sexta-feira, 2 de setembro de 2022

De Pombos e Vazios

 
 
Justamente no dia de ensinar Ready Mades e Arte Conceitual para pessoas de 14 anos, em 50 minutos às 9h da manhã. Estacionei na rua de sempre, mas cheguei um pouco mais cedo que o normal. Não tinha vaga no lugar de sempre, só embaixo da árvore dos pombos, onde geralmente ficam 4 carros parados. Achei ótimo, pois deu para estacionar justamente um pouco antes da árvore e sair da mira dos pombos. Há realmente muitos pombos somente nessa árvore, pois certamente quem mora na casa em frente não quer que os carros estacionem ali. Há sempre muito milho pelo chão. Alguns gatos transitam por ali também. Talvez por causa dos potes de água. E sempre imaginei isso, porque tenho uma avó que é esse tipo de pessoa e também se incomoda com os carros parados na rua em frente a casa dela. Gente que tem muitas questões em si para resolver, mas prefere distribuir sua infelicidade ao menor lampejo de contrariedade e frustração. Enfim, nesse dia, havia uma senhora bem gorda, de vestido estampado com flores enormes, varrendo a calçada. Bastou estacionar o carro e ela resolveu enfiar a vassoura na rua, no espaço entre as rodas do carro e a calçada, varrendo as folhas do meio fio. Resmungava baixinho e agia como se eu tivesse estacionado bem em cima do lixo que ela varria, na frente da garagem, ou em cima da calçada. Batia a vassoura na calota da roda do carro. Demorei um pouco para sair, conferindo o celular e o texto das aulas do dia, procurando focar nas estratégias para ensinar aqueles assuntos e esquecer que estou há um mês sem gás em casa, pois o condomínio proibiu a entrada de botijões e também não tem o mapa das instalações dos dutos de gás do prédio, que esse ano tenho duas turmas a menos, não estou com alunos particulares, então o dinheiro só para as contas está menor, embora tudo esteja mais caro, que estou precisando fazer mais trabalhos de ilustração do que o normal para também dar continuidade aos projetos que pretendo concluir ainda esse ano, que tenho me sentido progressivamente depressiva e sem motivação para as coisas que antes me davam muito prazer por várias razões, que neste mesmo dia eu precisaria voar para casa para chegar na hora marcada, pois estaria, mais tarde, acompanhando uma cirurgia e precisaria passar a noite no hospital, então teria de passar antes no mercado e na farmácia para já comprar o necessário para a alimentação adequada (sem gás em casa) e os cuidados posteriores, e procurando esquecer também o sono que eu estava sentindo, fora todas as questões que todos carregamos dentro de nós e que precisamos lidar diariamente... Quando saí do carro, às 8:30 da manhã, ela disse:

- Mas tinha uma vaga tão boa ali na frente...

- Claramente não dá para estacionar ali sem atrapalhar a entrada da garagem, senhora.

- Mas aqui tem pombos olha.

- Sim, tem pombos. A senhora joga comida para eles todos os dias...

- Não, eu dou comida para os gatos.

- Claro, gatos adoram milho.

Como ela fez de continuar esse mimimi totalmente sem fundamento algum, as pessoas já iam andando mais devagar por ali pra acompanhar a cena, e eu ODEIO discussões, principalmente as que não servem pra nada, só fiz um último comentário enquanto já me preparava para atravessar a rua e seguir meu caminho:

- Senhora, pensa em todos os problemas que você tem na sua vida. Agora olha para o meu carro e perceba que esse não é um deles.

Tenho certeza que nem parou para refletir. Nem sobre isso, nem sobre seus problemas reais. E eu fui embora um pouco preocupada com o carro, pois ela poderia fazer alguma coisa com ele. Mas, me confortei no fato de ela morar bem na casa em frente. 

Algumas horas depois, voltei, estava tudo em ordem. Havia outro carro estacionado atrás do meu, deixando espaço para mais dois. Girei a chave e deixei a rua em frente àquela casa com um carro a menos, como a mulher queria mais cedo. Finalmente, deixei de ser um dos problemas imaginários que só servem pra esconder os problemas reais de alguém. "Um a menos, por hoje." Eu pensei e ela deve ter pensado quando olhou da janela e viu o espaço vazio ali na rua. Seja como for, naquele mesmo dia, no horário em que me preparava para dormir, já um pouco aliviada, no hospital, pensei nessa mulher. Pensei que talvez durante a noite, com a rua menos movimentada, ela pudesse estar mais feliz. Mas, logo desfiz essa imagem. Era óbvio que, com o vazio da rua deserta, ela finalmente precisaria lidar com os carros estacionados em frente aos muros dentro de sua própria cabeça. O silêncio lá fora só amplia seu barulho interior, deve ser desesperador. Seu único alívio seria o arrulho dos pombos. Então, é lógico que depois de haver varrido a calçada outra vez, enquanto ninguém estava passando, ela foi lá fora e descarregou mais um saco inteirinho de milho. A semana estava só no meio.

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