quinta-feira, 11 de março de 2010

A diferença entre astros e estrelas

Existe uma diferença enorme entre gostar ou aceitar, e precisar ou não conseguir viver bem sem alguma coisa, certo? Mas, foi confundindo tudo isso que jogaram mais uma palavra no saco dos pejorativos: artista.

Quando desenhamos, tocamos alguma música, escrevemos, o resultado será muito melhor se o fizermos por prazer. E só quem faz  de coração sabe como é indescritível o processo de composição, escolher as formas, as cores, passar pela prancheta com o lápis e dar mais uma rabiscadinha no desenho ainda incompleto, ir construindo a música parte por parte sem pressa de acabar, transformar a partitura em melodia pedacinho por pedacinho, ver o poema que se transformará em canção, pouco a pouco tomando forma e de repente olhar pro todo e ver o resultado. Às vezes muito bom, outras vezes decepcionante, mas o prazer para nós está mesmo no que acontece entre depois de começar e antes de acabar a obra, não é? E como é bom aprender, se aprofundar... sempre perguntando, lendo e buscando melhorar, considerando tudo o que sabemos ainda muito pouco perto do que  gostaríamos de saber fazer.

Em qualquer ramo encontraremos dificuldades, da Medicina à faxina. Os obstáculos não devem nos fazer esquecer o que queremos, não devem ser os motivos pra que a gente desista de fazer o que temos vontade. Por isso, apesar das inúmeras histórias que conhecemos por aí sobre péssimas condições familiares,  falta de apoio, de má orientação, formação precária e até mesmo do meio e do mercado não serem os mais convidativos, os mais teimosos insistiram no que acreditavam e continuaram investindo em sua Arte. E nesse ponto precisamos da aprovação de outras pessoas para o que fazemos. No momento em que a obra artística se torna produto, a opinião dos outros se faz necessária. E realmente é muito prazeroso quando você acerta, fornecendo o que eles procuram. É gratificante atingir uma meta, vencer um obstáculo, a sensação de tarefa cumprida com sucesso. Neste caso, os aplausos, um olhar surpreso, palavras de elogio e curiosidade sobre como fazemos, que materiais utilizamos, onde aprendemos e tudo o mais, significam aprovação. Querem dizer em outras palavras que conseguimos satisfazer o público ou o cliente.

Mas, a autocrítica e a auto-afirmação sincera, são as verdadeiras aliadas de qualquer artista, de qualquer ser humano. É uma besteira esperar por elogios, ouvir aplausos, ser o centro das atenções, para cada passo que se dê na vida. Da mesma forma que é absurdo se ofender porque alguém não gostou de alguma coisa que  produzimos. O incomodo, é natural, até saudável, é ele que nos move e nos faz refletir, mas ofensa, é baixa auto-estima demais! Minha definição de humildade é saber exatamente o valor do que se faz e do que se é, nem mais nem menos. Quando alguém se manifesta é legal, prazeroso, no mínimo construtivo, mas não faz mais diferença do que concordarem ou não sobre qualquer assunto. É certo que, infelizmente, muitos encarem seus sucessos como uma maneira de se sentirem melhores do que os outros, tornando o meio artístico esse lixo, cheio de gente arrogante, ególatra, que pensa possuir todo o conhecimento, todo o poder de sedução e que é o centro do universo e seria muito bom a existência dessas pessoas para nos mostrar como é besta essa necessidade, se esse não fosse o comportamento da maioria... E o mais curioso nisso é que o ego delas é inversamente proporcional ao seu talento em grande parte dos casos.

Enfim, cada um com os seus problemas, sua Arte é um reflexo de você mesmo, mas, apesar disso, tem coisa mais boba que dizer que gosta da música de alguém só porque ele é simpático? Ou que não sei quem não foi um grande pintor porque era um babaca? Isso é uma estupidez. Da mesma forma que muita gente confunde autor com a obra, também confunde necessidade de vender um produto, com necessidade de aprovação pessoal. E gostar com precisar.

Viver tentando agradar é um desgaste inútil, é dar um controle remoto das suas emoções para os outros. Com isso acabou-se a naturalidade, a inocência e a originalidade das pessoas. Criou-se um padrão que todos devem seguir. Sua Arte tem que ser de uma determinada maneira, se não ninguém vai gostar e como ela seus cabelos, seu corpo, seu rosto, suas roupas e sapatos. Isso não tem sentido. Pior ainda quando a pessoa é arrogante ao ponto de viver se comparando com os outros.Qualquer coisa se aprende. Não acredito em dons, muito menos os artísticos. E fazer comparações entre trabalhos e pessoas nos leva a lugar nenhum. As pessoas, assim como seus trabalhos, podem ter muitas semelhanças, mas são únicas. Até mesmo os plágios e aqueles que vivem tentando se parecer com alguém. Cada um é um mundo, com uma história, leis naturais e verdade próprias. Todos têm direito a uma opinião sobre tudo. Ninguém tem que viver sob a aprovação dos outros. Principalmente quando se trata do que as pessoas são no íntimo. Todos devem ser como bem entenderem. Procurar destaque, é só orgulho e egoísmo. Cada um de nós é especial.

Ser aplaudido é muito gratificante, mas depender disso é escravidão, não liberdade e um artista de verdade precisa ser essencialmente livre. Livre para criar, livre para ser como quiser. Livre inclusive para errar, porque os erros são o que nos torna melhores. O artista precisa ser um humilde insatisfeito. Porque a insatisfação é sua melhor aliada, é o que o faz buscar sempre mais, que o impulsiona para o topo. Pensar que já chegou lá é condenar-se à estagnação. E definitivamente, um artista não tem que precisar de um spotlight. De jeito algum! Nem como artista nem como ser humano. É preciso cultivar sua própria luz, se refinar sempre, saber cada dia mais um pouco, ser você mesmo de todas as formas, sem exageros, se expressar sem se preocupar com a opinião dos outros e, acima de tudo, ter autoconfiança e estilo próprio.

Numa noite de céu estrelado, há uns vinte anos atrás, estávamos passeando numa praia do Nordeste completamente sem iluminação, eu e meu avô Carlos, que começou a ensinar Música quando eu ainda nem sabia falar direito. Eu tinha muito medo de ficar sozinha no escuro e estava naquela idade em que pra onde quer que se olhe se vê um ponto de interrogação. Falávamos sobre as estrelas e meu avô disse uma coisa que eu nunca mais esqueci: "As estrelas iluminam, os outros astros são iluminados por elas. O que precisa ser iluminado é porque não tem luz própria."

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