quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
Casa Assombrada
Por tristeza, raiva, gente magoada
Sem nenhuma das fundações bem enterradas
Com punhos fechados e bocas cerradas.
Meus monstros nunca estiveram em armários
Sequer escondiam-se, reinavam autoritários
Jamais esgueiraram-se por debaixo das camas
Habitavam a sala, a cozinha, olhos, palavras em chamas.
Vigiando pela manhã enquanto eu ia para a escola
Assustando quem vinha trazer atenção como esmola
Esperando a noite, enquanto voltava da rua
Aguardam até hoje que algo me destrua.
Como sentir qualquer vestígio de segurança
Amor, paz, ou manter a esperança
Acreditar, conseguir força e confiança
Se apenas sobrevivo desde criança?
Sempre correndo, ansiosa, atribulada
Em cada etapa, cinicamente abandonada
Com a vida inteira amaldiçoada
Depois de crescer numa casa assombrada.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2024
Dura lex
Uma vez eu ouvi de uma das pessoas que mais importam para mim, numa situação de despedida: isso não é justo. Acho que algumas pessoas tinham mesmo que receber certas compensações do universo, por suportarem dores que ninguém devia precisar passar... Experiências pesadas demais para qualquer um. Depois delas, tudo devia ser mais suave e feliz. Naquele momento, minha vida passou pela minha cabeça... quase 33 anos... E eu só consegui concordar, com o maior sentimento de impotência: sim, não é mesmo.
E claro que se o universo dependesse de mim, eu nem saberia por onde começar, nem como e por isso, até entendo ele ser essa bagunça que aparentemente é... como se tivesse sido simplesmente largado pra lá... Naquele mesmo ano, alguns meses depois eu estaria lidando com outra situação de despedida, tão intensa, tão grande quanto, dadas as devidas proporções. E também se iniciava a época mais doida e caótica da minha vida. Duas despedidas no mesmo ano... Recomeços grandiosos... Não bastava todas as lições até ali sobre o quanto somos insignificantes diante das leis que regem essa loucura toda e sequer conhecemos.
Mas, dez anos depois... aqui estamos todos outra vez, na virada da maré. E eu só consigo pensar que depois daqueles 22 anos de peso desnecessário, essa meta já tinha que ter sido batida, sabe? Para que mais medo, perda, sensação de impotência, vazio, lacunas? Afinal, como acontece com as cólicas mensais, só dói, apenas isso. Serve pra nada. E isso não é justo mesmo.
quarta-feira, 28 de agosto de 2024
Desfibrilador
Nesses dias estranhos, de estranhas sensações e estômago revirado, ansiedade e saco cheio demais... acabei lembrando da Grande Família. E é só isso que tenho para dizer depois de todos esses meses sem tempo para as minhas reflexões vespertinas. Se tem algo que nos levanta para irmos viver e nos recusarmos à derrota é isso. Sem mais.
segunda-feira, 20 de maio de 2024
Só não pode o quê?
Tem sido uma luta... os últimos 42 anos. E só a gente mesmo sabe como são e quais são as nossas próprias batalhas. Só nós sabemos onde dói. Não que não sejam importantes os encontros, empurrões, golpes e abraços que levamos uns dos outros. Eles são, sim. Quanta coisa acontece, somente após certas interações? Mas, tenho pra mim que se conhecêssemos, de verdade o que se passa dentro do outro, até mesmo os beijos seriam mais certeiros. Fazemos, no máximo, uma vaga idéia. Pode ser uma idéia boa, até, mas apenas isso. As palavras procuram traduzir, mas quantas vezes não vimos castelos ruindo por causa delas, também?
Desanimador quando percebemos que apenas a negatividade ressoa no outro. Às vezes, negatividade que nem era direcionada a ele. Já as coisas boas, são esquecidas rapidamente, como se elas não fossem tão maiores que todo o resto. E mais rapidamente ainda, as próprias ações. O chato é que isso indica bem o que há por dentro. Essa ilusão de que se pode sempre cometer os mesmos erros, sem retratação, depois encontrar um pretexto para ser gentil outra vez e continuar de onde se parou como se nada tivesse acontecido, é decepcionante. Fora a reatividade, a pressa com que se sente um desafio, a recepção da imposição de limites como se fossem apenas dificuldades desnecessárias, quando na verdade, ela existe justamente como uma forma de autoproteção em consequência de se haver passado vezes demais pelas mesmas situações que saíram dos limites aceitáveis. Estas sim, desnecessárias.
Qualquer um que se importasse minimamente compreenderia e levaria isso em conta. É psicologia básica. Mas, talvez eu é que seja boba demais de ter levado a sério palavras bonitas... tenha, em vão, confiado nelas. Afinal, existem muitas maneiras mais eficientes de se tirar dúvidas, resolver problemas, encontrar entendimento, até mesmo com elas, as limitadas palavras. E procuro fazer assim. Escrever para entender. Escrever para aliviar um pouco a dor. Fazer analogias, relacionar idéias, associar músicas a momentos... Para deixar os demônios tomarem um sol e assim impedir que me enlouqueçam. Mais. Apenas isso. Entender. Dos mesmo criadores de "Quando eu rezo, acontece.", tem também o "Quando escrevo, resolvo." Sabe? Uma tentativa, cansada, mas uma tentativa, de resolver as coisas.
Se afastando um pouco e observando isso de cima, o que temos? Alguém que simplesmente seguiu e abandonou? Ou alguém que está tentando fazer ajustes para que as coisas sejam melhores do que estavam? Sinceramente. Não é possível que a miopia e a hipermetropia cerebral tenham se alterado tanto ao ponto de isso não ser tão claro quanto as águas da Lagoa Azul da Nova Zelândia.
Tem sido triste por razões que nem mesmo o moço lá do confessionário que vocês chamam de clínica consegue compreender. Não é pelo que qualquer pessoa tenha feito, ou deixado de fazer. É pelos golpes recentes terem acertado em cheio as mesmas antigas feridas abertas, essas que ninguém tem a mínima idéia de quais são, e a minha crescente falta de ânimo para reagir. Tenho tudo pronto e traçado aqui no mural e na agenda. Cada passo, cada ação, os custos... tudo calculado. Mas, tenho sentido tanto medo... duvidado de tanta coisa sobre mim mesma... uma confusão tão grande... Tenho muitas oportunidades para me divertir, realizar e ser feliz. Todos os dias. Recebido amor de tantas direções, tipos, dimensões... E mesmo assim... faço o que tenho que fazer, usando forças nem sei de onde, como se eu fosse um androide. Onde encontro energia? Onde encontro coragem? Talvez nessa frasezinha que há muito tempo alguém falou no meu ouvido e simplesmente acendeu um letreiro em neon dentro de mim: "Só não pode parar." Ele tem piscado um pouco.
Mas, isso é coragem, não é? Sentir medo e fazer mesmo assim... continuar?
De quando estudava Estética na Escola de Belas Artes e no Conservatório de Música, lembro de uma passagem em que Sócrates diz que coragem é a mãe de todas as virtudes. Então, sim, não importa como, eu estou fazendo, e isso é coragem. Sem coragem, não tem iniciativa, ação. E somos responsáveis pelo que fazemos e pelo que deixamos de fazer também, a conta chega igualmente. No entanto, não se pode esperar progresso ou mudança em áreas onde não agimos. Desistir é uma idéia, mas só depois da ponderação consciente. Às vezes é a melhor opção mesmo. Mas, para todas as outras vezes, existe o descanso. E aí, a atenção é fundamental. Porque, a coragem é o primeiro anjo a favor de que algo aconteça. Ele abre o caminho para os demais. Mas, onde quer que a luz vá, sempre estará aguardando por ela, a escuridão. Então, depois da decisão, antes mesmo do anjo da coragem, o primeiro a surgir é o demônio da preguiça (medo, estagnação, conformismo, acomodação). E o sucesso dele economiza todos os outros seis.
Só não pode... Já sabe.
segunda-feira, 13 de maio de 2024
Ar e poeira
Se a moça que pinta lhe permite olhar por cima dos seus ombros enquanto ela trabalha, se sorri e o convida a ler os seus versos, se murmura uma canção em sua presença... Saiba, você não é mais apenas uma pessoa. Mas, o ar e a poeira que preenche seus pulmões. Quando tudo acabar no mundo, você ainda existirá. Dentro de um vidro de nanquim, de um pincel, de um poema, de uma canção...
quarta-feira, 1 de maio de 2024
Samhain
Hoje marca o meio do outono e a preparação para o inverno. Como eu gosto dessa época do ano... O azul do céu é mais intenso, as amendoeiras ficam mais coloridas, os dias estão progressivamente mais frescos... E, apesar de ser dia de soprar canela para dentro de casa e planejar o mês, é o fim do ciclo solar anual. Todo final significa também um início. Tudo o que passa constrói o agora. Então, o momento é bom para refletir sobre as conclusões, o valor de se construir boas memórias, a preciosidade do conhecimento passado através do tempo e da experiência, o amor e a saudade daqueles que já se foram, mas continuam sendo importantes para nós de diversas formas. Depois de viver algumas décadas, a noção dos ciclos e da passagem das horas se torna mais clara. Muitas coisas começam a não fazer mais sentido e outras só fazem agora. Nosso tempo de vida é curto demais para ser desperdiçado. Os planos importantes devem ser traçados e postos em prática imediatamente. Tudo o que se espera levar, deve ser pego com força. Todas as despedidas precisam começar já! Se é necessário dizer alguma coisa, que seja feito com urgência. Aos poucos, o momento da grande travessia chega e, de repente, esse capítulo da história termina. Isso não deveria ser triste, mas só não será se as canções guardadas em nós forem cantadas a tempo.
terça-feira, 30 de abril de 2024
Carlos Brown
Continuei desenhando, o sinal tocou e ele subiu com a turma para a sala de aula. Nem perguntei o nome do cachorrinho dele... Não quis estragar o momento com uma pergunta retórica.
sábado, 20 de abril de 2024
Da Mesma Matéria
Já falei sobre isso aqui em algum lugar, a parte que mais me interessa em qualquer coisa é o processo. Mas, não foi sempre assim. Quando eu era criança, cheguei a tentar escrever uma história onde nada de ruim aconteceria. Não deu muito certo, é obvio.... Eu precisava tanto sentir segurança, que costumava ser muito ansiosa pelos resultados e por isso, era muito controladora. Precisou acontecer algo bem sério, experimentar o limite do medo e me conscientizar da impermanência enfaticamente, para isso amadurecer em mim, e o que está acontecendo agora, passar a ser mais relevante que o que vem depois. No entanto, processos observados a certa distância continuam sendo mais poéticos. Até mesmo quando se trata da própria experiência, a distância faz belos retratos das cenas mais terríveis. Depois de muito tempo, vamos analisar as aventuras e tudo fica lindo. Mas, só os guias e guardiões sabem o estresse, o desconforto e a luta que foram certas jornadas. Talvez porque exista muita poesia na falta, no passado e na saudade também. Provocam dor. E a dor evidencia a vida, nos possibilitando a consciência da abundância, do presente e do contentamento.
Assim, nas histórias, as partes que me interessam mais são sempre aquelas onde contam as etapas do aprendizado dos personagens, tudo por que precisam passar, todos os erros, para construir um grande final. O empenho certo, o foco total direcionado a alguma coisa é muito mais interessante até do que a coisa em si. Ela acaba sendo apenas uma consequência, um registro. E depois de uma ou duas dores pelo caminho, aprendemos, por isso, a apreciar as cicatrizes. Elas provam que foi real e apesar de tudo estamos vivos. Por que é isso o que a vida é, um processo. Então, fico muito feliz quando tenho notícias de que alguém está empenhado em alguma coisa e quanto mais global é esse empenho, afetando mais áreas da vida, mais fico feliz. A pessoa está se planejando, estudando, pensando a sua vida profissional ou o seu negócio de forma estratégica, aprendendo a se organizar financeiramente, cuidando da alimentação e do corpo, da aparência como um todo, pondo tudo em prática, em movimento... Até quando são pessoas que já me fizeram algum tipo de mal... não tem como não admirar.
Às vezes o objetivo final é na verdade apenas uma desculpa. Tipo comprar morangos só para comer creme de leite. As conversas de bar são exemplos disso. Todo mundo bêbado, falando nada que preste, sequer ouvindo os outros, um monte de besteiras e soluções sem sentido para toda e qualquer coisa... E todo mundo feliz por simplesmente estar ali, sem apego ao que vier depois, só pelo conversar, pelo momento, pela companhia... pelas histórias...
Lembro de uma aula em que eu precisava mostrar aos alunos do Ensino Médio a importância dos processos. Para que aprendessem a valorizar seus erros e não demonizá-los. O medo de errar é ruim para qualquer um, mas no início da vida, pode ser fatal. E se misturar com a preguiça, então... Mas, como eu dizia, cada "erro" a mais, na verdade, é um "erro a menos" e assim você acaba encontrando seu caminho individual e único. Só assim, na verdade. Daí vem aquela idéia do Kant sobre a impossibilidade do Ensino e da Psicanálise. É impossível ensinar realmente. Qualquer coisa. No entanto, é possível aprender. Só que é impossível aprender sem se deparar com os erros. Claro, se você aprende a reconhecê-los também e como corrigi-los. Fingir que nada aconteceu, não leva ninguém a crescimento algum. E precisar falar sobre isso, elaborar uma aula, com exemplos obviamente no universo das Artes, acabava tocando em partes minhas tão profundas que tenho certeza, me ensinou muito mais do que a eles... Nessa aula eu os apresentava aos livros de artista, aos sketchbooks, ao Abstracionismo, ao Expressionismo Abstrato, à obra de Pollok e dos artistas do Colorfield e, assim, essas propostas artísticas começavam a fazer um pouco mais de sentido para meninos e meninas de 14 anos, cheios de convicções e preconcepções enfiadas na cabeça deles por adultos que geralmente não entendem de coisa alguma. Recebem um monte de respostas para dúvidas que sequer surgiram ainda. E além disso, tem as redes sociais atrapalhando esse meio de campo também, na medida em que são ambientes onde se vai para expor opiniões. E se você tem acesso a elas numa época em que ainda precisa estar apenas observando, contemplando e recebendo informações, não dá tempo de haver um amadurecimento adequado das idéias antes de pensar em expô-las. E assim, as opiniões acabam sendo pouco valorizadas porque de fato têm pouco valor. Então, o estudo prático das linguagens artísticas, todas, passa a ser essencial por essa razão! Porque elas oferecem experiência real, processo, erro, mais apreço pela jornada do que pelo destino. Ao experimentar, por exemplo, colocar a tela no chão e ir deixando a tinta cair aos poucos com pincéis encharcados ou até mesmo com colheres, abre-se uma série de concepções filosóficas e percepções sobre a realidade e a vida que nenhuma aula expositiva, documentário, palestra, conseguiria. O ser aí, passa à frente do ter. E já que aí para ser é preciso fazer, então o processo ganha prioridade sobre o resultado. O produto nessa história é um mero registro, a prova de que algo importante aconteceu.
O mundo virtual acaba distanciando as pessoas da realidade. A lógica do download e dos clicks faz acreditar no imediatismo de tudo mais e na não materialidade da vida. A realidade do mundo físico e do tempo de cada coisa vai ficando distorcida, como se pudesse ser substituída ou acelerada e cada vez mais o ontem e o amanhã, o outro lugar, e nunca o aqui e o agora, vão tomando de nós o presente e a experiência sensível, real, objetiva.
Tem um outro detalhe interessante, está até naquela lógica do Goethe: além de o processo nos fazer alertas, vivos, presentes, com o tempo aprendi, se você dá tudo de si nele, os outros começam a torcer por você, a sentir vontade de contribuir, participar. As coisas vão ficando mais fáceis e rápidas assim. Porque você passa a ser exemplo, inspiração. E sem perceber, começa a dar algo aos outros: esperança. Assim, as pessoas passam a querer acompanhar a sua jornada. Vibram com seu empenho, sofrem e eventualmente, aprendem com seus erros... Você acaba mostrando que algo é possível e isso é o suficiente para plantar uma semente de sonho na cabeça de todo mundo e mostrar que agora precisam florescer em objetivos realizados, reiniciando assim a samsara. E essa é a prova de que na verdade, não sou só eu que acho os processos interessantes. Desde que existe gente no mundo, existe erro e portanto, existem também as histórias e os sonhos, os três itens que nos constitui.
quinta-feira, 28 de março de 2024
Arte não é Cultura
Sempre achamos que com a gente vai ser diferente, que os tempos são outros... que somos especiais... que tudo é sempre culpa dos ultrapassados, dos antigos, de coisas que estão até hoje aí porque têm funcionado, que só antigamente havia atraso... Nós sim faremos diferente. A partir de nós, tudo será progresso. Assim, o desequilíbrio entre caos e ordem vai levando todo mundo a crer que sabedoria, conhecimentos e práticas adquiridos a muito custo, precisam ser derrubados, destruídos, desconstruídos... Afinal, é uma questão legítima de se fazer: querem conservar o quê, se ninguém está satisfeito com nada? Porém, vamos lá. O equilíbrio não está nos extremos. Algo de mais valioso que a prática religiosa de uma arte marcial me abriu na consciência foi: aquilo que resiste ao tempo merece, no mínimo, respeito. Não chegou tão longe à toa. E o erro básico de qualquer faixa branca é subestimar. Mas, certas compreensões só chegam com vivência... experiência... trabalho... O problema é que na velocidade em que a realidade anda caminhando, se as crianças continuarem com a imbecilidade de transformar esse cabaré em estádio de futebol livremente, podem nunca chegar a ter o tempo de vida necessário para entender que não é por aí. Não falta tanto para um novo incidente. Depois de acharmos que era coisa do passado, dos livros de História da oitava série, quem diria... configura-se aí uma trilogia! Já começo a sentir na pele a angústia dos dadaístas. Está tudo de cabeça para baixo, às avessas, um nonsense generalizado e a escala agora é global de verdade... A regra, mais uma vez, irá se impor sem dó e não bastasse a tristeza que isso é em si, como sempre, o pior já são os comentários...
terça-feira, 26 de março de 2024
Oráculo
Não é curioso o tanto de sinais a nossa volta indicando acontecimentos futuros? Para não falar dos eventos extraordinários demais, captados por uma sensibilidade um pouco mais desenvolvida nesse sentido e que as pessoas nunca têm como provar, ficarei nos exemplos mais palpáveis e por isso, mais perceptíveis até mesmo aos distraídos. Uma sensação de perigo, um peso no ambiente, uma angústia por razão alguma, uma doçura no coração, pensamentos que chegam em momentos oportunos, um conforto a toa, idéias, sons, aromas, palavras e reflexões lidas ou ouvidas, situações estranhas, sonhos... tudo parecendo nos preparar para o que virá. A gente só entende depois. E quando é sobre algo realmente transformador, um daqueles eventos que mudam tudo, se você mantiver seus sentidos alerta, perceberá os avisos, a antecipação. E é nesses momentos - um nunca menos surpreendente que o anterior, talvez mais até, - o quanto fica claro para mim a ligação entre todas as coisas. Cada existência uma pequena peça de engrenagem da máquina infinita. Não existe lado de fora. Estamos todos no mesmo ônibus lotado, incomodando uns aos outros, nos voltando uns contra os outros, agindo terrivelmente, reclamando e amaldiçoando como se os outros tivessem alguma responsabilidade por nossa situação, quando deveríamos nos perguntar por quê estamos aqui, para quê, para onde vamos, como poderíamos tornar a viagem mais agradável para todos... A mudança (ou a revolução, para os mais infantis, que precisa ser, antes de qualquer outra coisa, interna) ocorre num abrir e fechar de olhos, mas nunca é de repente ou sem aviso. O universo, em eterna transformação, está o tempo todo anunciando o próximo capítulo. Para todos os eventos, existe uma conjuntura real e inegável, embora nós nem sempre desejemos desenvolver a habilidade de percebê-la.
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024
Poema escrito na pedra
Eu disse a ele que estaria sempre por perto para o que precisasse. Falava diariamente o quanto ele era querido e amado, o quanto todos que o conheceram gostavam dele. Abraçava, beijava e dava todas as coisas que ele gostava diariamente. Ele tinha muitos apelidos e várias músicas que fiz só pra ele. Tinha um monte de manias. Era teimoso, tagarela e exibido. Era pontual, exigente... Dormia e acordava comigo. Pra mim, ele nem parecia ser de verdade, de tão maravilhoso, amigo, companheiro, carinhoso, bonito, corajoso... Tentou pular para a janela do vizinho e caiu do quinto andar. Foi aparado antes de atingir o chão. Coincidência? Sei lá. Toda vez que levava um susto ou estava numa situação nova, eu explicava que nunca deixaria nada de mal acontecer com ele. Entendia quando eu estava precisando de ajuda e oferecia conforto... Gostava muito de música. Brincava demais! Experimentava todas as plantas, gostava de alface como se fosse bife, era super curioso. Nunca ficou doente. Esteve comigo desde poucos dias depois de nascer e me acordou de manhã para que pudesse se despedir. Porque estava na hora... E foi no meu colo o momento em que respirou pela última vez, antes de voltar para o mundo dos deuses. Foram 18 anos juntos, que terminaram ontem... E, apesar da dor, sinto uma imensa gratidão por termos convivido durante tanto tempo! Porque ele foi o melhor que já existiu e eu fiz tudo o que pude para ser a melhor para ele! Nos retratos mais bonitos que guardarei desta vida, com toda certeza ele está presente. Do início ao fim, foi exatamente da forma como desejei para ele. E por isso também sou grata. Mas, só consigo pensar em quando vamos nos ver de novo...
sábado, 3 de junho de 2023
De bem X do Bem
Estranho como ultimamente não vejo mais ninguém publicando foto de sacolas de supermercado e mostrando quanto gastou na compra. Os preços baixaram? Cadê os índices de desmatamento da Amazônia, o abandono dos indígenas? Tudo isso melhorou? E a reforma agrária, cadê o projeto? Mulheres no poder? O que aconteceu? Às vezes apenas imagino o investimento de tempo em textos quilométricos, ironia, comentários nervosos, os ataques a todos que pensam de outra forma, se os atores estivessem em papéis diferentes. Porque certamente estariam fazendo as mesmas idiotices, cometendo os mesmos erros... Mas aí seria fascismo. Enfim, não vou fazer a mesma coisa e ficar tripudiando. Não tenho problema com discordâncias. O lance mesmo são as atitudes e só. Porque pra mim é tudo ruim. Igualmente? Não. Mas, ruim. Não tem essa de lado certo, posicionamento virtuoso... blábláblá consciência do escambau... A maior burrada é se desfazer das pessoas simplesmente por discordarem. Você apenas perde aliados, momentos agradáveis com pessoas queridas. Enquanto os fdps continuam milionários, vivendo como se nada estivesse acontecendo. Você perde, eles continuam ganhando, porque quem está no comando é apenas uma única e enorme quadrilha que se une para nos roubar.
segunda-feira, 3 de abril de 2023
#teamresistance
Quando o último artista morrer e tudo o que restar for as combinações e reproduções cada vez mais diluídas das obras remanescentes de música, pintura, escultura, fotografia, literatura, arquitetura, design, artesanato, dança, cinema, teatro... Quando se tornar impossível, de verdade, a privacidade dos vivos e o mundo físico for completamente substituído por telas, ships, aplicativos e gadgets, este será o sinal de que todo ser humano sobre a Terra se esqueceu, ou nunca soube, que máquina não come, máquina não dorme e máquina não cria. Mas, será tarde demais para alguém até mesmo achar que deveria desligar os botões.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2023
De gratidão e merecimento
Já fui até outra cidade para encontrar alguém que eu queria muito conhecer. Já saí de casa com pressão baixa, precisando parar e sentar pelo caminho até o destino, porque não deixaria passar a oportunidade de estar com alguém que me importava. Já me despedi da única pessoa que eu podia contar, certamente uma das que eu mais gostei na vida toda, quando percebi que as coisas estavam pesadas demais pra ele e ele jamais faria isso por si mesmo. Já vomitei de nervosismo depois de um conversa necessária que eu evitaria, se isso não significasse sacrificar a liberdade de outra pessoa. Já esperei quieta em silêncio, segurando a ansiedade bravamente, quando minha vontade era dizer um monte de coisas, perguntar, tentar entender... por respeitar o direito do outro de falar só quando achasse que devia. Já passei por lugares perigosos, fiquei na chuva, aguentei o sono e a fome só para conseguir ver alguém, não estragar o momento, ou para resolver uma questão. Já gastei quando não podia, só para ganhar um sorriso. Já arrisquei minha segurança, meu conforto e a minha paz, por ingenuamente acreditar que resolveria problemas que existem há décadas e que não dão o menor sinal de melhora. Já fiz malabarismos com o meu tempo para deixar todo mundo feliz. Já dediquei tempo, energia, atenção... focando em encontrar soluções e trazer um pouco de esperança a quem se considera incapaz de encontrar uma saída. Já escrevi poemas, músicas, pensamentos como esses aqui... Já pintei e imaginei mundos, histórias... Tudo para não ir perturbar a paz ou impedir a liberdade de alguém. Já ouvi gente falando por horas sobre coisas que não me interessam, só porque não queria interromper a felicidade e o auto entretenimento. Já tentei entender sobre assuntos que não me empolgam em absoluto, pra participar, ajudar, conhecer... Já deixei coisas extremamente importantes em segundo plano, para fazer surpresa de aniversário. Já evitei devolver gentileza logo depois de recebê-la, pois eu mesma não valorizo muito quando me retribuem por pura educação, não vejo coração nisso ou verdade e prefiro ver. Já procurei pensar numa forma, num jeito mais claro de explicar, de conciliar, de apaziguar, de convencer, de mostrar o quanto me importo, o que sinto, a forma como vejo... Para não haver mal entendidos, ruídos na comunicação, idéias equivocadas sobre como lidar comigo. Já deixei de lado muito do que eu queria, pela felicidade alheia. Já aguentei comportamentos que não admiro, situações desnecessárias, falta de maturidade... com o pensamento focado em encontrar uma forma de mostrar caminhos melhores, na chance de conseguir resolver os problemas, as dificuldades. Preferi não ler, não ver, ignorar agressões, ataques pessoais, chilique, falta de noção, brincadeiras babacas, criancices, para evitar constrangimentos ou por procurar entender que nem todos receberam educação e nem tudo é de fato como parece. Já relevei muitos absurdos. Já aguentei firme quando tudo parecia desabar... Já cheguei ao fundo do poço. Já desisti da vida. Já pedi desculpas. Já mandei a real. Já recomecei muitas vezes.
Por isso, a essa altura da vida, existem coisas que me dou ao luxo de não fazer: aceitar ordens, chantagens ou tentativas de me controlar, cercar, obrigar ou manipular, não impor limites diante de falta de respeito, discutir com gente desequilibrada que não está enxergando nem ouvindo, permitir ataques à minha liberdade, aceitar cobranças. E contrariar isso é a fórmula para me desanimar seja com o que for.
Se faço o que faço é por minha própria conta e risco. O sofrimento é meu e a alegria também. Se algo de bom resulta do meu esforço, sinto uma gratidão profunda. Pois, quando as coisas acontecem como quero não é porque mereço, é porque eu saí da minha zona de conforto e fiz acontecer. Fiz por merecer. Não devo nada e ninguém me deve.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2022
Canção da Cabra Montanhesa
sábado, 26 de novembro de 2022
De Círculos e Desejos
E por falar em Vontade... Justamente neste momento em que "o amor venceu" aqui na ala de doidos varridos, em que existem aqueles que estão "do lado certo da História", em que o Bem é disputado pela classe mais questionável de uma sociedade e reforçado por fanáticos seguidores falaciosos que perderam o bom senso (se é que já o tiveram), em que ninguém está vigiando os vigias, em que se comemora palavras e ações deploráveis esquecendo-se que o chicote sempre muda de mão, em que questionar virou crime sujeito a multas milionárias satíricas e mordaças diversas, em que postes mijam em cachorros, ratos pulam de navios e ladrões são soltos aos bandos, em que morte de artista e contusão de atleta são comemorados simplesmente porque resolveram declarar voto (obrigatório) a esse ou àquele bando de saqueadores da nação, em que a Carreta Furateto is coming with wrath because they know their time is short, em que em qualquer assunto se enfia divisão, ativismo, militância, patrulha e doutrinação, em que sequer há esforços para esconder a inveja, o recalque, a frustração, falta de responsabilização e desejos reprimidos aqui e ali através do clássico fenômeno da projeção psicológica de problemas que são só seus, eu ouço ao longe uma gargalhada. Na madrugada, um galo cantou...
Estou com tempo? Não. O momento é próspero para a minha vida intelectual, artística, profissional e econômica. Ando fazendo malabarismos para não precisar recusar propostas ou pedir demissão, porém as coisas não vão tão bem assim em outro setor. Justamente onde, ingenuamente, eu esperava não ter problemas. Ah... O típico equívoco libriano de contar que as pessoas agirão da mesma forma que se age com elas. Então, num momento de desorientação e impulso de desistência, ali onde os caminhos se cruzam, e sem que eu o procurasse, um velho amigo surgiu, com seu sorriso enorme, me indicando uma direção. Coisas desnecessariamente desagradáveis acontecem de forma cíclica. A frase poderia terminar aqui, mas me refiro ao círculo de um dos meus trabalhos voluntários regulares. É um trabalho em grupo. E, antes de fazer parte dele, eu não contava com problemas ali, logo ali, naquele grupo!
"Naquele grupo..." Mais de 60 pessoas... Não haver problemas ali seria um milagre.
Então, relembro agora essa direção que me foi apontada, simplesmente porque estou outra vez no ponto baixo da roda, de volta à mesma encruzilhada, sem paciência para desrespeito e gente louca, com vontade de desistir, abandonar e afastar de mim o graal que eu mesma busquei. Isso, somado à tanta prosperidade e prazos apertados me fez optar por estar aqui hoje. Não escrevendo essas reflexões e memórias, claro. Eu devia estar finalizando a terceira capa de uma trilogia, mas enfim... Círculos são as formas geométricas mais curiosas.
Desejos são círculos, são apenas sobre nós mesmos e todos desejamos algo. O desejo colore a vida. Poucos de nós, no entanto, têm um senso de visão. Um olhar amplo, adiante. Visões são desejos que incluem todos a nossa volta. Desejos trazem melhorias. Visões podem transformar uma situação inteira.
Se isso acontece, significa que na minha cabeça, eu decidi que isso é bom e aquilo é mau. Dividimos a vida entre os bons e os maus. E é justo aí que a coisa desanda. Quando se começa com isso, nos tornamos um desastre para o mundo. É apenas uma questão de tempo. No momento em que decidimos que essa é uma boa pessoa, aquela é uma má pessoa, fechamos nossa capacidade de receber o que quer que venha, quem quer que venha e crescer com isso, aproveitar a vida ao máximo. O interessante é que justamente quem mais cai nessa de rotular tudo e todos, rotula tudo e todos de quem discorda de fascista. Círculos são mesmo sensacionais!
Bom e mau... todos oscilamos entre os dois. Questão de perspectiva e contexto. Quando se cria um ambiente agradável, maravilhoso, todos se comportam de maneira maravilhosa. Um ambiente desagradável torna todo mundo desagradável. Então, o que existe, na verdade, são pessoas alegres e pessoas infelizes. E não, pessoas boas ou más.
Voluntariado, significa, que apenas quero fazer algo. É o exercício de um grande poder pessoal, a Verdadeira Vontade em ação, exercendo sua função: a materialização das idéias. Incondicionalmente! Voluntariado, significa ter uma atitude de 100% de afirmação para a vida. Sem escolher esse ou aquele, é estar aberto a tudo e a todos. Pois, quando se é 100% aberto à vida, apenas então se é um voluntário, alguém que exerce pura e simplesmente a sua Vontade, que faz porque quer e só. Torna-se alguém que deseja realmente a vida. E, se torna tão aberto que acaba não tendo desejos apenas para si próprio.
E para lidar com todo tipo de pessoa é importante lembrar que a sua vida pertence a você, não aos outros. Não é da sua conta a escolha deles, quem eles são ou como eles são. Mas, o que eu sou é escolha minha. Essa é a MINHA forma de ser. Não importa o que façam, EU sou assim. Porque não dou a liberdade para ninguém decidir como eu vou me sentir ou me comportar. Ninguém vai me fazer sentir raiva, ninguém irá me fazer feliz, ninguém irá me magoar. Esses privilégios eu guardo para mim. Pois, se alguém é capaz de decidir o que acontece dentro de você, essa é a suprema escravidão. A nossa volta, é claro, não cabe inteiramente a nós como será. Mas, dentro de nós, é nossa responsabilidade.
Eu estou desanimada de novo com uma coisa que inicialmente era muito boa, e pensei nas palavras do meu amigo, sabe? Se eu for deixar de apreciar algo bom porque foi feito de uma forma má, por pessoas más, certamente não gostarei de nada no mundo. Posso continuar não gostando das pessoas e de suas maneiras, mas se algo é bom, é bom e fim. Daí vem meu pouco interesse por como a pessoa é e meu foco no fruto de suas ações.
Neste momento, naquele meu grupo, todos perturbam a todos, pois não são realmente voluntários. Não estão lá simplesmente porque querem. Esperam receber algo, algum tipo de reconhecimento, suprir alguma carência. E voluntariado significa que você não tem nenhum desejo apenas para si mesmo. Você irá fazer o que for necessário como um cavaleiro juramentado. Se aquela é uma casa de trabalho voluntário, isso significa que virá todo tipo de pessoa trabalhar. A maioria não é qualificada para o trabalho que está executando. E não se pode demiti-los, pois são voluntários!
A questão é que assim é o mundo inteiro.
"Quando você não conseguem trabalhar com esta ou aquela pessoa, reclama que elas são horríveis, deve lembrar que no mundo esse é o tipo de pessoa que existe. E, se o que você quer é trabalhar com a pessoa ideal, então você deve ir para a terra dos círculos, o Paraíso. Pois, é preciso reconhecer, não encontrará nenhuma aqui. Eu ainda não encontrei!", disse o meu querido amigo com aquele seu sorriso branco de lua crescente e continuou: "Caso contrário, se não deseja ser tão seletiva, classificando as pessoas em más ou boas, se você está realmente aberta para a vida, se pensa que o que está fazendo tem um significado maior, você encontrará um caminho, aprendendo a trabalhar com todas essas pessoas horríveis. E verá pessoas horríveis fazendo coisas maravilhosas."
Ventou no canavial. Um trovão lá no céu ecoou... Ele desapareceu bem lentamente e apenas o seu sorriso permaneceu por algum tempo depois do resto ter ido embora. E eu só consegui pensar que sempre vi muitos gatos sem sorriso, mas um sorriso sem um gato! É a coisa mais curiosa que já vi em toda minha vida.
sexta-feira, 2 de setembro de 2022
De Pombos e Vazios
- Mas tinha uma vaga tão boa ali na frente...
- Claramente não dá para estacionar ali sem atrapalhar a entrada da garagem, senhora.
- Mas aqui tem pombos olha.
- Sim, tem pombos. A senhora joga comida para eles todos os dias...
- Não, eu dou comida para os gatos.
- Claro, gatos adoram milho.
Como ela fez de continuar esse mimimi totalmente sem fundamento algum, as pessoas já iam andando mais devagar por ali pra acompanhar a cena, e eu ODEIO discussões, principalmente as que não servem pra nada, só fiz um último comentário enquanto já me preparava para atravessar a rua e seguir meu caminho:
- Senhora, pensa em todos os problemas que você tem na sua vida. Agora olha para o meu carro e perceba que esse não é um deles.
Tenho certeza que nem parou para refletir. Nem sobre isso, nem sobre seus problemas reais. E eu fui embora um pouco preocupada com o carro, pois ela poderia fazer alguma coisa com ele. Mas, me confortei no fato de ela morar bem na casa em frente.
Algumas horas depois, voltei, estava tudo em ordem. Havia outro carro estacionado atrás do meu, deixando espaço para mais dois. Girei a chave e deixei a rua em frente àquela casa com um carro a menos, como a mulher queria mais cedo. Finalmente, deixei de ser um dos problemas imaginários que só servem pra esconder os problemas reais de alguém. "Um a menos, por hoje." Eu pensei e ela deve ter pensado quando olhou da janela e viu o espaço vazio ali na rua. Seja como for, naquele mesmo dia, no horário em que me preparava para dormir, já um pouco aliviada, no hospital, pensei nessa mulher. Pensei que talvez durante a noite, com a rua menos movimentada, ela pudesse estar mais feliz. Mas, logo desfiz essa imagem. Era óbvio que, com o vazio da rua deserta, ela finalmente precisaria lidar com os carros estacionados em frente aos muros dentro de sua própria cabeça. O silêncio lá fora só amplia seu barulho interior, deve ser desesperador. Seu único alívio seria o arrulho dos pombos. Então, é lógico que depois de haver varrido a calçada outra vez, enquanto ninguém estava passando, ela foi lá fora e descarregou mais um saco inteirinho de milho. A semana estava só no meio.
