verdade. Não vou ficar fazendo teatro a troco de nada. E todas sabem disso! A vida é curta demais para certas bobagens. No entanto, até este momento, continuo lidando sozinha com cada pequeno foco de incêndio que se inicia e pra mim isso é uma constante desde o início. Normal. Cada um que cuide da sua vida e é isso aí. Parem de depositar expectativas sobre mim. Parem de esperar sorrisos, simpatia, qualquer tipo de cuidado ou atenção da minha parte. De tanto ir pra guerra sozinha, me acostumei e comecei até a achar bom. Então, já que nas minhas guerras estou sozinha, espero que na minha paz me deixem sozinha também. Oportunistas. Abusadores. Covardes. A carapuça tá aí para qualquer um.

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Carta 24

Estou, para variar, no meio de um projeto. Muito trabalho e tudo mais... A única e grande novidade dessa vez é que estou conseguindo concluir um dos meus. E como em todas as minhas jornadas autorais, neste, venho experimentando há dois anos algumas manifestações evocadas pelo conceito do trabalho. Sei que muitos artistas passam por coisas semelhantes. No meu caso, atualmente, é um deck Lenormand. São 36 cartas conceituais. Menos desafiador do que um deck de Tarô, que farei posteriormente. Portanto, comecei por esse. Queria algo para experimentar o planejamento, gerenciamento, execução, divulgação e venda antes de um livro ou outros produtos mais complexos listados há séculos, alguns iniciados, porém jamais concluídos. Mas, o mais interessante é estar ocorrendo esses eventos menos práticos e objetivos. E tudo se passa de forma tão categórica, tão ostensiva, tão descarada... Bom, mas é aquela coisa... Vê quem quer ver e não vê quem não quer também.

O projeto vinha muito bem até a carta da Montanha, quando recebi uma proposta irrecusável e precisei dar uma pausa. O planejamento ficou ali, por um ano, no mural, sem avançar. Depois de muitas dificuldades, retomei na carta seguinte: Caminhos. Daí entrei numa de que nada estava ficando como eu queria, nada estava bom, não era nada daquilo... Muitas dúvidas, experimentos e indecisão diante de tantas idéias diferentes. Sou minha pior cliente. Fiz tantos desenhos dessa carta, passei noites sonhando com idéias até decidir como afinal todo o baralho irá ficar. Mudei tudo. Completamente. Layout, desenhos, linhas, cores, estilo... E esse processo me obrigou a repensar toda a minha vida, tudo o que gosto, toda a verdade sobre o que realmente quero fazer. Isso provocou a reformulação dos meus processos e do resultado que procuro. Então, muita coisa será bem diferente daqui para frente.

Enfim, agora tudo está andando de novo, a carta dos Caminhos trouxe uma escolha no meio de tantas possibilidades. Em seguida, fiz o mais rápido que pude, a carta dos Ratos. A propósito, foi justamente no dia de pagar contas e fazer compras... Comprei, inclusive, material de desenho. E precisei gastar com uma multifuncional nova também. Comecei, correndo, a rabiscar ideias para a carta seguinte a essa (e neste momento ainda estou nela)... 

Aí, na quarta, antes de pegar a estrada outra vez, estava esperando completar o tanque de gasolina  e enquanto o sol das três batia nos meus olhos, passava na cabeça o longo trajeto que faço toda semana até outra cidade. A demora, o custo, a energia, todos os contras... e surgiram os questionamentos de sempre, diante de qualquer coisa trabalhosa e importante... "Tenho mesmo que fazer isso?", "Não é mais uma daquelas coisas que resultarão em nada?", "Não vai ser perda de tempo, de novo?", "E de dinheiro?"... É... eu sou resistente assim. Mas, então, o frentista veio com a máquina de cartão. Meu deus, eu vi quanto deu a conta! E, enquanto estava digitando a senha, atônita com os números, ouvi uma gargalhada e olhei para o outro lado. Antes que eu pudesse dizer que não precisava da minha via, o rapaz arrancou o papelzinho do comprovante e me desejou boa viagem com um sorriso enorme. Liguei o carro, o som e parti. A conta deu nada mais, nada menos que 93,93!   

domingo, 7 de abril de 2024

Gabriel

Às vezes tenho tanto para fazer que mal consigo raciocinar e entender por onde é melhor começar. Isso vai criando uma ansiedade que se não for detida por praticas meditativas, contemplativas, atividade física, etc, podem causar paralisia. E já passei por essa situação vezes demais para cair nela outra vez. Depois de tantas reconstruções, deu para aprender um truque ou dois. Então, passei a noite fazendo algo raro: pedindo ajuda. Faço tanto disso pelos outros... pessoas que podem até nunca ter sentido as boas vibrações, no entanto o nome de cada uma está lá em todo sábado... toda quarta de banda... Para mim mesma, porém, é bem raro. Mas, ontem a noite, dormi pedindo orientação em assuntos específicos. 

Acabei de passar pelo corredor. Tem uma pequena mariposa pousada na parede ali, do lado do interfone. E estou sentindo agora a noite, muito claramente, o aroma do banho de ervas que tomo, às quartas e sábados, antes do meu trabalho. Espada de Iansã, Barba de Velho e Manjericão branco. E isso me lembra de que hoje pela manhã, entre seis e sete horas, no caminho do quarto para a cozinha, passei pela sala. Ensolarada, cheia de pequenos arco-íris e pontinhos de luz, pois pendurei há muito tempo na janela um globo de boate que eu mesma fiz com quadradinhos de espelho e uma bola de isopor, e dois poliedros de vidro cheios d'água, onde o sol bate e cria esses efeitos tão bonitos. Até aí, caramba, já estava lindo, com a melhor vibração possível. Então, olhei para a janela e para o chão embaixo dela. Havia, simplesmente, uma pena

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Gonna Fly Now

Voltei da academia hoje andando ao melhor estilo Samurai de Olhos Azuis. Com sede de vingança e vontade de arrancar cabeças pelo caminho? Motivos podem até não faltar, mas... Libra, you know... Minha vingança é me preocupar com minha própria vida e nem lembrar de ninguém. Na verdade, voltei parecendo que haviam coisas pesadas amarradas nas pernas mesmo. A série mudou e eu mal consigo mexer braços, pernas, barriga, costas, bunda... Além disso, vim pensando no tema de uma ilustração que preciso entregar em alguns dias... Ainda não tive A idéia e só vou sossegar quando encontrar uma que seja muito boa. No entanto, não posso deixar de notar, para onde quer que eu olhe agora, tudo parece conspirar para me cercar e praticamente levar no colo até o caminho que preciso percorrer. Não nesta tarefa apenas, falo num sentido amplo dos meus objetivos atuais mesmo. Mente e músculos explodindo. De repente, minha vida passou a ser a própria manifestação daquele parágrafo do Goethe sobre o poder, o gênio e a magia. De repente? Mas não foi sempre assim?

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Fênix

Essa brisa fresca que entra pela janela do estúdio ao anoitecer finalmente, anuncia a melhor parte do ano. O cheiro dos biscoitos amanteigados no forno me desencoraja agora a acender o incenso que geralmente deixo queimando no altar neste horário. Aproveito para escrever e desenhar enquanto espero o lanche ficar pronto e mantenho assim a escrita e o desenho livres dentro da rotina. O céu está cravejado de estrelas e a festa dos grilos no jardim já começou. Metade dia, metade noite. Parecido com a manhazinha. E a lua minguante irá surgir só mais tarde, de madrugada, quando tudo estiver quieto. Agora, é o momento do dia em que tenho a sensação recorrente de expectativa sobre algo de muito bom. Difícil explicar, como acontece com os sonhos... Você põe em palavras e tudo parece meio besta. Será que todo mundo sente algo assim nesse horário? Me vem na cabeça um monte de pequenos fragmentos aparentemente sem sentido. Uma cadeira de palhinha, um lustre colorido, uma mesa para muitas pessoas, cartas de tarô, uma senhora com cabelos presos e roupas de uma época que nem sei dizer qual é... uma janela com cortinas pesadas, toalhinhas de renda, árvores, caminho de terra seca, cavalos, chapéus, uma pensão. Uma sensação tão boa de acolhimento, de segurança, de que alguém muito esperado irá entrar pela porta, luzes amareladas... E agora, essa brisa aqui  nos ombros me lembra, são tantos planos, tanto trabalho a fazer... Tantas idéias borbulhando e ansiedade para vê-las no mundo real... No entanto, tenho sentido um cansaço preocupante, uma vontade de dormir que não me pertence. Assisti três filmes de ontem pra hoje. Três! Isso não pode ser normal. Quieta, em frente a uma televisão? Mas, serei compreensiva comigo dessa vez. A guerra que foi o ano passado...Todo aquele desgaste... Não é inacreditável o quanto podemos suportar sozinhos sem sermos destruídos? E agora, ainda estou aqui, caminhando sobre as cinzas... recuperando forças... Reacender a chama é a parte que sempre exigiu mais.

sexta-feira, 29 de março de 2024

How to give the dog a bone, for dummies

Posso continuar aqui, focada no meu crescimento, dia após dia trabalhando em minhas construções, mal olhando para o lado, porém, infelizmente, lamentavelmente, tem sempre um para vir contar, desdenhar, mostrar prints de coisas que não me interessam e felizmente não tenho acesso. Ai, ai... o peixe sempre será pego pela boca. Um constante relógio parado... Se não se mexe, cresce, trabalha em si de verdade e para de se esforçar, continuará sufocando e se debatendo fora d´água. Com ou sem a minha aprovação. Até por que, quem sou eu?!  E por que razão minha opinião é tão relevante assim?! Meu deus, quanta cena! Sabe, isso não me alegra, não! Até gostaria de ser capaz de fazer algo, no entanto, tudo tem limites. E as questões aparentemente importantes são: o que será que eu quero? O que é suficiente? O que é necessário? Eu, obviamente, tenho as respostas e condições. Isso só nunca ficou muito claro porque as perguntas certas nunca foram feitas. E já que isso parece importante, posso dar algumas indicações a quem estiver assim, de passagem, por aqui... O interesse na melhora, no desenvolvimento, no trabalho em si mesmo, psicologicamente, materialmente, fisicamente, intelectualmente, financeiramente, emocionalmente. Independência. Coragem. Mobilidade. Serenidade diante do contraditório. Isso sempre irá me causar boa impressão e dependendo do resultado a tão esperada admiração. Só que nunca irá acontecer dentro de uma carapaça, sem autoanálise, auto aceitação e auto sinceridade. Essa é uma tecla em que nunca deixarei de bater. Esse é o osso que nunca irei largar.

quinta-feira, 28 de março de 2024

Arte não é Cultura

Sempre achamos que com a gente vai ser diferente, que os tempos são outros... que somos especiais... que tudo é sempre culpa dos ultrapassados, dos antigos, de coisas que estão até hoje aí porque têm funcionado, que só antigamente havia atraso... Nós sim faremos diferente. A partir de nós, tudo será progresso. Assim, o desequilíbrio entre caos e ordem vai levando todo mundo a crer que sabedoria, conhecimentos e práticas adquiridos a muito custo, precisam ser derrubados, destruídos, desconstruídos... Afinal, é uma questão legítima de se fazer: querem conservar o quê, se ninguém está satisfeito com nada? Porém, vamos lá. O equilíbrio não está nos extremos.  Algo de mais valioso que a prática religiosa de uma arte marcial me abriu na consciência foi: aquilo que resiste ao tempo merece, no mínimo, respeito. Não chegou tão longe à toa. E o erro básico de qualquer faixa branca é subestimar. Mas, certas compreensões só chegam com vivência... experiência... trabalho... O problema é que na velocidade em que a realidade anda caminhando, se as crianças continuarem com a imbecilidade de transformar esse cabaré em estádio de futebol livremente, podem nunca chegar a ter o tempo de vida necessário para entender que não é por aí. Não falta tanto para um novo incidente. Depois de acharmos que era coisa do passado, dos livros de História da oitava série, quem diria... configura-se aí uma trilogia! Já começo a sentir na pele a angústia dos dadaístas. Está tudo de cabeça para baixo, às avessas, um nonsense generalizado e a escala agora é global de verdade... A regra, mais uma vez, irá se impor sem dó e não bastasse a tristeza que isso é em si, como sempre, o pior já são os comentários...  

terça-feira, 26 de março de 2024

Oráculo

Não é curioso o tanto de sinais a nossa volta indicando acontecimentos futuros? Para não falar dos eventos extraordinários demais, captados por uma sensibilidade um pouco mais desenvolvida nesse sentido e que as pessoas nunca têm como provar, ficarei nos exemplos mais palpáveis e por isso, mais perceptíveis até mesmo aos distraídos. Uma sensação de perigo, um peso no ambiente, uma angústia por razão alguma, uma doçura no coração, pensamentos que chegam em momentos oportunos, um conforto a toa, idéias, sons, aromas, palavras e reflexões lidas ou ouvidas, situações estranhas, sonhos... tudo parecendo nos preparar para o que virá. A gente só entende depois. E quando é sobre algo realmente transformador, um daqueles eventos que mudam tudo, se você mantiver seus sentidos alerta, perceberá os avisos, a antecipação. E é nesses momentos - um nunca menos surpreendente que o anterior, talvez mais até, - o quanto fica claro para mim a ligação entre todas as coisas. Cada existência uma pequena peça de engrenagem da máquina infinita. Não existe lado de fora. Estamos todos no mesmo ônibus lotado, incomodando uns aos outros, nos voltando uns contra os outros, agindo terrivelmente, reclamando e amaldiçoando como se os outros tivessem alguma responsabilidade por nossa situação, quando deveríamos nos perguntar por quê estamos aqui, para quê, para onde vamos, como poderíamos tornar a viagem mais agradável para todos... A mudança (ou a revolução, para os mais infantis, que precisa ser, antes de qualquer outra coisa, interna) ocorre num abrir e fechar de olhos, mas nunca é de repente ou sem aviso. O universo, em eterna transformação, está o tempo todo anunciando o próximo capítulo. Para todos os eventos, existe uma conjuntura real e inegável, embora nós nem sempre desejemos desenvolver a habilidade de percebê-la.

sábado, 23 de março de 2024

Mão de Fogo

Poucas coisas me desanimam tanto quanto ser obrigada a ter aulas com alguém que não entende do assunto e principalmente, não entende as minhas dúvidas. É a realização daquela máxima irônica das ironias: quando o interlocutor é burro, quem fica parecendo burro é você. E o pior tipo de "professor" é o burro motivado. Muito cheio de cobranças, críticas, mistérios, tem clareza sobre nada, ensina errado, dá voltas demais, tem observações que acredita ser grandes insights baseados na sua experiência que sempre se revelam besteiras e ignorâncias tão grandes, ao ponto de toda e qualquer coisa dita precisar passar antes pelo crivo dos mais antigos e experientes para então ser aceita e aplicada sem medo por mim. Muitos preconceitos... Daqueles que realmente confundem alunos com crianças. 

A sinuca de bico da situação é que não é tão simples reportar essa incompetência àqueles que deveriam saber dela urgentemente... E, na ausência de alguém mais para conversar sobre esse assunto específico, na minha dificuldade de mobilização no caso, prefiro vir aqui no espelho e colocar em palavras... clarear a mente. Temperança é uma virtude necessária. Porque, sabe? Mais isso! Tem sido demais... Do ano passado para cá venho me libertando do peso em excesso e fui deixando o máximo possível pelo caminho. Mas, mesmo assim não tem sido muito fácil. Até lamento o excesso de negatividade durante esse tempo por aqui... Porém, lidando assim, escrevendo para mim mesma, consigo manter o foco no objetivo e seguir na prática o sábio conselho do mestre em seu Epílogo: 

Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada aguenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe... Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade.

Aliás, sua morte me proporcionou a experiência da tristeza real de se concluir a leitura da obra completa de um gigante que já se foi... Quando fechei aquele livro, uma década depois, contendo tudo, poemas, aforismos, textos diversos... e pensei "não haverá mais nada, nenhuma novidade depois disso.", bateu um vazio. Foi numa época de sentimentos transbordantes, sensibilidade e abertura nível Biografia de Van Gogh paralelamente ao Cartas a Theo, com as discografias de Damien Rice e de Philip Glass nos fones de ouvido, voltando para casa à noite, de ônibus em dias de chuva e indo dormir sozinha com uma enorme necessidade de companhia e orientação. Não sinto saudades desse período. Na verdade, sinto que apesar dos ganhos imensos, perdi muito tempo também. E isso é irrecuperável. O que me leva à algumas questões importantes: será que é exatamente o que acontece outra vez? Estou perdendo o meu tempo de novo? Meu caminho passa mesmo por aí? Não muito diferente de então. E nem tem nenhum professor, burro que seja, para me orientar, outra vez. O coração segue flamejante, a abertura nunca foi maior, a sensibilidade tem surpreendido pelos resultados, embora a solidão agora seja uma aliada...

Procuro ir até o fim com as coisas, embora os sinais antecipando o desfecho trágico sejam evidentes, em alguns casos. O que não me parece ser esse também, apesar das dificuldades... Sigo e vou ouvindo os conselhos pelo caminho. Acatando? Na maioria das vezes, não. Mas, esse é um caso especial. Fui avisada desde o início sobre os entraves, inclinações e curvas na estrada. Continuo com coragem. Onde quer que isso me leve, cumprirei a missão, os votos e sei que poderei fazer algo de bom no fim. Sem estapear algumas caras? Aí já não posso dizer... Hahaha... 

segunda-feira, 11 de março de 2024

Diagnóstico Tardio

Um desinteresse quase completo e uma certa dificuldade para interações em geral. Preferência por estar só, mesmo em locais com bastante gente conhecida. Habilidade para trabalhar em grupo apenas se puder fazer a tarefa de forma independente dos outros, evitando a interação. Realmente não me faz falta estar com pessoas e ao mesmo tempo, existe uma sensação triste de falta de mais amigos. Ainda ouço meu nome muitas vezes antes de atender, especialmente se quem me chama for alguém familiar, do meu convívio. Desconforto em contatos visuais com estranhos, em apresentações e aulas. Apesar de um enorme esforço de atenção na rua e em locais com outras pessoas, mil coisas já aconteceram, inclusive situações perigosas, e eu sequer notei, fico sempre sabendo mais tarde. Uma aparente ingenuidade infantil persiste.

Quando criança, apontava bastante e esperava que entendessem o que eu queria. Com o tempo, aprendi a me comunicar mais claramente, porque percebi o quanto isso era ruim e causava problemas na minha família. Ali ninguém se comunica direito. Um dia comecei a notar que as letras e música estavam comunicando coisas, começou com Atirei o pau no gato. Músicas e imagens são meios de comunicação tão melhores... E depois de explorá-los bastante e criar uma ligação tão grande com eles, não foi tão difícil para a minha mãe me ensinar a ler e escrever... Letras e palavras são desenhos que expressam sons, sentimentos e identificam as coisas, afinal... Escrever continua sendo melhor do que falar in loco.

Separava os lápis de cores em pares, como se um fosse menino e o outro menina. Enfileirava os brinquedos, pedras, conchas, peças. Empilhava coisas. Passava horas observando plantas e formigas. Quando surgia um cogumelo, ficava muito intrigada. Saber que existia uma coleção de qualquer coisa que eu tivesse só uma ou algumas peças me angustiava demais, até completar tudo. Ainda tenho meus álbuns de figurinha, todos são completos, porque até vender as frutas do quintal eu vendia para conseguir completar.

Uma aversão, quase um pânico, de ambientes muito cheios, exceto shows, onde me sinto muito confortável, na verdade. Subia nas mesas do trabalho da minha avó e cantava Carinhoso... músicas antigas que minha avó curtia... Gostava mais de pessoas mais velhas que eu, ou que pelo menos, aparentavam ser. Sentia mais conforto assim. Isso não mudou. Fui convidada ao palco, num show do Daniel Azulay, que eu era mega fã. Peguei aquele microfone e ninguém nunca mais me tiraria dali, não fosse minha mãe dizendo que íamos embora porque meu avô queria... Pediram o contato, ninguém deu... Minha mãe só tinha 22 anos... Ai, ai... Porém, uma vez me levou num clube na Praça Seca que tinha carnaval pra crianças, eu amava me fantasiar e ir no carnaval com meus pais numa rua aqui de perto, jogava água nos bate-bolas com garrafinhas de lança-perfume. Mas, nesse dia eu odiei. Nem era uma criança de chorar a toa, e comecei a chorar, assim que chegamos. Amava ir pra escola, mas dava muita ansiedade quando as professoras ensinavam coisas que eu já conhecia... Quando fui estudar num colégio que tinha semi-internato para as pessoas de comunidades próximas, senti medo. Sempre brinquei com as crianças da rua da minha avó... a maior molecada... Mas, ali, eu senti medo... as meninas na fila pareciam agressivas demais. E só comecei a perceber que havia uma certa rejeição, que eu fazia algo de errado, na quarta série. Daí pra frente é só ladeira abaixo nesse sentido. Nunca consegui, nem consigo explicar ainda.

Tenho familiaridade com metáforas e ironias porque exercito bastante. Adoro, na verdade! Acho bonito e poético, engraçado... No entanto, demoro um pouco mais do que os demais para captar essas nuances algumas vezes, especialmente quando não tenho familiaridade com o assunto ou a pessoa... Até textos que eu mesma escrevo, não entendo imediatamente. Parece que existe algo na minha cabeça que vai mais rápido do que eu e escreve as coisas. Talvez seja por isso que escrevendo entendo melhor o que se passa, inclusive comigo. Na verdade, eu sempre compreendia muito melhor os assuntos da escola, alguns meses depois de dada a matéria. Ia bem nas provas, muito mais porque me esforçava e preparava exatamente para fazer provas. Para entender de verdade e ganhar fluência eu precisava focar nos textos e exercícios por algum tempinho sozinha, com métodos de estudo que eu mesma criava para mim. Engraçado, sempre achei que isso se devesse a eu ter sido adiantada na escola e todo mundo sempre ser mais velho...

Em geral, há uma sensação horrível de avassalamento e deslocamento em multidões e grupos muito grande de pessoas. Sinto muito mais a situação do que percebo sinais não verbais e tendo a não entender nada quando alguns ficam nervosos por coisas que apenas constatei e são fatos... Procuro até usar palavras mais tranquilas do que aquelas que me vêm primeiro à mente, hesito em falar sem pensar antes, tenho a fala lenta, principalmente com pessoas de menor convívio, e procuro explicar meu raciocínio desde a sua semente, justamente para não haver confusão. Muitas vezes, a precipitação, a ansiedade e a falta de educação dos outros é que impedem que meu pensamento seja compreendido. Porque sequer consigo concluí-lo devidamente. Acabo, nesses casos, falando rápido qualquer coisa e tudo sai de uma forma que fica mal explicada e mal compreendida, prolongando a situação adversa, ainda que minha intenção seja encurtá-la. A quantidade de mal entendidos provenientes dessa questão podem preencher uma bíblia. No entanto, quando sinto conforto, a conversa flui naturalmente, do contrário, a comunicação é simplesmente cortada porque não sou obrigada. 

Sons muito barulhentos, gritos, tosses altas, obras, motos que passam na rua, sons ou movimentos repetitivos, luzes fortes, gente histérica ou espalhafatosa, brigas, textura de borracha nas roupas, toques suaves no meu corpo me irritam, me estressam, me assustam e às vezes me causam dor física. Uma vez fui acordada por um helicóptero da polícia que voava muito próximo ao meu telhado... aquilo causou uma crise de choro incontrolável, não sei explicar. E essa não é uma situação isolada... bagunça já me desestabilizou dessa forma... me colocarem em situação de responsabilização por coisas que não são minhas... mexerem nas coisas da minha casa, como o relógio de luz, o registro do gás, o capacho da porta... Coisas que acabam em casa, sem que eu seja informada antes de querer usá-las... Motoristas no trânsito que me põem em risco ou atrapalham o meu caminho descumprindo leis e regras... Tudo isso já me deixou em estado de quase ataque cardíaco. No entanto, acho que tenho dificuldade de expressar dor ou qualquer outra sensação. Ninguém entende quando falo que algo está realmente doendo ou que realmente me incomoda. Acho que sou confusa com sentimentos também... Sempre pensam que não me importo com os outros, que não gostei tanto de algo, que não tenho empatia, que não fico triste com coisas que nem me dizem respeito, mesmo havendo dedicado muito do meu tempo, dinheiro e energia a um monte de gente. Só percebo isso por causa do feedback.

Sou extremamente focada no que me interessa praticar e aprender. Isso pode durar horas, dias, semanas, meses, anos... E varia com o tempo porque me interesso realmente por muitas coisas. Até tomo decisões de última hora, porém, me sinto mais confortável com o planejamento da semana toda. Ser obrigada a sair da rotina é bem estressante. A organização dos meus livros, materiais, roupas, sapatos, arquivos, trabalhos, segue alguma lógica: cor, forma, tamanho, alfabeto, número... Dá uma agonia muito grande ver estojos de hidrocor ou lápis de cor dos alunos fora da ordem do espectro cromático. Gente cantando desafinado, instrumentos desafinados, letras erradas, erros de tempo ou nota nas músicas são insuportáveis. E coisas desalinhadas me dispersam... quadros... móveis... carros no estacionamento... sujeira... bagunça...   

Depois de toda a minha história... é fácil atribuir algumas dessas características ao que passei nos primeiros 20 anos da minha vida... Ou até mesmo, à depressão, ao abandono e ao limbo em que vivi pelos dez anos que se seguiram. Sempre achei que nunca me ajustaria mesmo... que precisava simplesmente aceitar... e nunca entendi isso. Mas, para a minha surpresa, quem diria, a essa altura da vida descobri que na verdade estou totalmente na moda!

sexta-feira, 8 de março de 2024

Mahashivrat

Poucos prazeres se comparam àquele dos dias em que posso dedicar exclusivamente aos meus estudos e projetos pessoais. Desenho... Música... Leituras... Planejamento... Nada pendente para resolver com ninguém. Nenhuma demanda externa. Temperatura agradável. Silêncio. Sobremesa só para mim. Exercícios físicos. Meditação... Algumas respostas, mensagens, agradecimentos e pedidos de desculpa para receber? Até tenho, mas o desapego de qualquer uma dessas coisas é total. Nada disso me cabe. Quando chegarem, chegaram e sejam como forem, para mim estará bem. Porque espero nada até de quem disse que me pagaria. Não ajudo para receber algo de volta posteriormente... Mesmo que, por outro lado, também seja uma enorme surpresa receber estupidez justamente nesses casos. Mas, ah, quero mais é que o cu de uma pá de gente pegue fogo e que o bombeiro esteja em greve. Sou tão entretida com a minha própria vida... passa uns minutos nem lembro mais de quem são, imagina se vou lembrar de estupidez. E a vida sempre se encarrega de cada um. Pra esgotar minha paciência precisa ser persistente de verdade... Talvez isso me faça uma amiga difícil... Rio das minhas próprias piadas, sei fazer minha própria comida, pago minhas contas, adoro ficar sozinha, poucas opiniões me importam, não me interessa a estagnação... Porque, né? Até as amebas e os vírus evoluem! É inadmissível, em tempos de Internet, tendo dois braços, duas pernas e uma cabeça funcionando, com café da manhã, almoço e janta na mesa, ter a saúde cada vez pior, o mesmo valor na conta, o mesmo currículo, a mesma vida social, os mesmos assuntos, a mesma mentalidade e os mesmos hábitos do início da vida adulta. Não dá.

Enfim, é bom chegar a um ponto de equilíbrio onde nem mesmo gente, dinheiro, testes e provas conseguem perturbar mais a minha paz. Muito menos numa noite tão auspiciosa quanto essa! Meu dia feliz vai acabar só de manhã, com as bênçãos do Adiyogi. 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Fora de ocasião

As pessoas com quem convivemos influenciam mais os rumos que tomamos na vida do que gostaríamos de admitir. Existe até um dito popular: você é a soma das cinco pessoas com quem mais convive. Então, é sempre muito importante escolher a dedo quem aceitamos em nosso entorno. Sejam aqueles que irão conviver fisicamente conosco, sejam aqueles que povoam nossas memórias e pensamentos com suas palavras, gestos, imagens, músicas e outras formas de expressão. E já que, por menos criadores de expectativas que sejamos, afinal somos adultos, nada e ninguém no mundo é exatamente como gostaríamos que fosse, também é importante ter para nós mesmos, muito bem definido, o que estamos dispostos a relevar, aceitar, tolerar... Se não respeitamos nossas próprias regras, a consequência mais óbvia é que ninguém mais vai. No entanto, existe uma outra consequência que passa despercebida aos menos atentos, a desgraça de todo relacionamento que se pretendeu construir um dia: o ressentimento. Sou capaz de afirmar que é esse detalhezinho que implode tudo. Pois, o ressentimento é um campo minado. Você nunca sabe quando algo será detonado. E isso cria uma dinâmica que impossibilita qualquer convivência saudável. 

Aí eu chego ao terceiro ponto dessa trilhazinha chamada texto reflexivo. Como é que surge o ressentimento? Simples, mas nada fácil. Ressentimento é um produto da falta de clareza e direcionamento na vida. Falta de objetivos. Falta de foco. Falta de se saber quem se é, o que se quer e o que não se é capaz de aceitar. Inaptidão para dialogar consigo mesmo e com os outros de forma madura e honesta. Resumindo: falta de auto conhecimento. Ressentimento pode atingir a qualquer um, a qualquer momento. Quem de nós se conhece tão total e profundamente ao ponto de já ser imune a esse mal? Porém, ter o ressentimento por hábito, reflexo inconsciente, é o problema a que me refiro aqui. Viver, dia após dia num emaranhado surreal de imaturidade, presunção, precipitação, prepotência, descontrole emocional, inexperiência com pessoas diversas, incapacidade de lidar com o contraditório, desrespeito a limites, medo de viver, isolamento, privação de experiências, ciúmes, inveja, egoísmo, falta de clareza, falta de consciência, falta de diálogo...  é o ritual para a conjuração da criança que se joga no chão do supermercado quando a mãe diz "não". Foda é quando a criança é uma pessoa que já passou da idade há décadas e a mãe se chama "vida". 

Saber se comunicar é uma arte. Arte é comunicação... e existem tantas formas... Mas, em todas, algo é fundamental: a possibilidade de se estabelecer o diálogo. Dialogar significa que alguém comunica, alguém devolve a comunicação e os dois vão trocando até que algo surja dentro de cada um dos lados da "conversa". É importante lembrar que, num diálogo, qualquer coisa pode surgir. Qualquer coisa mesmo! Então, diante de um tema, surge a comunicação quando alguém propõe e alguém significa a proposta. E nem sempre o significado atribuído à proposta é o esperado por quem propõe. Quantas vezes recebemos uma reação inesperada, negativa, ou até totalmente oposta ao que havia sido proposto por nós? Isso é tão normal! E tão interessante! No momento de se atribuir significado a alguma coisa, mostramos quem somos, o que somos, toda a nossa história de vida aparece ali codificada no simples ato de significar. É ali que nossa consciência fica a mostra, nossa criatividade, inteligência, nosso conhecimento, nossas fraquezas, nossos limites, nossos potenciais... Por isso, CONSEGUIR, estabelecer um DIÁLOGO é tão importante se quisermos viver juntos, em paz. 

Além disso, em qualquer relacionamento humano, a maior parte da energia e do tempo é investida em diálogos, seja apenas pensamentos, registros, seja nas mais diversas formas artísticas, seja em conversas de fato. A possibilidade e a qualidade do diálogo definem relacionamentos curtos ou eternos. Logo, uma boa maneira para se medir os benefícios ou malefícios de uma troca com alguém é analisando a qualidade da conversa. Acrescenta, informa, interessa, eleva? Ou Subtrai, confunde, distrai, diminui? O diálogo é possível nas mais diversas condições? Ou simplesmente se evita uma série de assuntos por motivos que vão desde o descontrole emocional, até a falta de conhecimentos do interlocutor? Há assuntos que interessam? Há boa vontade diante da controvérsia? Nos momentos de discordância, qual é o comportamento? Conversar e entender o pensamento do outro? Ou simplesmente reagir raivosamente como se tivesse sido desafiado? Aguardar e ouvir com atenção enquanto o outro fala e expõe seus pontos? Ou atropelar o discurso do outro elevando o tom e acelerando a própria fala, enquanto saca da manga o ad hominem cuidadosamente embrulhado numa reluzente caixinha de ressentimentos?

Seria bom viver de uma forma que nunca se precisasse pedir desculpas. Na ausência de clareza mental, maturidade, controle emocional e auto conhecimento, acabam existindo situações em que isso é inevitável. Claro, havendo interesse em se estabelecer diálogo... Não havendo... Sigamos o baile.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Poema escrito na pedra

Eu disse a ele que estaria sempre por perto para o que precisasse. Falava diariamente o quanto ele era querido e amado, o quanto todos que o conheceram gostavam dele. Abraçava, beijava e dava todas as coisas que ele gostava diariamente. Ele tinha muitos apelidos e várias músicas que fiz só pra ele. Tinha um monte de manias. Era teimoso, tagarela e exibido. Era pontual, exigente... Dormia e acordava comigo. Pra mim, ele nem parecia ser de verdade, de tão maravilhoso, amigo, companheiro, carinhoso, bonito, corajoso... Tentou pular para a janela do vizinho e caiu do quinto andar. Foi aparado antes de atingir o chão. Coincidência? Sei lá. Toda vez que levava um susto ou estava numa situação nova, eu explicava que nunca deixaria nada de mal acontecer com ele. Entendia quando eu estava precisando de ajuda e oferecia conforto... Gostava muito de música. Brincava demais! Experimentava todas as plantas, gostava de alface como se fosse bife, era super curioso. Nunca ficou doente. Esteve comigo desde poucos dias depois de nascer e me acordou de manhã para que pudesse se despedir. Porque estava na hora... E foi no meu colo o momento em que respirou pela última vez, antes de voltar para o mundo dos deuses. Foram 18 anos juntos, que terminaram ontem... E, apesar da dor, sinto uma imensa gratidão por termos convivido durante tanto tempo! Porque ele foi o melhor que já existiu e eu fiz tudo o que pude para ser a melhor para ele! Nos retratos mais bonitos que guardarei desta vida, com toda certeza ele está presente. Do início ao fim, foi exatamente da forma como desejei para ele. E por isso também sou grata. Mas, só consigo pensar em quando vamos nos ver de novo...

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Regras da Vida #12

Depois que você consegue achar o que estava há tanto tempo procurando, em toda parte aparecem, não só mais, como principalmente, melhores opções.