sexta-feira, 20 de maio de 2022

Canção dos Dois Irmãos

Todo o tempo se busca a segurança. Qualquer um quer se sentir seguro. Nisso, todos se agrupam e por se agrupar se separam. Esse é o principal causador de todos os problemas dessa nossa civilização. Criamos imagens e personagens para nós e para os outros. Assim, nos desconectamos e fingimos, ao ponto de acreditar, que somos separados de tudo. Mas estranhamente, ao mesmo tempo, passamos a vida toda buscando a união erótica suprema: a experiência da totalidade. Enfim, essa é uma outra questão. Não deixarei que este sol, tão bem vindo para mim, me leve pelo caminho do desfoque, da dúvida e da confusão, que são tão típicos a ele, quanto o da inteligência, da curiosidade, da genialidade e da criatividade. O que vim cantar hoje é sobre o paradoxo. Sobre a qualidade dupla das grandes verdades. E, não falo aqui de maniqueísmo! Falo, por exemplo, do sentimento de força quando nos encontramos em situação de "segurança", que é irreal, pois essa força é apenas aparência, uma camuflagem. E do sentimento de vulnerabilidade constante, que é o mais sincero. Afinal, nunca se está totalmente seguro. Mas, estranhamente, é possível se sentir forte ainda assim. 
 
O sentimento de fraqueza quando se está claramente vulnerável não pode durar muito tempo. Cedo ou tarde causa um terror tão grande que tranca o coração e endurece a alma. Então, é preciso exercitar a força em pleno estado de vulnerabilidade. Só assim a força cresce e recebe a ajuda da coragem para possibilitar a convivência com mais abertura e fragilidade. 
 
Tenho muita admiração pelos ousados, pelos audazes, por aqueles que não têm medo do "não", dos obstáculos. São os mais sensíveis, mais sinceros e mais ricos em qualquer coisa. Tomo-os como inspiração. E é bonito notar, a pessoa realmente valente está absolutamente aberta. Aquecida, mas nunca quente, refrescada, mas nunca fria. Esse é o critério da coragem. Somente o covarde está fechado, e a pessoa forte é tão forte como uma rocha, embora tão vulnerável quanto uma rosa. 
 
Isso me lembra uma passagem da introdução do meu livro de contos favorito: "(...) me ocorre que a peculiaridade da maioria das coisas que consideramos frágeis é o modo como elas são, na verdade, fortes. Havia truques que fazíamos com ovos, quando crianças, para demonstrar que eles são, apesar de não nos darmos conta disso, pequenos salões de mármore capazes de suportar grandes pressões, e muitos dizem que o bater de asas de uma borboleta no lugar certo pode criar um furacão do outro lado de um oceano. Corações podem ser partidos, mas o coração é o mais forte dos músculos, capaz de pulsar durante toda a vida, setenta vezes por minuto, não falhando quase nunca. Até os sonhos, que são as coisas mais intangíveis e delicadas, podem se mostrar incrivelmente difíceis de matar. Histórias, assim como pessoas, borboletas, ovos de aves canoras, corações humanos e sonhos, também são coisas frágeis (...). Mas algumas histórias, pequenas, simples, sobre gente embarcando em aventuras ou realizando maravilhas, contos de milagres e de monstros, perduram mais do que as pessoas que as contaram, e algumas perduram mais do que as próprias terras onde elas foram criadas." 
 
É um paradoxo, e tudo o que é real é paradoxal. Levo sempre esta verdade comigo. Quando sinto algo paradoxal, nunca tento torná-lo consistente, porque essa consistência será falsa. A realidade é sempre paradoxal. Se por um lado, há vulnerabilidade, por outro, há força. Para se concentrar é preciso se desconcentrar. Para amar é preciso odiar. Para sentir prazer é preciso sentir dor. Para aceitar é preciso recusar. Para ter liberdade é preciso disciplina. Para viver é preciso morrer. Para saber é preciso não saber. É assim que identifico o que chamo de verdade. Quando vejo o duplo unificado, os gêmeos, assim lado a lado, significa que estou vendo um lampejo da verdade, significa que algo verdadeiro está se manifestando.

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