domingo, 16 de maio de 2010

A Toda Velocidade

Quando eu era criança o tempo passava mais lentamente. E é certo que meus pais viveram suas infâncias ainda mais vagarosamente, e por sua vez meus avós viram mais grãos de areia na ampulheta de seus dias dourados. Ainda é viva na memória a eternidade da meia hora de propaganda eleitoral na TV. Eu era capaz de criar mundos em trinta minutos... Num só dia havia espaço para as bonecas, as pipas, as bolas, o pique, os jogos de tabuleiro, os filmes, as leituras, a música, os desenhos, a piscina, as refeições, o banho e o sono. O sonho da gente era ganhar uma bicicleta no aniversário, sonhávamos com o poder de voar ou sermos invisíveis. Mas o tempo já não é mais o mesmo nesses nossos dias. Hoje eu queria é conseguir me tele-transportar e que inventassem uma pílula para o Francês entrar no meu cérebro da mesma forma que se instala um programa de computador. Num minuto, uma infinidade de dados novos! É triste, mas impossível não se ver imerso nessa moda de velocidade, quando tudo é exigido para ontem. Não há tempo para pensar. Acabou-se a contemplação e a criatividade saiu perdendo de nocaute logo no primeiro assalto. 

E agora, onde ficam aqueles prazeres e atividades que requerem tempo para se obter algum sucesso? Os eventos passam limitando-se à leitura da primeira e da última página. Ignora-se completamente os acontecimentos, de fato, importantes, os intermediários, e as entrelinhas. As viagens reduziram-se ao cenário de partida e à estação de chegada, eliminando completamente a beleza da paisagem que nos acompanhava durante o trajeto, lá de fora da janela. Neste ritmo, chegaremos ao ponto de resumir a existência à primeira inspiração e a última expiração. Abreviaremos toda uma vida num abrir e fechar de olhos.

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