Na noite passada levei uma porrada. Forte. Certeira. Dessas que deixam a gente no chão se contorcendo de dor. Foi bem em cheio numa ferida que não terminou de cicatrizar e que, na verdade, parece maior a cada ano. Não tem sido fácil suportar isso sozinha. São tantas coisas pesando na cabeça... E sempre me cobro o máximo. Então, quando me pedem calma, quando me pendem o mínimo, minha única vontade é acertar uma shuriken bem no meio da testa do interlocutor. O que dói principalmente é a repetição, a reincidência, essa tortura chinesa. A maldade, a frieza e, acima de tudo, a injustiça, com que tratam a minha inocência, o meu coração aberto, a minha boa vontade e os meus momentos de confusão ainda me espantam, ainda me surpreendem e isso é grave. Mas, do lodo surge a lótus e quando eu já estava desidratada de tanto chorar ele apareceu, como sempre aparece: iniciando o discurso com a leveza, a inteligência e a criatividade do Ar, mas encerrando de forma sarcástica, dura e implacável como manda seu ascendente de Terra. Espero lembrar de tudo.
- Carol, o que aconteceu? Por favor, para de chorar e me fala! Você já está me assustando!
- É aquilo outra vez. Não precisa me olhar assim...
E depois de um tempo em silêncio:
- Olha só, me fala o que é pra fazer e eu farei junto com você. Vamos acabar com isso. Chega, não aguento mais essa história. Isso acontece por escolha sua, porque você deixa a porta aberta. Você decide ser assim e está sendo vítima das coisas que rejeita. Está pondo um parâmetro onde não existe e está esperando que o caos seja ordenado. Escolhe andar por conta própria e espera ter uma vida certinha como a do seu pai com aquela rotina massacrante dele? Estão te embarreirando e é o que vão fazer sempre. Mas, nesse caso isso daí sabe para quê serve? Para limpar a bunda. Não é necessário. E ainda corre o risco de só entrar para a lista das coisas que você considerou perda de tempo na sua vida. Você quer continuar? Então a resposta virá em atitude. Se não quer, é um abraço. Fim. Esquece isso e vai dar valor e investir o seu tempo no que quer de verdade. Você quer? Se quiser, eu farei junto com você.
- Não.
- Então, acabou. Pronto. Aprende isso. Essa sua boa memória só te faz mal nessas horas.
- Mas... O que me mata são essas atitudes, essas injustiças... É covarde, é sujo.
- Sim! É covarde, sujo e você não precisa disso. Escuta o que estou te falando: você não precisa disso para nada. Tudo o que você faz de melhor aprendeu por conta própria.
- Só que ela só está agindo assim depois de ter ido falar com aquele imbecil. Cara, que raiva! É muito escroto.
- O que ele falou, o que ela pensou, o que se concluiu, na boa, foda-se. Pára com isso. Pára de achar que resposta se dá argumentando. Você desistiu de Direito lembra? Pára de se importar, pára de gastar energia pensando sobre essa gente que só foi babaca. Só existem dois tipos de pessoa: as que nos fazem bem e as que nos fazem mal. Se nos faz bem, serve. Se nos faz mal, não serve. Corta fora. Acabou. Eu vejo você se importando, tentando entender, procurando um ponto pacífico, um equilíbrio em situações e pessoas que são causa perdida. Acho ótimo quando esse seu perfeccionismo te torna uma pessoa que está sempre buscando, sempre achando que ainda precisa aprender mais e melhorar, mas quando ele te leva por esse caminho de querer consertar tudo, caramba, isso me cansa só de pensar. Pára de pensar, pára de imaginar, pára de idealizar... A realidade sempre perde para a imaginação, mas a imaginação sempre perde para a atitude. Faz. Enquanto você estiver fazendo, aproveita. Não pensa no que vai dar, não pensa em ninguém. Não pensa. Só faz. Entra naquele seu estado meditativo e fica lá. Seja a ação. Porque a situação passa, as pessoas passam, o que fica é o que você fez.
Acho que foi mais ou menos isso que ele falou, foram essas as palavras e os pontos abordados... Depois disso, ele voltou a ficar em silêncio. Bonito, né? Um verdadeiro mestre. Mas eu sabia que não tinha terminado. Já sei como é... E, como se não fosse o maior chorão que conheço, usando minhas próprias palavras contra mim, arrematou:
- E pára de chorar! Da última vez que vi alguém chorando assim foi porque perdeu a perna.

3 comentários:
Carol, não sei o que pode ter feito você chorar! Logo você! Mas tô aqui. De longe, mas tô. <3
Força, Carol.
Heuaheuaheuaheuaheuaheuah. Isso aeee...
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