Faz tempo que ela não liga pra me perturbar, mas esses dias eu estava lembrando do quanto minha avó é figura e aí lembrei também dessa história.
Normal eu chegar na casa dela sob a recepção calorosa da cachorrada pulando em mim e correndo atrás dos gatos pelo quintal e minha vó já me fazendo perguntas lááááá de longe, aos berros, sempre sentindo obrigação de me dar alguma coisa. É impossível ir embora e não levar nem que seja um pedaço de papel. Mas o comum mesmo é sair de lá com bolsas quase impossíveis de carregar, mesmo que por uma pequena distância. Às vezes são roupas, outras são coisas variadas, mas geralmente são as frutas. Já levei de lá uma bacia com tantos abacates que precisei parar algumas vezes pra descansar. E olha que da casa dela eram são só dois quarteirões até a casa do Jack, onde eu morava. Não adianta dizer que não quero, que vai estragar. Ela fica irritadíssima.
Então, sempre que chego lá, minha avó oferece tudo que tem em casa. Começa na geladeira e armários da cozinha. " Quer suco? Quer caqui? Fruta do conde? Ameixa? Laranja? Quer Polenguinho? Quer Iogurte? Quer gelatina? Quer sorvete? Quer biscoito? Quer ovo de codorna?" E nisso eu vou falando que já jantei, no mínimo por umas dez vezes. Mas, ela ignora completamente, contando todas as fofocas das redondezas, da família e o resultado dos últimos rounds das brigas dela com seu irmão Pedra. Nesses papos que temos, fico em dúvida se rio ou se choro. Muitas vezes tenho que prender o riso. Muitas vezes não consigo, e ela me chama de boba pra baixo. Depois vai pras gavetas e armários dos quartos. "Quer essa blusa? Esse sapato? E esse brinco? Olha que lindo esse cordão!" Imaginem agora eu vestida com aquelas blusas enormes e coloridas dela. Ou com aquelas sandalhas brancas que ela adora. E os brincos então! "Não vó, não precisa me dar nada, pára com essa mania de achar que tem que me dar alguma coisa." Até os produtos de higiene dos banheiros ela oferece. "Quer esse creme? E esse perfume? Já usou esse shampoo?" E me chama de babaca quando não aceito.
É a maior figura de todas! Tenho a quem puxar mesmo. Mas num dia desses, eu estava lá, ela já frustrada porque naquele dia recusei todas as coisas possíveis e não tinha mais nada pra oferecer, estava na sala com ela, assistindo seu programa favorito. Aquele da Luciana Gimenez. Ela tinha acabado de xingar o irmão, nada mais havia no estoque de fofocas. Nada mais pra falar mesmo. Aí vira e manda essa:
- Carolina, você já tomou ismino, esmirno, emisso... ah não lembro o nome daquele troço... ice...?
Na hora me veio Smirnoff Ice na cabeça, mas pô, claro que não era isso. Óbvio! Minha vó, tomando Smirnoff Ice? Nada a ver...
- Pô vó, não sei o que é. Não devo ter tomado. Não entendo muito dessas bebidas.
Aí ela levanta, vai na cozinha e volta com uma garrafa:
- Ah, não tem mais. Pensei que tivesse, mas devo ter bebido todas as garrafinhas quando estava limpando o quintal. Aqui a garrafa ó. Depois compro mais pra você experimentar.
Era. A garrafa. De Smirnoff. Ice. E ela bebeu todas.
...
Assim, a minha avó toma Smirnoff Ice! Bebidinha de boate, de night, de galerinha muito louca que dá beijo na boca... bom, deu pra entender, né?
Ah, sim. Eu só tenho essa avó. Logo, é a mesma que vai até o Quebramar comigo de bicicleta, aquela que dá Coca-cola pro papagaio, que pega tudo quanto é bicho na rua e traz pra casa, a mesma que se veste como um pirulito, que pede quentinha pros cachorros no restaurante, que inventa de eu ir tocar piano pros velhinhos dos asilos (do nada), que faz "shsssssss!" altão na fila do banco quando as pessoas estão falando muito. E claro, a mesma que vai arranjar um jeito de enfiar na conversa que eu toco piano. Ela vai dar um jeito. O assunto pode ser a vida secreta das iguanas. Não importa, "você sabia que Carolina toca piano?", vai entrar em algum momento na conversa. Então, eu não sei porque senti essa surpresa sabe? Mas, por esse papo de Smirnoff Ice eu não esperava meeeeesmo!

2 comentários:
Hahaha! Melhor do que as histórias da vovó, só as histórias sobre a vovó!
E que ela dê a mão à minha tia!
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