Lá está ele, olhos irônicos e cansados brilhando na escuridão, mantendo sua distância segura. Não leva, nem larga. Fica, mas de longe. Chega perto apenas quando já não aguenta mais, quando a fome transborda e começa a elouquecer, quando imagina ter sido esquecido, feito parte da paisagem, quando acredita ter ficado tempo suficiente para nem mesmo ser mais notado, quando tudo parece mais fácil. Mas, de longe, imóvel, ele planeja meticulosamente a abordagem. O que acontece raramente, defensivamente, resistentemente, medrosamente, covardemente, no escuro, na tocaia. Seu vício é o controle. Ai! Posso imaginar a sua dor... Arrancando as próprias unhas, pesando em sua espinha e revirando o estômago como liquidificador. E por isso a fome sempre é grande, louca e voraz. No escuro ele contém sua dor, evita comer. Rejeita, antes que seja rejeitado. Foi isso o que aprendeu. Essa foi sua conclusão cansada. Teme sua própria sombra: a defesa, a resistência, o medo, a covardia, o escuro e a tocaia. Ele precisa controlar! Precisa ser o caçador, mas ainda é jovem demais. Não aprendeu o principal. Quem não arrisca nada, arrisca tudo. Um dia precisa ser o da caça para que o dia do caçador venha em êxtase. A caça só é boa quando o risco existe. Justamente o que ele procura evitar. Sem risco, sem jogo. Sem dor, sem ganho. Sem luta, sem glória. Sem guerra, sem heróis. E essa é a sua maior fraqueza, a fonte de sua agonia. Em agonia ele planeja, calcula e sente as dores do receio correndo em seu sangue frio. Cada passo é planejado, cada piscar de olhos... Ele empina o nariz para o alto, não enxerga muito bem, mas fareja e assim julga, diferencia, agrupa, divide, separa osso de carne em cada piscar de olhos, em cada movimento e em seus julgamentos a língua roça os dentes uma idéia que não foi sua: julgar não é inteligente. Ora, ora, mais essa agora! Isso é o que chamo de ironia. Então, resolve atacar, apenas quando a cabeça espreitada está mais baixa que a sua, apenas quando a ele se estende uma mão. Aí sim! Aí morde, rosna, arranha, finca suas garras, lambuza com sua saliva venenosa e sai correndo para a escuridão, outra vez. Mas continua ali. Sempre ali. Rondando, à espreita, esperando ouvir qualquer gemido, qualquer sussurro, qualquer grito de dor. Pois está nisso a sua satisfação. Nunca pretende saciar a fome, ele gosta de ser assim, faminto. Foi o que entendeu quando ouviu um galo cantar sobre o vazio e a sabedoria de se esvaziar. Teme a aproximação, pois há sempre o risco de sair ferido, ou de nunca mais conseguir fugir. Assim, se contenta. Vendo a ferida que causou, engana suas próprias dores. Para ele, basta saber que feriu, que conseguiu submeter e controlar. É esse o seu jogo. É esse o seu prazer. E é isso o que chamo de cansaço.
3 comentários:
Carol é sniper, hein! Cuidado, você aí, escondido no escuro.
Quem se esconde sente medo, Carol... Não leve a mal.
Ah, eu levo a mal sim! Acho feio, babaca e covarde. Se não quer se relacionar comigo, então não venha aqui se relacionar com as minhas palavras. Elas são ainda mais volúveis do que meu coração. Eu só gostaria de entender o que fiz. É tudo MUITO gratuito.
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