quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Agora é que eu fico insuportável

Não sei ao certo por onde começar, aconteceu tanta coisa estranha que agora está tudo completamente diferente. O tempo passou  e nem vi, no meio dessa neblina sobre os meus dias nos últimos meses, anos... Sequer tenho vontade de esmiuçar os fatos, sabe? Mas, é lógico que há algo de bom em tudo que acontece.

Enquanto eu dormia, anestesiada, trocaram o cristalino do meu olho. A neblina não era metáfora, amigos. Pouca paz e sossego me deixaram quase cega. Literalmente também. Num exame para verificar o olho esquerdo, que foi operado, também examinaram meu olho direito. E neste olho há algo que não sei explicar tecnicamente, mas é uma cicatriz na retina. Se fosse mais um pouco para o meio do olho, eu não enxergaria mais.  Se as coisas sempre aconteceram na minha cara e eu não via, imagina assim. E agora, pode-se até mesmo dizer isso literalmente. Dormi e quando achei que iam começar, já haviam acabado o serviço. O nome que recebi nessa vida, não me foi dado à toa. Certamente, alguém muito irônico influenciou nisso aí. Mas, o caso é: tenho agora dois olhos que enxergam em tonalidades levemente diferentes. O olho direito ainda vê o mundo amarelado... da natureza, das tradições e do tempo. Confesso que considero isso mais elegante. O esquerdo, agora artificial, parece vidro recém limpo, com tonalidade meio arroxeada, ametista. 

Então, enquanto olhava aqui para a montanha,  me perguntava: qual dos dois olhos tem a cor verdadeira do mundo? 

Sempre desconfiei que ninguém vê da mesma forma, nem mesmo fisicamente. Agora eu tenho a prova.  E se até nessa questão das cores não há certeza, imagine todo o resto. Meus dois olhos não competem, me lembram que a verdade acontece durante a caminhada de cada um pelas muitas alamedas abrindo-se no jardim do Destino. E talvez o verdadeiro desafio seja aceitar que nunca verei o mapa inteiro, apenas os fragmentos que um olho amarelo e o outro lilás, bem como a soma dos dois, conseguem captar.

Então, do meio de toda a neblina nos últimos tempos... Iniciada pela cegueira provocada por anos de agonia em que me submeti a carregar esperanças vazias sobre planos felizes, sozinha; a diferença entre meus próprios olhos trazem mais perguntas que respostas. E se já me acusavam de ter muitas dúvidas, imaginem só agora.

"Verdade lembra uma estrela
Quebrada em montão de lodo,
Cada pessoa que a busca,
Encontra parte do todo."

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Casa Assombrada

Depois de crescer numa casa amaldiçoada
Por tristeza, raiva, gente magoada
Sem nenhuma das fundações bem enterradas
Com punhos fechados e bocas cerradas.

Meus monstros nunca estiveram em armários
Sequer escondiam-se, reinavam autoritários
Jamais esgueiraram-se por debaixo das camas
Habitavam a sala, a cozinha, olhos, palavras em chamas.

Vigiando pela manhã enquanto eu ia para a escola
Assustando quem vinha trazer atenção como esmola
Esperando a noite, enquanto voltava da rua
Aguardam até hoje que algo me destrua.

Como sentir qualquer vestígio de segurança
Amor, paz, ou manter a esperança
Acreditar, conseguir força e confiança
Se apenas sobrevivo desde criança?

Sempre correndo, ansiosa, atribulada
Em cada etapa, cinicamente abandonada
Com a vida inteira amaldiçoada
Depois de crescer numa casa assombrada.