Seu aniversário havia sido no dia anterior. Ela decidiu não vê-lo, então, hoje ele lhe trouxe numa pequena bolsa o seu presente. Era um frasco de perfume bonito, mas talvez ela tivesse escolhido uma outra fragrância. Não importava. Agora, nada mais importava. Ele tentou pegar em suas mãos, mas foi recusado. E então entendeu bem o que estava prestes a acontecer. Era uma despedida e nada que ele pudesse dizer mudaria isso. Estava decidido. Tudo havia sido planejado. Aquele era o momento derradeiro. Mas, não foi fácil. A cada palavra dita algo morria dentro dela, lenta e dolorosamente. Há quanto tempo sustentou aquela dor? Quanto havia tentado melhorar as coisas? Por quanto tempo esperou e manteve a calma, teve paciência? Nada disso importava agora. Era pesado demais. Ela sabia que havia acabado, porque alguma coisa dentro dela sempre sabia quando era hora de ir. Agora ele estava agradecendo e isso doeu ainda mais. Agradecer significava que não eram mais uma dupla. Ninguém agradece a um parceiro. O parceiro é você e você é ele. Gratidão demanda separação, distanciamento. Ela apenas o amava profundamente, sinceramente. Não se agradece esse tipo de coisa.
Ele, uma parte sua, estava sendo decepado como um membro gangrenado. Seus olhos, a lua cheia bem atrás de sua cabeça. Seus cabelos cortados... De repente as palavras dele foram abafadas pouco a pouco e ela deixou seus pensamentos vagarem até o dia em que, de longe, notou seus cabelos cortados. Como seu coração se acelerou! Como aquilo a havia magoado! Como tinha sido triste! Tanto estava mudando e aquilo fora apenas mais um ato simbólico de que ele começava a mudar as suas cores e a partir. Não sem antes partir seu coração. Não sem matá-la um pouquinho todos os dias, não sem antes apagar o seu brilho pouco a pouco, por um bom tempo.
Quando ela voltou a ouvir o que ele estava dizendo, a frase não fez sentido. Mas nem se importou em perguntar. Não era culpa de ninguém. Essas coisas acontecem o tempo todo, mas ali ela era ainda jovem demais e esta seria apenas uma entre as muitas lições sobre impermanência, aceitação e morte. Mas, como lidar com a morte e a destruição, o caos, de uma forma construtiva bem no auge do turbilhão em que a vida se encontra? Então, começou a falar e falar... Palavras desconexas, de sentido vago, subjetivas demais. Não houve qualquer esforço de coerência ou comunicação ou clareza. Ela falava para não explodir, falava para manter a sua luz acesa. E as lágrimas pintavam em seu rosto o perfeito retrato da perda.
Quando ela voltou a ouvir o que ele estava dizendo, a frase não fez sentido. Mas nem se importou em perguntar. Não era culpa de ninguém. Essas coisas acontecem o tempo todo, mas ali ela era ainda jovem demais e esta seria apenas uma entre as muitas lições sobre impermanência, aceitação e morte. Mas, como lidar com a morte e a destruição, o caos, de uma forma construtiva bem no auge do turbilhão em que a vida se encontra? Então, começou a falar e falar... Palavras desconexas, de sentido vago, subjetivas demais. Não houve qualquer esforço de coerência ou comunicação ou clareza. Ela falava para não explodir, falava para manter a sua luz acesa. E as lágrimas pintavam em seu rosto o perfeito retrato da perda.
Ambos se calaram. Encaravam-se tristemente e o mundo pareceu deixar de existir por um momento. Exatamente como há quatro anos e meio atrás, quando ela enclinou sua cabeça para cima e ele confessou palavras carinhosas guardadas por muitos meses, desde o dia em que se falaram pela primeira vez. O que ele estaria pensando agora? Da primeira vez ela sentiu uma profunda sensação de paz e pertencimento. Parecia uma união eterna e perfeita. Agora uma imensa solidão invadia seu espírito. Seu segundo nome era rejeição, mas não se lebrava de ter alguma vez se sentido tão só. Seu coração estava vazio e toda a história que havia criado em suas ilusões apagava-se. Uma onda lambia da praia as palavras escritas na areia.
Então, ela recitou um trecho de uma canção que um dia ouviram juntos, no auge de sua felicidade. "Sei que algum dia você terá uma bela vida, sei que será uma estrela, brilhando no céu de alguém. Mas por quê? Por quê? Por quê não pode ser no meu?" Ele apenas sorriu com pesar e disse saber que em algum momento se arrependeria muito de estar deixando aquilo acontecer sem lutar. Sabia que sim. Se arrependeria de desistir e seguir em outra direção. Mas sabia também que se alguém seria uma estrela entre eles dois, essa era ela. Apenas ela, com sua obstinação flamejante. Apenas ela com seu brilho iluminando as ruas por onde passa. Apenas ela, com seu sorriso enorme e seus longos cabelos. Apenas ela, com seus múltiplos talentos e habilidades ainda não descobertos. Apenas ela, a quem ele por fim deu as costas e desceu a ladeira, com a cabeça baixa, seguindo seu rumo incerto em busca de coisas que para ela eram tão naturais. Autossuficiência, imponência e vontade de ferro. Ela não precisava, nem desejava, até mesmo, recusava aceitação. Mas, ele... não enxergava sua própria luz. Precisava de aplausos, de espelhos, de uma bela imagem diante de todos, do jogo, da fama e do poder. Pois, enquanto ela estava farta e fugia de qualquer pertencimento, ele nunca havia sentido o gosto do luxo e do lustre social.
Apenas a luzinha de um poste e o luar iluminavam o caminho. Apenas o vento lhe fazia companhia agora. Estava por conta própria. Mas, sempre esteve por conta própria... Ela o observou por um tempo, andando sem olhar para trás. Roupas velhas, botas surradas, mãos vazias, a cabeça borbulhando de sonhos e ilusões. Com aquele mesmo caminhar cheio de pose que ela esperara de sua janela por tantas noites. Agora ele seguia para longe de seus olhos e de seu coração. E quando ele já estava quase sumindo lá no fim da ruazinha, um pouco antes de virar a esquina para sempre, ela sentiu seu peito queimar. Mas, antes que aquele fogo a atirasse na direção errada, fechou os olhos, cerrou os punhos e virou as costas. De repente, começou a correr. Correu como se enxergasse todo o caminho à sua frente. Correu sangrando, correu com medo. Correu o mais rápido que pôde. Correu, não pensou, correu apenas. Dessa vez não tentaria consertar as coisas. Dessa vez deixaria ser.
E naquela noite as estrelas não se acenderam.
Exceto uma que, solitária, cruzou velozmente a escuridão.
Então, ela recitou um trecho de uma canção que um dia ouviram juntos, no auge de sua felicidade. "Sei que algum dia você terá uma bela vida, sei que será uma estrela, brilhando no céu de alguém. Mas por quê? Por quê? Por quê não pode ser no meu?" Ele apenas sorriu com pesar e disse saber que em algum momento se arrependeria muito de estar deixando aquilo acontecer sem lutar. Sabia que sim. Se arrependeria de desistir e seguir em outra direção. Mas sabia também que se alguém seria uma estrela entre eles dois, essa era ela. Apenas ela, com sua obstinação flamejante. Apenas ela com seu brilho iluminando as ruas por onde passa. Apenas ela, com seu sorriso enorme e seus longos cabelos. Apenas ela, com seus múltiplos talentos e habilidades ainda não descobertos. Apenas ela, a quem ele por fim deu as costas e desceu a ladeira, com a cabeça baixa, seguindo seu rumo incerto em busca de coisas que para ela eram tão naturais. Autossuficiência, imponência e vontade de ferro. Ela não precisava, nem desejava, até mesmo, recusava aceitação. Mas, ele... não enxergava sua própria luz. Precisava de aplausos, de espelhos, de uma bela imagem diante de todos, do jogo, da fama e do poder. Pois, enquanto ela estava farta e fugia de qualquer pertencimento, ele nunca havia sentido o gosto do luxo e do lustre social.
Apenas a luzinha de um poste e o luar iluminavam o caminho. Apenas o vento lhe fazia companhia agora. Estava por conta própria. Mas, sempre esteve por conta própria... Ela o observou por um tempo, andando sem olhar para trás. Roupas velhas, botas surradas, mãos vazias, a cabeça borbulhando de sonhos e ilusões. Com aquele mesmo caminhar cheio de pose que ela esperara de sua janela por tantas noites. Agora ele seguia para longe de seus olhos e de seu coração. E quando ele já estava quase sumindo lá no fim da ruazinha, um pouco antes de virar a esquina para sempre, ela sentiu seu peito queimar. Mas, antes que aquele fogo a atirasse na direção errada, fechou os olhos, cerrou os punhos e virou as costas. De repente, começou a correr. Correu como se enxergasse todo o caminho à sua frente. Correu sangrando, correu com medo. Correu o mais rápido que pôde. Correu, não pensou, correu apenas. Dessa vez não tentaria consertar as coisas. Dessa vez deixaria ser.
E naquela noite as estrelas não se acenderam.
Exceto uma que, solitária, cruzou velozmente a escuridão.
Um comentário:
Queria ter essa sua habilidade de transformar dor em poesia e acender quando tudo em volta está escuro. Tô aprendendo.
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