Um desinteresse quase completo e uma certa dificuldade para interações em geral. Preferência por estar só, mesmo em locais com bastante gente conhecida. Habilidade para trabalhar em grupo apenas se puder fazer a tarefa de forma independente dos outros, evitando a interação. Realmente não me faz falta estar com pessoas e ao mesmo tempo, existe uma sensação triste de falta de mais amigos. Ainda ouço meu nome muitas vezes antes de atender, especialmente se quem me chama for alguém familiar, do meu convívio. Desconforto em contatos visuais com estranhos, em apresentações e aulas. Apesar de um enorme esforço de atenção na rua e em locais com outras pessoas, mil coisas já aconteceram, inclusive situações perigosas, e eu sequer notei, fico sempre sabendo mais tarde. Uma aparente ingenuidade infantil persiste.
Quando criança, apontava bastante e esperava que entendessem o que eu queria. Com o tempo, aprendi a me comunicar mais claramente, porque percebi o quanto isso era ruim e causava problemas na minha família. Ali ninguém se comunica direito. Um dia comecei a notar que as letras e música estavam comunicando coisas, começou com Atirei o pau no gato. Músicas e imagens são meios de comunicação tão melhores... E depois de explorá-los bastante e criar uma ligação tão grande com eles, não foi tão difícil para a minha mãe me ensinar a ler e escrever... Letras e palavras são desenhos que expressam sons, sentimentos e identificam as coisas, afinal... Escrever continua sendo melhor do que falar in loco.
Separava os lápis de cores em pares, como se um fosse menino e o outro menina. Enfileirava os brinquedos, pedras, conchas, peças. Empilhava coisas. Passava horas observando plantas e formigas. Quando surgia um cogumelo, ficava muito intrigada. Saber que existia uma coleção de qualquer coisa que eu tivesse só uma ou algumas peças me angustiava demais, até completar tudo. Ainda tenho meus álbuns de figurinha, todos são completos, porque até vender as frutas do quintal eu vendia para conseguir completar.
Uma aversão, quase um pânico, de ambientes muito cheios, exceto shows, onde me sinto muito confortável, na verdade. Subia nas mesas do trabalho da minha avó e cantava Carinhoso... músicas antigas que minha avó curtia... Gostava mais de pessoas mais velhas que eu, ou que pelo menos, aparentavam ser. Sentia mais conforto assim. Isso não mudou. Fui convidada ao palco, num show do Daniel Azulay, que eu era mega fã. Peguei aquele microfone e ninguém nunca mais me tiraria dali, não fosse minha mãe dizendo que íamos embora porque meu avô queria... Pediram o contato, ninguém deu... Minha mãe só tinha 22 anos... Ai, ai... Porém, uma vez me levou num clube na Praça Seca que tinha carnaval pra crianças, eu amava me fantasiar e ir no carnaval com meus pais numa rua aqui de perto, jogava água nos bate-bolas com garrafinhas de lança-perfume. Mas, nesse dia eu odiei. Nem era uma criança de chorar a toa, e comecei a chorar, assim que chegamos. Amava ir pra escola, mas dava muita ansiedade quando as professoras ensinavam coisas que eu já conhecia... Quando fui estudar num colégio que tinha semi-internato para as pessoas de comunidades próximas, senti medo. Sempre brinquei com as crianças da rua da minha avó... a maior molecada... Mas, ali, eu senti medo... as meninas na fila pareciam agressivas demais. E só comecei a perceber que havia uma certa rejeição, que eu fazia algo de errado, na quarta série. Daí pra frente é só ladeira abaixo nesse sentido. Nunca consegui, nem consigo explicar ainda.
Tenho familiaridade com metáforas e ironias porque exercito bastante. Adoro, na verdade! Acho bonito e poético, engraçado... No entanto, demoro um pouco mais do que os demais para captar essas nuances algumas vezes, especialmente quando não tenho familiaridade com o assunto ou a pessoa... Até textos que eu mesma escrevo, não entendo imediatamente. Parece que existe algo na minha cabeça que vai mais rápido do que eu e escreve as coisas. Talvez seja por isso que escrevendo entendo melhor o que se passa, inclusive comigo. Na verdade, eu sempre compreendia muito melhor os assuntos da escola, alguns meses depois de dada a matéria. Ia bem nas provas, muito mais porque me esforçava e preparava exatamente para fazer provas. Para entender de verdade e ganhar fluência eu precisava focar nos textos e exercícios por algum tempinho sozinha, com métodos de estudo que eu mesma criava para mim. Engraçado, sempre achei que isso se devesse a eu ter sido adiantada na escola e todo mundo sempre ser mais velho...
Em geral, há uma sensação horrível de avassalamento e deslocamento em multidões e grupos muito grande de pessoas. Sinto muito mais a situação do que percebo sinais não verbais e tendo a não entender nada quando alguns ficam nervosos por coisas que apenas constatei e são fatos... Procuro até usar palavras mais tranquilas do que aquelas que me vêm primeiro à mente, hesito em falar sem pensar antes, tenho a fala lenta, principalmente com pessoas de menor convívio, e procuro explicar meu raciocínio desde a sua semente, justamente para não haver confusão. Muitas vezes, a precipitação, a ansiedade e a falta de educação dos outros é que impedem que meu pensamento seja compreendido. Porque sequer consigo concluí-lo devidamente. Acabo, nesses casos, falando rápido qualquer coisa e tudo sai de uma forma que fica mal explicada e mal compreendida, prolongando a situação adversa, ainda que minha intenção seja encurtá-la. A quantidade de mal entendidos provenientes dessa questão podem preencher uma bíblia. No entanto, quando sinto conforto, a conversa flui naturalmente, do contrário, a comunicação é simplesmente cortada porque não sou obrigada.
Sons muito barulhentos, gritos, tosses altas, obras, motos que passam na rua, sons ou movimentos repetitivos, luzes fortes, gente histérica ou espalhafatosa, brigas, textura de borracha nas roupas, toques suaves no meu corpo me irritam, me estressam, me assustam e às vezes me causam dor física. Uma vez fui acordada por um helicóptero da polícia que voava muito próximo ao meu telhado... aquilo causou uma crise de choro incontrolável, não sei explicar. E essa não é uma situação isolada... bagunça já me desestabilizou dessa forma... me colocarem em situação de responsabilização por coisas que não são minhas... mexerem nas coisas da minha casa, como o relógio de luz, o registro do gás, o capacho da porta... Coisas que acabam em casa, sem que eu seja informada antes de querer usá-las... Motoristas no trânsito que me põem em risco ou atrapalham o meu caminho descumprindo leis e regras... Tudo isso já me deixou em estado de quase ataque cardíaco. No entanto, acho que tenho dificuldade de expressar dor ou qualquer outra sensação. Ninguém entende quando falo que algo está realmente doendo ou que realmente me incomoda. Acho que sou confusa com sentimentos também... Sempre pensam que não me importo com os outros, que não gostei tanto de algo, que não tenho empatia, que não fico triste com coisas que nem me dizem respeito, mesmo havendo dedicado muito do meu tempo, dinheiro e energia a um monte de gente. Só percebo isso por causa do feedback.
Sou extremamente focada no que me interessa praticar e aprender. Isso pode durar horas, dias, semanas, meses, anos... E varia com o tempo porque me interesso realmente por muitas coisas. Até tomo decisões de última hora, porém, me sinto mais confortável com o planejamento da semana toda. Ser obrigada a sair da rotina é bem estressante. A organização dos meus livros, materiais, roupas, sapatos, arquivos, trabalhos, segue alguma lógica: cor, forma, tamanho, alfabeto, número... Dá uma agonia muito grande ver estojos de hidrocor ou lápis de cor dos alunos fora da ordem do espectro cromático. Gente cantando desafinado, instrumentos desafinados, letras erradas, erros de tempo ou nota nas músicas são insuportáveis. E coisas desalinhadas me dispersam... quadros... móveis... carros no estacionamento... sujeira... bagunça...
Quando criança, apontava bastante e esperava que entendessem o que eu queria. Com o tempo, aprendi a me comunicar mais claramente, porque percebi o quanto isso era ruim e causava problemas na minha família. Ali ninguém se comunica direito. Um dia comecei a notar que as letras e música estavam comunicando coisas, começou com Atirei o pau no gato. Músicas e imagens são meios de comunicação tão melhores... E depois de explorá-los bastante e criar uma ligação tão grande com eles, não foi tão difícil para a minha mãe me ensinar a ler e escrever... Letras e palavras são desenhos que expressam sons, sentimentos e identificam as coisas, afinal... Escrever continua sendo melhor do que falar in loco.
Separava os lápis de cores em pares, como se um fosse menino e o outro menina. Enfileirava os brinquedos, pedras, conchas, peças. Empilhava coisas. Passava horas observando plantas e formigas. Quando surgia um cogumelo, ficava muito intrigada. Saber que existia uma coleção de qualquer coisa que eu tivesse só uma ou algumas peças me angustiava demais, até completar tudo. Ainda tenho meus álbuns de figurinha, todos são completos, porque até vender as frutas do quintal eu vendia para conseguir completar.
Uma aversão, quase um pânico, de ambientes muito cheios, exceto shows, onde me sinto muito confortável, na verdade. Subia nas mesas do trabalho da minha avó e cantava Carinhoso... músicas antigas que minha avó curtia... Gostava mais de pessoas mais velhas que eu, ou que pelo menos, aparentavam ser. Sentia mais conforto assim. Isso não mudou. Fui convidada ao palco, num show do Daniel Azulay, que eu era mega fã. Peguei aquele microfone e ninguém nunca mais me tiraria dali, não fosse minha mãe dizendo que íamos embora porque meu avô queria... Pediram o contato, ninguém deu... Minha mãe só tinha 22 anos... Ai, ai... Porém, uma vez me levou num clube na Praça Seca que tinha carnaval pra crianças, eu amava me fantasiar e ir no carnaval com meus pais numa rua aqui de perto, jogava água nos bate-bolas com garrafinhas de lança-perfume. Mas, nesse dia eu odiei. Nem era uma criança de chorar a toa, e comecei a chorar, assim que chegamos. Amava ir pra escola, mas dava muita ansiedade quando as professoras ensinavam coisas que eu já conhecia... Quando fui estudar num colégio que tinha semi-internato para as pessoas de comunidades próximas, senti medo. Sempre brinquei com as crianças da rua da minha avó... a maior molecada... Mas, ali, eu senti medo... as meninas na fila pareciam agressivas demais. E só comecei a perceber que havia uma certa rejeição, que eu fazia algo de errado, na quarta série. Daí pra frente é só ladeira abaixo nesse sentido. Nunca consegui, nem consigo explicar ainda.
Tenho familiaridade com metáforas e ironias porque exercito bastante. Adoro, na verdade! Acho bonito e poético, engraçado... No entanto, demoro um pouco mais do que os demais para captar essas nuances algumas vezes, especialmente quando não tenho familiaridade com o assunto ou a pessoa... Até textos que eu mesma escrevo, não entendo imediatamente. Parece que existe algo na minha cabeça que vai mais rápido do que eu e escreve as coisas. Talvez seja por isso que escrevendo entendo melhor o que se passa, inclusive comigo. Na verdade, eu sempre compreendia muito melhor os assuntos da escola, alguns meses depois de dada a matéria. Ia bem nas provas, muito mais porque me esforçava e preparava exatamente para fazer provas. Para entender de verdade e ganhar fluência eu precisava focar nos textos e exercícios por algum tempinho sozinha, com métodos de estudo que eu mesma criava para mim. Engraçado, sempre achei que isso se devesse a eu ter sido adiantada na escola e todo mundo sempre ser mais velho...
Em geral, há uma sensação horrível de avassalamento e deslocamento em multidões e grupos muito grande de pessoas. Sinto muito mais a situação do que percebo sinais não verbais e tendo a não entender nada quando alguns ficam nervosos por coisas que apenas constatei e são fatos... Procuro até usar palavras mais tranquilas do que aquelas que me vêm primeiro à mente, hesito em falar sem pensar antes, tenho a fala lenta, principalmente com pessoas de menor convívio, e procuro explicar meu raciocínio desde a sua semente, justamente para não haver confusão. Muitas vezes, a precipitação, a ansiedade e a falta de educação dos outros é que impedem que meu pensamento seja compreendido. Porque sequer consigo concluí-lo devidamente. Acabo, nesses casos, falando rápido qualquer coisa e tudo sai de uma forma que fica mal explicada e mal compreendida, prolongando a situação adversa, ainda que minha intenção seja encurtá-la. A quantidade de mal entendidos provenientes dessa questão podem preencher uma bíblia. No entanto, quando sinto conforto, a conversa flui naturalmente, do contrário, a comunicação é simplesmente cortada porque não sou obrigada.
Sons muito barulhentos, gritos, tosses altas, obras, motos que passam na rua, sons ou movimentos repetitivos, luzes fortes, gente histérica ou espalhafatosa, brigas, textura de borracha nas roupas, toques suaves no meu corpo me irritam, me estressam, me assustam e às vezes me causam dor física. Uma vez fui acordada por um helicóptero da polícia que voava muito próximo ao meu telhado... aquilo causou uma crise de choro incontrolável, não sei explicar. E essa não é uma situação isolada... bagunça já me desestabilizou dessa forma... me colocarem em situação de responsabilização por coisas que não são minhas... mexerem nas coisas da minha casa, como o relógio de luz, o registro do gás, o capacho da porta... Coisas que acabam em casa, sem que eu seja informada antes de querer usá-las... Motoristas no trânsito que me põem em risco ou atrapalham o meu caminho descumprindo leis e regras... Tudo isso já me deixou em estado de quase ataque cardíaco. No entanto, acho que tenho dificuldade de expressar dor ou qualquer outra sensação. Ninguém entende quando falo que algo está realmente doendo ou que realmente me incomoda. Acho que sou confusa com sentimentos também... Sempre pensam que não me importo com os outros, que não gostei tanto de algo, que não tenho empatia, que não fico triste com coisas que nem me dizem respeito, mesmo havendo dedicado muito do meu tempo, dinheiro e energia a um monte de gente. Só percebo isso por causa do feedback.
Sou extremamente focada no que me interessa praticar e aprender. Isso pode durar horas, dias, semanas, meses, anos... E varia com o tempo porque me interesso realmente por muitas coisas. Até tomo decisões de última hora, porém, me sinto mais confortável com o planejamento da semana toda. Ser obrigada a sair da rotina é bem estressante. A organização dos meus livros, materiais, roupas, sapatos, arquivos, trabalhos, segue alguma lógica: cor, forma, tamanho, alfabeto, número... Dá uma agonia muito grande ver estojos de hidrocor ou lápis de cor dos alunos fora da ordem do espectro cromático. Gente cantando desafinado, instrumentos desafinados, letras erradas, erros de tempo ou nota nas músicas são insuportáveis. E coisas desalinhadas me dispersam... quadros... móveis... carros no estacionamento... sujeira... bagunça...
Depois de toda a minha história... é fácil atribuir algumas dessas características ao que passei nos primeiros 20 anos da minha vida... Ou até mesmo, à depressão, ao abandono e ao limbo em que vivi pelos dez anos que se seguiram. Sempre achei que nunca me ajustaria mesmo... que precisava simplesmente aceitar... e nunca entendi isso. Mas, para a minha surpresa, quem diria, a essa altura da vida descobri que na verdade estou totalmente na moda!
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