segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Não Entendo

É preferível sentir raiva do que tristeza simplesmente. E é ainda melhor o arrependimento à impotência. Não sei direito se foi sempre assim ou é uma consequência do nosso tempo, mas as pessoas e seus reais talentos não tem valor algum. Na luta pela sobrevivência neste mundo, quando olham para você, vêem apenas um número. E enquanto seus esforços são em direção ao aprimoramento, a exigência se resume a prazo e preço. A excelência perde para a velocidade de produção e para o menor custo. Estão todos infelizes nesse ciclo vicioso que nos obriga a seguir como gado. Correndo atrás do próprio rabo.

"Não seja criativo. Não evolua. Não apresente nada de novo. Não faça mais do que sua obrigação. Não se esforce. Copie o estilo dos outros. Faça o que todos estão fazendo. Siga o padrão."

Sei lá. Não conheço o segredo do sucesso, mas o do fracasso com certeza é tentar agradar a todos. Nem é muito difícil perceber isso por aí.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Para Não Esquecer

Follow through
Make our dreams come true
Don't give up the fight
You will be alright
'Cause there's no one like you
In the universe

Don't be afraid
What you're mind conceals
You should make a stand
Stand up for what you believe
And tonight we can truly say
Together we're invincible

And during the struggle
They will pull us down
But please, please let's use this chance to
Turn things around
And tonight we can truly say
Together we're invincible

Do it on your own
Makes no difference to me
What you leave behind
What you choose to be
And whatever they say
Your soul's unbreakable

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Uau! Bem a tempo!

"O segredo de progredir é começar. O segredo de começar é dividir as tarefas árduas e complicadas em tarefas pequenas e fáceis de executar, e depois começar pela primeira."
Mark Twain

Espírito de Natal

Há um misto de alegria de viver com sentimento de confusão. Ler tudo, ouvir tudo, contar tudo, aprender tudo, experimentar tudo, fazer tudo. Mas uma das coisas mais difíceis de se fazer na vida é domar o tempo. O tempo é selvagem e orgânico, não segue em linha reta, se espalha e escorre como água... Por onde começar? Essa dúvida parece ganhar força a cada fim de ano. E o fim do ano é um tempo ruim, numa cidade, nas proximidades do Equador. Não por ser fim, o que, de fato, não é. É mais porque qualquer coisa de ruim parece atingir níveis recordes nessa época. Mais calor, mais irritação, mais ansiedade, mais pressa, mais desperdício, mais falta de educação, mais gente no mesmo lugar ao mesmo tempo, mais luzes acesas, mais dinheiro gasto, mais sentimentos de obrigação, mais sorrisos falsos, mais hipocrisia. 

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Barrinha no Máximo

Às vezes eu queria conseguir ser mais opaca. Não digo ser falsa, apenas conseguir não tornar meu descontentamento contagioso. Mas tenho um grande problema com a dissimulação social sem qualquer interesse em jogo. Sabe, entre amigos? Não deveria ser necessária. Quando estou num lugar e o papo está chato, alguém resolve perturbar a harmonia do grupo ou surgem aquelas longas histórias auto afirmativas sempre repetindo a mesma ladainha, me dá sono, tédio. E, como não existe em mim qualquer interesse motivador, minha exaustão fica exposta. Por mais que eu goste dos meus queridos amigos, por maior respeito que eu tenha pelo seu modo de ser, por mais ajuda que eu ofereça às suas causas, por mais compreensiva que eu seja, não é por mal, é só que meu saco de paciência, infelizmente, é transparente.

sábado, 20 de novembro de 2010

O Fim do Arco-Íris

Tenho uma curiosidade enorme em saber o que exatamente os passageiros de transporte público buscam no fim do ônibus, especialmente naqueles com gente saindo pelas janelas. Sei lá, deve ser algo muito legal. Um baú de tesouros, um trevo de quatro folhas, a fonte da juventude, Akira, o Um Anel. Porque eles realmente fazem muita questão de ir para o fundo do ônibus. E nada poderá detê-los!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Cerveja Grátis Amanhã

Procrastinação é um mal de raízes profundas em nossa cultura, não sei em outras. Tudo pode ser feito amanhã. Dar um mês ou um dia para o aluno fazer um trabalho de pesquisa é a mesma coisa. Mas, por algum motivo estranho, só adiamos o que é importante, aquilo que vai nos fazer bem. Ninguém deixa a implicância para amanhã, a fofoca, a preguiça, a maldade, a tristeza. Ninguém diz: "ah, depois eu fico triste, só mais cinco minutinhos..." O importante é sempre substituído por algo completamente desnecessário e idiota. Fico realmente muito triste e nervosa às vezes, principalmente quando o passo à diante depende muito mais de outras pessoas do que de mim, mas aprendi uma coisa num tempo em que eu já estava há dois anos passando por um dos mais duradouros sofrimentos da minha vida. Dou três dias para ficar triste, chorar, culpar, xingar e agir como uma louca. Só três dias. Depois, não me permito sofrer mais pela mesma coisa. Evito todas as possibilidades de me enfraquecer, afasto todos os pensamentos e exilo tudo o que possa ter relação com o objeto de tristeza. E dá certo!

sábado, 6 de novembro de 2010

Autoprogramável

"O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade." 
(Alberto Camus)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Nunca Mais

O medo de morrer não impede a morte, mas a vida. Raciocínio sensato. Mas, nem é morrer o problema e sim não conseguir realizar as coisas mais sonhadas a tempo. Às vezes, no fundo do poço, chego a ter certeza que isso vai acontecer mesmo e acabo ficando muito triste. Felizmente, sempre aparece uma certa mão amiga estendida e uma palavra de conforto nessas horas que não servem para nada. Mas, mesmo assim, um poço acaba se abrindo sob meus pés em momentos inesperados e em alguma outra hora o pensamento volta.

Geralmente volta por motivos que nada tem a ver com essas coisas mais sonhadas. Acontece quando há pressa, durante o banho ou no meio da noite, que é quando também surgem as melhores idéias. E, por isso mesmo, diante da impossibilidade de anotá-las, acabo perdendo todas. Tipo, TODAS. Penso "ah, tudo bem, isso é bom demais e não vou esquecer." Esqueço sim. Depois procuro lembrar o que foi de tão legal que eu havia pensado anteriormente, mas é tarde demais. Então planejo usar um caderninho amarrado no meu braço junto com uma caneta, mas nunca amarro. Embora o velho Edgar já tenha contado há tempos sobre o Demônio da Perversidade, que nos obriga a procrastinar as coisas por puro masoquismo, ainda insisto nesse ciclo vicioso: não ajo e fico triste, fico triste e não ajo.

domingo, 17 de outubro de 2010

O Quinto Cavaleiro

A preguiça é um animalzinho de estimação, não é verdade? Fica alí... com aqueles olhinhos de Gato de Botas... olhando para você... pedindo um abraço... E você precisa se esforçar bastante para resistir aos seus encantos.

Todo mundo tem a sua. Eu mesma tenho várias preguiças queridas, uma para cada hora do dia. Tenho a preguiça do despertar, que é mais ativa logo pela manhã. Tenho a preguiça de me vestir, que me impede e me segura com garras também para me despir. Tenho a preguiça do exercício, que não tem sido tão problemática porque as calças 38 estão tão largas que já estou considerando a possibilidade de me inscrever em castings de animações em 2D. Tenho a preguiça do trabalho, que é uma das mais violentas, com acessos de raiva que podem incapacitar um homem adulto. Tenho a preguiça do carro, que me mantém dentro dele por pelo menos uns 40 minutos antes que eu tome coragem e saia. Tenho a preguiça do mercado, que é bem pior na volta quando preciso levar as compras escada a cima. Também tenho a preguiça do estudo que afeta qualquer um que deseja abrir um livro ou ficar acordado numa sala de aula.

E nestes nossos tempos modernos, outra preguiça tem se tornado cada vez mais popular, tão rapidamente quanto se descobre novos métodos para baixar músicas e filmes de graça. A preguiça digital. Recebeu um e-mail? Pra que responder agora? Deixa pra depois. Recado no Facebook? Comentar no blog do amigo? Agora não. Anti-virus? Demora tanto, depois eu passo... Discussões virtuais então! Zzzzzzz...

No fim das contas, a preguiça, esse animalzinho sorridente, será conhecida por nossos possíveis sobreviventes como o quinto cavaleiro do Apocalipse. Aquecimento global? Vegetarianismo? Reciclagem? Economia de água e energia? Diminuir emissão de gás carbônico? Faz você, vai... Agora me deixe terminar meu hamburger aqui no fresquinho do ar-condicionado e não perturba. 

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Se isso não é ser burro, então o que é?

Queria arranjar uma forma legal para escrever um texto sobre o quanto às vezes começo a concordar com o Jack quando diz que a solução é a guerrilha e com o Rapha quando enfatiza oportunamente que devíamos passar todo mundo nas armas, principalmente porque são dois dos poucos que ainda levo a sério nesse mundo. Mas não sei se valeria o esforço e enfeitar coisa feia dá trabalho. Porque, sabe, é tanta falácia, argumentação fraca e opinião baseada em jornal (todos sabemos bem a quem os jornais pertencem e que interesses tais pessoas defendem) que o ânimo desce rolando por essa ladeira chamada Brasil. Acabo me abstendo de discussões por pura falta de saco, principalmente quando percebo certa defasagem na base mínima de conhecimentos das pessoas para se adentrar em assuntos tão complexos e ramificados como política. Irônicamente fica a impressão de ignorância da minha parte ao me recusar a responder um texto enorme, cheio de palavras difíceis, dados estatísticos e frases de efeito, mas se você me lê por um tempinho já sabe o quanto me importo com a opinião dos outros a meu respeito. Deixo para lá mesmo. Não é muito inteligente discutir com quem não sabe do que você está falando. E nem são os burgueses que sinto vontade de estapear. Eles apenas estão fazendo o que sempre fizeram: sendo coerentes com suas crenças esnobes e cuidando para que seus privilégios sejam mantidos. Não. Não é por eles que meu sangue ferve e com quem tenho sonhos envolvendo serras elétricas, AK-47s, granadas e afins. Com eles até seria possível e importante debater suas crenças e privilégios, seria inclusive saudável, mas não passaria de apenas uma conversa educada e pacífica. O que não entra na minha cabeça mesmo, serei bem direta, é um fdp de classe média e fodidos em geral considerando a hipótese de optar por partidos declaradamente elitistas. 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Morra Com Essa

"Tudo o que é perigoso em você vem do coração.
Nada é mais rochoso do que um pensamento."
Osho

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Morte aos Titereiros

Falo dormindo às vezes. Quer dizer, acho que não falo mais tanto há um tempo. Mas, quando eu era criança, lembro de já ter sido acordada pelo meu pai tentando abrir a porta de casa, e de muitas outras situações ruins como essa. Jack nunca mais comentou sobre eu falar à noite, então acho que parei. Mas eu queria mesmo é escrever sobre uma forma mais ampla de sonambulismo. Esse em que todo mundo passa a vida inteira e não percebe.

Não sei, acho que poucas pessoas na história da humanidade acordaram para a vida, sabe? A esmagadora maioria de nós está mesmo é dormindo. E uma pequena amostra do quão profundo é este sono está no quanto é tão mais fácil se livrar, esquecer do que você disse e fez de bom, em se reprimir e vestir máscaras, e, por outro lado, tão difícil procurar apagar da memória aquilo que não foi tão legal assim. É duro se assumir sem medo de errar, de ser anti-ético, bobo ou imoral. Quanto mais pesado o sono maior o orgulho, o empenho e o valor que se dá à construção do ego, da personalidade, do caráter, a força que se faz para não abandonar a maldita crença de que nossos pensamentos, sentimentos e aparência são tudo o que somos. Então, entra-se numa de se sentir burro, um trouxa mesmo, por suas palavras bonitas, por suas mais belas ações no momento em que começa a surgir a pena de si próprio e a procurar enxergar-se como o traído, a vítima de uma história qualquer. Mas, uma questão ecoa no vazio deixado: "não houve responsabilidade alguma da sua parte para haver trilhado aquele caminho e chegado à determinada situação?", bom, mas nem é tão complicado ignorá-la.

Assim fica claro que não se dá um passo espontâneamente. Tudo em você é falso, moldado, polido e pensado. Cada movimento considera o julgamento dos outros e seus preconceitos. Nada é de coração e poderá ser usado contra os outros a qualquer momento. Mas, será que é tão sofrido assim agir bem simplesmente porque isso o fará sentir-se feliz? É muito ruim mover-se nesse mundo apenas por si e para si mesmo? É realmente necessário atuar em vez de viver, como se os outros estivessem o tempo todo atentos aos próximos capítulos da sua vida? E se estiverem, porque dar-lhes tanto crédito assim? Por que você não pode ser visto como tolo, infantil, fora do círculo que outros traçaram? E, ainda, parece apropriado negar sua delicadeza, sua calma, sua inocência, só para, outra vez, dar uma impressão de esperteza, sentidos aguçados e força? Não sei, posso estar enganada, mas para mim, fraqueza é se deixar dominar pelo orgulho, bancar o valentão, fingir que é inatingível, agir contra a sua vontade, dar voz à vaidade e permitir que a mentira, a raiva, a inveja, o ciúme, a ganância, a futilidade, a preguiça de pensar e a falta de disposição para nos assumir nos manipulem como marionetes.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Telhado de Vidro

Qual é o nome que se dá para quando você se vê sob uma chuva de pedras e pede para que procurem encarar suas atitudes e a situação atual por outra perspectiva, depois de ter ajudado a apedrejar alguém, que nunca conheceu, pelos mesmos motivos que levaram-na a estar sendo atacada agora?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

De Mudança

É tanta coisa na cabeça, tanta coisa pendente, tanta exigência e tão pouco retorno. Não que eu faça tudo esperando recompensa. Na verdade só espero algo em troca de trabalhos feitos exclusivamente para os outros. E só trabalho por dinheiro porque não há outra forma de me manter na casa em que moro, adquirir os livros que quero ler, pensar em realizar meus projetos, sonhar com viagens e coisas assim... Dinheiro para mim é só um meio mesmo. Mas, sei lá, talvez eu esteja errada nesse meu modo de vida, nesses desejos que aprendi a ter. Talvez, se eu mudasse de perspectiva, abrisse uma trilha nas montanhas aqui em frente e procurasse por um local bem escondido no meio do mato para construir uma casinha, abandonasse o mundo e passasse a viver apenas de manga e jaca, de vez em quando sair para uma volta pela cidade, só para observar, talvez fosse menos duro encontrar um pouco de respeito, verdade, calma e beleza nesse mundo.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sem Remédio. Sem Cura.

Começou quando eu era criança. Com o passar dos anos só piorou. Os tempos de skate e patins terminaram, então começaram os dias de praia, acampamentos, surf e viagens ensolaradas e quando isso acabou, foi a vez de competir pelas melhores notas na escola e pelas medalhas do intercolegial, depois vieram as festas, os garotos e os beijos, em seguida foi o Ninjutsu, as espadas, os treinos na floresta e depois que isso terminou também, foi a vez da música, das bandas, dos shows... No meio daquela linguagem dos adultos, como no desenho da Turma do Charlie Brown, algumas palavras escapavam. Adrenalina. Depressão. Pesadelos. Atenção. Apetite. Addison... Mas foi apenas no início da minha adolescência que comecei a entender o que os médicos diziam.

Nos bons dias o coração batia acelerado, havia grande expectativa... E eu sempre estava indo para algum lugar. Hoje entendo que nem era apenas porque as coisas aqui em casa iam mal. Havia uma busca. Eu estava procurando por uma coisa, algo que eu só conseguia ver por alguns segundos. E aparentemente eu já havia descoberto o que fazer para isso. Mas, acho que não era muito consciente. Se alguém ou alguma regra aparecia no caminho era só um trabalho a mais de passar por cima. A vontade ocupa um território muito maior do que a razão em mim. E por isso, embora o telefone tocasse com frequência e meu nome fosse ouvido aqui embaixo da janela quase todos os dias, no fundo eu estava constantemente sozinha.

Paz é bom, mas só por algumas horas, só por um período, só um pouco. No fim, sorrisos ou lágrimas não importam muito. Quando tudo está em paz demais, acabo perdida, saio do meu centro, a estrada se bifurca. Porque, preciso admitir, é com o coração na garganta que vejo a minha luz, que enxergo a imagem por trás do espelho e fico face a face com o que sou.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O herói que não é

All of the astronauts, Champagne in plastic cups 
Waiting for the big hero to show
Outside the door he stands
His head in his hands 
And his heart in his throat
What can he tell 'em now? 
Sorry I let you down. Sorry it wasn't quite true.

All of the principals, generals, admirals 
And the podium lit with the spotlight
Crowd buzzes quietly waiting expectantly 
like it's opening night
What can he tell 'em now? 
Sorry I let you down. Sorry it wasn't quite true.




segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Lua Nova

Sombras...
Em que caminharia
Para dentro
Viraria
Do avesso
Cairia
Para sempre
No vazio, seria bruma.

Desaparecida
No nada
Permitiria ser
Espalhada.
De areia punhado(a)
Ao vento.

Buraco negro, matéria escura.
Seria copo d'água
No chão
Quebrada
Partida
Em pedaços
Mil.

Mergulharia no infinito
Confusa
Completa
Com a escuridão
Uma.

A lua negra
Em negros dias
Teria existido nunca
E ainda, sempre
Estado aqui.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Basta Construir e Eles Virão

Já não bastassem os entraves da vida adulta, a variedade monstruosa de redes sociais na Internet só vêm reforçar o time contra a atualização dos blogs. Especialmente blogs como esse aqui, uma espécie de mural de divagações sem qualquer compromisso com o leitor. A energia que precisa ser acumulada para que uma idéia vire post é, aos poucos, gasta através de pequenos comentários em 140 caracteres ou opiniões trocadas sobre as coisas do mundo em mensagens via scrap. Mas, sabe, enquanto as distâncias ficam menores e as relações mais yankees, é tão bom ter um cantinho como esse, onde pouquíssimas pessoas sabem pessoalmente quem é você... É aqui que venho para pintar os retratos que não penso em publicar para todo mundo, e desenvolver aquelas figuras que nunca ficam bem resolvidas em telas muito pequenas. Porque só num espaço como esse, organizado desta forma, que seja garimpado e não simplesmente indicado de bandeja, as suas referências parecem estar guardadas com carinho e as atualizações da sua história pessoal, protegidas contra os fanáticos que tentam ser você. Mas, veremos até quando este paraíso selvagem estará a salvo deles. Pois, infelizmente, como as forças naturais mostram todos os dias, ninguém lhes escapa por muito tempo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Recadinho em Cima da Mesa

Carol,

Não fica triste. Se você tá tão ocupada agora e tá tão difícil de fazer tudo, isso é "culpa" da qualidade do seu trabalho! Significa que está dando tudo certo. Uma pessoa não fica atarefada por todos os lados sem ter algo que todos queiram. Fica tranquila. (...) E sempre conte comigo. Eu não vou deixar na mão quem vai me sustentar pelas próximas décadas!

Te amo!
Jack

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Ah... Agora eu trabalho demais...

Um dia desses recebi um e-mail da minha mãe, contando que está triste, não tem feito nada de interessante, o trabalho está chato, não vê a hora do ano acabar e que as galinhas tiveram pintinhos e roubaram a cama da gata. Minha família é tão contraditória... Sempre contribuindo para as pilhas das piores e das mais divertidas lembranças. Eu respondi o e-mail fazendo aquilo que faço de melhor: dar trela para a autopiedade dos outros, mascarando minha vontade de mandar tomar vergonha na cara e parar de palhaçada com palavras de mestres Zen. "Há momentos de trabalho e momentos de descanso. Nos momentos de trabalho, trabalhe. Nos momentos de descanso, descanse." Parece óbvio falando assim, mas sei bem como somos capazes de trocar tudo, o tempo todo. Às vezes é preciso que alguém nos diga aquilo que estamos cansados de saber. É fácil estar perdido em meio as neuroses de nossas mentes ocidentais.

Neste e-mail resposta, também a convidei para ir ao cinema ver Toy Story, mas ela foi para a casa de praia e não leu a minha mensagem antes. Depois respondeu se desculpando, dizendo que o celular não tocou quando liguei e que não gosta desse filme. Ela diz isso porque acha os bonecos feios, não porque já tenha visto qualquer uma das três animações da trilogia. (Sim, eu sei o que você está pensando e nem tenho como defendê-la.) Em seguida ela diz na mensagem que passou aqui em frente no domingo, era mais de meia-noite e minha janela estava aberta, com a luz acesa, que devo trabalhar, mas não descuidar da saúde. Só quem conviveu comigo na época em que morei com os meus pais para saber o tamanho dessa ironia. 

Mensalidades

Nos últimos três dias meu sono não foi fácil. O sorriso também não, uma pena. Está frio aqui dentro. Está cinza também. Escuro. Lá fora, não. Faz uma bela tarde ensolarada. E eu já estava me preparando para sair, quando precisei tomar dois comprimidos de tanta dor. Já devia estar acostumada. As pessoas não conseguem considerar as outras, honrar seus compromissos. O dinheiro nunca chega na data combinada e às vezes todos os planos são postergados para o próximo mês. Só as cobranças, as contas e as cólicas não tardam.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Não parece, mas sou uma só!

Esse não é o melhor momento para dizer isso, mas eu planejo voltar. Verdade! Só preciso tomar banho em 5 minutos e estar no ponto de ônibus até as 17 horas, antes. Depois, tenho que terminar cinco pinturas enormes, uma pintura que pode trazer grandes oportunidades (péra, João, eu tô fazendo), ler um monte de textos, terminar um exercício de Desenho para a faculdade, uma capa e uma página para um Zine. Aí então fico livre para escrever.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Nove


Um mais oito, dois mais sete, três mais seis, quatro mais cinco, o último dos algarismos. O Eremita, O Andarilho, A Solidão, O Encapuzado, O Profeta do Eterno, O Mago da Voz do Poder, O Absoluto, O Elevado, A Plenitude, A Mão, O Zero, O Princípio Masculino, O Início, A Semente, O Potencial, Yod, Tiphareth Chesed, Virgem, Terra, Mutável, Mercúrio, Deméter, Ceres, Aquele que Discrimina, O Princípio da Luz Divina, A Luz Criadora, A Obra de Deus, A Conclusão. O absoluto mais o relativo, o abstrato mais o concreto. O Iniciado, O Profeta, A Globalização. Quase o fim, nove avenidas, nove jardins, nove fontes. A base de todo o plano e toda a construção. O Nome de Deus, A Palavra Perdida, O Sagrado. O Metódico, O Generoso, O Sofredor. A Gestação, A Busca Proveitosa, O Término de Uma Obra, A Recompensa Final. A Plenitude, As Esferas Celestes, O Coro dos Anjos, As Musas. A Universalidade, O Último do Ciclo, A Visão Ampla, O Fecho do Círculo. A Perfeição, O Consciente, O Conhecimento, A Sabedoria, A Paciência, O Senso, A Dedicação e A Prudência. O Humanismo, A Generosidade, A Intuição, A Imaginação. A Exaltação. O Último Céu. Novo. A Harmonia, A Arte Clássica. I. O Tato. O Ovo, O  Órfico, A Regeneração, O Cereal, A Introspecção, O Centro. IX. Aquilo que é emitido retorna.

domingo, 27 de junho de 2010

Todo Herói Tem Uma História Difícil

Nem todo mundo partilha de quais são os meus sonhos, mas acho que é bem óbvio para qualquer um o quanto gosto de pintura e desenho e o quanto levo essas atividades à sério. E mesmo com o pensamento frequente de que todo o meu esforço ainda é pouco, meus dias tem sido bastante atarefados. Não estou reclamando, que isso fique bem claro, mas acabo precisando fazer uma coisa que eu odeio: sacrificar aulas. E uma das aulas que precisei matar foi a de quadrinhos no sábado retrasado. Ontem já foi uma luta acordar para não faltar mais uma vez, mesmo assim eu fui. E vejam vocês como são as coisas...

Já no fim da aula, sem aviso prévio, nem nada, o professor disse que precisará se afastar. O volume de trabalho aumentou e ele não está conseguindo dar conta das páginas que tem recebido. Então é assim? Não nos veremos mais? Para mim foi um choque. Porque nos vemos toda semana há dois anos; porque o comentário dele depois das bobagens que a gente falava nas aulas era detalhe imprescindível para as explosões de gargalhada; porque nesse tempo houveram momentos memoráveis; porque o considero um amigo; porque sua opinião sobre o que faço continua sendo importante; porque este não foi só mais um professor que passou pela minha vida, foi o professor que me passava a disciplina mais importante para mim e foi uma vitória conseguir me matricular num curso que eu sonhava em fazer desde que abriu por aqui; porque ele é um exemplo de determinação a ser seguido; porque quando fiquei um mês sem o meu carro e às vezes batia preguiça para ir ao curso, precisando pegar dois ônibus num calor somaliano, ou acordar cedo aos sábados porque a faculdade não me deixa mais ir nas aulas de quinta-feira, eu só pensava que ele ia todo sábado para São Paulo, e que se não fosse por ele haver sacrificado sua vida social, uma carreira profissional "mais segura" e sabe-se lá o que mais ele precisou passar por cima para seguir em frente, nós cariocas não teríamos a Impacto aqui no Rio e eu, sem dinheiro, precisaria continuar a quebrar a cabeça sozinha para aprender a fazer algo, mais uma vez.

Só tenho coisas boas para falar sobre ele. Um cara humilde, paciente, focado, disciplinado, talentoso e não vê problema em dividir o que sabe.

Por tudo isso, pelo que aprendi com ele e todos os nossos papos, até mesmo sobre nossas vidas pessoais, eu só tenho a agradecer e sinto um aperto enorme no coração em pensar que sábado que vem ele não estará lá. Quem dirá agora "Carol, seja homem!", "Olha esse nariz minúsculo dos anos 90...", "Essa perna está muito reta.", "Cara de desejo não é assim, é assim ó.", "Tem que fazer a construção.", "A orelha está muito pra frente", "Isso eu sei que você tira de letra.", "Ficou muito bom.", "Você vai arranjar seu próprio jeito de fazer."?

Mesmo sabendo que tudo está em constante mutação, que perdemos o velho para dar espaço ao novo, que ao que se resiste, persiste, que é preciso destruir o antigo para que o novo possa ter lugar, que isso é a maior lição da arte e da vida; meus olhos se encheram de lágrimas quando chegou a hora de ir embora mesmo. Ainda bem que os meus não são verdes como os dele e ninguém viu. Isso acabaria com a minha fama de má. Mas, por esse tipo de coisa se repetir com tanta frequência na minha vida, fica claro que é algo que preciso aprender.

Bem, ao menos é bom saber que essa despedida significa um passo a frente para o Rafael, que todo o sacrifício e as dúvidas que esse caminho traz já começam a apresentar resultados maiores para ele, mais uma vitória. E que daqui a pouco tempo será preciso entrar numa fila enorme para conseguir mostrar os desenhos e ouvir sua opinião.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Zen

Acordar sem hora e ver que a manhã ainda não passou; notas boas, depois de pensar que havia ido muito mal nas provas; chegar em casa e o Jack já estar aqui; como meus gatos miam quando sabem que vão ganhar algo de comer, e escondem as patinhas no frio; viajar para algum lugar que ainda não fui; como Paraty parece ter parado no tempo; quando uma criança gosta de conversar e ri de volta para mim; quando consigo manter a disciplina para depois quebrá-la; terminar uma nova pintura; aprender algo novo, quando gosto de músicas que ainda não conhecia; tocar o piano sem me preocupar com o tempo; quando canto com o violão; descobrir artistas novos; quando tenho livros novos para ler, quando risco mais um da minha lista e como o papel deles cheira bem; quando há bolsos nas minhas calças; quando é lua cheia ou quando fica só aquele filetinho de lua e quando eu consigo, sem querer, vê-la nascer atrás do morro, ou entrar num cômodo em que só ela ilumina; quando o chá está ainda quente, mas já não queima a boca; como a fumaça sobe das canecas; ver flores e borboletas; quando posso usar botas; quando está frio e como o ar da respiração se condensa; quando o church organ entra sorrateiro na música do Kraken; como as letras de Hard Rock elevam o meu ânimo e me fazem rir; como as cantoras de Blues soam doces e fortes; como as histórias irlandesas soam heróicas e as japonesas soam delicadas; como Quintana diz tanto em palavras tão simples; como o Folk me lembra a infância e Kitaro me acalma; quando toca músicas que gosto no rádio; como músicas com acordeon lembram circo; quando as sombras se alongam pela tarde amarela; como o céu muda de cor minuto a minuto; quando a casa está arrumada; como sempre consigo aprender algo importante depois de uma adversidade; quando posso cozinhar; dormir ouvindo a chuva; como fica meu guarda-chuva transparente enquanto as gotas caem; como parece que tudo faz tanto tempo e mágico quando chove; quando escuto meus gatos brincando; quando o Jack deixa um bombom sobre minha mesa sem eu ver e como nós gostamos de conversar sobre tudo; quando conheço e começo a amar uma nova pessoa; como as estrelas aparecem aos poucos, enquanto vai anoitecendo; como as mensagens dos budas soam óbvias; como rimos nas aulas no ateliê e no curso de quadrinhos; quando as folhas voam altas ao vento; quando tudo está quieto; o som que fazem os sapatos molhados depois de pisá-los na areia; quando ouço apenas os meus passos na noite; e quando à noite durmo sabendo que não tenho hora para acordar. 

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Chato só: chato acompanhado

Se alguém fica triste por estar à sós consigo mesma, por aí já se vê o quão chata é essa pessoa!

O Trabalho Emputece o Homem


Trabalho é um saco.
Descansar é super legal.

Aqui está o link para quem quiser usar esse papel de parede que diz em poucas palavras muito dessa nossa vida moderna.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Mais ou menos isso

Não é o tempo o remédio para tudo, ele no máximo reduz, dissolve, distancia, envelhece, mata... O tempo não resolve coisa alguma, (combinado ao silêncio, na verdade só aumenta) tolera. E tolerância é arrogância disfarçada de paciência. Refletir e tratar os eventos com sinceridade, com a guarda baixa, imparcialidade e boa vontade, é uma saída, chegamos a bons resultados, nos consolamos, revemos conceitos, encontramos novos pontos de vista, concluímos finalmente que não temos capacidade para compreender tudo, ou o direito de julgar o que é bom e o que é mau, o certo e o errado, e o que nos resta apenas é afiar nosso dom inato de intuir ilimitadamente. Comunicação também tem suas falhas, embora o conflito seja preferível ao silêncio, "pois paz sem voz não é paz, é medo". E como não temos palavras para a luz que acende sobre nós quando eliminamos uma questão racionalmente difícil por métodos irracionais, tendemos a dar nomes às sensações. O que é apenas paliativo, visto que a diversidade de sentimentos é muito maior do que nossa habilidade para nomeá-los. Então, apenas nos conformamos com as palavras que existem no dicionário. E no momento mágico que encontramos a nossa chave para a solução de um mistério, contra todas as expectativas, amamos. Por ausência de palavra melhor. Portanto, delegar ao amor a solução dos problemas pode até soar piegas, mas não temos escapatória.

Parentes Ingratos

Tenho uma tia e uma avó que aparentemente não gostam muito quando estou por perto, visto que fazem de tudo para causar o meu desconforto. Cobram, reclamam, fofocam, brigam comigo, fazem comentários desagradáveis sobre mim, minha irmã e meus pais, opinam sobre como eu deveria usar meu cabelo, roupas e sapatos. Minha avó sugere que eu use mais maquiagem, meias-calças e roupas de "verdadeira dama". Minha tia sempre faz questão de deixar claro o quanto vê a mim como tão menos do que todos pensam. Menos bonita, menos elegante, menos simpática, menos inteligente, menos talentosa e menos capaz de qualquer coisa que ela considera de bom na vida. Reclamam do quanto são tão boas para todo mundo e os ingratos as abandonam, nunca aparecem, nunca ligam. Não percebem que ingratas mesmo são elas, pois jamais recebi ao menos um "obrigada" por, de bom grado, presenteá-las com aquilo que mais apreciam: motivos para reclamar.

Narciso

Tudo a que resistimos passa a ser nosso destino, dizia o mestre Jung, repetiu o guru Shankar...

Atenção nunca é demais, da beleza entorpecente à feiúra que fazemos questão de repelir. Pois, primeiramente, tendemos a chamá-las por diversos nomes. Amor, terror, angústia, momentos, sonhos, o mundo... mas com o passar dos anos fica claro. O tempo todo, o que estava mesmo alí era nada além da nossa própria face.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Estudando para a Prova de Filosofia

- Jack, o que é o esclarecimento?
- Bom, o esclarecimento é o processo pelo qual o Michael Jackson passou para ficar branco.
- Ah, então o esclarecimento é o mesmo que vitiligo?
- Pode-se dizer que sim.

Bem Relacionados

Como construir uma relação duradoura:
1. Recorte sobre a linha pontilhada
2. Gire a figura em 180 graus.

Relação é uma dessas palavras que acabaram tendo seu significado deturpado e virando sinônimo de "relacionamento afetivo". E embora o anúncio se refira à casamento, uma relação, independente do seu tipo, sempre se faz de no mínimo dois elementos, de "nós" e jamais de simplesmente"eu".

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Frustração

Um evento de premiação, onde você está entre os nomeados, mas os demais estarão primeiramente interessados nas suas roupas.

De Manhã

Por outro lado, pela manhã qualquer coisa ainda é possível. A manhã guarda todo o potencial da folha em branco.

A-Manhã

Qualquer coisa é mais difícil pela manhã. E se chove, debaixo dos cobertores, tudo se torna praticamente impossível.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Detalhes Tão Pequenos

Tenho em casa um pedaço do muro de Berlim. Lembrança da viagem que minha bisavó fez à sua terra natal. Mas, uma vez levei aquele pedaço de cimento pixado para mostrar na escola e todos riram de mim. Sim, é compreensível... Um detalhe é coisa nenhuma fora do contexto. Detalhes, isoladamente, por maiores e complexos que sejam, são apenas detalhes; pensamentos pequenos. Mostram a sua visão aguçada, mas não a sua sensibilidade. Provam a sua inteligência, mas omitem a sua sabedoria. A maestria e o virtuosismo tem mais a ver com simplicidade e capacidade de síntese, na verdade. O entendimento do todo exige um olhar elevado, vindo do alto mesmo. Pois, detalhes são peças de quebra-cabeça, cada uma tem a sua importância para o conjunto, mas isoladas umas das outras, jamais trarão qualquer vislumbre da grande figura, da qual fazem parte. E, nessas condições, jamais terão qualquer valor.

Vida Própria

Um dia desses senti tristeza ao ler a última frase da obra completa de um gigante da nossa Literatura. Só me restará agora reler incontáveis vezes o que há. Nada mais será acrescentado. A menos que na biblioteca do Sonhar eu encontre sua seção de poesias jamais escritas, apenas sonhadas. 

Mas, pensei bem, reli meus trechos e poemas favoritos, e entendi desta forma que o divino está mesmo em toda parte. Não à toa qualquer religião concluiu isso. Dentro de cada um existe deus. E os grandes artistas são exemplos precisos dessa nossa natureza divina e permanência em toda a impermanência da existência (sim, é contraditório, como todas as grandes verdades). Eles mostram que somos imortais e o quanto o mundo seria diferente se nós não existíssemos. Mas, isso não se deve apenas ao legado de sua arte, deixado para nós, trazendo-os de volta à memória. Mais do que isso, só os grandes mestres sabem como produzir obras vivas, que mesmo após centenas de vezes diante delas, jamais deixam de assombrar, ensinar e surpreender com novidades.

domingo, 16 de maio de 2010

A Toda Velocidade

Quando eu era criança o tempo passava mais lentamente. E é certo que meus pais viveram suas infâncias ainda mais vagarosamente, e por sua vez meus avós viram mais grãos de areia na ampulheta de seus dias dourados. Ainda é viva na memória a eternidade da meia hora de propaganda eleitoral na TV. Eu era capaz de criar mundos em trinta minutos... Num só dia havia espaço para as bonecas, as pipas, as bolas, o pique, os jogos de tabuleiro, os filmes, as leituras, a música, os desenhos, a piscina, as refeições, o banho e o sono. O sonho da gente era ganhar uma bicicleta no aniversário, sonhávamos com o poder de voar ou sermos invisíveis. Mas o tempo já não é mais o mesmo nesses nossos dias. Hoje eu queria é conseguir me tele-transportar e que inventassem uma pílula para o Francês entrar no meu cérebro da mesma forma que se instala um programa de computador. Num minuto, uma infinidade de dados novos! É triste, mas impossível não se ver imerso nessa moda de velocidade, quando tudo é exigido para ontem. Não há tempo para pensar. Acabou-se a contemplação e a criatividade saiu perdendo de nocaute logo no primeiro assalto. 

E agora, onde ficam aqueles prazeres e atividades que requerem tempo para se obter algum sucesso? Os eventos passam limitando-se à leitura da primeira e da última página. Ignora-se completamente os acontecimentos, de fato, importantes, os intermediários, e as entrelinhas. As viagens reduziram-se ao cenário de partida e à estação de chegada, eliminando completamente a beleza da paisagem que nos acompanhava durante o trajeto, lá de fora da janela. Neste ritmo, chegaremos ao ponto de resumir a existência à primeira inspiração e a última expiração. Abreviaremos toda uma vida num abrir e fechar de olhos.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Dos Grandes Artistas

Ah... a coqueteria dos bons... Aí está a sua glória: afastar apreciadores. Não raro uma crescente inquietude interrompe minha leitura bem no melhor da história. A intenção é voltar, desesperadamente, aos meus lápis e pincéis, ao meu piano, ao violão... E só os grandes não temem este efeito. Sabem que um só dia se passará sem que voltemos em busca de mais.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O Pretexto da Desistência

Um 23 é sempre dia bom para inícios. Mas quem foi que começou a estupidez de contar o tempo? Sóis, luas, eclipses... Números são apenas pretextos! Como este aqui, agora mesmo, por cima dos meus ombros, sussurrando "mas aos 28 já é tarde demais."

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O Que Vejo da Minha Janela


Sobre a minha sorte? Isso é papo longo... Eu poderia até escrever páginas mil enumerando cada aspecto abençoado da minha vida, incluindo derrotas e erros, porque até mesmo uma dor é parte da sorte de qualquer um, mas esse seria um texto exaustivo. E já apareceram parágrafos demais por aqui, o que nunca foi minha intenção inicial. Então, serei mais breve agora.

Acredito na coexistência de destino (os eventos) e livre arbítrio (nossa capacidade de responder a eles). Não nos cabe decidir se vai chover, mas levar ou não um guarda-chuva é escolha nossa. Portanto, vejo a existência sob uma perspectiva contrária ao maniqueísmo. Sem essa de bem e mal, todas as coisas estão mudando constantemente. O que chamamos hoje de vidro de palmitos amanhã poderemos chamar de pote de algodão e assim também são as pessoas, os eventos, os sentimentos, o universo. E sendo assim, tanto o crime mais macabro pode ter razões e consequências favoráveis, quanto uma vitória espetacular pode levar à mais tristezas que alegrias. "Sorte" é como "qualidade" e "crítica", as pessoas acabaram se esquecendo que essas palavras são neutras. Existem a "má sorte", sinônimo de "azar" e a "qualidade ruim", sinônimo de "defeito". Além disso, criticar é sinônimo de analisar, não de detonar verbalmente.

Quando me refiro à minha sorte, algo inegável para quem é do meu convívio, não quero dizer que minha vida seja recheada apenas de boas coincidências. Acontece que a forma com a qual procuro interpretar as situações tornam, sem dúvidas, a grama mais verde do lado de cá. Enquanto a situação ocorre, posso ignorar sua importância e benefício, mas pensando melhor depois, fica evidente que tudo segue um roteiro perfeito. E claro, não é só comigo, a vida de qualquer pessoa é preenchida apenas do necessário. Mas, vejam o quanto sou sortuda, eu já consegui compreender isso!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Walkabout

Essa foi a distância que andei ontem até encontrar um ponto de ônibus que não estivesse alagado. O curioso é que eu estava tão impressionada com as cenas apocalípticas e entretida em pisar com cuidado para não cair em bueiros abertos, que nem notei o tempo ou a distância durante o trajeto. Mas, andei tanto que até senti a calça mais folgada quando cheguei em casa. Não estou brincando.

Essa seria a distância que eu andaria (passando por uma favela de onde já derrubaram um helicóptero da polícia e mais à frente por uma auto-estrada sem luz e muitos deslizamentos de terra) caso não tivesse a sorte que todos vocês conhecem. Um senhor, sua filha e sua sobrinha ofereceram carona para mim e um garoto que estava por alí também, junto com as mais de cem pessoas, debaixo de chuva, esperando por ônibus, taxis ou por caronas de pessoas solidárias.

Minha cidade, infelizmente não tem estrutura sequer para suportar chuvas fortes, o que diremos sobre receber uma olimpíada? Não tive uma semana, desde o início do semestre na faculdade, em que algum problema  não tivesse impedido a realização de alguma aula. Um dia é o governador que decreta ponto facultativo por conta do Pré-sal, no outro falta luz, professores não conseguem chegar à universidade por problemas no trânsito e acidentes, hoje o prefeito pede que as pessoas fiquem em suas casas e amanhã nada funcionará também. A chuva continua forte desde ontem às 17 horas e um monte de gente ainda não conseguiu voltar para casa. Por um dia o show do Guns não precisou ser cancelado outra vez... Realmente, "we need a little patience" por aqui.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

É Noite

Quero escrever há dias, realmente quero, até anotei alguns dos temas que pretendia transformar no próximo texto, mas e este ditador vermelho? Um maldito comunista com seu olhar insolente, sua cara redonda, seus doze números perfeitamente distribuídos e ponteiros apressados?  É, eu sei, essa não é uma questão nova... Realmente há algo mais.

Pode parecer não combinar muito comigo, mas de tempos em tempos passo por momentos de melancolia e, ao contrário da maioria dos artistas que transformam tristeza em obras primas, para mim esse não é um estado assim tão favorável. Não sei... Talvez por ser uma melancolia do tipo que só os boêmios conhecem... Os pensamentos ficam elásticos, encolhendo e esticando, feito mola. Os gestos vão em câmera lenta, a expressão leve e a cabeça passa a maior parte do tempo entre as mãos, buscando na memória sensações antigas, velhas motivações, alegrias amareladas e algum sentido para o presente. Caso alguém pergunte o que foi, é provável que eu me perca em simbolismos, sínteses corridas e vastas, pingos de chuva em poça d'água. Talvez até faça mais sentido se eu sair de repente com uma mochila nas costas. Porque no fim, a pergunta ficaria mesmo sem resposta. 

E que pergunta não fica?

Tenho aprendido a enxergar por ângulos diferentes, visto beleza onde antes era apenas algo sem sentido, andado para lá e para cá. Pessoas novas apareceram como novos figurantes, meus tênis e botas vem sendo mais requisitados. Estou ouvindo músicas que dizem muito e lendo poesia. Trabalho e estudo ocupam quase o dia todo, a vida ganhou mais movimento, idéias vão surgindo e agora volto para casa tarde. Mas, há sempre aquele espaço em que nada consegue tocar, onde os ruídos chegam abafados, longe, e quando encontram o seu destino, se deparam com uma pessoa que não dá a mínima para o que têm a dizer.

terça-feira, 16 de março de 2010

Duas Sugestões

Ontem foi meu primeiro dia de aula da faculdade nova e a primeira aula das segundas-feiras, Arte e Institucionalização, tratará exatamente sobre esse assunto, como está o mercado hoje e de que formas esse universo tem funcionado. Um monte de nomes que eu desconhecia totalmente foi citado e de todos achei válido compartilhar esse aqui com meus visitantes. 

segunda-feira, 15 de março de 2010

Produto Artístico

Não tenho o costume de entrar em discussões, nem ao vivo, e menos ainda em fóruns de Internet, blogs, etc, onde o pessoal fica mais "corajoso" com a tela do monitor protegendo seus rostos, a menos que eu pense que fará alguma diferença o que tenho a dizer. E, um dia desses, eu li uma postagem num blog sobre Lost, que eu acompanho pra ficar atualizada das novidades, e achei importante fazer um comentário. O texto falava sobre o fim da série em maio desse ano, seus inúmeros mistérios ainda sem resposta, e terminava com a seguinte pergunta: "E aí, quais perguntas vocês acham que os roteiristas tem a obrigação de responder?"

É claro que o autor do texto se refere às grandes questões que certamente serão solucionadas, afinal o seriado já está na sexta temporada e é com muito pesar que todos que acompanham irão se despedir dele, e estava apenas querendo convidar os leitores à compartilhar suas perguntas, ver se uns lembrarão de eventos que outros podem ter esquecido e estimular a participação dos leitores. O problema é que, bem, não é novidade pra ninguém, a maioria das pessoas é bastante ignorante em assuntos básicos e por motivos que não quero enumerar aqui, já que o assunto é outro, mas aquela pergunta deu margem para que os comentários dessas pessoas se espalhassem como cogumelos no outono. Então foi um festival de exposição de questões totalmente inúteis para a história de Lost e feitas de formas grosseiras, tratando os roteiristas como se fossem pilantras, burros e inexperientes. Por isso, eu vi nessa aparentemente inofensiva perguntinha um dos grandes problemas por que passa o meio artístico hoje. Então, achei importante fazer o comentário a seguir:

"Para mim, os caras não tem obrigação de nada. A história é deles, não nossa e ninguém nos obrigou a assistí-la até aqui. Eu acho esse comportamento das pessoas que ficam indignadas com o rumo que a arte dos outros toma algumas vezes, estúpido e infantil. Criticar é tão fácil, que qualquer vagabundo põe sua cadeira na calçada e fala mal da vida dos outros muito bem. Criar e fazer algo relevante sim é para poucos. Sempre que apontamos uma falha deveríamos indicar uma solução. Só para exercitar e entender a genialidade e a dificuldade de se fazer algo."

Aí, um desses corajosos da internet, deu exatamente a resposta que eu esperava desse tipo de pessoa, com o deboche típico dos narizes em pé ;) e tocou certeiramente no ponto da minha questão:

"Eu acho esse comportamento das pessoas que ficam indignadas com o rumo que a arte dos outros toma algumas vezes, estúpido e infantil. "


A televisão além de um meio de comunicação nada mais é do que comércio.Os fãs de LOST nada mais são do que os "consumidores". Dão audiência (leia-se: assistindo pela TV, comprando os DVDs, etc). A partir do momento em que o consumidor paga (assistindo, comprando os DVDs, bla bla bla), ele tem o direito de reclamar por aquilo que ele paga. Ele não criou a série, mas pagou por ela, entende? ;)


Ex.: Um artista pinta um quadro meu, e me cobra 100 reais, só que ele desenha meu rosto de uma maneira errada e não se parece comigo. Ele não me obrigou a pagar, ele ofereceu o trabalho, e eu paguei, logo, tenho o direito de reclamar se não gostei. ;)

Imaturo e infantil é não aceitar a opinião alheia, já que cada um enxerga a vida de uma maneira diferente. Eu estou gostando da temporada, e da realidade paralela e tudo mais, mas não vou me irritar com quem pensa o contrário.


Abraços "

E isso foi ótimo! Deu a mim a oportunidade de desenvovler o comentário anterior:

Sabe Raphael, não vejo dessa forma. Penso que Arte é um produto/serviço sim, mas não igual aos outros. O artista, um bom artista, claro, trabalha de uma determinada forma, só produz itens únicos, não é como uma máquina que repete a mesma coisa mil vezes exatamente igual, então haverá momentos que você não vai gostar do que vai ver e isso é normal. (O exemplo do quadro não acho que seja apropriado porque você pediu ao pintor previamente o que queria, bem diferente de um seriado que você nem sabe do que se trata quando começa, muito menos sabe que canal de TV irá transmití-lo, ou quando). Só acho que o melhor a se fazer nesse caso, é dispensar o que não gosta e apreciar o que gosta (como um músico que está tocando na rua, você tem a liberdade de parar para ouví-lo e pagar por isso ou não.) Não tratar os autores como se fossem menos do que nós, que apenas assitimos, como se não soubessem o que estão fazendo... Acho sempre a maioria dos comentários muito precipitada. Desde a primeira temporada tem gente dizendo que os roteiristas não sabem pra onde vão e tal, sem parar para pensar que talvez eles saibam sim, talvez eles tenham anos de experiência nisso, sejam profissionais que fazem seu trabalho com maestria, sejam geniais. Por mais que às vezes eu ou você achemos que uma parte ou outra ficou ruim, por mais que de fato cometam erros como qualquer um. Mas, ninguém nos obriga a pagar pelos DVDs, nem pelo canal na TV(vale lembrar que a maioria das pessoas aqui apenas faz download do seriado e mesmo assim reclama dele com categoria, coisa que não entendo MESMO, porque se não gosta é só parar de baixar e nem dá pra entrar nessa de "estou pagando"). Você começa a pagar pelo canal, não gosta dele, dê a sua opinião em algum veículo onde os responsáveis acessarão (não num blog em português) e pare de assistir e pagar, ué! É a melhor forma de notarem que não estão tendo muito sucesso, porque uma coisa é você dizer que não gostou, outra é ser "imaturo e infantil" e começar a fazer crítica pela crítica, só para contrariar, ou só porque VOCÊ acha que a história tinha que ser de outra forma, ou só porque VOCÊ não entende os processos, dificuldades e os altos e baixos de um trabalho como este. Isso é muito cômodo e não ajuda em nada. Assim, como você falou, cada um tem uma forma de enxergar as coisas, não é? Os caras acham que a melhor forma é aquela que eles apresentaram, mesmo que nós não concordemos. Também acho que as melhores histórias são contadas pelos autores que trabalham em paz, sem interferência de opiniões. A originalidade, que é o grande trunfo do artista, depende disso. Está aí o atual cenário artístico mundial como um bom exemplo do quão nocivo é tratar Arte como um mero produto/serviço. Até tem bastante coisa legal surgindo, não quero soar saudosista, mas olha o custo que é para os bons profissionais aparecerem!


E essa é uma opinião MINHA sobre o comportamento dos outros. Uma opinião dada no espaço apropriado para ela, sem infringir regras, ou impondo absolutamente nada. É essa a maneira com que EU enxergo a realidade. Não estou obrigando ninguém a concordar com ela, da mesma forma que ninguém está me obrigando a concordar aqui, certo? ;)


Como você, também estou gostando de tudo e não me irrito com quem não está. Mas acho estúpido e infantil mesmo tratarem o assunto como se os caras tivessem obrigação de coisas que eu acho que não têm. A questão é o comportamento de todo mundo, não a opinião. Cobram do artista tanto quanto cobrariam de um engenheiro, médico, juíz, vendedor de alimentos, mas não o tratam com o mesmo respeito. E da mesma forma que todos têm a liberdade de continuar se comportando assim, precipitadamente, achando que os autores tem OBRIGAÇÃO de explicarem porque escolheram 4 8 15 16 23 42 e não 5 6 17 19 28 45, eu tenho a liberdade de dizer que acho besteira.


Beijos pra você, não briga comigo."
Sei lá, achei relevante transcrever essa discussão aqui por se tratar de uma questão importante para nós que fazemos Arte.

sexta-feira, 12 de março de 2010

quinta-feira, 11 de março de 2010

A diferença entre astros e estrelas

Existe uma diferença enorme entre gostar ou aceitar, e precisar ou não conseguir viver bem sem alguma coisa, certo? Mas, foi confundindo tudo isso que jogaram mais uma palavra no saco dos pejorativos: artista.

Quando desenhamos, tocamos alguma música, escrevemos, o resultado será muito melhor se o fizermos por prazer. E só quem faz  de coração sabe como é indescritível o processo de composição, escolher as formas, as cores, passar pela prancheta com o lápis e dar mais uma rabiscadinha no desenho ainda incompleto, ir construindo a música parte por parte sem pressa de acabar, transformar a partitura em melodia pedacinho por pedacinho, ver o poema que se transformará em canção, pouco a pouco tomando forma e de repente olhar pro todo e ver o resultado. Às vezes muito bom, outras vezes decepcionante, mas o prazer para nós está mesmo no que acontece entre depois de começar e antes de acabar a obra, não é? E como é bom aprender, se aprofundar... sempre perguntando, lendo e buscando melhorar, considerando tudo o que sabemos ainda muito pouco perto do que  gostaríamos de saber fazer.

Em qualquer ramo encontraremos dificuldades, da Medicina à faxina. Os obstáculos não devem nos fazer esquecer o que queremos, não devem ser os motivos pra que a gente desista de fazer o que temos vontade. Por isso, apesar das inúmeras histórias que conhecemos por aí sobre péssimas condições familiares,  falta de apoio, de má orientação, formação precária e até mesmo do meio e do mercado não serem os mais convidativos, os mais teimosos insistiram no que acreditavam e continuaram investindo em sua Arte. E nesse ponto precisamos da aprovação de outras pessoas para o que fazemos. No momento em que a obra artística se torna produto, a opinião dos outros se faz necessária. E realmente é muito prazeroso quando você acerta, fornecendo o que eles procuram. É gratificante atingir uma meta, vencer um obstáculo, a sensação de tarefa cumprida com sucesso. Neste caso, os aplausos, um olhar surpreso, palavras de elogio e curiosidade sobre como fazemos, que materiais utilizamos, onde aprendemos e tudo o mais, significam aprovação. Querem dizer em outras palavras que conseguimos satisfazer o público ou o cliente.

Mas, a autocrítica e a auto-afirmação sincera, são as verdadeiras aliadas de qualquer artista, de qualquer ser humano. É uma besteira esperar por elogios, ouvir aplausos, ser o centro das atenções, para cada passo que se dê na vida. Da mesma forma que é absurdo se ofender porque alguém não gostou de alguma coisa que  produzimos. O incomodo, é natural, até saudável, é ele que nos move e nos faz refletir, mas ofensa, é baixa auto-estima demais! Minha definição de humildade é saber exatamente o valor do que se faz e do que se é, nem mais nem menos. Quando alguém se manifesta é legal, prazeroso, no mínimo construtivo, mas não faz mais diferença do que concordarem ou não sobre qualquer assunto. É certo que, infelizmente, muitos encarem seus sucessos como uma maneira de se sentirem melhores do que os outros, tornando o meio artístico esse lixo, cheio de gente arrogante, ególatra, que pensa possuir todo o conhecimento, todo o poder de sedução e que é o centro do universo e seria muito bom a existência dessas pessoas para nos mostrar como é besta essa necessidade, se esse não fosse o comportamento da maioria... E o mais curioso nisso é que o ego delas é inversamente proporcional ao seu talento em grande parte dos casos.

Enfim, cada um com os seus problemas, sua Arte é um reflexo de você mesmo, mas, apesar disso, tem coisa mais boba que dizer que gosta da música de alguém só porque ele é simpático? Ou que não sei quem não foi um grande pintor porque era um babaca? Isso é uma estupidez. Da mesma forma que muita gente confunde autor com a obra, também confunde necessidade de vender um produto, com necessidade de aprovação pessoal. E gostar com precisar.

Viver tentando agradar é um desgaste inútil, é dar um controle remoto das suas emoções para os outros. Com isso acabou-se a naturalidade, a inocência e a originalidade das pessoas. Criou-se um padrão que todos devem seguir. Sua Arte tem que ser de uma determinada maneira, se não ninguém vai gostar e como ela seus cabelos, seu corpo, seu rosto, suas roupas e sapatos. Isso não tem sentido. Pior ainda quando a pessoa é arrogante ao ponto de viver se comparando com os outros.Qualquer coisa se aprende. Não acredito em dons, muito menos os artísticos. E fazer comparações entre trabalhos e pessoas nos leva a lugar nenhum. As pessoas, assim como seus trabalhos, podem ter muitas semelhanças, mas são únicas. Até mesmo os plágios e aqueles que vivem tentando se parecer com alguém. Cada um é um mundo, com uma história, leis naturais e verdade próprias. Todos têm direito a uma opinião sobre tudo. Ninguém tem que viver sob a aprovação dos outros. Principalmente quando se trata do que as pessoas são no íntimo. Todos devem ser como bem entenderem. Procurar destaque, é só orgulho e egoísmo. Cada um de nós é especial.

Ser aplaudido é muito gratificante, mas depender disso é escravidão, não liberdade e um artista de verdade precisa ser essencialmente livre. Livre para criar, livre para ser como quiser. Livre inclusive para errar, porque os erros são o que nos torna melhores. O artista precisa ser um humilde insatisfeito. Porque a insatisfação é sua melhor aliada, é o que o faz buscar sempre mais, que o impulsiona para o topo. Pensar que já chegou lá é condenar-se à estagnação. E definitivamente, um artista não tem que precisar de um spotlight. De jeito algum! Nem como artista nem como ser humano. É preciso cultivar sua própria luz, se refinar sempre, saber cada dia mais um pouco, ser você mesmo de todas as formas, sem exageros, se expressar sem se preocupar com a opinião dos outros e, acima de tudo, ter autoconfiança e estilo próprio.

Numa noite de céu estrelado, há uns vinte anos atrás, estávamos passeando numa praia do Nordeste completamente sem iluminação, eu e meu avô Carlos, que começou a ensinar Música quando eu ainda nem sabia falar direito. Eu tinha muito medo de ficar sozinha no escuro e estava naquela idade em que pra onde quer que se olhe se vê um ponto de interrogação. Falávamos sobre as estrelas e meu avô disse uma coisa que eu nunca mais esqueci: "As estrelas iluminam, os outros astros são iluminados por elas. O que precisa ser iluminado é porque não tem luz própria."

quarta-feira, 10 de março de 2010

Figura Mor

Faz tempo que ela não liga pra me perturbar, mas esses dias eu estava lembrando do quanto minha avó é figura e aí lembrei também dessa história.

Normal eu chegar na casa dela sob a recepção calorosa da cachorrada pulando em mim e correndo atrás dos gatos pelo quintal e minha vó já me fazendo perguntas lááááá de longe, aos berros, sempre sentindo obrigação de me dar alguma coisa. É impossível ir embora e não levar nem que seja um pedaço de papel. Mas o comum mesmo é sair de lá com bolsas quase impossíveis de carregar, mesmo que por uma pequena distância. Às vezes são roupas, outras são coisas variadas, mas geralmente são as frutas. Já levei de lá uma bacia com tantos abacates que precisei parar algumas vezes pra descansar. E olha que da casa dela eram são só dois quarteirões até a casa do Jack, onde eu morava. Não adianta dizer que não quero, que vai estragar. Ela fica irritadíssima.

Então, sempre que chego lá, minha avó oferece tudo que tem em casa. Começa na geladeira e armários da cozinha. " Quer suco? Quer caqui? Fruta do conde? Ameixa? Laranja? Quer Polenguinho? Quer Iogurte? Quer gelatina? Quer sorvete? Quer biscoito? Quer ovo de codorna?" E nisso eu vou falando que já jantei, no mínimo por umas dez vezes. Mas, ela ignora completamente, contando todas as fofocas das redondezas, da família e o resultado dos últimos rounds das brigas dela com seu irmão Pedra. Nesses papos que temos, fico em dúvida se rio ou se choro. Muitas vezes tenho que prender o riso. Muitas vezes não consigo, e ela me chama de boba pra baixo. Depois vai pras gavetas e armários dos quartos. "Quer essa blusa? Esse sapato? E esse brinco? Olha que lindo esse cordão!" Imaginem agora eu vestida com aquelas blusas enormes e coloridas dela. Ou com aquelas sandalhas brancas que ela adora. E os brincos então! "Não vó, não precisa me dar nada, pára com essa mania de achar que tem que me dar alguma coisa." Até os produtos de higiene dos banheiros ela oferece. "Quer esse creme? E esse perfume? Já usou esse shampoo?" E me chama de babaca quando não aceito.

É a maior figura de todas! Tenho a quem puxar mesmo. Mas num dia desses, eu estava lá, ela já frustrada porque naquele dia recusei todas as coisas possíveis e não tinha mais nada pra oferecer, estava na sala com ela, assistindo seu programa favorito. Aquele da Luciana Gimenez. Ela tinha acabado de xingar o irmão, nada mais havia no estoque de fofocas. Nada mais pra falar mesmo. Aí vira e manda essa:

- Carolina, você já tomou ismino, esmirno, emisso... ah não lembro o nome daquele troço... ice...?

Na hora me veio Smirnoff Ice na cabeça, mas pô, claro que não era isso. Óbvio! Minha vó, tomando Smirnoff Ice? Nada a ver...

- Pô vó, não sei o que é. Não devo ter tomado. Não entendo muito dessas bebidas.

Aí ela levanta, vai na cozinha e volta com uma garrafa:

- Ah, não tem mais. Pensei que tivesse, mas devo ter bebido todas as garrafinhas quando estava limpando o quintal. Aqui a garrafa ó. Depois compro mais pra você experimentar.

Era. A garrafa. De Smirnoff. Ice. E ela bebeu todas.

...

Assim, a minha avó toma Smirnoff Ice! Bebidinha de boate, de night, de galerinha muito louca que dá beijo na boca... bom, deu pra entender, né?

Ah, sim. Eu só tenho essa avó. Logo, é a mesma que vai até o Quebramar comigo de bicicleta, aquela que dá Coca-cola pro papagaio, que pega tudo quanto é bicho na rua e traz pra casa, a mesma que se veste como um pirulito, que pede quentinha pros cachorros no restaurante, que inventa de eu ir tocar piano pros velhinhos dos asilos (do nada), que faz "shsssssss!" altão na fila do banco quando as pessoas estão falando muito. E claro, a mesma que vai arranjar um jeito de enfiar na conversa que eu toco piano. Ela vai dar um jeito. O assunto pode ser a vida secreta das iguanas. Não importa, "você sabia que Carolina toca piano?", vai entrar em algum momento na conversa. Então, eu não sei porque senti essa surpresa sabe? Mas, por esse papo de Smirnoff Ice eu não esperava meeeeesmo!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mais um dia

Haverá um tempo em que neste momento do ano os homens não dirão que dia da mulher é todo dia, que os supermercados não mais nos presentearão com flores por isso, que as pessoas não mandarão mais mensagens de feliz dia da mulher e que os programas de TV não mais farão reportagens mostrando mulheres em "atividades masculinas". Haverá um tempo em que uma pessoa olhará para a outra e verá um ser humano, antes de sua idade, sexo, condição social, etnia, religião, profissão, crença, estilo, altura, peso, cor do cabelo, gosto alimentar ou preferência sexual. Haverá um tempo em que as mulheres definitivamente aceitarão como algo natural o fato de serem mulheres e não com a velha falta de autofirmação feminina que as impulsionam a procurar definir seu universo e a se sentirem especiais ou inferiores aos outros de forma não assumida. Haverá um tempo em que ela não mais procurará nivelar-se com o homem e ele por sua vez não mais a olhará com velado desprezo e desdém, e  ambos aceitarão com naturalidade suas diferenças nas formas de enxergar o mundo. Haverá um tempo em que elas entenderão o quão desnecessário são certas frescuras e eles perceberão que não há nada de bonito em bancar os valentões. Haverá um tempo em que a mulher não mais receberá remuneração inferior ao homem simplesmente por uma questão de gênero, que não haverá cota para negros ou estudantes da rede pública nas universidades e que no mundo todo ela será livre para expressar-se como achar melhor. Haverá um tempo em que piadas sobre TPM perderão a graça, que elas serão poupadas de ouvir palavras grosseiras ou inconvenientes enquanto caminham sozinhas pelas ruas e que a discriminação de fato será extinta. Haverá um tempo em que todas serão respeitadas, mesmo aquelas que não respeitam a si mesmas. Haverá um tempo em que as diferenças serão entendidas como necessárias para o equilíbrio do mundo e por isso incentivadas e compreendidas enquanto uma das mais valiosas particularidades de nossa condição humana. Haverá um tempo em que o oito de março será apenas mais um dia no ano, que o dia da consciencia negra será igualmente banal, e que o dia do orgulho gay cairá em obsolescência. Haverá um dia em que esse sonho será real... Pena não ter sido hoje.

Oração do Impaciente

Senhor, dê-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as coisas que não posso aceitar, e sabedoria para lidar com as situações irritantes, porque se me der força, eu mato um.

Também, me ajude a ser cuidadosa com os calos em que piso hoje, pois eles podem estar diretamente conectados aos sacos que terei que puxar amanhã.

Ajude-me, sempre, a dar 100% de mim no meu Trabalho: 12% na segunda-feira, 23% na terça-feira, 40% na quarta-feira, 20% na quinta-feira, 5% na sexta-feira.

E, ajude-me sempre a lembrar, quando estiver tendo um dia realmente ruim e todos parecerem estar me enlouquecendo, que são necessários 42 músculos para socar alguém, 17 para sorrir e apenas 4 para estender meu dedo médio e mandá-lo para aquele lugar.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Soprando no Vento

How many years can a mountain exist
Before it's washed to the sea?
Yes, and how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes, and how many times can a man turn his head,
Pretending he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.

Auto Sabotagem

Uma questão antiga que volta e meia me faz desacreditar um pouquinho nas pessoas é o prazer que sentem em fazer os outros sentirem-se inferiores. Já tomei tanta antipatia por gente que a princípio eu até achava bem legal, mas que em algum ponto revelou o que a maioria delas acaba revelando um dia, esse lado "sou melhor do que você"! Claro, tem aqueles que ainda são crianças incorrigíveis, no mau sentido, mesmo depois de uma certa idade, apelando pela atenção de todo mundo das formas mais escrachada possíveis. Mas, esses acabam ganhando a inimizade geral logo de cara, quando resolvem dar suas primeiras demonstrações de infantilidade. O engraçado é quase sempre serem muito ruins no que fazem, exceto valentões, discutidores e críticos-de-tudo. Mas, não é fácil identificar, de primeira, os casos em que se desenvolveu a habilidade de maquiar aquele argentinozinho interior. Aí é que dá tempo de você ser legal e a pessoa achar que vai dar pra te fazer de platéia. E como arrancar um pentelho desses depois, sem soar estúpido e tendo uma paciência minúscula feito a minha? 

Eu não sei o que passa por essas cabeças... Lêem meia dúzia de livros, assistem a um ou dois filmes, conhecem essa e aquela banda e pronto, é o suficiente. Não precisam fazer nada de mais relevante na vida, do que espalhar isso aos quatro ventos como se fosse um grande feito. Mas, eu não entendo... Criticar alguma coisa é tão fácil que até crianças de 5 anos o fazem. Onde está o merito disso?

Chato, sabe?  Você acha que tem amigos e um dia se dá conta do contrário. São apenas pessoas mais interessadas em fazer você se sentir inferior a elas do que em passar um momento agradável do seu lado. Estão o tempo todo se comparando, com uma raiva não assumida de você. São seus oponentes, não amigos. A amizade é só uma máscara, uma formalidade. Em suas vidas normais são sádicos:  gostam de  tornar difícil a vida dos outros, de torturar, derrotar, competir, conquistar. Se o outro tiver que ser destruído, então que seja, o importante é vencer: ser o sabichão, o mais rico, mais esperto, mais bonito, mais forte, mais habilidoso, mais talentoso, o primeiro lugar em tudo, ter títulos e mais títulos de cuspe a distância ou sei lá o que. E assim são infelizes e não entendem o motivo; sentem-se abandonados quando não há bajulação; sozinhos, pois não gostam de sua própria companhia; nunca estão em paz; reclamam que ninguém os entende, quando nunca pararam para tentar entender o outro; dizem que ninguém os escuta, quando sequer prestam atenção ao que o outro tem a dizer; não sabem esperar a vez do outro; acham que a lei não se aplica a eles. Enfim, o pior disso tudo é que essa foi a educação recebida por todos nós "Vá lá e acabe com eles!", "Seja o melhor.", "Leve vantagem." Desse jeito, sobram poucos a quem podemos chamar de amigos, pois no íntimo, a maioria é de competidores imersos nesse ciclo vicioso: faço os outros infelizes e fico infeliz, sou infeliz e faço os outros infelizes.

terça-feira, 2 de março de 2010

De um jeito que ele entenda.

- Estou procurando uma imagem de uma coisa que não é bem o que parece que é.
- Caraca. Complexo, hein!
- Não, pô. Quero alguma coisa que se você olhar bem, não é o que parece, só isso.
- Ah, tá... Tipo aquele desenho do André no nosso time de Imagem & Ação, que parece uma bigola, mas na verdade é um hidrante?
- É, Jack, tipo isso.

Só para os mestres

Hoje eu passei pela serra e voltarei a passar por lá, em quase todos os dias, pelos próximos quatro anos. Gosto da serra, é linda, mais ainda coberta de nuvem como estava. Tanto que nem liguei (muito) para o fato de estar num ônibus lerdo e cheio. As árvores passando, algumas escondidas pela névoa, Muse no ouvido e os pensamentos longe... Lembrei da época da primeira faculdade, como eu fiquei feliz e depois tão desiludida com aquela porcaria e com um monte de outras coisas mais. Amigos indo morar longe e mudando de curso, minha banda se revelando um verdadeiro estorvo, problemas com meus pais adolescentes, eu voltando a ficar sozinha a maior parte do tempo... E como isso era amedrontador e triste! Já nem conseguia apreciar a beleza da serra, da luz do sol colorindo as folhas de um verde clarinho, do cheiro do chá de manhã, sentar em paz para ler, tocar por estar afim, desenhar, nem ficar feliz por uma vitória que na verdade serviu mais para atrasar tudo. Todos dizendo que aquele era um dos períodos mais dourados da vida e eu havia planejado tanta coisa boa para fazer nele... Mas ficou ruim mesmo naquela época e só foi piorando. Meus sonhos desmoronaram alí e ainda hoje estou tentando recontrui-los outra vez. Mas aí penso no Jack, quem eu nunca teria conhecido se a banda não precisasse de tecladista; nos amigos tão legais que eu fiz durante as aulas e por causa da banda; nos livros que acabei conhecendo e me ajudaram tanto a aprender um monte de coisas; e em um ou outro professor que realmente tiveram relevância na minha formação. Às vezes simplesmente não temos a menor idéia do verdadeiro motivo de estarmos onde estamos e de fazermos o que a gente faz. Descobrir a moral da história depois que o período passou, é moleza. A grande sacada mesmo é entender as razões e apreciar a beleza do momento em que se vive.