Acredito que o maior empecilho à originalidade é o modo como usamos nossa memória. A princípio, a memória é a grande aliada do aprendizado que, quando bem empregado, ajuda na sobrevivência, nas relações humanas e na execução de tarefas. Por outro lado, o aprendizado pode ser muito limitante e um grande bloqueio à criatividade. É enquanto somos crianças a época mais criativa, e por quê? Porque tudo indica que não sabemos muita coisa, é nesse período que percebemos isso com muita clareza e então ficamos abertos a tudo. Como turistas chegando numa cidade nova, estamos tão alertas e interessados que talvez vivenciemos mais as belezas do local do que seus próprios habitantes. Ficamos surpresos, assombrados e apaixonados muito mais facilmente. E, ao longo da vida, a tendência é que as surpresas se tornem raras, pois, com a ilusão de que agora sim sabemos de muita coisa, tudo vai também perdendo um pouco da graça. Nossa sorte é que isso é apenas uma ilusão. E a verdade é que somos eternos Jons Snows: sabemos de nada!
Pois, o conhecimento é sempre sobre algo que já passou e muitas vezes, nem foi adquirido por conta própria. Lemos livros, assistimos palestras e vídeos e isso, em muitos casos, parece bastar para assumirmos posições, construirmos opiniões e criarmos certezas. Certezas até mesmo sobre nós. Começamos a aceitar os nomes que nos dão ou que outros dão para as coisas e deixamos de lado o fato de esses nomes dizerem muito pouco sobre a coisa em si e muitos mais sobre a relação de alguém com aquela coisa. Essa ilusão é criada em sociedade e representada institucionalmente pela escola e pela religião. O condicionamento a que somos submetidos é tanto que, depois de um tempo, já nem sabemos mais quem somos e o que queremos com a nossa Vontade. Mas, é bom lembrar, pré-conceitos servem apenas para organizar a vida. E só.
Conhecimento é coisa do passado. "Não se mergulha duas vezes no mesmo rio." Não se fala duas vezes com a mesma pessoa e sempre acho muito estranho gente que tem sempre as mesmas respostas prontas para tudo, os mesmos comentários repetidos à exaustão para cada pessoa que encontra pelo caminho. Sei lá, parece que ela se perde com certa ilusão de segurança e algum controle que fica orgulhosa de uma conclusão e sente necessidade de mostrar pra todo mundo, criando assim uma imagem de si, uma personagem. Mas, personagens, conclusões, pensamentos, sentimentos, certezas e opiniões são nuvens condicionadas ao tempo e suas intempéries. Não é muito inteligente levá-las a sério. E, acredito que começamos a ser criativos justamente quando esquecemos de nós, quando saímos de nossas seguranças, quando deixamos de lado aquilo que achamos ser e saber para voltarmos àquele estado em que percebíamos muito claramente que nada sabemos, àquele lugar onde não aceitamos nenhum papel e não nos reconhecemos como personagem algum.
Assim, é possível liberar espaço no HD para algo que não faça parte do que estamos habituados a responder frente às perguntas que a vida nos coloca. O que sabemos fazer, o que aprendemos sobre quem somos e tudo mais, serve para algumas poucas situações, e para muitas e muitas outras, não. Insistimos em reagir da mesma forma e que um jeito só basta para responder a qualquer coisa que se apresente. Ficamos cristalizados e frustrados com o fluir da vida, o tempo todo colocando em xeque o que tentamos construir com tanto esforço, e nocauteando tudo, inclusive o personagem, o ego. Porém, a criatividade, de fato, começa ao nos levantarmos para o próximo round, sem medo de errar, sem medo de perder, aceitando o risco. Começa ao se pensar outro jeito para enfrentar problemas recorrentes e adversários, mas não usando a estratégia dele ou as maneiras dos outros. Não é procurando incorporar o conhecimento do outro sobre aquela situação, mas, sim, diante do problema, pensar numa resposta a ser dada, mesmo com o medo ali.
O que seria possível criar que fosse maior que o problema, que a fragilidade sempre presente, mas completamente sem chance diante de uma vontade que a ultrapassasse? Diferente de quando se trata de provar alguma coisa, a criatividade está completamente ligada à paixão, pois só apaixonados enfrentam a vulnerabilidade e o medo. Quando o que se deseja, se torna maior, se torna mais importante, ao ponto de deixarmos de olhar para os obstáculos e passarmos a ver apenas o objetivo. Procuramos formas, respostas, e caminhos para responder as diversas perguntas também de diversas maneiras. Assim, sou criativa quando paro de pensar e simplesmente sou, quando me esqueço dos preconceitos que tenho sobre mim e o mundo. E, deste modo, sem o menor esforço ou preocupação, acabo sendo eu mesma. Verdadeiramente.
Um comentário:
Sempre muito boas essas palestras que você arranja.
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