Não vou nem perder meu tempo escolhendo as palavras, criando metáforas, escrevendo de forma simbólica, correta. Ouvi a voz do meu pai hoje. Fui na janela e ele se virou para fingir que não viu. Falei com ele da janela e ele fingiu que não ouviu. Deixou um envelope com o porteiro. Saiu pelo portão, atravessou a rua, ligou a moto e foi embora. Nunca quis interagir demais nem mesmo virtualmente e não fala comigo direito há dois anos. Não faço idéia do que seja, apesar das suposições de quem sabe ou acompanha o caso. Triste demais. Gente que me conhece há bem menos tempo que ele, alguns têm uma vida bem mais atarefada, com gente em cima o tempo todo, a maioria sequer conhece a minha história, e mesmo assim consegue parar por um segundo para falar rapidinho, dizer que lembrou de mim, mostrar alguma coisa legal, me trata como filha, diz que me ama, que sente orgulho, me levanta do chão do banheiro quando bebo demais até... se comporta como pai, ou mãe pra mim, me trata assim, para pra tentar me ouvir e entender, não quer que eu volte para casa, muito menos sem trazer uma fruta, um bolinho, um presente... Ele só vai até onde as coisas materiais importam. Claro que sou grata por isso e reconheço que existe ao menos isso. Nunca passei nenhum tipo de necessidade básica material. Mas, é como se eu fosse apenas uma conta, sendo ele muito responsável, nunca deixará de pagar. Nada mais. De resto, a minha existência é apenas uma enorme inconveniência. E eu já devia ter me acostumado. Isso não deveria sequer me surpreender mais, o que dirá fazer algum tipo de mal. Mas, é incontrolável e irritante reconhecer que mal consegui fazer qualquer uma das coisas importantes de hoje. Me embrulha o estômago quando tento falar sobre esse assunto. Vomitei tentando até. Nem comi nada. Só tenho vontade de dormir. Acabei de dispensar uma cliente difícil porque já tem sido perturbação demais na minha cabeça todo o resto. Não estou em condições. Não tenho como resolver, me esforçar, me doar em mais nada com ninguém. Estou realmente esgotada. Não preciso de mais batalhas, na boa. Mais chateação, dificuldade, mais coisas para ter paciência, para tolerar e resolver... Preciso de paz.
quinta-feira, 23 de maio de 2024
segunda-feira, 20 de maio de 2024
Só não pode o quê?
Tem sido uma luta... os últimos 42 anos. E só a gente mesmo sabe como são e quais são as nossas próprias batalhas. Só nós sabemos onde dói. Não que não sejam importantes os encontros, empurrões, golpes e abraços que levamos uns dos outros. Eles são, sim. Quanta coisa acontece, somente após certas interações? Mas, tenho pra mim que se conhecêssemos, de verdade o que se passa dentro do outro, até mesmo os beijos seriam mais certeiros. Fazemos, no máximo, uma vaga idéia. Pode ser uma idéia boa, até, mas apenas isso. As palavras procuram traduzir, mas quantas vezes não vimos castelos ruindo por causa delas, também?
Desanimador quando percebemos que apenas a negatividade ressoa no outro. Às vezes, negatividade que nem era direcionada a ele. Já as coisas boas, são esquecidas rapidamente, como se elas não fossem tão maiores que todo o resto. E mais rapidamente ainda, as próprias ações. O chato é que isso indica bem o que há por dentro. Essa ilusão de que se pode sempre cometer os mesmos erros, sem retratação, depois encontrar um pretexto para ser gentil outra vez e continuar de onde se parou como se nada tivesse acontecido, é decepcionante. Fora a reatividade, a pressa com que se sente um desafio, a recepção da imposição de limites como se fossem apenas dificuldades desnecessárias, quando na verdade, ela existe justamente como uma forma de autoproteção em consequência de se haver passado vezes demais pelas mesmas situações que saíram dos limites aceitáveis. Estas sim, desnecessárias.
Qualquer um que se importasse minimamente compreenderia e levaria isso em conta. É psicologia básica. Mas, talvez eu é que seja boba demais de ter levado a sério palavras bonitas... tenha, em vão, confiado nelas. Afinal, existem muitas maneiras mais eficientes de se tirar dúvidas, resolver problemas, encontrar entendimento, até mesmo com elas, as limitadas palavras. E procuro fazer assim. Escrever para entender. Escrever para aliviar um pouco a dor. Fazer analogias, relacionar idéias, associar músicas a momentos... Para deixar os demônios tomarem um sol e assim impedir que me enlouqueçam. Mais. Apenas isso. Entender. Dos mesmo criadores de "Quando eu rezo, acontece.", tem também o "Quando escrevo, resolvo." Sabe? Uma tentativa, cansada, mas uma tentativa, de resolver as coisas.
Se afastando um pouco e observando isso de cima, o que temos? Alguém que simplesmente seguiu e abandonou? Ou alguém que está tentando fazer ajustes para que as coisas sejam melhores do que estavam? Sinceramente. Não é possível que a miopia e a hipermetropia cerebral tenham se alterado tanto ao ponto de isso não ser tão claro quanto as águas da Lagoa Azul da Nova Zelândia.
Tem sido triste por razões que nem mesmo o moço lá do confessionário que vocês chamam de clínica consegue compreender. Não é pelo que qualquer pessoa tenha feito, ou deixado de fazer. É pelos golpes recentes terem acertado em cheio as mesmas antigas feridas abertas, essas que ninguém tem a mínima idéia de quais são, e a minha crescente falta de ânimo para reagir. Tenho tudo pronto e traçado aqui no mural e na agenda. Cada passo, cada ação, os custos... tudo calculado. Mas, tenho sentido tanto medo... duvidado de tanta coisa sobre mim mesma... uma confusão tão grande... Tenho muitas oportunidades para me divertir, realizar e ser feliz. Todos os dias. Recebido amor de tantas direções, tipos, dimensões... E mesmo assim... faço o que tenho que fazer, usando forças nem sei de onde, como se eu fosse um androide. Onde encontro energia? Onde encontro coragem? Talvez nessa frasezinha que há muito tempo alguém falou no meu ouvido e simplesmente acendeu um letreiro em neon dentro de mim: "Só não pode parar." Ele tem piscado um pouco.
Mas, isso é coragem, não é? Sentir medo e fazer mesmo assim... continuar?
De quando estudava Estética na Escola de Belas Artes e no Conservatório de Música, lembro de uma passagem em que Sócrates diz que coragem é a mãe de todas as virtudes. Então, sim, não importa como, eu estou fazendo, e isso é coragem. Sem coragem, não tem iniciativa, ação. E somos responsáveis pelo que fazemos e pelo que deixamos de fazer também, a conta chega igualmente. No entanto, não se pode esperar progresso ou mudança em áreas onde não agimos. Desistir é uma idéia, mas só depois da ponderação consciente. Às vezes é a melhor opção mesmo. Mas, para todas as outras vezes, existe o descanso. E aí, a atenção é fundamental. Porque, a coragem é o primeiro anjo a favor de que algo aconteça. Ele abre o caminho para os demais. Mas, onde quer que a luz vá, sempre estará aguardando por ela, a escuridão. Então, depois da decisão, antes mesmo do anjo da coragem, o primeiro a surgir é o demônio da preguiça (medo, estagnação, conformismo, acomodação). E o sucesso dele economiza todos os outros seis.
Só não pode... Já sabe.
sábado, 18 de maio de 2024
Sinestesia
Como quando vou completar o tanque de gasolina antes de viajar e na bomba aparece a quantidade exata de litros que imaginei. Penso 15,75 litros e dá 15,75 litros no marcador. Acho essa precisão algo bem bonito. Quando acerto a música que vai tocar a seguir no som do carro e quando consigo construir figuras geométricas praticamente perfeitas... Não acho legal ou divertido. Coisas legais e divertidas tendem a se tornar banais e desinteressantes, mas o que é bonito sempre me é bonito. Outra coisa: amor estabanado. Que parece cachorro, sabe? Aquele amor imenso, meio São Bernardo correndo no chão liso? Aquele amor que erra todos os presentes e acerta todas as presenças? Amor de abraços apertados e beijos que misturam língua e sorriso? Sabe? Amor em que tudo se encaixa, mesmo as peças sendo diferentes? Bonito. Corda cheia de roupa! Que bonito. Bem coloridas... Minha alma se pendura no varal, juntinha, balançando na cara do vento.
Quando as crianças estão correndo e gritando aqui embaixo, com risadas eternas... Acho bonito demais. Acho bonitíssimo quem diz que vai chegar em casa e tomar um vinho. Pode ser qualquer vinho, mas quando o vinho é bem chique e cai gorgolejante numa taça bojuda é dos olhos chorarem rubis de tanta beleza. Pessoa organizada, que mesmo na simplicidade, tem um lugar para cada coisa e mantém tudo impecavelmente limpo, sempre tem à mão o que precisa. Bonito, e muito. Boniteza também é quem faz doce pra dar. Nem prova o doce de tanto que já não aguenta nem o cheiro. Mas, faz. Pra dar. E morre sem dar a receita, mas deixa potes prontos cheios de saudade pros que forem arrumar suas coisas. Aquela pessoa que tem horários e compromissos, está sempre envolvida em algo e cuida de si mesma com carinho.
Quando o clarim toca na homenagem anual a Ogum. O gongá cheio de flores vermelhas. E vão entrando os filhos do Orixá, cruzando espadas de São Jorge para que as bandeiras passem por baixo. Cada uma com um dos nomes do Guerreiro: Beira-Mar, Sete Ondas, Sereia, Iara, Guanabara, de Lei, Rompe Mato, Sete Espadas, Megê, Matinata... BO NI TO. Gente que sabe o que dizer... Apaixonante. Alguém que aprende a escrever na terceira idade. Nossa... Bonito demais. A união que nasce entre os que sofrem muito e os enlutados. Lá pelas altas horas da madrugada, quando a conversa começa a ficar séria e a sinceridade finalmente se sobrepõe ao cinismo, às piadas, à zoeira... As amigas e os amigos se apoiam sobre as dores diárias... As confissões de amor começam a surgir... as acusações dão lugar ao perdão. Quando alguém diz, "Olha, me desculpa." E você vê que é de verdade. Sem, "mas". Sem, explicações. Apenas isso, reconhecimento sereno de um erro, sem afetações, sem dramatizar, sem se humilhar, ou qualquer coisa assim. É bonito demais.
Acho bonito ombros largos e peito forte por baixo de uma camisa com bom caimento. Tudo organizado debaixo do tecido, sem parecer que tá sufocado ou frouxo demais, dá uma sensação de harmonia que acho uma lindeza. Gente que come de tudo e gente que come pouco. Nossa... que bonito.
Sabe aquelas casinhas de sapê? Com telhado de palha, em que se vê os galhos no meio do barro das paredes, bem humildes, no sertão do sertão do sertão? Geralmente tem luz no lampião e um fogão feito com barro e lenha. Aquilo me dói em vários cantos, mas poucas casas são mais bonitas. A aridez cruel da Caatinga, da seca, é de uma beleza perversa. Os pontos riscados pela primeira vez com a pemba na tábua. Mais bonito que bordado de roupa de santo. E quando fazemos odubalê para o Babalorixá no nosso aniversário de Mão de Santo? O rosto encostado no chão e as cruzes que ele faz nas nossas costas. O Ijexá dos atabaques despertando aspectos da nossa alma que nem percebíamos antes. Bonito.
A buzina do moço dos doces ao cair da tarde. Beleza nostálgica. Cachorro correndo, gato parado, galinha ciscando, vó dormindo, pai chegando do trabalho, professora apontando lápis, flores novas no jardim, o sino tocando na igrejinha, bolo assando, pé de feijão crescendo, mãe existindo... que bonito. Também tem os cheiros bonitos. Sabe como é? Por exemplo, cheiro de café é gostoso, cheiro de livro é um cheiro bonito, cheiro de perfume é gostoso, cheiro de cabelo lavado é um cheiro bonito. Sabe? Eu acho. Voz de barítono. Nossa... Aquela voz profunda que tranquiliza até gente possuída. Pessoas cantando e dançando tudo errado, fora do ritmo, mas sendo muito felizes. Se isso não é bonito eu não sei o que pode ser. Cuidar amorosamente de alguém. Muito bonito. Dentes ligeiramente desalinhados, nariz pontudo, rugas de expressão, barbas certinhas, homens firmes, assertivos e amáveis, mulheres que dão um jeito sem se lamentar, pele muito preta e pele muito branca. Algumas cicatrizes. Pessoas com olhos tristes. Gente que sabe tudo sobre sua atividade principal, mas só fala dela, diante de muita insistência. Gente que pergunta só porque quer saber mesmo, sem fazer disso um pretexto para falar de si mesma. Sexo sem timidez. Mãos que acariciam com vontade e nos lugares certos. Quem sabe usar emojis adequados e significativos.
Uma flor pisoteada... Triste... Tanta beleza e falta de palavras para descrever. Quando tem um peixe morto na areia da praia. A solidão prateada do peixe morto é muito bonita. Triste demais, mas muito bonita. Acreditar na possibilidade de coisas que estão além da realidade objetiva é lindo. Saber tudo sobre investimento financeiro e Ciências Naturais. Conhecer as plantas e as estrelas. Escrever cartas... Pessoa que gosta da própria aparência. A cera que escorre das velas acesas. Coragem. Saber conversar. Muito bonito tudo isso.
quinta-feira, 16 de maio de 2024
E, aqui estamos nós.
Curto coisas antigas, árvores, pedras, pinturas rupestres, pergaminhos... Por isso, sempre que sinto uma movimentação estranha e persistente no ar, em vez de recorrer às estatísticas e ferramentas de monitoramento de tráfego, embaralho as cartas e pergunto: "Quem?" E elas caem das minhas mãos só para descobrirmos o de sempre...
Tô rindo como sempre, me virando, mas não tô bem, não. Nem sei se isso traz alguma satisfação, se é o que vêm aqui para conferir... Enfim, saibam. Já estou cogitando procurar ajuda profissional, só para dar uma noção das coisas. Ideias que não passavam na minha cabeça por vinte anos, voltaram a espreitar...
terça-feira, 14 de maio de 2024
Onde os chatos não tem vez
Uso um bullet journal pra organizar a vida. Ele tem índice, calendário do ano inteiro, aniversários e datas importantes anotadas, obrigatoriedades para cada mês, horário, cronogramas de projetos, planos de ação, compromissos, listas diversas, gastos e ganhos mensais, controle de hábitos e o que mais considero importante anotar. Todos os dias, antes de ir dormir, listo as tarefas do dia seguinte ali. Mas, por mais disciplinada e comprometida com meus objetivos que eu seja, algumas delas acabam ficando para o próximo dia, o próximo mês e também tem aquelas que ficam para a próxima vida. Ou seja, se eu não me importo em fazer todas as coisas que EU mesma decido para mim, imagina se vou me importar com aquelas que VOCÊ acha que eu deveria fazer.
segunda-feira, 13 de maio de 2024
Ar e poeira
Se a moça que pinta lhe permite olhar por cima dos seus ombros enquanto ela trabalha, se sorri e o convida a ler os seus versos, se murmura uma canção em sua presença... Saiba, você não é mais apenas uma pessoa. Mas, o ar e a poeira que preenche seus pulmões. Quando tudo acabar no mundo, você ainda existirá. Dentro de um vidro de nanquim, de um pincel, de um poema, de uma canção...
domingo, 12 de maio de 2024
Pernas de 8 Anos
segunda-feira, 6 de maio de 2024
sexta-feira, 3 de maio de 2024
Sextou
Precisava concluir um Mapa Natal hoje, já fui até paga... Tem outro na fila e entrou uma capa de livro também... fora meu cronograma do deck Lenormand... os meus estudos... ficou tudo bagunçado. Não comi nada hoje e levantei só pra tomar um banho e beber água. Não fui picada por mosquito. Não saí de casa ontem. Acordei me sentindo mal e começou uma febre totalmente maluca agora. Precisava fazer compras... Mas, se levantar para pegar água e ir ao banheiro estão sendo problema... E, nada foi pior do que entrar no banho e ter esquecido a toalha. Enfim, um péssimo dia para não ser milionária e não ter um mordomo.
quarta-feira, 1 de maio de 2024
Samhain
Hoje marca o meio do outono e a preparação para o inverno. Como eu gosto dessa época do ano... O azul do céu é mais intenso, as amendoeiras ficam mais coloridas, os dias estão progressivamente mais frescos... E, apesar de ser dia de soprar canela para dentro de casa e planejar o mês, é o fim do ciclo solar anual. Todo final significa também um início. Tudo o que passa constrói o agora. Então, o momento é bom para refletir sobre as conclusões, o valor de se construir boas memórias, a preciosidade do conhecimento passado através do tempo e da experiência, o amor e a saudade daqueles que já se foram, mas continuam sendo importantes para nós de diversas formas. Depois de viver algumas décadas, a noção dos ciclos e da passagem das horas se torna mais clara. Muitas coisas começam a não fazer mais sentido e outras só fazem agora. Nosso tempo de vida é curto demais para ser desperdiçado. Os planos importantes devem ser traçados e postos em prática imediatamente. Tudo o que se espera levar, deve ser pego com força. Todas as despedidas precisam começar já! Se é necessário dizer alguma coisa, que seja feito com urgência. Aos poucos, o momento da grande travessia chega e, de repente, esse capítulo da história termina. Isso não deveria ser triste, mas só não será se as canções guardadas em nós forem cantadas a tempo.
