Não tenho o costume de entrar em discussões, nem ao vivo, e menos ainda em fóruns de Internet, blogs, etc, onde o pessoal fica mais "corajoso" com a tela do monitor protegendo seus rostos, a menos que eu pense que fará alguma diferença o que tenho a dizer. E, um dia desses, eu li uma postagem num blog sobre Lost, que eu acompanho pra ficar atualizada das novidades, e achei importante fazer um comentário. O texto falava sobre o fim da série em maio desse ano, seus inúmeros mistérios ainda sem resposta, e terminava com a seguinte pergunta: "E aí, quais perguntas vocês acham que os roteiristas tem a obrigação de responder?"
É claro que o autor do texto se refere às grandes questões que certamente serão solucionadas, afinal o seriado já está na sexta temporada e é com muito pesar que todos que acompanham irão se despedir dele, e estava apenas querendo convidar os leitores à compartilhar suas perguntas, ver se uns lembrarão de eventos que outros podem ter esquecido e estimular a participação dos leitores. O problema é que, bem, não é novidade pra ninguém, a maioria das pessoas é bastante ignorante em assuntos básicos e por motivos que não quero enumerar aqui, já que o assunto é outro, mas aquela pergunta deu margem para que os comentários dessas pessoas se espalhassem como cogumelos no outono. Então foi um festival de exposição de questões totalmente inúteis para a história de Lost e feitas de formas grosseiras, tratando os roteiristas como se fossem pilantras, burros e inexperientes. Por isso, eu vi nessa aparentemente inofensiva perguntinha um dos grandes problemas por que passa o meio artístico hoje. Então, achei importante fazer o comentário a seguir:
"Para mim, os caras não tem obrigação de nada. A história é deles, não nossa e ninguém nos obrigou a assistí-la até aqui. Eu acho esse comportamento das pessoas que ficam indignadas com o rumo que a arte dos outros toma algumas vezes, estúpido e infantil. Criticar é tão fácil, que qualquer vagabundo põe sua cadeira na calçada e fala mal da vida dos outros muito bem. Criar e fazer algo relevante sim é para poucos. Sempre que apontamos uma falha deveríamos indicar uma solução. Só para exercitar e entender a genialidade e a dificuldade de se fazer algo."
Aí, um desses corajosos da internet, deu exatamente a resposta que eu esperava desse tipo de pessoa, com o deboche típico dos narizes em pé ;) e tocou certeiramente no ponto da minha questão:
"Eu acho esse comportamento das pessoas que ficam indignadas com o rumo que a arte dos outros toma algumas vezes, estúpido e infantil. "
A televisão além de um meio de comunicação nada mais é do que comércio.Os fãs de LOST nada mais são do que os "consumidores". Dão audiência (leia-se: assistindo pela TV, comprando os DVDs, etc). A partir do momento em que o consumidor paga (assistindo, comprando os DVDs, bla bla bla), ele tem o direito de reclamar por aquilo que ele paga. Ele não criou a série, mas pagou por ela, entende? ;)
Ex.: Um artista pinta um quadro meu, e me cobra 100 reais, só que ele desenha meu rosto de uma maneira errada e não se parece comigo. Ele não me obrigou a pagar, ele ofereceu o trabalho, e eu paguei, logo, tenho o direito de reclamar se não gostei. ;)
Imaturo e infantil é não aceitar a opinião alheia, já que cada um enxerga a vida de uma maneira diferente. Eu estou gostando da temporada, e da realidade paralela e tudo mais, mas não vou me irritar com quem pensa o contrário.
Abraços "
E isso foi ótimo! Deu a mim a oportunidade de desenvovler o comentário anterior:
Sabe Raphael, não vejo dessa forma. Penso que Arte é um produto/serviço sim, mas não igual aos outros. O artista, um bom artista, claro, trabalha de uma determinada forma, só produz itens únicos, não é como uma máquina que repete a mesma coisa mil vezes exatamente igual, então haverá momentos que você não vai gostar do que vai ver e isso é normal. (O exemplo do quadro não acho que seja apropriado porque você pediu ao pintor previamente o que queria, bem diferente de um seriado que você nem sabe do que se trata quando começa, muito menos sabe que canal de TV irá transmití-lo, ou quando). Só acho que o melhor a se fazer nesse caso, é dispensar o que não gosta e apreciar o que gosta (como um músico que está tocando na rua, você tem a liberdade de parar para ouví-lo e pagar por isso ou não.) Não tratar os autores como se fossem menos do que nós, que apenas assitimos, como se não soubessem o que estão fazendo... Acho sempre a maioria dos comentários muito precipitada. Desde a primeira temporada tem gente dizendo que os roteiristas não sabem pra onde vão e tal, sem parar para pensar que talvez eles saibam sim, talvez eles tenham anos de experiência nisso, sejam profissionais que fazem seu trabalho com maestria, sejam geniais. Por mais que às vezes eu ou você achemos que uma parte ou outra ficou ruim, por mais que de fato cometam erros como qualquer um. Mas, ninguém nos obriga a pagar pelos DVDs, nem pelo canal na TV(vale lembrar que a maioria das pessoas aqui apenas faz download do seriado e mesmo assim reclama dele com categoria, coisa que não entendo MESMO, porque se não gosta é só parar de baixar e nem dá pra entrar nessa de "estou pagando"). Você começa a pagar pelo canal, não gosta dele, dê a sua opinião em algum veículo onde os responsáveis acessarão (não num blog em português) e pare de assistir e pagar, ué! É a melhor forma de notarem que não estão tendo muito sucesso, porque uma coisa é você dizer que não gostou, outra é ser "imaturo e infantil" e começar a fazer crítica pela crítica, só para contrariar, ou só porque VOCÊ acha que a história tinha que ser de outra forma, ou só porque VOCÊ não entende os processos, dificuldades e os altos e baixos de um trabalho como este. Isso é muito cômodo e não ajuda em nada. Assim, como você falou, cada um tem uma forma de enxergar as coisas, não é? Os caras acham que a melhor forma é aquela que eles apresentaram, mesmo que nós não concordemos. Também acho que as melhores histórias são contadas pelos autores que trabalham em paz, sem interferência de opiniões. A originalidade, que é o grande trunfo do artista, depende disso. Está aí o atual cenário artístico mundial como um bom exemplo do quão nocivo é tratar Arte como um mero produto/serviço. Até tem bastante coisa legal surgindo, não quero soar saudosista, mas olha o custo que é para os bons profissionais aparecerem!
E essa é uma opinião MINHA sobre o comportamento dos outros. Uma opinião dada no espaço apropriado para ela, sem infringir regras, ou impondo absolutamente nada. É essa a maneira com que EU enxergo a realidade. Não estou obrigando ninguém a concordar com ela, da mesma forma que ninguém está me obrigando a concordar aqui, certo? ;)
Como você, também estou gostando de tudo e não me irrito com quem não está. Mas acho estúpido e infantil mesmo tratarem o assunto como se os caras tivessem obrigação de coisas que eu acho que não têm. A questão é o comportamento de todo mundo, não a opinião. Cobram do artista tanto quanto cobrariam de um engenheiro, médico, juíz, vendedor de alimentos, mas não o tratam com o mesmo respeito. E da mesma forma que todos têm a liberdade de continuar se comportando assim, precipitadamente, achando que os autores tem OBRIGAÇÃO de explicarem porque escolheram 4 8 15 16 23 42 e não 5 6 17 19 28 45, eu tenho a liberdade de dizer que acho besteira.
Beijos pra você, não briga comigo."
Sei lá, achei relevante transcrever essa discussão aqui por se tratar de uma questão importante para nós que fazemos Arte.
2 comentários:
O final vai ser com certeza vai deixar tudo explicado de maneira coerente para aqueles que não têm dificuldade de assimilar. Algumas coisas serão respondidas de relance e a pessoa terá que captar. Acho que nego quer respostas do tipo: "olha gente a ilha é isso e isso, os números são assim por causa do fulano de tal e no final TODO mundo vai saber pq raios tem vários nomes naquela roda dos espelhos...etc, etc. Explicado tin-tin por tin-tin.
Concordo com você. Não vou aqui tecer nenhum comentário sobre Lost porque, nunca assisti um episódio sequer. Mas neguim baixar da net, sem pagar nada, e ainda se achar no direito de opinar sobre o trabalho dos caras, é sacanagem. É quase como morar de graça na casa de alguém, comer de graça, não ajudar em nenhuma despesa (ao contrário, dar prejuízo) e ainda reclamar de que as coisas não estão do jeito que se gostaria.
Ótimo post. Opinião correta e equilibrada.
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