sábado, 23 de março de 2024

Mão de Fogo

Poucas coisas me desanimam tanto quanto ser obrigada a ter aulas com alguém que não entende do assunto e principalmente, não entende as minhas dúvidas. É a realização daquela máxima irônica das ironias: quando o interlocutor é burro, quem fica parecendo burro é você. E o pior tipo de "professor" é o burro motivado. Muito cheio de cobranças, críticas, mistérios, tem clareza sobre nada, ensina errado, dá voltas demais, tem observações que acredita ser grandes insights baseados na sua experiência que sempre se revelam besteiras e ignorâncias tão grandes, ao ponto de toda e qualquer coisa dita precisar passar antes pelo crivo dos mais antigos e experientes para então ser aceita e aplicada sem medo por mim. Muitos preconceitos... Daqueles que realmente confundem alunos com crianças. 

A sinuca de bico da situação é que não é tão simples reportar essa incompetência àqueles que deveriam saber dela urgentemente... E, na ausência de alguém mais para conversar sobre esse assunto específico, na minha dificuldade de mobilização no caso, prefiro vir aqui no espelho e colocar em palavras... clarear a mente. Temperança é uma virtude necessária. Porque, sabe? Mais isso! Tem sido demais... Do ano passado para cá venho me libertando do peso em excesso e fui deixando o máximo possível pelo caminho. Mas, mesmo assim não tem sido muito fácil. Até lamento o excesso de negatividade durante esse tempo por aqui... Porém, lidando assim, escrevendo para mim mesma, consigo manter o foco no objetivo e seguir na prática o sábio conselho do mestre em seu Epílogo: 

Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada aguenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe... Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade.

Aliás, sua morte me proporcionou a experiência da tristeza real de se concluir a leitura da obra completa de um gigante que já se foi... Quando fechei aquele livro, uma década depois, contendo tudo, poemas, aforismos, textos diversos... e pensei "não haverá mais nada, nenhuma novidade depois disso.", bateu um vazio. Foi numa época de sentimentos transbordantes, sensibilidade e abertura nível Biografia de Van Gogh paralelamente ao Cartas a Theo, com as discografias de Damien Rice e de Philip Glass nos fones de ouvido, voltando para casa à noite, de ônibus em dias de chuva e indo dormir sozinha com uma enorme necessidade de companhia e orientação. Não sinto saudades desse período. Na verdade, sinto que apesar dos ganhos imensos, perdi muito tempo também. E isso é irrecuperável. O que me leva à algumas questões importantes: será que é exatamente o que acontece outra vez? Estou perdendo o meu tempo de novo? Meu caminho passa mesmo por aí? Não muito diferente de então. E nem tem nenhum professor, burro que seja, para me orientar, outra vez. O coração segue flamejante, a abertura nunca foi maior, a sensibilidade tem surpreendido pelos resultados, embora a solidão agora seja uma aliada...

Procuro ir até o fim com as coisas, embora os sinais antecipando o desfecho trágico sejam evidentes, em alguns casos. O que não me parece ser esse também, apesar das dificuldades... Sigo e vou ouvindo os conselhos pelo caminho. Acatando? Na maioria das vezes, não. Mas, esse é um caso especial. Fui avisada desde o início sobre os entraves, inclinações e curvas na estrada. Continuo com coragem. Onde quer que isso me leve, cumprirei a missão, os votos e sei que poderei fazer algo de bom no fim. Sem estapear algumas caras? Aí já não posso dizer... Hahaha... 

Nenhum comentário: