sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Like a Pro

Nos tempos em que eu ainda não tinha minha própria banda e estava começando a ser convidada para tocar com futuros amigos, conheci um certo editor, de uma certa revista de rock e heavy metal bastante popular. Estava sempre presente nos ensaios da Statik Majik, da qual fiz parte enquanto a banda se propunha a levar um som que contava com pianos, órgãos e efeitos de sintetizador. Era bem diferente do power metal que fazem agora, com aquele vocalista sensacional que arranjaram, mas me agradava mais. Não sou fã de metal fanático. E, bom, cada subgênero do heavy metal é tão diferente do outro que quando ouço um "ah, mas é apenas um subgênero", já sei que a pessoa gosta de falar sem conhecer e nem discuto. Enfim, fui levada pela corrrente de Ár e me desviei do que ia dizer... 

O tal editor, estava noivo. E, não sei o que acontece com os noivos, casados, mais velhos e comprometidos, mas eles sempre me adoraram. Devo causar a mesma sensação que as brechas na caixa causam às galinhas que conseguem escapar do caminhão que as levam para o abate. Não sei. Tenho esse tipo de assunto tão bem resolvido e refletido na minha cabeça... Já nem sei mais qual é a sensação de manter uma coleira voluntária no pescoço. Vez ou outra até, amigos prestes a assinar contrato, me chamam para ouvir os meus pontos, querem conselhos e opiniões, uma outra visão sobre o assunto. Imagino que é porque uma vozinha lá no fundo de suas cabeças esteja gritando que tem algo de muito errado com essa decisão e, sabendo que vejo um outro lado, me procuram. Entretanto, cada um age segundo sua vontade. No fim das contas, ninguém sabe de nada. Mas, aprendi a não levar esses contratos a sério, pois nem mesmo quem assina leva. Peço apenas que, por uma questão de bom senso, resolvam o caso em suas cabeças, no mínimo amadureçam, conversem com suas sócias... Não me usem, não me exponham, não hajam com reservas comigo, não fiquem tentando se preservar, assumam-se! E que tudo seja claro e limpo. Tenho bons ouvidos, rio à toa, me interesso profundamente quando me interesso, me mostro disponível e acolhedora, sou amiga e jovial. E sei bem o efeito desses detalhes na mente masculina. Porém, o caso citado ocorreu numa época em que o meu pensamento a respeito de relacionamentos afetivos era ainda muito imaturo, fantasioso, irreal. Esse mesmo pensamento que ronda o senso comum e ataca quase a totalidade das pessoas do mundo. 

Sim, já disse mil vezes que tenho sorte, esses noivos, comprometidos, casados, mais velhos e afins, trouxeram isso de bom. Pois, uma vez ou outra, acabaram sendo correspondidos em suas intenções e isso me fez pensar. Mas, não era o caso do editor. Além de horrorizada com aquele seu anel, ele estava longe de conseguir atender as minhas demandas. E, enfim, a corrente de Ár outra vez me levou para longe, mas fato é que fui convidada a estampar a seção de "metaleira gata do mês" daquela revista. 

Pu-ta-que-o-pa-riu! 

Eu era adolescente e para algumas meninas, mesmo as mais velhas, isso poderia até parecer lisonjeiro, mas me ofendeu profundamente. Por todas as razões que passarem em suas cabeças e todo o contexto. Sempre levei as bandas muito à sério, mais do que devia, em certos caso, até. Lidava com desconhecidos o tempo todo, em meio aos entra-e-sai dos estúdios, numa época em que poucas meninas tocavam e compunham em bandas. Em qualquer coisa que eu me proponha a fazer dou 100%, assumo a responsabilidade, visto a camisa e mantenho meus compromissos. Ali eu não era, de jeito algum, a "metaleira gata do mês", se é que poderia ser em algum outro lugar, eu era uma tecladista, uma musicista, antes de qualquer coisa. E sequer dava muita atenção aos papinhos pré e pós ensaio. Estava o tempo todo calçando botas masculinas escondidas pelas calças de capitão do exército, que pertenceram ao pai do meu pai, de onde pendia uma longa corrente presa às chaves de casa e blusas que deixavam apenas aparente um pedacinho da minha barriga quando fazia calor. Meus cabelos extra longos geralmente escondiam o meu rosto enquanto levava num ombro o meu humilde E-56 da Roland e no outro a estante desmontada. Que raiva, cara. Mas a elegância e presença de espírito do meu Sol sempre me salvou nessas situações. E sem interromper a desmontagem do equipamento, do alto dos meus 14 anos e 1,60m, apenas respondi: "Não vou, não, cara... Mas, a boa notícia pra quem quer me ver de biquini é que pretendo me tornar escritora um dia. E compositora." E naquele silêncio constrangedor de caras desentendidas complementei: "Não sei vocês, mas pra mim, perto de quem escreve e compõe, sair semi nua numa revista de circulação nacional é coisa de amadora."

4 comentários:

George disse...

Ri alto aqui!

Filipe disse...

Verdade. A gente sempre se expõe tão mais quando escreve!

P.S.: Lê a mensagem que te mandei no Whatsapp.

Gustavo disse...

Heuaheuaheuaheuah! Que isso, hein, tia?

Sergio disse...

Aeeeeeeeeeee!

Brincadeira. Hahahahahaha. A resposta foi sensacional, mas é bem capaz de não terem entendido.