quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Às quatro horas

Ao voltar de uma batalha, Ogum foi recebido com silêncio. Um silêncio que nada tinha a ver com ele, no entanto era importante para quem o mantinha. Confundiu respeito com desprezo, e acabou causando feridas impossíveis de apagar. Depois, recuperou a calma e se tornou consciente do erro, lamentou, se arrependeu. Mas, não havia mais o que pudesse fazer.  Então, recolheu-se sob a terra e ressurgiu. Como Orixá.  

Mantenho esses mitos clássicos, de guerreiros, caminhos abertos, espadas, dores sem alívio e transformação, para permanecer no meu próprio rumo, mesmo sem saber direito para onde estou indo. Muito certa, no entanto sobre onde estive. Acreditando ainda em promessas de velhas canções, mas decidida a não perder mais o meu tempo. É dessa forma que sigo pelo solitário caminho das estrelas, a única estrada que conheço. Ainda procurando respostas, com o coração completamente despedaçado, me apoiando em forças primordiais para conseguir continuar, porque eu sei muito bem como é... andar pela rua solitária dos sonhos..

A noite é sempre mais escura antes do amanhecer. 

E a esperança é todo o meu problema.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Conversa de puto eu não escuto

Não venci o concurso de minicontos, mas meu conto mutilado, até conter apenas 300 caracteres, está publicado no livrinho da Academia Teresopolitana de Letras. Concorri com um conto que eu já tinha há muito tempo. Não escrevi um pensado especialmente para ser tão curto. E é claro que essa não é uma boa forma de se escrever algo que valha a pena. Algumas coisas só ficam bem ditas se forem com todas as palavras. E ali, por causa das regras, precisei tirar muitas delas. Não é nem uma justificativa para o resultado porque, na verdade, não esperava sequer isso. Mas ele está lá, junto dos contos de outros autores, incluindo os imortais da Academia.

Não acredito em concursos de arte, como disse anteriormente. A premissa não me parece séria. Talvez porque não seja mesmo e tudo não passe de um jeito de movimentar as coisas, motivar as pessoas. Mesmo que, para os mais competitivos, só sirva para envaidecer ou frustrar, este está longe de ser o meu caso. Não curto disputas pelo que quer que seja e nem tenho uma autopercepção assim tão superestimada. Nunca considerei minha presença, minha opinião, minha existência imprescindíveis. Tenho plena consciência de que tudo acontece perfeitamente bem sem mim.

Vivo demais dentro da minha cabeça, observo demais o mundo, reflito demais sobre os acontecimentos, as atitudes, minhas e dos outros. Tudo parece um sonho... A gente não lembra como começou, acontece um monte de coisas completamente sem sentido, inúmeras reviravoltas desnorteantes exatamente nos momentos em que tudo parece muito lógico e previsível e, então, quando estamos finalmente acreditando estar começando a entender um pouco do que está havendo, fim.

É assim que vejo. Algumas coisas até geram um impacto maior, mas, a curto ou longo prazo, nada fica. Como nos concursos, a realidade não é para ser séria e só acontece mesmo para movimentar as coisas, motivar as pessoas para que ela, a realidade, continue existindo. Envaidecendo ou frustrando, em pouco tempo, tudo passa a ser história e, mais um pouco adiante, nem isso. Coisas, lugares, sensações, pensamentos, sentimentos, ideias, atitudes, grandes e pequenos feitos. Datas. Pessoas... Embora façam um enorme esforço para se manterem, tudo vai descendo pelo ralo do Universo. Deve ser por isso que as galáxias têm aquela forma espiral...

Então, apesar de trilhar a senda transcendental da esperança, deixar que as frutas caiam das árvores ao seu tempo, sem arrancá-las, tenho dificuldade para acreditar. E vejo, com crescente cinismo, o sofrimento, a dor, as lágrimas. Em especial quando tudo isso é dedicado às outras pessoas.

Pra quê, sabe? Pra quê me mutilar intentando caber dentro de expectativas? Pra quê a validação? Pra quê não usar todas as palavras necessárias e dizer do jeito que tenho vontade o que pretendo dizer? Pra quê suportar o peso dos outros nas minhas costas? Pra quê oferecer o meu tempo quando o que acontecerá, no fim das contas, não fará a menor diferença? Pra quê simplesmente perder uma energia que não volta, em dor, se, no fim, meu nome estará no livrinho da realidade ao lado de todos os outros nomes, mais ou menos imortais que o meu? Igualzinho. Estarão lá: meu nome, o nome da montanha aqui de frente, o nome da amendoeira debaixo da minha janela, o nome do maior imbecil que já conheci, o nome da barata que mora ali no esgoto... E para nada que eu tenha sofrido no lugar de alguém, para ninguém com quem eu tenha sonhado, para nenhuma espera, nenhum investimento, nenhuma empatia, receberei qualquer retorno, muito menos positivo.

Se não há seriedade ou sentido, se nada importa tanto assim, sequer eu mesma, e tudo caminha para o esquecimento, que o meu tempo seja bom e a minha realidade, ao menos, seja movimentada com alegria, calma e leveza.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

No passo do cavalo baio

Enviei hoje um conto para um concurso literário. Precisei transformar 1000 vocábulos em 300. Eu, logo EU! Cortar, escolher, decidir, abandonar... Depois de mais de 5 horas, alternando com o meu trabalho de ilustração de cenários, entreguei, a poucas horas do fim do prazo que se encerra hoje às 23:59h. Digitar pelo menos é algo que posso fazer com as mãos, sem forçá-las demais. Já que, amigos, ainda há este detalhe: estou com a mão direita quebrada. Lesão de boxer. Pelo menos o pé já parou de doer e não teve nenhuma fratura. Soquei e chutei a cara de alguém? Devia, mas não. Meu réu primário continua intacto, apenas soquei e chutei a parede. E por que? That's the main question... A resposta seria longa demais e me obrigaria a voltar em algo que chega, sabe? Quebrei a minha mão por causa disso!

Então, me inscrever hoje nesse concurso, foi algo importante. Pois, apesar de ainda precisar trabalhar nos cenários, cozinhar, limpar a casa, lavar o cabelo, tomar banho, dirigir e viver, a mão imobilizada acabou com a minha rotina de treinos na academia, no piano, no violão. E essas coisas estavam sendo motivo de muita esperança pra mim. Eu estava conseguindo finalmente me manter na disciplina. Então, essa mão já me deixou muito desanimada. E quando lembro da cadeia de eventos até isso acontecer... Foi uma sequência de coisas quebrando, pegando fogo, acendendo sozinha. Sonhos. Tiroteio. Até um lençol ficou eletrificado aqui em casa. Vocês já viram isso? Como vou explicar? Meu lençol ficou um bom tempo à noite soltando raios como um céu de tempestade. Bastava apertá-lo, sacudi-lo, manipula-lo. Coisa mais esquisita. Gente louca se incomodando com a minha simples presença e achando que pode me atacar é parte da minha vida normal, mas até no meu carro parado no estacionamento do condomínio, bateram. Tive que operar um olho, quase perdi a visão do outro. 

Hoje, imagino o que tenha acontecido nesse período... Acredito que foi uma forma da realidade me mostrar que se eu ainda não estava cansada dos absurdos, ela sim. E havia algo que demorou bem mais do que cinco horas para ser cortado, escolhido, decidido, abandonado... Agora, vamos ver o resultado do concurso de contos no dia 30 de maio. Nunca participei dessas coisas... nem acredito em competições, muito menos artísticas. Mas, acima de qualquer coisa, acredito que o movimento é melhor do que a inércia. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Agora é que eu fico insuportável

Não sei ao certo por onde começar, aconteceu tanta coisa estranha que agora está tudo completamente diferente. O tempo passou  e nem vi, no meio dessa neblina sobre os meus dias nos últimos meses, anos... Sequer tenho vontade de esmiuçar os fatos, sabe? Mas, é lógico que há algo de bom em tudo que acontece.

Enquanto eu dormia, anestesiada, trocaram o cristalino do meu olho. A neblina não era metáfora, amigos. Pouca paz e sossego me deixaram quase cega. Literalmente também. Num exame para verificar o olho esquerdo, que foi operado, também examinaram meu olho direito. E neste olho há algo que não sei explicar tecnicamente, mas é uma cicatriz na retina. Se fosse mais um pouco para o meio do olho, eu não enxergaria mais.  Se as coisas sempre aconteceram na minha cara e eu não via, imagina assim. E agora, pode-se até mesmo dizer isso literalmente. Dormi e quando achei que iam começar, já haviam acabado o serviço. O nome que recebi nessa vida, não me foi dado à toa. Certamente, alguém muito irônico influenciou nisso aí. Mas, o caso é: tenho agora dois olhos que enxergam em tonalidades levemente diferentes. O olho direito ainda vê o mundo amarelado... da natureza, das tradições e do tempo. Confesso que considero isso mais elegante. O esquerdo, agora artificial, parece vidro recém limpo, com tonalidade meio arroxeada, ametista. 

Então, enquanto olhava aqui para a montanha,  me perguntava: qual dos dois olhos tem a cor verdadeira do mundo? 

Sempre desconfiei que ninguém vê da mesma forma, nem mesmo fisicamente. Agora eu tenho a prova.  E se até nessa questão das cores não há certeza, imagine todo o resto. Meus dois olhos não competem, me lembram que a verdade acontece durante a caminhada de cada um pelas muitas alamedas abrindo-se no jardim do Destino. E talvez o verdadeiro desafio seja aceitar que nunca verei o mapa inteiro, apenas os fragmentos que um olho amarelo e o outro lilás, bem como a soma dos dois, conseguem captar.

Então, do meio de toda a neblina nos últimos tempos... Iniciada pela cegueira provocada por anos de agonia em que me submeti a carregar esperanças vazias sobre planos felizes, sozinha; a diferença entre meus próprios olhos trazem mais perguntas que respostas. E se já me acusavam de ter muitas dúvidas, imaginem só agora.

"Verdade lembra uma estrela
Quebrada em montão de lodo,
Cada pessoa que a busca,
Encontra parte do todo."

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Casa Assombrada

Depois de crescer numa casa amaldiçoada
Por tristeza, raiva, gente magoada
Sem nenhuma das fundações bem enterradas
Com punhos fechados e bocas cerradas.

Meus monstros nunca estiveram em armários
Sequer escondiam-se, reinavam autoritários
Jamais esgueiraram-se por debaixo das camas
Habitavam a sala, a cozinha, olhos, palavras em chamas.

Vigiando pela manhã enquanto eu ia para a escola
Assustando quem vinha trazer atenção como esmola
Esperando a noite, enquanto voltava da rua
Aguardam até hoje que algo me destrua.

Como sentir qualquer vestígio de segurança
Amor, paz, ou manter a esperança
Acreditar, conseguir força e confiança
Se apenas sobrevivo desde criança?

Sempre correndo, ansiosa, atribulada
Em cada etapa, cinicamente abandonada
Com a vida inteira amaldiçoada
Depois de crescer numa casa assombrada.