Apesar do cheiro de pizza vindo do vizinho estar me desconcentrando um pouco, estou tentando pôr as pequenas coisas em ordem. Na maioria das vezes eu quero e ao mesmo tempo não quero falar sobre elas, parar pra refletir, analisar... Talvez eu precise mais do que tenho vontade, é isso. E em nome da manutenção do mínimo de sanidade, faço esse esforço, mas nem tanto também. Especialmente quando são miudezas, coisinhas, um furinho a toa na boia... Tendo a não dar tanta atenção, ou procuro não deixar ocuparem espaço na minha cabeça. Mas, quando se tornam um enxame, começa a ficar ligeiramente preocupante. Aí preciso ver um dia para sentir essas pequenas dores pelas quais vou evitando me entristecer por falta de tempo. Hoje acabou sendo um bom dia para isso. Não dormi bem... acordei muitas vezes durante a noite. E talvez isso tenha comprometido o meu horário um pouco, porque não produzi, não estudei, nenhuma idéia ficou boa, minha concentração está uma droga.
Fui para a academia, pelo menos. Me arrastando pelo caminho. Encontrei a gatinha ali do outro condomínio. Todo dia ela vem me cumprimentar... Mas, aí, fiquei triste por isso também. Lembrei que há três anos, quando eu passei uns dias fora de casa e voltava só pra conferir a comida e a água do Mambo, ele ficou claramente deprimido. Ele tem feito muita falta. E quando começo com essas lembranças vou seguindo num trem fantasma de memórias tristes e pequenas chateações antigas e recentes que nem passam pela minha cabeça normalmente, como se de fato não existissem. Mas, a cabeça é um computador, tudo sempre esta lá em algum nível, por mais inacessível que pareça.
Estou sentindo muitas dores hoje, nem sei de onde arranjei forças pra ir levantar uns pesos. Talvez tenha sido esse senso de auto preservação. Já que está ruim, se eu me mexo, existe uma chance de encontrar uma posição mais confortável. Ficar parada é desconforto certo. No, entanto, aquele dois de paus hoje de manhã já estava me preparando para o dia. Embora a rotina tenha seguido normalmente, nada pareceu sair do lugar. Fiz um chá, mas nem ouvi música, nem li nada de legal... O silêncio está agradável. Tirando esses projetos de foguete que deram errado passando toda hora aqui na rua.
Ser introspectiva e introvertida num mundo barulhento onde não respeitam seu espaço, seu jeito, seu tempo, seu silêncio sempre foi motivo de muita frustração. Não para mim, claro. As expectativas depositadas em mim, as projeções, a carência e o egocentrismo de quem pensa que os outros existem para entretê-los ou servi-los acabam tornando as situações pesadas e cansativas para quem não se manca. Isso somado à intromissão e intimidade forçada só contribuem ainda mais para o Himalaia, onde me refugio, ficar ainda mais alto e distante do resto do mundo. E só eu sei o que me fechou, o que me tornou cautelosa e isolada. Disponibilidade zero para marias mijonas, vitimistas e chorões.
Sempre existe muita oportunidade para mostrar o seu valor na minha vida, pra quem se interessa. Mas, raramente acontece. E meu critério não é assim tão alto. Poderia ser. Não é. E nem vou entrar numa reflexão sobre isso porque o assunto é outro. Em especial, no ano passado houveram centenas dessas oportunidades. Teve polícia... Ministério Público... Gente louca em excesso. Precisei de muitas coisas, dessas que qualquer pessoa que se importasse o mínimo comigo poderia oferecer. Mas, como sempre, eu estava sozinha. Curioso, pois, sempre houveram aqueles que praticamente levei no colo. Gente com quem passei dias inteiros oferecendo apoio, conforto, companhia. Gente por quem eu arrisquei coisas extremamente importantes, por quem eu iria até o inferno tirar satisfação com o demônio, por quem fiz malabarismos com meu tempo, meus compromissos, meu dinheiro, meu espaço. E que estaria, de um jeito ou de outro, completamente incluída como parte da minha vida. Porque, podem me achar maluca, não entender absolutamente nada sobre a forma como vejo as coisas, mas para a alegria ou a tristeza dessas pessoas, eu sou de verdade. Não vou ficar fazendo teatro a troco de nada. E todas sabem disso! A vida é curta demais para certas bobagens. No entanto, até este momento, continuo lidando sozinha com cada pequeno foco de incêndio que se inicia e pra mim isso é uma constante desde o início. Normal. Cada um que cuide da sua vida e é isso aí. Parem de depositar expectativas sobre mim. Parem de esperar sorrisos, simpatia, qualquer tipo de cuidado ou atenção da minha parte. De tanto ir pra guerra sozinha, me acostumei e comecei até a achar bom. Então, já que nas minhas guerras estou sozinha, espero que na minha paz me deixem sozinha também. Oportunistas. Abusadores. Covardes. A carapuça tá aí para qualquer um.
quarta-feira, 17 de abril de 2024
De Probleminhas e Guerras
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