Essa brisa fresca que entra pela janela do estúdio ao anoitecer finalmente, anuncia a melhor parte do ano. O cheiro dos biscoitos amanteigados no forno me desencoraja agora a acender o incenso que geralmente deixo queimando no altar neste horário. Aproveito para escrever e desenhar enquanto espero o lanche ficar pronto e mantenho assim a escrita e o desenho livres dentro da rotina. O céu está cravejado de estrelas e a festa dos grilos no jardim já começou. Metade dia, metade noite. Parecido com a manhazinha. E a lua minguante irá surgir só mais tarde, de madrugada, quando tudo estiver quieto. Agora, é o momento do dia em que tenho a sensação recorrente de expectativa sobre algo de muito bom. Difícil explicar, como acontece com os sonhos... Você põe em palavras e tudo parece meio besta. Será que todo mundo sente algo assim nesse horário? Me vem na cabeça um monte de pequenos fragmentos aparentemente sem sentido. Uma cadeira de palhinha, um lustre colorido, uma mesa para muitas pessoas, cartas de tarô, uma senhora com cabelos presos e roupas de uma época que nem sei dizer qual é... uma janela com cortinas pesadas, toalhinhas de renda, árvores, caminho de terra seca, cavalos, chapéus, uma pensão. Uma sensação tão boa de acolhimento, de segurança, de que alguém muito esperado irá entrar pela porta, luzes amareladas... E agora, essa brisa aqui nos ombros me lembra, são tantos planos, tanto trabalho a fazer... Tantas idéias borbulhando e ansiedade para vê-las no mundo real... No entanto, tenho sentido um cansaço preocupante, uma vontade de dormir que não me pertence. Assisti três filmes de ontem pra hoje. Três! Isso não pode ser normal. Quieta, em frente a uma televisão? Mas, serei compreensiva comigo dessa vez. A guerra que foi o ano passado...Todo aquele desgaste... Não é inacreditável o quanto podemos suportar sozinhos sem sermos destruídos? E agora, ainda estou aqui, caminhando sobre as cinzas... recuperando forças... Reacender a chama é a parte que sempre exigiu mais.
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