segunda-feira, 20 de maio de 2024

Só não pode o quê?

Tem sido uma luta... os últimos 42 anos. E só a gente mesmo sabe como são e quais são as nossas próprias batalhas. Só nós sabemos onde dói. Não que não sejam importantes os encontros, empurrões, golpes e abraços que levamos uns dos outros. Eles são, sim. Quanta coisa acontece, somente após certas interações? Mas, tenho pra mim que se conhecêssemos, de verdade o que se passa dentro do outro, até mesmo os beijos seriam mais certeiros. Fazemos, no máximo, uma vaga idéia. Pode ser uma idéia boa, até, mas apenas isso. As palavras procuram traduzir, mas quantas vezes não vimos castelos ruindo por causa delas, também?

Desanimador quando percebemos que apenas a negatividade ressoa no outro. Às vezes, negatividade que nem era direcionada a ele. Já as coisas boas, são esquecidas rapidamente, como se elas não fossem tão maiores que todo o resto. E mais rapidamente ainda, as próprias ações. O chato é que isso indica bem o que há por dentro. Essa ilusão de que se pode sempre cometer os mesmos erros, sem retratação, depois encontrar um pretexto para ser gentil outra vez e continuar de onde se parou como se nada tivesse acontecido, é decepcionante. Fora a reatividade, a pressa com que se sente um desafio, a recepção da imposição de limites como se fossem apenas dificuldades desnecessárias, quando na verdade, ela existe justamente como uma forma de autoproteção em consequência de se haver passado vezes demais pelas mesmas situações que saíram dos limites aceitáveis. Estas sim, desnecessárias.

Qualquer um que se importasse minimamente compreenderia e levaria isso em conta. É psicologia básica. Mas, talvez eu é que seja boba demais de ter levado a sério palavras bonitas... tenha, em vão, confiado nelas. Afinal, existem muitas maneiras mais eficientes de se tirar dúvidas, resolver problemas, encontrar entendimento, até mesmo com elas, as limitadas palavras. E procuro fazer assim. Escrever para entender. Escrever para aliviar um pouco a dor. Fazer analogias, relacionar idéias, associar músicas a momentos... Para deixar os demônios tomarem um sol e assim impedir que me enlouqueçam. Mais. Apenas isso. Entender. Dos mesmo criadores de "Quando eu rezo, acontece.", tem também o "Quando escrevo, resolvo." Sabe? Uma tentativa, cansada, mas uma tentativa, de resolver as coisas. 

Se afastando um pouco e observando isso de cima, o que temos? Alguém que simplesmente seguiu e abandonou? Ou alguém que está tentando fazer ajustes para que as coisas sejam melhores do que estavam? Sinceramente. Não é possível que a miopia e a hipermetropia cerebral tenham se alterado tanto ao ponto de isso não ser tão claro quanto as águas da Lagoa Azul da Nova Zelândia.

Tem sido triste por razões que nem mesmo o moço lá do confessionário que vocês chamam de clínica consegue compreender. Não é pelo que qualquer pessoa tenha feito, ou deixado de fazer. É pelos golpes recentes terem acertado em cheio as mesmas antigas feridas abertas, essas que ninguém tem a mínima idéia de quais são, e a minha crescente falta de ânimo para reagir. Tenho tudo pronto e traçado aqui no mural e na agenda. Cada passo, cada ação, os custos... tudo calculado. Mas, tenho sentido tanto medo... duvidado de tanta coisa sobre mim mesma... uma confusão tão grande... Tenho muitas oportunidades para me divertir, realizar e ser feliz. Todos os dias. Recebido amor de tantas direções, tipos, dimensões...  E mesmo assim... faço o que tenho que fazer, usando forças nem sei de onde, como se eu fosse um androide. Onde encontro energia? Onde encontro coragem? Talvez nessa frasezinha que há muito tempo alguém falou no meu ouvido e simplesmente acendeu um letreiro em neon dentro de mim: "Só não pode parar." Ele tem piscado um pouco.

Mas, isso é coragem, não é? Sentir medo e fazer mesmo assim... continuar?

De quando estudava Estética na Escola de Belas Artes e no Conservatório de Música, lembro de uma passagem em que Sócrates diz que coragem é a mãe de todas as virtudes. Então, sim, não importa como, eu estou fazendo, e isso é coragem. Sem coragem, não tem iniciativa, ação. E somos responsáveis pelo que fazemos e pelo que deixamos de fazer também, a conta chega igualmente. No entanto, não se pode esperar progresso ou mudança em áreas onde não agimos. Desistir é uma idéia, mas só depois da ponderação consciente. Às vezes é a melhor opção mesmo. Mas, para todas as outras vezes, existe o descanso. E aí, a atenção é fundamental. Porque, a coragem é o primeiro anjo a favor de que algo aconteça. Ele abre o caminho para os demais. Mas, onde quer que a luz vá, sempre estará aguardando por ela, a escuridão. Então, depois da decisão, antes mesmo do anjo da coragem, o primeiro a surgir é o demônio da preguiça (medo, estagnação, conformismo, acomodação). E o sucesso dele economiza todos os outros seis.

Só não pode... Já sabe

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