quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Fim de ano

Organizar armários, arquivos e papéis é sempre ser surpreendida com vidas passadas que não interessam em nada reviver... As coisas raramente são como se quer, mas talvez eu raramente seja como as coisas querem também.

Odeio essa época do ano!

Canção da Cabra Montanhesa

O medo é a base de qualquer cativeiro e consequentemente de qualquer forma de exploração. É com medo que deixamos de viver como queremos e somos mantidos em correntes sociais, profissionais, afetivas, religiosas... Medo do inferno, ou seja, culpa. Mas, a partir do momento em que se percebe que não há ninguém para nos castigar ou recompensar, que tudo isso são convenções, que o céu e o inferno estão dentro da nossa cabeça e somos nós que os criamos, uma certa liberdade começa a ser sentida e a culpa vira besteira. Com alegria e paz, criamos o céu e podemos compartilhá-lo. Só podemos dar o que temos. E quando damos, aquilo volta em três níveis: físico, emocional e espiritual. Pois, a existência é um imenso espelho. Ao sorrir, a existência sorri de volta, ao berrar e insultar a existência berra e insulta. Somos nós a causa e o efeito. A existência não é boa ou má, ela simplesmente é. E devolve para nós a nossa falta e a nossa abundância... Até mesmo os castigos e as recompensas são criações nossa. Nós mesmos escondemos os doces e brincamos de procurá-los. Tem gente que chama isso tudo de prova, teste... Tem quem acredite em deuses e entidades que nos usam para cumprir propósitos... Há a crença generalizada na realidade imediata e prática da vida cotidiana com suas complexidades sociais e todas as suas instituições. Mas, acredito que tudo isso seja apenas histórias para criança. Não acho que de forma alguma estamos aqui por razões compreensíveis, muito menos estamos sendo testados ou observados. E tentar entender a complexidade do universo com as limitações do nosso cérebro é o mesmo que tentar pegar o oceano com uma caneca. Se alguém observa, somos nós. Se temos um propósito, ele é só nosso e nós é quem criamos culturas e instituições. Vestimos as fantasias e subimos no palco. Levar isso tão a sério é no mínimo ingenuidade. Nós damos poder ao que desejamos dar e se isso nos cria dificuldades também nos faz crescer e aprender. Pois, somos livres, mas liberdade não quer dizer irresponsabilidade. É justamente em liberdade que somos completamente responsáveis. Ninguém mais é responsável por nós. Somos problema nosso. Nenhum deus está cuidando, nenhum anjo da guarda, nenhum pai... E essa é a canção da cabra lá em cima na montanha, de pé, equilibrada em inclinações inacreditáveis: as dificuldades são questões de perspectiva. Se está difícil, por que isso deveria significar que não vale um esforço? Além disso, pode haver outras formas, outros caminhos para se chegar onde deseja, por que seguir necessariamente por esse? Se está fácil, qual é o poder que torna tudo simples? O poder (problema) é todo seu.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Comigo, então...

No fundo, tudo o que sabemos parte de uma premissa que é baseada numa crença. Pois, são dois os mitos primordiais, anteriores a todas as coisas. Um deles pode-se resumir em: se nos dedicarmos com tudo o que temos, conseguiremos qualquer coisa (responsabilidade). E o outro: não importa o quanto nos dediquemos com tudo o que temos, não seremos capazes de conseguir o que queremos (fatalismo). Em algum momento, decidimos em qual deles acreditar e isso guia nosso caminho. Todas as atitudes, pensamentos, sentimentos, afetos, intuições e visão de mundo partem dessa crença. Que é APENAS uma crença. Ou seja, não importa o que pensemos saber, não importa quanto estudo, experiência... no fim das contas, toda a percepção se baseia numa idéia impossível de comprovar. O que permite a conclusão: você e eu sabemos de porra nenhuma. Logo, é perda de tempo e energia discutir sem um objetivo claro. Especialmente com os aliados.

sábado, 26 de novembro de 2022

De Círculos e Desejos

E por falar em Vontade... Justamente neste momento em que "o amor venceu" aqui na ala de doidos varridos, em que existem aqueles que estão "do lado certo da História", em que o Bem é disputado pela classe mais questionável de uma sociedade e reforçado por fanáticos seguidores falaciosos que perderam o bom senso (se é que já o tiveram), em que ninguém está vigiando os vigias, em que se comemora palavras e ações deploráveis esquecendo-se que o chicote sempre muda de mão, em que questionar virou crime sujeito a multas milionárias satíricas e mordaças diversas, em que postes mijam em cachorros, ratos pulam de navios e ladrões são soltos aos bandos, em que morte de artista e contusão de atleta são comemorados simplesmente porque resolveram declarar voto (obrigatório) a esse ou àquele bando de saqueadores da nação, em que a Carreta Furateto is coming with wrath because they know their time is short, em que em qualquer assunto se enfia divisão, ativismo, militância, patrulha e doutrinação, em que sequer há esforços para esconder a inveja, o recalque, a frustração, falta de responsabilização e desejos reprimidos aqui e ali através do clássico fenômeno da projeção psicológica de problemas que são só seus, eu ouço ao longe uma gargalhada. Na madrugada, um galo cantou... 

Estou com tempo? Não. O momento é próspero para a minha vida intelectual, artística, profissional e econômica. Ando fazendo malabarismos para não precisar recusar propostas ou pedir demissão, porém as coisas não vão tão bem assim em outro setor. Justamente onde, ingenuamente, eu esperava não ter problemas. Ah... O típico equívoco libriano de contar que as pessoas agirão da mesma forma que se age com elas. Então, num momento de desorientação e impulso de desistência, ali onde os caminhos se cruzam, e sem que eu o procurasse, um velho amigo surgiu, com seu sorriso enorme, me indicando uma direção. Coisas desnecessariamente desagradáveis acontecem de forma cíclica. A frase poderia terminar aqui, mas me refiro ao círculo de um dos meus trabalhos voluntários regulares. É um trabalho em grupo. E, antes de fazer parte dele, eu não contava com problemas ali, logo ali, naquele grupo!

"Naquele grupo..." Mais de 60 pessoas... Não haver problemas ali seria um milagre.

Então, relembro agora essa direção que me foi apontada, simplesmente porque estou outra vez no ponto baixo da roda, de volta à mesma encruzilhada, sem paciência para desrespeito e gente louca, com vontade de desistir, abandonar e afastar de mim o graal que eu mesma busquei. Isso, somado à tanta prosperidade e prazos apertados me fez optar por estar aqui hoje. Não escrevendo essas reflexões e memórias, claro. Eu devia estar finalizando a terceira capa de uma trilogia, mas enfim... Círculos são as formas geométricas mais curiosas.

Desejos são círculos, são apenas sobre nós mesmos e todos desejamos algo. O desejo colore a vida. Poucos de nós, no entanto, têm um senso de visão. Um olhar amplo, adiante. Visões são desejos que incluem todos a nossa volta. Desejos trazem melhorias. Visões podem transformar uma situação inteira. 

Um voluntário é alguém que faz algo porque quer fazer. Nada mais o impulsiona, além de sua própria vontade. Não há ganhos financeiros ou sociais, nem nada mais que o motive. Obrigações são aquelas coisas que não queremos fazer, se fazemos é para conseguir algo para nós. E fazer algo porque se quer é fundamental para a nossa felicidade. A diferença entre o Paraíso e o Inferno é apenas essa. A partir dessa idéia, nós dividimos a vida entre o que eu gosto e o que eu não gosto. Essa pessoa eu gosto, aquela não gosto. Com essa eu quero fazer coisas, com aquela não quero. E isso pode acontecer entre duas pessoas, ou dois aspectos da vida, dois grupos, duas nações, dois de qualquer coisa. Isso eu faço porque quero, aquilo faço por obrigação. 

Se isso acontece, significa que na minha cabeça, eu decidi que isso é bom e aquilo é mau. Dividimos a vida entre os bons e os maus. E é justo aí que a coisa desanda. Quando se começa com isso, nos tornamos um desastre para o mundo. É apenas uma questão de tempo. No momento em que decidimos que essa é uma boa pessoa, aquela é uma má pessoa, fechamos nossa capacidade de receber o que quer que venha, quem quer que venha e crescer com isso, aproveitar a vida ao máximo. O interessante é que justamente quem mais cai nessa de rotular tudo e todos, rotula tudo e todos de quem discorda de fascista. Círculos são mesmo sensacionais!  

Bom e mau... todos oscilamos entre os dois. Questão de perspectiva e contexto. Quando se cria um ambiente agradável, maravilhoso, todos se comportam de maneira maravilhosa. Um ambiente desagradável torna todo mundo desagradável. Então, o que existe, na verdade, são pessoas alegres e pessoas infelizes. E não, pessoas boas ou más. 

No momento em que pensamos que nós somos os bons, nossa inclinação natural será destruir os maus. Assim, nós viemos destruindo um monte de gente por um longo período de tempo. Já é hora de parar com isso. Cada um de nós está num estágio diferente de consciência, entendimento e experiência, existe uma variedade enorme de estágios. E todos que não são como nós serão considerados maus? Afinal, a base que usamos para reconhecer o bom e o mau somos nós mesmos. É importante destruir isso dentro de nós. 

Voluntariado, significa, que apenas quero fazer algo. É o exercício de um grande poder pessoal, a Verdadeira Vontade em ação, exercendo sua função: a materialização das idéias. Incondicionalmente! Voluntariado, significa ter uma atitude de 100% de afirmação para a vida. Sem escolher esse ou aquele, é estar aberto a tudo e a todos. Pois, quando se é 100% aberto à vida, apenas então se é um voluntário, alguém que exerce pura e simplesmente a sua Vontade, que faz porque quer e só. Torna-se alguém que deseja realmente a vida. E, se torna tão aberto que acaba não tendo desejos apenas para si próprio.

E para lidar com todo tipo de pessoa é importante lembrar que a sua vida pertence a você, não aos outros. Não é da sua conta a escolha deles, quem eles são ou como eles são. Mas, o que eu sou é escolha minha. Essa é a MINHA forma de ser. Não importa o que façam, EU sou assim. Porque não dou a liberdade para ninguém decidir como eu vou me sentir ou me comportar. Ninguém vai me fazer sentir raiva, ninguém irá me fazer feliz, ninguém irá me magoar. Esses privilégios eu guardo para mim. Pois, se alguém é capaz de decidir o que acontece dentro de você, essa é a suprema escravidão. A nossa volta, é claro, não cabe inteiramente a nós como será. Mas, dentro de nós, é nossa responsabilidade. 

Eu estou desanimada de novo com uma coisa que inicialmente era muito boa, e pensei nas palavras do meu amigo, sabe? Se eu for deixar de apreciar algo bom porque foi feito de uma forma má, por pessoas más, certamente não gostarei de nada no mundo. Posso continuar não gostando das pessoas e de suas maneiras, mas se algo é bom, é bom e fim. Daí vem meu pouco interesse por como a pessoa é e meu foco no fruto de suas ações. 

Neste momento, naquele meu grupo, todos perturbam a todos, pois não são realmente voluntários. Não estão lá simplesmente porque querem. Esperam receber algo, algum tipo de reconhecimento, suprir alguma carência. E voluntariado significa que você não tem nenhum desejo apenas para si mesmo. Você irá fazer o que for necessário como um cavaleiro juramentado. Se aquela é uma casa de trabalho voluntário, isso significa que virá todo tipo de pessoa trabalhar. A maioria não é qualificada para o trabalho que está executando. E não se pode demiti-los, pois são voluntários! 

A questão é que assim é o mundo inteiro.

"Quando você não conseguem trabalhar com esta ou aquela pessoa, reclama que elas são horríveis, deve lembrar que no mundo esse é o tipo de pessoa que existe. E, se o que você quer é trabalhar com a pessoa ideal, então você deve ir para a terra dos círculos, o Paraíso. Pois, é preciso reconhecer, não encontrará nenhuma aqui. Eu ainda não encontrei!", disse o meu querido amigo com aquele seu sorriso branco de lua crescente e continuou: "Caso contrário, se não deseja ser tão seletiva, classificando as pessoas em más ou boas, se você está realmente aberta para a vida, se pensa que o que está fazendo tem um significado maior, você encontrará um caminho, aprendendo a trabalhar com todas essas pessoas horríveis. E verá pessoas horríveis fazendo coisas maravilhosas."

Ventou no canavial. Um trovão lá no céu ecoou... Ele desapareceu bem lentamente e apenas o seu sorriso permaneceu por algum tempo depois do resto ter ido embora. E eu só consegui pensar que sempre vi muitos gatos sem sorriso, mas um sorriso sem um gato! É a coisa mais curiosa que já vi em toda minha vida. 

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Canção do Centauro Arqueiro

Consciência, liberdade e responsabilidade estão tão intimamente ligadas que quase chegam a ser sinônimos. Uma certamente implica na outra. E esse trio é o que aparentemente diferencia os outros seres de nós humanos. Só para nós existe a liberdade, a responsabilidade e a possibilidade de conscientemente ser ou não. Porque, ser livre significa compreender que absolutamente nada está sob o nosso controle. Além disso, a compreensão desse fato vem acompanhada de uma grande angústia: o medo da própria incapacidade e do que pode acontecer a seguir. Pois, o minuto seguinte é incerto. Então, raros entre nós ousam entender e aceitar de verdade essa palavra tão bonita: liberdade. O que se vê é a troca contínua de uma escravidão por outra. Pois, liberdade exige habilidade para decidir o tempo todo. No entanto, é muito mais cômodo transferir essa tarefa. Então, cria-se a escravidão sob diversas formas: família, casamento, escolas, estados, governos, religiões, tradições, escrituras, Academia... Legitima-se os outros para dizer o que fazer aos demais, por onde seguir. Criam-se círculos, títulos, sistemas, tradições, culturas, times, classes, bandeiras, definições diversas... Afinal, caminhar numa trilha sem pegadas, sozinho, exige grande responsabilidade e consciência. Requer uma postura que dificilmente foi ensinada, que exige se apartar da multidão e seguir como um indivíduo. Significa que a todo momento será necessário decidir, gerar a si mesmo, criar a própria alma. Ninguém mais será responsável, somente você. Porém, a questão é que a vida toda, você é ensinado a obedecer. 

Nietzsche, esse libriano que por ter gostado muito de falar e escrever acabou falando e escrevendo muita besteira no meio de tanto pensamento interessante, publicou uma das idéias mais decisivas do século retrasado: "Deus está morto e o homem está totalmente livre." Se Deus está realmente morto, então o homem está totalmente livre. Mas, o homem não tem tanto medo da morte de Deus: ele tem muito mais medo da sua liberdade. Porque, se não existe Deus, então você foi condenado a ser livre. Agora faça o que você gosta e sofra as consequências, ninguém mais será responsável, só você. Erich Fromm escreveu um livro chamado "O Medo da Liberdade". Basicamente, o livro fala que o amor é uma liberdade, o casamento é uma escravidão. Mas, é difícil encontrar uma pessoa que se apaixona e não pense imediatamente em casamento. Existe o medo e com ele essa necessidade de aprisionar. Justamente porque o amor é liberdade. O casamento é uma coisa segura onde aparentemente, não existe medo. O casamento é uma instituição morta, o amor é um evento vivo. Ele se move, ele pode mudar. O casamento nunca se move, nunca muda. Por causa disso o casamento tem uma certeza, uma idéia de segurança. O amor não tem certeza nem segurança. O amor é inseguro. A qualquer momento ele pode sumir de vista da mesma forma como apareceu: do nada. É algo sobrenatural, não tem raízes na terra. Por isso, as pessoas se casam, fincam raízes. O casamento não vai evaporar no nada. 

Toda situação, exatamente como no amor, onde há inicialmente liberdade, tende à escravidão. E quanto mais cedo melhor! Assim se pode relaxar. Por isso, toda história de amor termina em casamento. "Eles se casaram e viveram felizes para sempre." Ninguém está feliz, mas é bom terminar a história ali porque em seguida vai começar o inferno. Por isso toda história termina no momento mais bonito. Aquele exatamente anterior ao ponto em que a liberdade se torna escravidão! E isso não é apenas com o amor, é com tudo. Por isso, é mais provável que o casamento venha a ser uma coisa feia cedo ou tarde. Toda instituição tende a ser uma coisa feia porque ela é apenas um corpo morto de algo que um dia foi vivo. Mas, com uma coisa viva, a incerteza está presente. "Vivo" quer dizer que pode mover, pode mudar, pode ser diferente. Eu amo você e no próximo momento eu posso não amar. Acho que por isso gosto tanto de ter certeza que a outra pessoa saiba o que estou sentindo por ela no exato momento em que sinto. Sei que depois sentirei outra coisa e aquilo terá desaparecido. Mas, se eu disser ou mostrar, ela pode saber, pode sentir e isso tornará o momento eterno. No entanto se sou sua esposa, há a certeza de que no próximo momento eu também serei. Isso é uma instituição, uma coisa morta. Coisas mortas são permanentes, coisas vivas são momentâneas, mutáveis, estão num fluxo. Por isso, pessoas tem medo de liberdade, mas a liberdade é a única coisa que nos faz pessoas. Assim, nos auto destruímos ao destruir nossa liberdade, destruindo toda nossa possibilidade de ser. E substituímos por ter. Ter parece bom, porque ter significa exercer algum domínio, manter coisas, mesmo que estejam mortas, mesmo que seja apenas coleções de coisas completamente inúteis. Podemos continuar mantendo e acumulando, não existe um fim para isso. E quanto mais se acumula, mais seguro se sente. 

O esforço da Vontade nesta questão é crucial. Pois, qualquer coisa que se faça compulsoriamente é apenas parte do passado. O futuro depende dos atos com Vontade. Um ato muito simples feito com consciência, com Vontade, traz um certo crescimento, ainda que seja um ato comum. Se resolvemos jejuar, não será porque não temos comida. Temos comida, temos fome, portanto, podemos comê-la. Mas, jejuar é um ato voluntário, um ato consciente. Nenhum animal pode fazer isso. Um animal jejua algumas vezes, quando não existe fome. Um animal terá que jejuar quando não existir alimento. Mas, somente o homem pode jejuar quando existe ambos: a fome e o alimento. Isso é um ato voluntário. Esse jejum é um ato de sua Vontade, um ato consciente. Isso trará mais consciência e o sentido de liberdade sutil: livre do alimento, livre da fome e assim, no fundo, livre do seu corpo, livre da natureza. A liberdade cresce e a consciência cresce. Quanto mais livres, mais conscientes, quanto mais conscientes, mais livres.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Regras da Vida #8

Quando você está se acostumando com paz e silêncio, as coisas começam a acontecer, todas ao mesmo tempo, de todo lado.

domingo, 23 de outubro de 2022

Canção da Fênix


Essa é uma canção que deveria começar com um grito. Um silêncio prolongado, talvez. Ou simplesmente algo bem brusco! Nem chega a ser uma canção, pois, esta não se canta. Não tem letra. Aqui se trata de todas as experiências profundas demais para serem verbalizáveis, todos os mistérios. Erotismo, vida, morte, transcendência, renascimento... Aqui é onde tudo se esconde. Nada é claro. Nada é calmo. Crise. Sombra. Falta ao meu Ar a calma e a clareza que tanto valorizo para cantá-la. Afinal, qual a melhor forma para expressar o que acontece nas Águas profundas... durante os dias no abismo? Não se planeja esse tipo de coisa. Apenas, aceita-se. Tenho tão pouco de Água em mim que em todos os meus sonhos ela aparece e sou obcecada por corpos aquosos e transparências. Toda a metalinguagem do pensamento barroco e seus labirintos, seu movimento ascendente, sua complexidade, sua sobreposição de planos, seu drama, sua exuberância, seu espetáculo, seu exagero, seu luxo, seus contrastes bruscos, suas diagonais, sua falta de formas definidas... De certa forma, acaba sendo por esses vieses que as coisas e as pessoas me tocam de um jeito ou de outro. Nas curvas, nas dobras, na nebulosidade, na sugestão, no talvez, nas esquinas e devires, pois é aí onde se esconde o núcleo de tudo o que importa. O êxtase. E viver o êxtase é morrer. E morrer é desaparecer. "Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva na estrada." E o que está oculto me fascina. Talvez seja por isso que tantos assuntos me interessam. E por uma ironia da vida, as pessoas aquosas tendem a me buscar... os caranguejos, os escorpiões e os peixes... mas eu nunca lido muito facilmente com nenhuma delas. Por isso é tão rico quando me encontram, por isso é tão exaustivo quando as enfrento. São sempre amizades difíceis, insistentes, mas uma vez estabelecidas, são as mais verdadeiras e sólidas. Seja como for, ainda assim, sei bem do que se trata essa canção. São sagradas, reservadas apenas para os ritos mágicos, sazonais ou fúnebres, as cerimônias e momentos decisivos, transformações e morte. Quando algo muito extraordinário acontece. Aqueles dias de inundação, vendaval, terremoto e incêndio, êxtase e cinzas que precedem o bater suave das asas do pássaro renascido.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Canção da Balança Cega

É sob a vibração da balança que a chegada da primavera sempre traz para mim também o Inferno Astral e suas inevitáveis reflexões sobre equilíbrio, justiça, decisões, escolhas, acertos, consciência...

A química cerebral é cega, a Biologia é cega, a Psicologia é cega, a Ciência é cega, a Religião é cega, a cultura é cega. Pois, a cabeça é cega, o julgamento é cego. O coração, não. Não à toa a personificação ocidental para a justiça, é uma figura feminina (embora o conceito seja positivo, masculino) com a venda nos olhos, segurando uma espada na mão direita e uma balança na esquerda. O peito descoberto... O orixá da justiça, dos raios, Xangô, cruza seus oxés sobre o coração e Thor toma sempre atitudes emotivas... Importantes detalhes que passam direto. 
 
A cabeça é sempre posta como a mestra do corpo, mas o fato é que só o coração vê claramente. Tem nada a perder, não tem medo e não julga, sabe que a verdade tem múltiplas dimensões. Pois, algo fundamental nessa questão não se pode ignorar: quando existem opções, todas estão erradas. E, se julgo preciso escolher, se escolho é porque não estou vendo o óbvio, se não vejo o óbvio só posso estar cega e essa cegueira é causada pelo medo de perder, que por fim vem da ilusão de posse. Assim, o medo de perder alguma coisa obriga a tomar decisões e até que meus pratos estejam alinhados, com o peso distribuído, já perco a hora e me atraso pelo caminho. Precisar escolher atrasa tudo e, embora isso ocorra pela ânsia de equilíbrio e paz, é justamente o que traz desarmonia e guerra. Alguém ganha e alguém perde. Pois, com a indecisão surgem as opções, a confusão, o perfeccionismo, o medo de errar, não o contrário! E isso significa que a dúvida acaba sendo sempre sobre alguma coisa boa, que fará bem ou trará alguma felicidade. 

Falo com propriedade. A gente só tem dúvidas quando tem algo de bom a perder. Mas, é necessário perceber, esse medo de perder, essa desconfiança na própria capacidade de enxergar o único caminho, vem de um treinamento focado na inteligência lógico-matemática que demoniza o erro, na educação iluminista que joga o coração para escanteio e idolatra o raciocínio crítico-verbal, vem da máxima "Tua cabeça, teu mestre.". Porém, nem sempre o que a razão indica é o que nos fará feliz. Na realidade, a maior parte das escolhas determinadas pela mente não são determinadas pela nossa própria Vontade, mas pela cultura, pelo ego, pelos outros. E se baseiam frequentemente no medo, na tentativa de nos protegermos do erro. Então, quando somos simplesmente guiados pela mente, o resultado pode ser desastroso, pois tende a nos levar na direção contrária de nosso coração, nossa Vontade.  Don Juan Matus, o mestre indígena, personagem  de Carlos Castañeda, ensina muitas pequenas coisas ao longo de todos os seus livros, procedimentos mágicos, uso de ervas, maneiras e tempos, mas o fundamento de tudo que ele diz está contido nestes simples tesouros:

"Para mim, só existe percorrer os caminhos que tenham coração, qualquer caminho que tenha coração. Por ali viajo, e o único desafio que vale é percorrê-lo em toda a sua extensão. Por ali viajo olhando, olhando maravilhado."

"Olhe cada caminho de perto e com intenção. Prove-o tantas vezes quanto considerar necessário. Depois, faça a você mesmo, e a você somente, uma pergunta. É uma pergunta que só se faz a um homem muito velho. Eu lhe direi qual é: Tem coração este caminho? Todos os caminhos dão na mesma, não levam a nenhuma parte. São caminhos que vão pelo matagal. Posso dizer que na minha vida percorri caminhos longos, longos, mas não estou em nenhuma parte. Se o caminho tem coração é bom; se não, de nada serve. Nenhum caminho leva a nenhuma parte, mas um tem coração e o outro não. Um faz prazerosa a viagem; enquanto você o seguir, será uno com ele. O outro o fará maldizer a sua vida. Um o faz forte, o outro lhe debilita."

Crowley, o controverso mago telemita, que errou por muitas milhas para longe do alvo várias vezes, quando acertou, deixou alguns tesouros como: 
 
"Faça o que Tu queres, esse há de ser o todo da lei. O amor é a lei, amor sob Vontade." 
 
"Todo homem e toda mulher é uma estrela.". 
 
E até posso me lembrar das maiores pérolas cristãs em consonância com essas idéias: 
 
"Seja feita a Vossa Vontade, assim na Terra como no céu." 
 
"Amar ao próximo como a Ti mesmo."

No entanto, a compreensão de sua própria autonomia individual, de sua individualidade estelar, de a quem se referem aqui como "Tu" ou "Vós" e de que não existe amor sem liberdade, pois sem liberdade também não é possível a manifestação da Vontade, são chaves para a compreensão de conceitos tão condensados. Assim como saber diferenciar bem amor de apego ou carência. 

No momento em que inspirei pela primeira vez e abri meus olhos nesta vida, me encontrava naquela hora da madrugada quando o ar fica mais frio e o céu mais escuro, a constelação de Libra acabava de ascender no horizonte e o Sol estava por ali, já no finalzinho dela. Assim, percebo com a luz que mais brilha em mim, o meu Sol, que a observação consciente, sincera, é o único modo de combater o medo e a confusão. Portanto, treinar a observação e aprender a ficar alerta para evitar as armadilhas mentais: a insegurança e a sensação de ameaça diante de opções, não é uma questão de múltipla escolha, é o óbvio. E, a diferença essencial entre aquele que toma atitudes conscientes e o que se guia apenas por regras alheias é que o primeiro está de olhos bem abertos, disposto a pagar o preço necessário para seguir o seu coração. O segundo, cego e dependente, precisa sempre de garantias antecipadas de que a opção que fará é a mais acertada. Mas, é um dilema, a certeza absoluta de que algo trará felicidade só poderá vir a partir da experiência... Experiência só se obtém fazendo e errando... Por isso, o que ocorre quase sempre é que em não se arriscar, não se acredita, e em não se acreditar não se arrisca. 

Por melhores que sejam as suas análises e hipóteses sobre as probabilidades, por mais que se tente prever o resultado, nada é garantido antes que se vivencie de modo real e concreto. Então, não há escapatória senão o fortalecimento da consciência, intuição, aprender a confiar no próprio faro, naquilo que a visão interior aponta como óbvio. A Sacerdotisa do tarô. O problema é que nenhuma intuição pode ser forte sob a energia do medo. Ela bloqueia toda e qualquer capacidade de percepção da Vontade. Mas, tem sido justamente essa a base da nossa educação: o "se não"... Isso, é claro, não ocorre à toa. Aquele que não tem medo de perder, não obedece, não faz o que se manda, não age como os demais, é imprevisível. O imprevisível é arriscado e perigoso. E tudo o que é perigoso em você vem do coração. Tudo o que te torna único e não manipulável. Além disso, não é possível parar o indivíduo movido por uma vontade de ferro, pela coragem. E confiar na própria percepção, independente de padrões culturais, é a única forma de agir sem o incômodo da dúvida. Por isso é que, já bem cedo, começa o trabalho de se retirar isso de nós, essa coragem, ensinando que errar é feio, errar é mau, errar faz mal, errar é errado. Cedo, cedo, já aprendemos a evitar o risco. Mas a verdade é que, ainda que o erro ocorra, erros não deveriam nunca significar fracasso. Simplesmente porque o erro não é o fim, apenas o meio. Não se aprende qualquer coisa, sem errar.

O ego, a sociedade, ou sei lá o que, não podem ser maiores que a Vontade. Além disso, erro é apenas uma questão de perspectiva. Erro pode ser uma oportunidade. "Às vezes a queda te acorda, às vezes, sim, a queda te mata. Mas, às vezes, quando você cai, você voa." E nada, além da consciência, é necessário diante de uma decisão. Olhar conscientemente para as coisas como elas são, como funcionam e ver o óbvio. Consciência é liberdade. "Conheça a Verdade e ela o libertará." Não é necessário lutar por liberdade, basta se manter alerta e então a liberdade simplesmente acontece e transforma. A Verdade liberta, nada mais. Nem doutrinas, nem teorias, nem dogmas, nem escrituras. Apenas a Verdade. E não existe procurar um meio para encontrar a verdade. Isso é o que os filósofos fazem e, presos em suas mentes, lógicas e raciocínios, até hoje não chegaram a qualquer conclusão. Porque quando se coloca o "como", o "por que" o desejo se evidencia. "Como" ou "por que"gerenciam a mente. E a verdade não é uma questão de como ou por que fazer, é uma questão de experienciar. Daí, outro bullseye do telemita:

“Existe grande perigo em mim; pois aquele que não entender estas runas deverá cometer um grande engano. Ele deverá cair no poço chamado "por que", e lá ele deverá perecer com os cães da Razão.  Agora uma maldição sobre "por que" e seus parentes. Possa "por quê" ser amaldiçoado para sempre! Se a Vontade para e grita "por que", invocando "por que", então a Vontade para e nada faz. Se o Poder pergunta "por que", então o Poder é fraqueza. Também a razão é uma mentira; pois existe um fator infinito e desconhecido; e todas as palavras deles são artifícios. Basta de "por que"! Seja ele danado para um cão!”

Só a consciência traz visão imparcial pois, consciência é liberdade. Com a clareza necessária, os pratos da balança se movem, o mais pesado desce, o mais leve sobe e já não é necessário escolher. É óbvio. A escolha só acontece diante da confusão. Escolha é confusão. "Direita ou esquerda?", "Este caminho ou aquele?", "Sim ou não?", A balança ainda está no seu processo de pesar, está oscilando, está confusa e cega. "Amo ou não?", "Respondo ou não?", "Escrevo ou não?", "Toco ou pinto?", "Trabalho ou lazer?", "Começo por aqui ou por ali?", "Trato com suavidade ou com dureza?", "Confio ou desconfio?", "Aceito ou recuso?" Esses monstros assombram, mas apenas no escuro, apenas antes de acender a luz. Só de noite, nunca de dia. E enquanto pais, amigos, amantes, professores, escritores, filósofos, artistas, cientistas, místicos, sacerdotes e psicólogos continuarem respondendo e escolhendo em nosso lugar, não são de grande ajuda. Pois, assim só fornecem idéias sobre o certo e o errado, um cobertor para se esconder ou um bichinho de pelúcia para se agarrar, quando a solução seria apenas enfrentar o medo, abrir os olhos, levantar e acender a luz. Por isso, pode até não ser muito facil reconhecer um grande mestre, mas reconhecer péssimos mestres é bem tranquilo sim. Pois estão sempre oferecendo um sistema de crenças ou idéias de certo e errado, em vez de apenas apresentar idéias. Sobre isso foram as últimas palavras daquele que disse muitas vezes "Venha e veja", o buda Sidartha, em seu leito de morte:

"Chega de bobagem! Seja uma luz para si mesmo. Lembre-se, estas são minhas últimas palavras. Seja uma luz para si mesmo. ". 
 
Ver as coisas com clareza, e por nós mesmos, essa é a mensagem. Isso é o que diz também o telemita em: "Todo homem e toda mulher é uma estrela." e o personagem de G.R.R. Martin, Syrio Forel: "Veja com os olhos, ouça com os ouvidos, cheire com o nariz, prove com a língua, sinta com a pele e só depois disso é hora de pensar e entender a verdade", e "O medo perfura mais fundo que a espada." Isso é clareza. Se é morte, ver a morte. Se é amor, ver o amor. Se é a vida, ver a vida. Se for raiva, ver a raiva. Se é apenas uma reação exagerada, fruto de uma frustração gerada por uma expectativa que surgiu a partir de uma carência SUA, veja! Quando se tem a capacidade de ver as coisas, há capacidade para ver o óbvio. Vendo o óbvio como óbvio, a escolha desaparece. Isso é o que diz Sri Sri Ravi Shankar: "Quando há opções, todas são ruins." Isso é o que Krishnamurti diz: "Seja sem escolha. Mas você não pode ser sem escolha, você não pode escolher imparcialidade. Você não pode decidir um dia: a partir de agora vou ser sem escolha, pois esta é uma escolha." Imparcialidade não pode ser escolhida, o não desejo não pode ser desejado, o desapego não pode ser praticado. E esta é a mensagem do Zen: Olhe para as coisas e o óbvio se revelará. Quando você sabe o que é a porta e o que é a parede, não precisa escolher por onde entrar.

sábado, 3 de setembro de 2022

Hipocrisia Amarela

Pronto. Bateu Setembro, as mesmas pessoas que passam o ano questionando a depressão dos depressivos - usando parâmetros dos mais absurdos, como observar a idade da pessoa e seu padrão financeiro, considerando que apenas pessoas com dificuldades econômicas e em idade "adulta" teriam "razões" para se deprimir, desqualificando completamente todas as complexidades sociais, culturais, íntimas e até biológicas dos mais diversos tipos humanos - vão compartilhar cartas deixadas por pessoas que se suicidaram e convidar a todos para uma reflexão sobre o quanto a "sociedade" é terrível.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

De Pombos e Vazios

 
 
Justamente no dia de ensinar Ready Mades e Arte Conceitual para pessoas de 14 anos, em 50 minutos às 9h da manhã. Estacionei na rua de sempre, mas cheguei um pouco mais cedo que o normal. Não tinha vaga no lugar de sempre, só embaixo da árvore dos pombos, onde geralmente ficam 4 carros parados. Achei ótimo, pois deu para estacionar justamente um pouco antes da árvore e sair da mira dos pombos. Há realmente muitos pombos somente nessa árvore, pois certamente quem mora na casa em frente não quer que os carros estacionem ali. Há sempre muito milho pelo chão. Alguns gatos transitam por ali também. Talvez por causa dos potes de água. E sempre imaginei isso, porque tenho uma avó que é esse tipo de pessoa e também se incomoda com os carros parados na rua em frente a casa dela. Gente que tem muitas questões em si para resolver, mas prefere distribuir sua infelicidade ao menor lampejo de contrariedade e frustração. Enfim, nesse dia, havia uma senhora bem gorda, de vestido estampado com flores enormes, varrendo a calçada. Bastou estacionar o carro e ela resolveu enfiar a vassoura na rua, no espaço entre as rodas do carro e a calçada, varrendo as folhas do meio fio. Resmungava baixinho e agia como se eu tivesse estacionado bem em cima do lixo que ela varria, na frente da garagem, ou em cima da calçada. Batia a vassoura na calota da roda do carro. Demorei um pouco para sair, conferindo o celular e o texto das aulas do dia, procurando focar nas estratégias para ensinar aqueles assuntos e esquecer que estou há um mês sem gás em casa, pois o condomínio proibiu a entrada de botijões e também não tem o mapa das instalações dos dutos de gás do prédio, que esse ano tenho duas turmas a menos, não estou com alunos particulares, então o dinheiro só para as contas está menor, embora tudo esteja mais caro, que estou precisando fazer mais trabalhos de ilustração do que o normal para também dar continuidade aos projetos que pretendo concluir ainda esse ano, que tenho me sentido progressivamente depressiva e sem motivação para as coisas que antes me davam muito prazer por várias razões, que neste mesmo dia eu precisaria voar para casa para chegar na hora marcada, pois estaria, mais tarde, acompanhando uma cirurgia e precisaria passar a noite no hospital, então teria de passar antes no mercado e na farmácia para já comprar o necessário para a alimentação adequada (sem gás em casa) e os cuidados posteriores, e procurando esquecer também o sono que eu estava sentindo, fora todas as questões que todos carregamos dentro de nós e que precisamos lidar diariamente... Quando saí do carro, às 8:30 da manhã, ela disse:

- Mas tinha uma vaga tão boa ali na frente...

- Claramente não dá para estacionar ali sem atrapalhar a entrada da garagem, senhora.

- Mas aqui tem pombos olha.

- Sim, tem pombos. A senhora joga comida para eles todos os dias...

- Não, eu dou comida para os gatos.

- Claro, gatos adoram milho.

Como ela fez de continuar esse mimimi totalmente sem fundamento algum, as pessoas já iam andando mais devagar por ali pra acompanhar a cena, e eu ODEIO discussões, principalmente as que não servem pra nada, só fiz um último comentário enquanto já me preparava para atravessar a rua e seguir meu caminho:

- Senhora, pensa em todos os problemas que você tem na sua vida. Agora olha para o meu carro e perceba que esse não é um deles.

Tenho certeza que nem parou para refletir. Nem sobre isso, nem sobre seus problemas reais. E eu fui embora um pouco preocupada com o carro, pois ela poderia fazer alguma coisa com ele. Mas, me confortei no fato de ela morar bem na casa em frente. 

Algumas horas depois, voltei, estava tudo em ordem. Havia outro carro estacionado atrás do meu, deixando espaço para mais dois. Girei a chave e deixei a rua em frente àquela casa com um carro a menos, como a mulher queria mais cedo. Finalmente, deixei de ser um dos problemas imaginários que só servem pra esconder os problemas reais de alguém. "Um a menos, por hoje." Eu pensei e ela deve ter pensado quando olhou da janela e viu o espaço vazio ali na rua. Seja como for, naquele mesmo dia, no horário em que me preparava para dormir, já um pouco aliviada, no hospital, pensei nessa mulher. Pensei que talvez durante a noite, com a rua menos movimentada, ela pudesse estar mais feliz. Mas, logo desfiz essa imagem. Era óbvio que, com o vazio da rua deserta, ela finalmente precisaria lidar com os carros estacionados em frente aos muros dentro de sua própria cabeça. O silêncio lá fora só amplia seu barulho interior, deve ser desesperador. Seu único alívio seria o arrulho dos pombos. Então, é lógico que depois de haver varrido a calçada outra vez, enquanto ninguém estava passando, ela foi lá fora e descarregou mais um saco inteirinho de milho. A semana estava só no meio.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Canção da Donzela Ideal

Tudo fica mais fácil depois que a esperança morre. Na mesma cova vão o julgamento, o conhecimento prévio, as tentativas de controle. A morte da esperança é o fim das idéias sobre a realidade. E é o início da consciência e da vida como ela é. Minhas memórias afetivas estão povoadas de personagens que trazem essa mensagem... "Faça ou não faça. Não existe tentar."; "Veja com os olhos.", "Ou seu karatê é sim, ou seu karatê é não. Karatê mais ou menos: te esmagam feito uva."; "Uma vez que você comece a ver a vida como ela é e não tenha nenhuma idéia de como ela deveria ser, tudo é perfeito."; "Primeiro viver, depois filosofar."; "Perfeição é coisa de menininha tocadora de piano." A vida é perfeita como é, são os ideais que a tornam imperfeita. Porque o ideal traz as comparações. Há coisas grandes e pequenas, feias e bonitas, boas e más, mas tudo está perfeitamente bem, tudo é como deve ser. Sempre que simplesmente ouço e vejo a vida como ela é, não tenho nenhuma idéia de como ela deveria ser, vejo que não existe nenhum "deveria", pois não existe nenhuma outra vida. Não há nenhum padrão de felicidade, nem de sucesso, então não há sentido em comparar ou julgar, sob pena de permanecer infeliz e fracassado constantemente. Além disso, o que sei sobre a vida? Até sobre mim mesma, o que sei? Então, quem sou eu para julgar, para achar que posso melhorar as coisas? Sou apenas um indivíduo, uma pequena parte da existência, um detalhe no todo, um conjunto de átomos que às vezes se engana e pensa que pode aperfeiçoar o universo.

sábado, 20 de agosto de 2022

Delírio sobre Destruição

A percepção da insolência, da indelicadeza, da impaciência e da indisponibilidade para dramas é inversamente proporcional ao respeito - o que dirá o reconhecimento - pelas coisas que fizemos, fazemos e faremos nas madrugadas de sábado sem esperar absolutamente nada em troca, sem qualquer garantia de sucesso, correndo riscos inclusive, enquanto nos aguarda uma variedade enorme de opções mais interessantes. Nisso consiste... Como podemos chamar essa vontade de ver coisas boas acontecendo? Essa felicidade de provocar uma fagulha do sentimento de satisfação, auto confiança e força pessoal que fazem as engrenagens da vida se moverem outra vez? Qual é o nome quando você só quer a realização porque sabe que esse é o dedo mais claro que se tem para apontar para a Lua? Como se chama todo o esforço para que o Big Bang da vida real ocorra com urgência? Sabe, quando no silêncio há movimento, força aplicada com planejamento, e entusiasmo? Aquele silêncio das noites de chuva? Como é mesmo? Aaaaaah! Não importa. No fim das contas, cada um acaba tendo o que consegue. Não importa o quanto nos importemos. Ou nosso esforço. Alguns nunca se importarão e tá tudo bem. Vai da consciência, da maturidade e da capacidade mesmo... A minha ação, não dependendo da ação dos outros, já é uma coisa muito boa. Para mim e para os outros. Porque, seja como for, ações continuam prevalecendo sobre as palavras.

sábado, 23 de julho de 2022

Gelübde von Carl Gustav Jung

"Dass Sie in Ihrem Heilungsprozess jemanden anziehen, der ebenso bewusst, tief, leidenschaftlich, sensibel und spirituell ist wie Sie. Jemand, der dich dazu bringt, an dich selbst und an deine Selbstliebe zu glauben. Jemand, der sich mit dir weiterentwickeln möchte, nicht nur in dieser Dimension, sondern auf allen Ebenen." 

An diesem Liebe Tag, mache ich mir seine Worte zu eigen. Ich fühle mich so gesegnet, das Schwierigste im Leben gefunden zu haben. Mehr als einmail. Und das wünsche ich allen. Mögen alle glücklich sein. Denn glückliche Menschen stören niemanden. Wer versteht, wird verstehen. 


sexta-feira, 22 de julho de 2022

Canção da Porta de Micenas


Insisto em buscar pela criança em todas as minhas atividades. Serei mal interpretada, mas pessoas muito mais inteligentes e bem sucedidas também foram e são, quem sou eu nessa fila do pão aí? Ser mal interpretada é o título da minha vida e a distinção entre imaturidade e inocência vai passar direto para a maioria, aquela galera que escolhe a porta larga em todas as coisas. Apesar disso, pondero sobre crianças, sonhos, inícios, enquanto me demoro em cada degrau. É uma questão de vida e morte para mim. Nutri-la, libertá-la, valorizá-la. Pois, a criança é um milagre. O encontro do céu com a terra, da matéria com a consciência, do visível com o invisível. É a doçura e a selvageria. É o resultado de uma transformação misteriosa, de uma explosão, do caos. É a iluminação, o caminho, a verdade e a vida. É o ouro, o Sol e tudo o que reluz. Pois, sim, em tudo o que reluz há ouro... E é a partir desta verdade que eu trato cada um, de acordo com a criança que é. A partir deste detalhe surge minha vontade de cuidar e amar. É através disso que me importo, mesmo com quem parece não se importar - as atitudes dos outros não determinam as minhas - e por me importar, procuro não obrigar ninguém a nada. Apenas apresento o que acho conveniente, mas sem insistir demais. Apenas mostro, nunca digo o que espero ver. E é também com a minha própria criança que procuro tocar as pessoas. Esta pode ser, inclusive, a razão por trás de tanta fúria e energia criativa. Nem sempre a criança é tratada com o devido cuidado. Às vezes debocham dela pelo simples fato de ser criança. Acho sempre muito estranho quando alguém vê a matéria prima e não enxerga o potencial, numa analogia com aquela história do dedo que aponta para a lua. Mas, cada um com a sua miopia, as suas crenças e as suas portas fechadas. Eu reverencio a criança, me aproximo e me ligo aos outros pela sua criança e quando tudo fica sério e embaraçado, é por ela que eu procuro. Não sou indiferente a ela. Nunca. Pois acredito que no momento em que ficamos indiferentes a uma criança, começamos a matá-la. E já tem gente demais assassinando crianças por aí. A sua própria e a dos outros. Isso está acontecendo por todo o mundo e aconteceu por todas as eras. Um enorme massacre. Respostas antes de perguntas. Leis antes de crimes. Regras antes dos conflitos. Desta forma, cria-se a doença e depois surge a vaidade de ser aquele que têm a cura. Claro, uma criança só pertence a si mesma, é perigosa, pode tudo. Uma folha em branco. Uma porta aberta. Uma aurora dourada. O centro do universo. É curiosa, bagunceira e insistente. Não sabe de nada, mas quer descobrir tudo. É brincalhona e sem limites. Nada fácil de se lidar. Portanto, um problema para quem tem medo, gosta de manter, acumular e conservar. Mas, minha criança não me deixa compreender, conservar o quê, num mundo onde ninguém está satisfeito com coisa alguma? Então, enquanto minha alma compra a sua escada para o paraíso, a criança está comigo e procuro levá-la sempre que a classificação permite. Para me salvar da multidão. Para me manter persistente. Para me ajudar a tornar o sonho real.

terça-feira, 21 de junho de 2022

Canção do Ermitão

Quanto mais penso, menos faço, menos quero e menos sou. 
 
Tenho incontáveis personagens, cada um com sua roupa, seus sapatos, sua maquiagem, seus cabelos, suas palavras e seus trejeitos próprios. Fujo. Dou a volta ao mundo. Procuro por quem está atrás de todo esse figurino. Por quem está puxando todas as cordinhas. E quando penso que encontrei a titereira, que já estou bem longe de casa, de todos os meus problemas, eles assobiam e acenam, vêm passear ao meu lado, puxam um papo. Eu digo que estão certos, ou que estão errados. Dou conselhos. Ouço. Planejo quando, onde e para quê. Julgo, condeno e absolvo tudo, cada ação, cada fato. E sempre procuro outra coisa. Continuo em frente. Mas, é sempre andando em frente que não se chega muito longe. Encontrar é uma questão de descuido. Então, de repente, canso, largo pra lá ou tropeço e apenas percebo. Apenas observo. Paro com o papo furado, paro de passear com os problemas inexistentes e noto que estou dentro de casa e eu sou a artista. Deixo de dar voltas. De fugir. Noto que não tenho trejeitos, nem palavras, nem cabelos, maquiagem, sapatos, ou roupas. Tudo pertence a incontáveis personagens que meus pensamentos escondem para eles mesmos brincarem de procurar. E quando a brincadeira vai cansando, penso cada vez menos. 
 
E quanto menos penso, mais faço, mais quero e mais sou.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Vão se catar, vão.

Arte não é cara. Caro são os papéis, as telas, as tintas, os pincéis, as massas, as estecas, materiais diversos, o equipamento digital, o programa, as impressões, os instrumentos, a manutenção de cada coisa, os livros, os cursos, a conta de luz, a internet, o condomínio, a comida, os sapatos, as roupas, a gasolina, o IPVA, o IPTU, o IR... Arte, não. Arte é baratinha. 

terça-feira, 24 de maio de 2022

Optchá!

Não dou nada pela metade. Não sinto pela metade. Aceito todas as pessoas com quem me importo, com todas as suas bagagens, ainda que muita coisa me incomode, que me contrarie. Porque penso que qualquer tipo de julgamento não cabe a mim. Se eu gosto, se me importo, é 100%. Por isso, desisto de pessoas que não estão prontas para me aceitar com tudo o que trago comigo. Fim. Nessa leva vai família, amigo, conhecido, colega e afetos diversos... Até aqui, talvez seja sempre a coisa mais difícil que volta e meia preciso fazer, mas é também a mais importante. Tem nada mais desgastante do que ter conversas difíceis com pessoas que não estão dispostas a ouvir de verdade, procurar pessoas que não têm interesse real na minha presença, só aceitam se eu der algo específico de mim, nada diferente disso. Faço o que posso para ganhar a apreciação de quem eu gosto, mas em alguns casos é só perda de tempo, energia, saúde mental e física.

Quando resolvo seguir por onde quero, nem todo mundo está pronto para vir comigo. Isso não significa que sou eu que preciso mudar quem sou e o que quero fazer, significa que se alguém não está pronto ou disposto a me acompanhar, que faça o que tem vontade e me deixe em paz. Se sou excluída, insultada, esquecida ou ignorada pelas pessoas a quem dedico o meu tempo, ou se noto que estou numa armadilha, que algo está sendo feito intencionalmente para me atingir, não vejo razão para continuar me importando. A verdade é que não sou para todo mundo e nem todos são para mim. E isso é que torna as reais parcerias, as amizades e amores correspondidos tão especiais.

Eu sei o meu valor, porque sei do que sou capaz por quem amo. Então, separo quem simplesmente para se eu parar de fazer as coisas acontecerem, daqueles que remam junto. E observo bem quem são aqueles que se eu desaparecer, não me procuram. Aqueles que quando eu paro de me esforçar, a relação termina. Aqueles que quando eu paro de enviar mensagens, não há comunicação por semanas. Aqueles que se eu não vou até eles, não movem um milímetro por minha causa. Aqueles que jamais tomaram qualquer iniciativa para que coisas boas acontecessem entre nós. Aqueles que tentam me controlar, que me perseguem, que se entristecem com as minhas alegrias. E deixo pra lá. Isso não significa que eu arruinei algo de bom, significa que a única coisa que sustentava essa troca era a energia que só eu dava para mantê-la. Isso não é amor, é apego. É dar chance pra quem não merece. E eu sei do que sou capaz, e, portanto sei também que mereço mais.

No momento, não estou bem, preciso de ajuda para não seguir de novo por um caminho que já conheço de outros tempos. Preciso de ajuda urgentemente. Agora. Mas, pra notar esse tipo de coisa, parece que chegar perto, olhar nos olhos, não foi suficiente... E tenho especial dificuldade com isso: pedir... falar dos meus problemas...

É necessário proteger a própria energia a qualquer custo, pois tempo e energia são limitados. Não sou heroína, não tenho que ser de ferro, não sou responsável por salvar ninguém ou sequer convencer as pessoas a melhorar. Especialmente quando quem precisa de forças sou eu. Não é trabalho meu existir para as pessoas, viver me desdobrando por elas e dar a elas a minha vida. Preciso da companhia de pessoas saudáveis, prósperas, reais, proativas, verdadeiras e completas, que têm coragem para enfrentar seja o que for e que fazem o que querem de suas vidas, sem responsabilizar o destino por suas derrotas.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

The Great Divide

Ficar sem dinheiro é difícil, ser educado financeiramente é difícil. Estar insatisfeito com o próprio corpo é difícil, ter uma vida saudável é difícil. Ser ignorante é difícil, estudar é difícil. Criar é difícil, aceitar o que já existe é difícil. Ser admirável é difícil, ser desprezível é difícil. Se ausentar é difícil, conviver é difícil. A comunicação é difícil, não se comunicar é difícil. Amar é difícil, se fechar é difícil. Dividir a vida com gente problemática é difícil, dividir com gente simples é difícil. Ter amigos é difícil, se isolar é difícil. Seguir convenções é difícil, ignorar regras é difícil. Viver como esperam é difícil, viver como nos faz feliz é difícil. Estar infeliz é difícil, manter a felicidade é difícil. Assumir um dos muitos caminhos profissionais já existentes é difícil, empreender por conta própria é difícil. Abandonar é difícil, cuidar é difícil. Não ter nada é difícil, gerenciar o que se tem é difícil. Viver no meio da bagunça é difícil, organizar tudo é difícil. Aceitar é difícil, se rebelar é difícil. Depender dos outros é difícil, cuidar da própria vida é difícil. Falar é difícil, ouvir é difícil. Se aproximar é difícil, se afastar é difícil. Guiar é difícil, ser guiado é difícil. Ensinar é difícil, aprender é difícil.  Ser fácil é difícil, ser difícil é difícil. Não poder escolher é difícil e ter opções é difícil. Viver é difícil, morrer também. Tudo será difícil, nos cabe apenas decidir o difícil que queremos para nós.

domingo, 22 de maio de 2022

"Muitas coisas minhas aí."

Poucas coisas são mais frustrantes do que a sensação de que a comunicação não se estabeleceu nem mesmo depois de uma noite inteira de conversa... Uma noite? Na verdade, muitas noites e dias, meses e até anos... Pois, a conversa é sempre em torno da mesma ladainha, parece disco arranhado. Pior quando a isso se soma um sentimento de impotência diante da tragédia há muito tempo anunciada. Adultos deveriam ter como premissas, como óbvias, certas coisas que, quando sou obrigada a explicar, sempre sinto algo de bom morrer um pouco dentro de mim. É desanimador me dar ao trabalho com quem sinceramente não valoriza sequer um segundo da minha atenção, pois enquanto cada palavra é proferida, é interpretada precipitadamente e reinterpretada logo depois de serem ditas e toda essa burrice inerente da presunção e da falta de humildade vai me desanimando num nível crítico e gerando um sentimento tão ruim, que por si só deveria explicar o rumo de certas situações, simplesmente por ser a razão disso. 

A minha parte é que eu não quis algo e não fiz porque não quis e a razão para eu não querer são essas aí deitas anteriormente. E também quis outras coisas e fiz porque quis fazer e a razão para querê-las é que me faziam muito bem, apesar de também haver dificuldades. O que parece que nunca fica claro é que querer uma coisa não exclui querer outra, se as duas são boas. Uma nunca foi motivo para excluir a outra. Se alguma foi excluída é porque não me pareceu tão boa para me esforçar em mantê-la.

Mesmo que no fundo, em nome do que existe de bom, eu desejasse que tudo fosse diferente e que a proximidade fosse possível, minha atitude simples é o distanciamento de corpo e mente. Pois, sinto arrependimento quando vejo que ofereci muito além. E tenho o hábito de queimar pontes toda vez que percebo um lampejo de revanchismo sem cabimento, ameaças pretensiosas, tentativas de controle e manipulação... Enfim, quando não há comunicação.

Qualquer coisa que eu tenha decidido na minha vida, decidi porque quis, como quis e acho justo. Não devo explicações. Estou bem assim. E qualquer coisa que está acima do meu poder de decisão, eu simplesmente aceito como é. Porque não há nada que eu possa fazer. E nisso se engloba a forma como as pessoas são, a forma como me sinto diante disso, meus sentimentos, os sentimentos dos outros. Tudo isso é como é. Não tenho esperança alguma de mudar, cabe aceitar. O que não aceito é justamente alguém achar que sou obrigada a esperar, a ser paciente, a compreender, a aturar, a aceitar, a dar e a negar coisas em mim que são verdadeiras e inegáveis. Não aceito que as decisões que tomo para a minha própria vida sejam questionadas, seja por quem for. Menos ainda em tom de cobrança. Como se eu tivesse dívidas. Se dei algo, se ajudei, se fui compreensiva, se esperei um pouco, se tive empatia em algum momento, foi porque eu quis, não por obrigação. Cabe gratidão aqui, não cobrança.

Mas, às vezes as pessoas têm expectativas irreais sobre as coisas, se recusam a simplesmente ver, compreender o que acontece e responsabilizam os outros pela própria ilusão e tragédia. Acham que merecem, que existem débitos com elas, que lhe fizeram mal deliberadamente. Pouco enxergam milhões de tentativas, frustradas até, de ajuda, amor, dedicação... (Amor, meu deus!  AMOR! Algo tão rico e raro... jogado no chão e pisado porque não é do jeito que se espera.) E como crianças mimadas, se jogam no chão, esperneiam, gritam, numa ânsia desesperada de ter suas necessidades supridas, suas vontades atendidas. E nunca se perguntam por quê não têm. Mas, eu pergunto: por que, floco de neve especial, você deveria ter tudo o que quer e como quer, na hora em que quer, dos outros? Falta maturidade, sabe? Experiência de vida, falta convívio com humanos e problemas reais. Falta sair do mundo fantástico que existe dentro de suas cabeças quadradas.

Sempre me ressinto quando vejo que acabei fazendo o inadmissível: me explicar como se devesse algo. Não espero nada das pessoas, não conto com nada que venha delas, não exijo, não cobro e me sinto dolorosamente desrespeitada quando vejo que estou sendo tratada como se eu estivesse agindo assim. E o engraçado é que antes de ficar magoada eu já perdoo, simplesmente porque na verdade, tudo isso me dá muita preguiça. Mas, é aquela parada, né? Nada está parado. Tudo está sempre desmoronando. A cada episódio de perturbação, coisas que eram enormes vão ficando menores. E isso sim, algo pelo qual vale a pena se preocupar em agir a respeito, fica de lado, ignorado... é ninguém percebe que é o crucial da questão para se conseguir o que se quer.

sábado, 21 de maio de 2022

Totalmente piores

O problema de não se concretizar as idéias (ou pelo menos de não se realizar um duro trabalho de organização, disciplina e esclarecimento), é que elas não vão embora. Você pode até desistir delas, mas elas jamais desistem de você e, de tempos em tempos, retornam. Para piorar, elas estão surgindo e se acumulando o tempo todo, aleatoriamente, e no fim das contas, se você não assume o comando, viram mais bagunça na sua cabeça para arrumar. A coisa se inverte, elas te controlam, elas passam a criar você, direcionam a sua vida. E seria muito bom, um alívio, se surgissem apenas na cabeça mesmo. Mas, se você também é uma vítima das idéias, se você deixa para depois, se fecha os olhos, se não leva muita fé no poder que têm, concorda comigo que elas não se contentam, e encontram lugares muito piores para bagunçar.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Canção dos Dois Irmãos

Todo o tempo se busca a segurança. Qualquer um quer se sentir seguro. Nisso, todos se agrupam e por se agrupar se separam. Esse é o principal causador de todos os problemas dessa nossa civilização. Criamos imagens e personagens para nós e para os outros. Assim, nos desconectamos e fingimos, ao ponto de acreditar, que somos separados de tudo. Mas estranhamente, ao mesmo tempo, passamos a vida toda buscando a união erótica suprema: a experiência da totalidade. Enfim, essa é uma outra questão. Não deixarei que este sol, tão bem vindo para mim, me leve pelo caminho do desfoque, da dúvida e da confusão, que são tão típicos a ele, quanto o da inteligência, da curiosidade, da genialidade e da criatividade. O que vim cantar hoje é sobre o paradoxo. Sobre a qualidade dupla das grandes verdades. E, não falo aqui de maniqueísmo! Falo, por exemplo, do sentimento de força quando nos encontramos em situação de "segurança", que é irreal, pois essa força é apenas aparência, uma camuflagem. E do sentimento de vulnerabilidade constante, que é o mais sincero. Afinal, nunca se está totalmente seguro. Mas, estranhamente, é possível se sentir forte ainda assim. 
 
O sentimento de fraqueza quando se está claramente vulnerável não pode durar muito tempo. Cedo ou tarde causa um terror tão grande que tranca o coração e endurece a alma. Então, é preciso exercitar a força em pleno estado de vulnerabilidade. Só assim a força cresce e recebe a ajuda da coragem para possibilitar a convivência com mais abertura e fragilidade. 
 
Tenho muita admiração pelos ousados, pelos audazes, por aqueles que não têm medo do "não", dos obstáculos. São os mais sensíveis, mais sinceros e mais ricos em qualquer coisa. Tomo-os como inspiração. E é bonito notar, a pessoa realmente valente está absolutamente aberta. Aquecida, mas nunca quente, refrescada, mas nunca fria. Esse é o critério da coragem. Somente o covarde está fechado, e a pessoa forte é tão forte como uma rocha, embora tão vulnerável quanto uma rosa. 
 
Isso me lembra uma passagem da introdução do meu livro de contos favorito: "(...) me ocorre que a peculiaridade da maioria das coisas que consideramos frágeis é o modo como elas são, na verdade, fortes. Havia truques que fazíamos com ovos, quando crianças, para demonstrar que eles são, apesar de não nos darmos conta disso, pequenos salões de mármore capazes de suportar grandes pressões, e muitos dizem que o bater de asas de uma borboleta no lugar certo pode criar um furacão do outro lado de um oceano. Corações podem ser partidos, mas o coração é o mais forte dos músculos, capaz de pulsar durante toda a vida, setenta vezes por minuto, não falhando quase nunca. Até os sonhos, que são as coisas mais intangíveis e delicadas, podem se mostrar incrivelmente difíceis de matar. Histórias, assim como pessoas, borboletas, ovos de aves canoras, corações humanos e sonhos, também são coisas frágeis (...). Mas algumas histórias, pequenas, simples, sobre gente embarcando em aventuras ou realizando maravilhas, contos de milagres e de monstros, perduram mais do que as pessoas que as contaram, e algumas perduram mais do que as próprias terras onde elas foram criadas." 
 
É um paradoxo, e tudo o que é real é paradoxal. Levo sempre esta verdade comigo. Quando sinto algo paradoxal, nunca tento torná-lo consistente, porque essa consistência será falsa. A realidade é sempre paradoxal. Se por um lado, há vulnerabilidade, por outro, há força. Para se concentrar é preciso se desconcentrar. Para amar é preciso odiar. Para sentir prazer é preciso sentir dor. Para aceitar é preciso recusar. Para ter liberdade é preciso disciplina. Para viver é preciso morrer. Para saber é preciso não saber. É assim que identifico o que chamo de verdade. Quando vejo o duplo unificado, os gêmeos, assim lado a lado, significa que estou vendo um lampejo da verdade, significa que algo verdadeiro está se manifestando.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Tanta... mas tanta!

Há alguns dias eu fui em duas festas e não lembro bem como a noite terminou, mas quando acordei no dia seguinte, estava num quarto que não era o meu e lembrei vagamente de algumas coisas que disse. Mundo terrível, pessoas más, todos estão feridos e querem ferir os outros e eu não queria ser motivo de tristeza para ninguém... não queria precisar escolher... Parece que foram expressões chave de uma conversa regada a muitas lágrimas e risadas.

É tão bom saber que se pode dizer tudo, sem com isso provocar o desmoronamento de todo um universo, sem que isso signifique adeuses desnecessários ou dramas maiores. Porque se nossos pensamentos não são lineares, o que esperar de nossas emoções? Se vivemos num mundo doido, criado sobre bases arbitrárias, como encontrar o encaixe para peças que fatalmente existirão e que antes de negá-las será necessário reconhecê-las? Na verdade, por qual motivo as coisas humanas deveriam ser simplesmente como têm sido, se pouca gente parece satisfeita? Por que razão, deveríamos nos dobrar a eles, se em vez de desenvolver certas habilidades, os inábeis simplesmente legislam de forma a impedir os habilidosos?

Ser compreendida, ajuda um pouco a tranquilizar a balbúrdia de uma sala secreta dentro da minha cabeça, onde entro às vezes, acendo a luz, abaixo o som e procuro organizar. Pois, apesar de gostar muito da minha própria companhia é sempre maravilhoso encontrar aqueles que também percebem a angustiante inexistência das linhas retas. A realidade tem mais curvas do que nos sentiríamos seguros para admitir. E como um banho bem quentinho em dias frios, é muito feliz encontrar mais alguém no mundo que teve uma vó que dizia "Filha, você ainda vai ver coisa."

sábado, 30 de abril de 2022

Votos

Não posso especificar como isso começou… Mas, as histórias contam que desde antes dos cronidas houve amor e beleza, atributos da filha do céu estrelado com as espumas do mar. E a cada um dos seus ela indicou um rumo. Daquelas praias da costa do Chipre, para mim, sua bússola sempre mostrou o Oeste. E assim, mesmo sob a tempestade que rasgava as velas, mesmo que os ventos gritassem que naqueles mares não se navega, a proa apontava insistentemente para a terra dos Leões. Desde então, pelo que sei, passados o lendário cavalo de madeira, o protesto dos icenos, a espada fincada na pedra e sabe-se lá quantas ocasiões mais, enfim, graças às artes (amor e beleza) aqui estamos hoje. 
 
Antes do tempo era tudo silêncio, mas isso não quer dizer que a música, bela, já não estivesse lá esperando para nascer. Pois, sempre houve o acalanto, sempre as cordas vibraram; mal sabíamos que dialogávamos. Não que antes não houvessem sorrisos e risadas, apenas desconhecíamos os motivos. Não que a Lua não soubesse o nome para chamar duas pessoas como se fossem uma só, apenas precisávamos chegar um pouco mais perto para entender. Não que antes não nos amássemos, apenas não havíamos ainda nos conhecido. E se as coisas têm sido assim, desde antes do que posso me lembrar, se nem mesmo a infinitude do tempo e do espaço foi capaz de nos distanciar, a essa altura, quem sou eu para contrariar o universo?

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Diário do Cachorro Vivo

Por mais umbralino que nosso mundo seja e por menos ascencionado que seja meu espírito, procuro me cercar das coisas bonitas e enriquecedoras. Invisto minutos só olhando para o céu diariamente, vou onde vale o esforço de me deslocar, falo sobre, o que e com quem o sacrifício do silêncio compensa, trabalho com o que me faz sentir feliz. Durmo com bastante sono, como com bastante fome e se me distraio é porque estou prestando bastante atenção em outra coisa. Tudo meu é na intenção de que seja maravilhoso, pra mim e para todo mundo que posso, isso é fato. 

Por mais que alguns dias sejam de cinco de espadas, outros de oito de copas, alguns de sete de ouros e outros de dois de paus, eu sigo. Na minha. Distraída de tudo mais, fazendo o que considero bom. Mas, mesmo assim, não são poucas as vezes que, no meu trajeto surgem os protestos, a má vontade, os choramingos, as tentativas de dissuasão. Vejo gente que sai do outro lado da cidade, SÓ para tentar minar algo de bom que estou fazendo. Vejo crime de falsidade ideológica e pesquisas sobre novas formas de espionar onde estou, o que faço, para onde vou, o que farei... Recebo observações a respeito do que uso,  faço, sou, de pessoas que sequer me cumprimentam. E gente, de quem o esperado é que se importe, acompanhe, se interesse e saiba da minha vida, aparece apenas para apresentar obstáculos e criar problemas.

E eu não sou nada... sei pouco, faço pouco, erro mais do que devia. Me entristeço profundamente e penso em desistir o tempo todo. Não tenho facilidade para nada. Ter as coisas que tenho, custa. Fazer o que faço, custa. Ser desta forma aqui, custa. Não percebo nada de admirável ao ponto de afetar tanto assim a vida de outras pessoas. Sei lá, deve ser esse o problema. Ou, talvez, simplesmente não estar participando dos jogos delas, me importando com o que fazem para suas vidas, reverenciando, desejando ser aceita, lutando por aprovação, amizade, amor, reconhecimento... Vai saber. De qualquer forma, é sempre curioso quando percebo esses esforços todos, porque são sempre para conseguir, na melhor das hipóteses a minha tristeza e antipatia, na pior, aumentar a minha vaidade. Nada mais.

sábado, 12 de março de 2022

Circo pegando fogo

"Estava ocorrendo um incêndio nos bastidores do teatro. O diretor enviou então o palhaço que já estava pronto para entrar em cena, avisar a toda a plateia do fato. Suplicava que corressem para apagar as chamas. Como se tratava de um palhaço, todos imaginavam que era apenas um truque para fazer rir as pessoas. E estas riam e riam. Quanto mais o palhaço conclamava a todos, mais esses riam. Pôs-se sério e começou a gritar: "o fogo está queimando as cortinas, vai queimar todo o teatro e vocês vão queimar junto". Todos acharam tudo isso muito engraçado, pois diziam que ele estava cumprindo esplendidamente seu papel. O fato é que o fogo consumiu o palco e todo o teatro com as pessoas dentro. Termina Kiergegaard: 'Assim, suponho eu, é a forma pela qual o mundo vai acabar, no meio da hilariedade geral dos sabichões gozadores e galhofeiros que pensam que tudo, em fim, não passa de motivo para rir'."

quinta-feira, 10 de março de 2022

Guns N' Rangers

Lembro de Saramago, numa entrevista dizendo que era ateu, mas cristão até o último dos seus fios de cabelo...

E... assim, já que nunca encontrei um mísero iluminado encarnado nessa vida, tenho certeza disso, qualquer um pelas redondezas está muito longe de fugir da cultura onde nasceu. Porque ela se entranha, tanto em uns quanto em outros. E fatalmente, mesmo desprezando muito do que meus conterrâneos admiram, estamos no mesmo zeitgeist, na mesma egrégora, na mesma vibe, que todo afegão médio acebolado aqui no Ocidente... Sei que, para Narciso, se enxergar acaba sendo difícil mesmo, no fim das contas, mas todo um esforço egípcio apenas para exclusivamente passar seu tempo reagindo e obter palmas de uma plateia, de botafoguenses amigues, provoca tanto riso quanto criar "dicotomias" neste momento histórico. Porque depois de passar décadas não apenas sonhando, mas principalmente, gastando uma grana pesada com TUDO que faz parte de um certo estilo de vida claramente norte-americano muito apreciado pela minha geração (direta, como a Rússia é, ou indiretamente, como os EUA preferem), toda a saliva, a verve e os bytes gastos para mostrar justamente o contrário, forçando a barra para igualar um modelo que claramente se aceita (e até curte) e outro que os impediria de fazer tudo o que  mais se gosta, chega a parecer até patológico. Embora seja necessário um pouco de atenção para se perceber, o desdém sempre deixa claro o interesse do comprador que quer barganhar. Quando a habilidade não foi suficiente, quando só se conseguiu a parte fácil, aquela que o dinheiro compra, que o discurso dá conta, ocupa-se todo o espaço que não se dá a pensamentos mais construtivos, a praticar o que gostaria de saber realmente fazer e a buscar boas idéias, escondendo os fatos para si mesmo ou para qualquer interlocutor desatento. Mas, o recalque é algo tão evidente pra quem está acostumado a lidar com isso... E, às vezes é uma vovó distraída na beira da praia depois de uma onda bem forte desarrumar seu maiô, deixando a mostra o que ela não queria, sem que ela percebesse. Um negócio esquisito, constrangedor, engraçado e impossível não notar. Mais ainda quando se trata de patrulheiros da coerência alheia.

terça-feira, 8 de março de 2022

Palavra Correta e Ironia

"Um monge aproximou-se de seu mestre – que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua – com uma grande dúvida:

– Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?

O velho sábio respondeu:
– As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta.

O monge replicou:
– Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?
– Poderia – confirmou o mestre – e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio.
– Então – o monge perguntou – por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?
– Porque – completou o sábio – da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário.

O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua."

(Tam Huyen Van)

 

Na época do Orkut existia até uma comunidade chamada: O Chato em Ser Irônico... E na descrição vinha o complemento: ...é que quando não entendem, o idiota fica parecendo você.

Toda vez que falo ou publico piada... ironia... sarcasmo... em algum lugar, lembro desse conto Zen. E essa é uma das utilidades para falar ou publicar essas coisas, aparentemente inocentes: selecionar quem fica e quem vai. Interessante notar os tipos humanos e os assuntos que os atraem... Embora o teor da mensagem seja perfeitamente esperado, nem preciso chegar a saber realmente o conteúdo do feedback. Só o fato de a pessoa aparecer apenas em determinados temas, é fácil intuir o teor da mensagem e a escolha de palavras, apesar de sequer entender nem o que eu disse, nem muita coisa a respeito do assunto, em geral. E esses detalhes podem mostrar o suficiente para decidir se quero proximidade ou não. Porque os cães ladram, mas o Projeto Destralhamento Outono/Inverno 2022, não para!

sexta-feira, 4 de março de 2022

Absurdo e Imaturidade

É tão louco esse negócio de crime de guerra, né? Não pode matar civis, não pode enganar o inimigo se disfarçando de civil ou com o uniforme do próprio inimigo, não pode impedi-lo de se recuperar, não pode matar médico, nem jornalista, não pode bombardear áreas civis, quem está de fora não pode intervir diretamente com soldados ou ataques, não pode bomba nuclear. Só pode invadir e destruir a porra toda e prender e matar militares e os integrantes do governo. 

Parece brincadeira de criança. Mas, nem é brincadeira, nem é de criança. Ou é? Sei lá, maturidade tem nada a ver com idade. E por falar em maturidade, imagina o alien pai tentando explicar o que é a guerra na Terra para o alienzinho... Deve ser tão complicado quanto explicar para os gringos que o presidente do Brasil não perde um dia sem se manifestar contra o socialismo/comunismo, mas tem sua simpatia pelo governo da Rússia, tanto quanto o presidente da Venezuela! Ou, que esquerda aqui, em termos amplos, não é liberalismo... democracia..., aqui isso é o "centrão"... direita..., esquerda aqui é um pouco mais pra esquerda. Embora na prática, a verdade seja que aqui não tem nem uma coisa, nem outra. É só um "eles contra nós" mesmo. E se eles nos roubam, é a lei. Se nós roubamos é crime. Um absurdo bem ao jeitinho das guerras. Onde, inclusive, os sábios ensinam que "um capitão deve se esforçar ao máximo para dividir as forças do inimigo, seja fazendo-o desconfiar dos homens que confiava antes ou dando-lhe motivos para separar suas forças, enfraquecendo-as". Se a carapuça serviu, vista. E para com essa mania chata, autoritária, pretensiosa e arrogante de ficar brigando com os outros por diferenças nas maneiras de ver a vida.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Eu sou da Lira não posso negar

Há menos de um ano, as noites aqui em casa têm sido diferentes. São noites que me trazem a mesma sensação das manhãs, quando tudo a respeito daquele dia ainda é apenas possibilidade. Acendo incenso, da mesma forma que faço antes do café da manhã. Cuido das plantas, do Mambo... Quando não está tão frio pra um chá, tomo mate gelado, suco, vinho, wisky... Curto o silêncio, toco algum instrumento ou só ouço música. Escrevo, vou finalizando alguma aula, alguma ilustração... Assisto algo interessante, uma entrevista, um filme, um vídeo... Estudo, leio, seguindo na missão de ler TODOS os livros da casa por inteiro. Jogo videogame. Converso com amigos, namoro, saio para algum lugar... Mas na maioria das noites não procuro companhia. E fico em silêncio aqui, do mesmo jeito que faço numa manhã ideal. Mesmo com toda a capacidade que o mundo tem de produzir problemas, aqui eu sei que posso simplesmente me silenciar. 

Há menos de um ano tenho algo que demorei 40 anos para conseguir: tempo. Descobri que dessa forma, com menos de tudo, o virtuosismo das habilidades ou da originalidade, algo que nunca busquei, acaba sendo genuíno, pois as coisas são o que são e há imensa beleza nisso. Não sei se pelo teor das experiências, se pela forma de apreender as lições, se pelo passar dos anos... o verdadeiro reconhecimento do próprio valor tem sido fundamental para jamais, apesar de tanto estudo, tantos interesses e dedicação a tantas atividades, deixar que a comunicação sem afetação em qualquer das linguagens que uso, especialmente através das palavras simples, seja perdida. Porque, ao menos para mim, todo o meu silêncio e contemplação seriam inúteis sem a capacidade de comunicar algo de relevante e para isso é fundamental a simplicidade. Mas, veja bem, capacidade é diferente de necessidade. Continuo não tendo tempo para explicar, mostrar, ou convencer quem quer que seja, sobre o que quer que seja fora da sala de aula ou das relações profissionais. Muito menos com ares de mestre, doutora, phd ou astronauta. E tenho menos tempo ainda para quem só ocupa a cabeça com a contradição dos outros, as incoerências do mundo, os assuntos chatos, pesados, sérios e passa o dia assumindo uma postura, se posicionando, provando pontos, profetizando, pregando, discutindo com o vento a troco de nada, sem relaxar nem mesmo quando encontra amigos...

Não tenho uma visão romântica da vida. Dou utilidade prática até para o misticismo. Porque realmente sei que os grandes momentos ocorrem durante as pequenas ações cotidianas, durante as pequenas gentilezas e gestos de amor. E não, através de discussões inflamadas, falação, disputas... No fim, esse comportamento só serve para se autoafirmar, para deixar claro o quanto se está cheio de si e se sentir superior aos outros. E a gente só precisa do que não tem. Não me perco pensando em como tudo deveria ser, em coisas impossíveis no momento, no que eu acredito ser o certo, achando que a realidade, "o real", irá mudar se eu encher bastante a paciência com um monólogo egocêntrico baseado numa crença de que o outro só fala merda e eu sim é que sei das coisas. 

Há menos de um ano tenho finalmente paz dentro da cabeça. Neste momento isso é uma alegria que transborda e precisa ser partilhada. É um excelente momento, afinal, além disso, o mundo tem estado mais louco que nunca. E nem falo da gasolina, da inflação, das tragédias ou da III Guerra. Milagres têm acontecido e velhos pequenos sonhos têm se realizado por aqui também. Sejamos gratos: não apenas emendamos o Carnaval com o Natal num ano, como agora teremos dois carnavais! 

Quando deixo pra lá é de coração, sabe? E isso só é possível agora graças àquele trabalho de destralhamento da vida que segue a todo vapor.