Uma coisa que não se pode exigir de ninguém é compreensão. Muito menos quando não nos expressamos com clareza. Menos ainda quando não emitimos os sinais adequados. E ainda menos, quando somos artistas e não conseguimos separar arte e vida. Como esperar compreensão, quando damos tanta margem para interpretações, quando sentimos prazer em apresentar experiências e depois apenas observar passivamente aqueles que se importam tatearem no escuro todas as significações possíveis? Seria incoerente e injusto. Não podemos sequer ficar tristes, o que dirá ofendidos, se as hipóteses começarem a surgir e se mostrarem o exato oposto daquilo que intentamos provocar. A falta de objetividade até nos ajuda a conhecer quem chega e a reconhecer quem realmente se interessa. Atrás do espelho é sempre o melhor lugar para se esconder e ser óbvio demais não tem graça alguma. Além disso, a realidade sempre perde para a imaginação. Mas, é bom saber dosar o quanto nos escondemos, dosar o grau de subjetividade emitido com as sugestões expostas, sob o risco de também nos tornarmos enfadonhos e desnecessariamente labirínticos... A vida sozinha já apresenta-se com essa abordagem e é próprio da arte procurar por formas diferentes de ver, ser, existir... Subjetividade é lindo, suave, livre, imaginativo, mas não pode ser apenas uma armadura contra o medo de se expor. Afinal, se tem medo e não enfrenta, porque começou a obra? Entendo que só abandonamos, quando não vale a pena o esforço. Mas se vale, se temos peito para encarar nossa autoria, a energia precisa circular! Do palco para a platéia, do plástico para o olhar, do som para o ouvido, de corpo para corpo... E pra isso, quem começou a abrir a trilha, precisa também se abrir para ela. Porque semelhante atrai semelhante, quem se abre, abre. Mas, quem se constrange, constrange. A timidez, intimida, a defensiva induz naturalmente à defensiva. E com isso vai-se embora toda a energia, toda a poesia e todo o encanto.

Um comentário:
Como um bom escorpiano preciso concordar com cada letra desse texto. A pessoa se esconder como um convite a ser decifrada é uma coisa. Outra muito diferente é ter algo a esconder de mim.
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