segunda-feira, 11 de março de 2024

Diagnóstico Tardio

Um desinteresse quase completo e uma certa dificuldade para interações em geral. Preferência por estar só, mesmo em locais com bastante gente conhecida. Habilidade para trabalhar em grupo apenas se puder fazer a tarefa de forma independente dos outros, evitando a interação. Realmente não me faz falta estar com pessoas e ao mesmo tempo, existe uma sensação triste de falta de mais amigos. Ainda ouço meu nome muitas vezes antes de atender, especialmente se quem me chama for alguém familiar, do meu convívio. Desconforto em contatos visuais com estranhos, em apresentações e aulas. Apesar de um enorme esforço de atenção na rua e em locais com outras pessoas, mil coisas já aconteceram, inclusive situações perigosas, e eu sequer notei, fico sempre sabendo mais tarde. Uma aparente ingenuidade infantil persiste.

Quando criança, apontava bastante e esperava que entendessem o que eu queria. Com o tempo, aprendi a me comunicar mais claramente, porque percebi o quanto isso era ruim e causava problemas na minha família. Ali ninguém se comunica direito. Um dia comecei a notar que as letras e música estavam comunicando coisas, começou com Atirei o pau no gato. Músicas e imagens são meios de comunicação tão melhores... E depois de explorá-los bastante e criar uma ligação tão grande com eles, não foi tão difícil para a minha mãe me ensinar a ler e escrever... Letras e palavras são desenhos que expressam sons, sentimentos e identificam as coisas, afinal... Escrever continua sendo melhor do que falar in loco.

Separava os lápis de cores em pares, como se um fosse menino e o outro menina. Enfileirava os brinquedos, pedras, conchas, peças. Empilhava coisas. Passava horas observando plantas e formigas. Quando surgia um cogumelo, ficava muito intrigada. Saber que existia uma coleção de qualquer coisa que eu tivesse só uma ou algumas peças me angustiava demais, até completar tudo. Ainda tenho meus álbuns de figurinha, todos são completos, porque até vender as frutas do quintal eu vendia para conseguir completar.

Uma aversão, quase um pânico, de ambientes muito cheios, exceto shows, onde me sinto muito confortável, na verdade. Subia nas mesas do trabalho da minha avó e cantava Carinhoso... músicas antigas que minha avó curtia... Gostava mais de pessoas mais velhas que eu, ou que pelo menos, aparentavam ser. Sentia mais conforto assim. Isso não mudou. Fui convidada ao palco, num show do Daniel Azulay, que eu era mega fã. Peguei aquele microfone e ninguém nunca mais me tiraria dali, não fosse minha mãe dizendo que íamos embora porque meu avô queria... Pediram o contato, ninguém deu... Minha mãe só tinha 22 anos... Ai, ai... Porém, uma vez me levou num clube na Praça Seca que tinha carnaval pra crianças, eu amava me fantasiar e ir no carnaval com meus pais numa rua aqui de perto, jogava água nos bate-bolas com garrafinhas de lança-perfume. Mas, nesse dia eu odiei. Nem era uma criança de chorar a toa, e comecei a chorar, assim que chegamos. Amava ir pra escola, mas dava muita ansiedade quando as professoras ensinavam coisas que eu já conhecia... Quando fui estudar num colégio que tinha semi-internato para as pessoas de comunidades próximas, senti medo. Sempre brinquei com as crianças da rua da minha avó... a maior molecada... Mas, ali, eu senti medo... as meninas na fila pareciam agressivas demais. E só comecei a perceber que havia uma certa rejeição, que eu fazia algo de errado, na quarta série. Daí pra frente é só ladeira abaixo nesse sentido. Nunca consegui, nem consigo explicar ainda.

Tenho familiaridade com metáforas e ironias porque exercito bastante. Adoro, na verdade! Acho bonito e poético, engraçado... No entanto, demoro um pouco mais do que os demais para captar essas nuances algumas vezes, especialmente quando não tenho familiaridade com o assunto ou a pessoa... Até textos que eu mesma escrevo, não entendo imediatamente. Parece que existe algo na minha cabeça que vai mais rápido do que eu e escreve as coisas. Talvez seja por isso que escrevendo entendo melhor o que se passa, inclusive comigo. Na verdade, eu sempre compreendia muito melhor os assuntos da escola, alguns meses depois de dada a matéria. Ia bem nas provas, muito mais porque me esforçava e preparava exatamente para fazer provas. Para entender de verdade e ganhar fluência eu precisava focar nos textos e exercícios por algum tempinho sozinha, com métodos de estudo que eu mesma criava para mim. Engraçado, sempre achei que isso se devesse a eu ter sido adiantada na escola e todo mundo sempre ser mais velho...

Em geral, há uma sensação horrível de avassalamento e deslocamento em multidões e grupos muito grande de pessoas. Sinto muito mais a situação do que percebo sinais não verbais e tendo a não entender nada quando alguns ficam nervosos por coisas que apenas constatei e são fatos... Procuro até usar palavras mais tranquilas do que aquelas que me vêm primeiro à mente, hesito em falar sem pensar antes, tenho a fala lenta, principalmente com pessoas de menor convívio, e procuro explicar meu raciocínio desde a sua semente, justamente para não haver confusão. Muitas vezes, a precipitação, a ansiedade e a falta de educação dos outros é que impedem que meu pensamento seja compreendido. Porque sequer consigo concluí-lo devidamente. Acabo, nesses casos, falando rápido qualquer coisa e tudo sai de uma forma que fica mal explicada e mal compreendida, prolongando a situação adversa, ainda que minha intenção seja encurtá-la. A quantidade de mal entendidos provenientes dessa questão podem preencher uma bíblia. No entanto, quando sinto conforto, a conversa flui naturalmente, do contrário, a comunicação é simplesmente cortada porque não sou obrigada. 

Sons muito barulhentos, gritos, tosses altas, obras, motos que passam na rua, sons ou movimentos repetitivos, luzes fortes, gente histérica ou espalhafatosa, brigas, textura de borracha nas roupas, toques suaves no meu corpo me irritam, me estressam, me assustam e às vezes me causam dor física. Uma vez fui acordada por um helicóptero da polícia que voava muito próximo ao meu telhado... aquilo causou uma crise de choro incontrolável, não sei explicar. E essa não é uma situação isolada... bagunça já me desestabilizou dessa forma... me colocarem em situação de responsabilização por coisas que não são minhas... mexerem nas coisas da minha casa, como o relógio de luz, o registro do gás, o capacho da porta... Coisas que acabam em casa, sem que eu seja informada antes de querer usá-las... Motoristas no trânsito que me põem em risco ou atrapalham o meu caminho descumprindo leis e regras... Tudo isso já me deixou em estado de quase ataque cardíaco. No entanto, acho que tenho dificuldade de expressar dor ou qualquer outra sensação. Ninguém entende quando falo que algo está realmente doendo ou que realmente me incomoda. Acho que sou confusa com sentimentos também... Sempre pensam que não me importo com os outros, que não gostei tanto de algo, que não tenho empatia, que não fico triste com coisas que nem me dizem respeito, mesmo havendo dedicado muito do meu tempo, dinheiro e energia a um monte de gente. Só percebo isso por causa do feedback.

Sou extremamente focada no que me interessa praticar e aprender. Isso pode durar horas, dias, semanas, meses, anos... E varia com o tempo porque me interesso realmente por muitas coisas. Até tomo decisões de última hora, porém, me sinto mais confortável com o planejamento da semana toda. Ser obrigada a sair da rotina é bem estressante. A organização dos meus livros, materiais, roupas, sapatos, arquivos, trabalhos, segue alguma lógica: cor, forma, tamanho, alfabeto, número... Dá uma agonia muito grande ver estojos de hidrocor ou lápis de cor dos alunos fora da ordem do espectro cromático. Gente cantando desafinado, instrumentos desafinados, letras erradas, erros de tempo ou nota nas músicas são insuportáveis. E coisas desalinhadas me dispersam... quadros... móveis... carros no estacionamento... sujeira... bagunça...   

Depois de toda a minha história... é fácil atribuir algumas dessas características ao que passei nos primeiros 20 anos da minha vida... Ou até mesmo, à depressão, ao abandono e ao limbo em que vivi pelos dez anos que se seguiram. Sempre achei que nunca me ajustaria mesmo... que precisava simplesmente aceitar... e nunca entendi isso. Mas, para a minha surpresa, quem diria, a essa altura da vida descobri que na verdade estou totalmente na moda!

sexta-feira, 8 de março de 2024

Mahashivrat

Poucos prazeres se comparam àquele dos dias em que posso dedicar exclusivamente aos meus estudos e projetos pessoais. Desenho... Música... Leituras... Planejamento... Nada pendente para resolver com ninguém. Nenhuma demanda externa. Temperatura agradável. Silêncio. Sobremesa só para mim. Exercícios físicos. Meditação... Algumas respostas, mensagens, agradecimentos e pedidos de desculpa para receber? Até tenho, mas o desapego de qualquer uma dessas coisas é total. Nada disso me cabe. Quando chegarem, chegaram e sejam como forem, para mim estará bem. Porque espero nada até de quem disse que me pagaria. Não ajudo para receber algo de volta posteriormente... Mesmo que, por outro lado, também seja uma enorme surpresa receber estupidez justamente nesses casos. Mas, ah, quero mais é que o cu de uma pá de gente pegue fogo e que o bombeiro esteja em greve. Sou tão entretida com a minha própria vida... passa uns minutos nem lembro mais de quem são, imagina se vou lembrar de estupidez. E a vida sempre se encarrega de cada um. Pra esgotar minha paciência precisa ser persistente de verdade... Talvez isso me faça uma amiga difícil... Rio das minhas próprias piadas, sei fazer minha própria comida, pago minhas contas, adoro ficar sozinha, poucas opiniões me importam, não me interessa a estagnação... Porque, né? Até as amebas e os vírus evoluem! É inadmissível, em tempos de Internet, tendo dois braços, duas pernas e uma cabeça funcionando, com café da manhã, almoço e janta na mesa, ter a saúde cada vez pior, o mesmo valor na conta, o mesmo currículo, a mesma vida social, os mesmos assuntos, a mesma mentalidade e os mesmos hábitos do início da vida adulta. Não dá.

Enfim, é bom chegar a um ponto de equilíbrio onde nem mesmo gente, dinheiro, testes e provas conseguem perturbar mais a minha paz. Muito menos numa noite tão auspiciosa quanto essa! Meu dia feliz vai acabar só de manhã, com as bênçãos do Adiyogi. 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Fora de ocasião

As pessoas com quem convivemos influenciam mais os rumos que tomamos na vida do que gostaríamos de admitir. Existe até um dito popular: você é a soma das cinco pessoas com quem mais convive. Então, é sempre muito importante escolher a dedo quem aceitamos em nosso entorno. Sejam aqueles que irão conviver fisicamente conosco, sejam aqueles que povoam nossas memórias e pensamentos com suas palavras, gestos, imagens, músicas e outras formas de expressão. E já que, por menos criadores de expectativas que sejamos, afinal somos adultos, nada e ninguém no mundo é exatamente como gostaríamos que fosse, também é importante ter para nós mesmos, muito bem definido, o que estamos dispostos a relevar, aceitar, tolerar... Se não respeitamos nossas próprias regras, a consequência mais óbvia é que ninguém mais vai. No entanto, existe uma outra consequência que passa despercebida aos menos atentos, a desgraça de todo relacionamento que se pretendeu construir um dia: o ressentimento. Sou capaz de afirmar que é esse detalhezinho que implode tudo. Pois, o ressentimento é um campo minado. Você nunca sabe quando algo será detonado. E isso cria uma dinâmica que impossibilita qualquer convivência saudável. 

Aí eu chego ao terceiro ponto dessa trilhazinha chamada texto reflexivo. Como é que surge o ressentimento? Simples, mas nada fácil. Ressentimento é um produto da falta de clareza e direcionamento na vida. Falta de objetivos. Falta de foco. Falta de se saber quem se é, o que se quer e o que não se é capaz de aceitar. Inaptidão para dialogar consigo mesmo e com os outros de forma madura e honesta. Resumindo: falta de auto conhecimento. Ressentimento pode atingir a qualquer um, a qualquer momento. Quem de nós se conhece tão total e profundamente ao ponto de já ser imune a esse mal? Porém, ter o ressentimento por hábito, reflexo inconsciente, é o problema a que me refiro aqui. Viver, dia após dia num emaranhado surreal de imaturidade, presunção, precipitação, prepotência, descontrole emocional, inexperiência com pessoas diversas, incapacidade de lidar com o contraditório, desrespeito a limites, medo de viver, isolamento, privação de experiências, ciúmes, inveja, egoísmo, falta de clareza, falta de consciência, falta de diálogo...  é o ritual para a conjuração da criança que se joga no chão do supermercado quando a mãe diz "não". Foda é quando a criança é uma pessoa que já passou da idade há décadas e a mãe se chama "vida". 

Saber se comunicar é uma arte. Arte é comunicação... e existem tantas formas... Mas, em todas, algo é fundamental: a possibilidade de se estabelecer o diálogo. Dialogar significa que alguém comunica, alguém devolve a comunicação e os dois vão trocando até que algo surja dentro de cada um dos lados da "conversa". É importante lembrar que, num diálogo, qualquer coisa pode surgir. Qualquer coisa mesmo! Então, diante de um tema, surge a comunicação quando alguém propõe e alguém significa a proposta. E nem sempre o significado atribuído à proposta é o esperado por quem propõe. Quantas vezes recebemos uma reação inesperada, negativa, ou até totalmente oposta ao que havia sido proposto por nós? Isso é tão normal! E tão interessante! No momento de se atribuir significado a alguma coisa, mostramos quem somos, o que somos, toda a nossa história de vida aparece ali codificada no simples ato de significar. É ali que nossa consciência fica a mostra, nossa criatividade, inteligência, nosso conhecimento, nossas fraquezas, nossos limites, nossos potenciais... Por isso, CONSEGUIR, estabelecer um DIÁLOGO é tão importante se quisermos viver juntos, em paz. 

Além disso, em qualquer relacionamento humano, a maior parte da energia e do tempo é investida em diálogos, seja apenas pensamentos, registros, seja nas mais diversas formas artísticas, seja em conversas de fato. A possibilidade e a qualidade do diálogo definem relacionamentos curtos ou eternos. Logo, uma boa maneira para se medir os benefícios ou malefícios de uma troca com alguém é analisando a qualidade da conversa. Acrescenta, informa, interessa, eleva? Ou Subtrai, confunde, distrai, diminui? O diálogo é possível nas mais diversas condições? Ou simplesmente se evita uma série de assuntos por motivos que vão desde o descontrole emocional, até a falta de conhecimentos do interlocutor? Há assuntos que interessam? Há boa vontade diante da controvérsia? Nos momentos de discordância, qual é o comportamento? Conversar e entender o pensamento do outro? Ou simplesmente reagir raivosamente como se tivesse sido desafiado? Aguardar e ouvir com atenção enquanto o outro fala e expõe seus pontos? Ou atropelar o discurso do outro elevando o tom e acelerando a própria fala, enquanto saca da manga o ad hominem cuidadosamente embrulhado numa reluzente caixinha de ressentimentos?

Seria bom viver de uma forma que nunca se precisasse pedir desculpas. Na ausência de clareza mental, maturidade, controle emocional e auto conhecimento, acabam existindo situações em que isso é inevitável. Claro, havendo interesse em se estabelecer diálogo... Não havendo... Sigamos o baile.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Poema escrito na pedra

Eu disse a ele que estaria sempre por perto para o que precisasse. Falava diariamente o quanto ele era querido e amado, o quanto todos que o conheceram gostavam dele. Abraçava, beijava e dava todas as coisas que ele gostava diariamente. Ele tinha muitos apelidos e várias músicas que fiz só pra ele. Tinha um monte de manias. Era teimoso, tagarela e exibido. Era pontual, exigente... Dormia e acordava comigo. Pra mim, ele nem parecia ser de verdade, de tão maravilhoso, amigo, companheiro, carinhoso, bonito, corajoso... Tentou pular para a janela do vizinho e caiu do quinto andar. Foi aparado antes de atingir o chão. Coincidência? Sei lá. Toda vez que levava um susto ou estava numa situação nova, eu explicava que nunca deixaria nada de mal acontecer com ele. Entendia quando eu estava precisando de ajuda e oferecia conforto... Gostava muito de música. Brincava demais! Experimentava todas as plantas, gostava de alface como se fosse bife, era super curioso. Nunca ficou doente. Esteve comigo desde poucos dias depois de nascer e me acordou de manhã para que pudesse se despedir. Porque estava na hora... E foi no meu colo o momento em que respirou pela última vez, antes de voltar para o mundo dos deuses. Foram 18 anos juntos, que terminaram ontem... E, apesar da dor, sinto uma imensa gratidão por termos convivido durante tanto tempo! Porque ele foi o melhor que já existiu e eu fiz tudo o que pude para ser a melhor para ele! Nos retratos mais bonitos que guardarei desta vida, com toda certeza ele está presente. Do início ao fim, foi exatamente da forma como desejei para ele. E por isso também sou grata. Mas, só consigo pensar em quando vamos nos ver de novo...

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Regras da Vida #12

Depois que você consegue achar o que estava há tanto tempo procurando, em toda parte aparecem, não só mais, como principalmente, melhores opções.