quinta-feira, 23 de maio de 2024

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Não vou nem perder meu tempo escolhendo as palavras, criando metáforas, escrevendo de forma simbólica, correta. Ouvi a voz do meu pai hoje. Fui na janela e ele se virou para fingir que não viu. Falei com ele da janela e ele fingiu que não ouviu. Deixou um envelope com o porteiro. Saiu pelo portão, atravessou a rua, ligou a moto e foi embora. Nunca quis interagir demais nem mesmo virtualmente e não fala comigo direito há dois anos. Não faço idéia do que seja, apesar das suposições de quem sabe ou acompanha o caso. Triste demais. Gente que me conhece há bem menos tempo que ele, alguns têm uma vida bem mais atarefada, com gente em cima o tempo todo, a maioria sequer conhece a minha história, e mesmo assim consegue parar por um segundo para falar rapidinho, dizer que lembrou de mim, mostrar alguma coisa legal, me trata como filha, diz que me ama, que sente orgulho, me levanta do chão do banheiro quando bebo demais até... se comporta como pai, ou mãe pra mim, me trata assim, para pra tentar me ouvir e entender, não quer que eu volte para casa, muito menos sem trazer uma fruta, um bolinho, um presente... Ele só vai até onde as coisas materiais importam. Claro que sou grata por isso e reconheço que existe ao menos isso. Nunca passei nenhum tipo de necessidade básica material. Mas, é como se eu fosse apenas uma conta, sendo ele muito responsável, nunca deixará de pagar. Nada mais. De resto, a minha existência é apenas uma enorme inconveniência. E eu já devia ter me acostumado. Isso não deveria sequer me surpreender mais, o que dirá fazer algum tipo de mal. Mas, é incontrolável e irritante reconhecer que mal consegui fazer qualquer uma das coisas importantes de hoje. Me embrulha o estômago quando tento falar sobre esse assunto. Vomitei tentando até. Nem comi nada. Só tenho vontade de dormir. Acabei de dispensar uma cliente difícil porque já tem sido perturbação demais na minha cabeça todo o resto. Não estou em condições. Não tenho como resolver, me esforçar, me doar em mais nada com ninguém. Estou realmente esgotada. Não preciso de mais batalhas, na boa. Mais chateação, dificuldade, mais coisas para ter paciência, para tolerar e resolver... Preciso de paz.  

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