Insisto em buscar pela criança em todas as minhas atividades. Serei mal interpretada, mas pessoas muito mais inteligentes e bem sucedidas também foram e são, quem sou eu nessa fila do pão aí? Ser mal interpretada é o título da minha vida e a distinção entre imaturidade e inocência vai passar direto para a maioria, aquela galera que escolhe a porta larga em todas as coisas. Apesar disso, pondero sobre crianças, sonhos, inícios, enquanto me demoro em cada degrau. É uma questão de vida e morte para mim. Nutri-la, libertá-la, valorizá-la. Pois, a criança é um milagre. O encontro do céu com a terra, da matéria com a consciência, do visível com o invisível. É a doçura e a selvageria. É o resultado de uma transformação misteriosa, de uma explosão, do caos. É a iluminação, o caminho, a verdade e a vida. É o ouro, o Sol e tudo o que reluz. Pois, sim, em tudo o que reluz há ouro... E é a partir desta verdade que eu trato cada um, de acordo com a criança que é. A partir deste detalhe surge minha vontade de cuidar e amar. É através disso que me importo, mesmo com quem parece não se importar - as atitudes dos outros não determinam as minhas - e por me importar, procuro não obrigar ninguém a nada. Apenas apresento o que acho conveniente, mas sem insistir demais. Apenas mostro, nunca digo o que espero ver. E é também com a minha própria criança que procuro tocar as pessoas. Esta pode ser, inclusive, a razão por trás de tanta fúria e energia criativa. Nem sempre a criança é tratada com o devido cuidado. Às vezes debocham dela pelo simples fato de ser criança. Acho sempre muito estranho quando alguém vê a matéria prima e não enxerga o potencial, numa analogia com aquela história do dedo que aponta para a lua. Mas, cada um com a sua miopia, as suas crenças e as suas portas fechadas. Eu reverencio a criança, me aproximo e me ligo aos outros pela sua criança e quando tudo fica sério e embaraçado, é por ela que eu procuro. Não sou indiferente a ela. Nunca. Pois acredito que no momento em que ficamos indiferentes a uma criança, começamos a matá-la. E já tem gente demais assassinando crianças por aí. A sua própria e a dos outros. Isso está acontecendo por todo o mundo e aconteceu por todas as eras. Um enorme massacre. Respostas antes de perguntas. Leis antes de crimes. Regras antes dos conflitos. Desta forma, cria-se a doença e depois surge a vaidade de ser aquele que têm a cura. Claro, uma criança só pertence a si mesma, é perigosa, pode tudo. Uma folha em branco. Uma porta aberta. Uma aurora dourada. O centro do universo. É curiosa, bagunceira e insistente. Não sabe de nada, mas quer descobrir tudo. É brincalhona e sem limites. Nada fácil de se lidar. Portanto, um problema para quem tem medo, gosta de manter, acumular e conservar. Mas, minha criança não me deixa compreender, conservar o quê, num mundo onde ninguém está satisfeito com coisa alguma? Então, enquanto minha alma compra a sua escada para o paraíso, a criança está comigo e procuro levá-la sempre que a classificação permite. Para me salvar da multidão. Para me manter persistente. Para me ajudar a tornar o sonho real.
Um comentário:
Nossaaaa isso é muito aquela conversa que tivemos...
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