Por outro lado, pela manhã qualquer coisa ainda é possível. A manhã guarda todo o potencial da folha em branco.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
A-Manhã
Qualquer coisa é mais difícil pela manhã. E se chove, debaixo dos cobertores, tudo se torna praticamente impossível.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Detalhes Tão Pequenos
Tenho em casa um pedaço do muro de Berlim. Lembrança da viagem que minha bisavó fez à sua terra natal. Mas, uma vez levei aquele pedaço de cimento pixado para mostrar na escola e todos riram de mim. Sim, é compreensível... Um detalhe é coisa nenhuma fora do contexto. Detalhes, isoladamente, por maiores e complexos que sejam, são apenas detalhes; pensamentos pequenos. Mostram a sua visão aguçada, mas não a sua sensibilidade. Provam a sua inteligência, mas omitem a sua sabedoria. A maestria e o virtuosismo tem mais a ver com simplicidade e capacidade de síntese, na verdade. O entendimento do todo exige um olhar elevado, vindo do alto mesmo. Pois, detalhes são peças de quebra-cabeça, cada uma tem a sua importância para o conjunto, mas isoladas umas das outras, jamais trarão qualquer vislumbre da grande figura, da qual fazem parte. E, nessas condições, jamais terão qualquer valor.
Vida Própria
Um dia desses senti tristeza ao ler a última frase da obra completa de um gigante da nossa Literatura. Só me restará agora reler incontáveis vezes o que há. Nada mais será acrescentado. A menos que na biblioteca do Sonhar eu encontre sua seção de poesias jamais escritas, apenas sonhadas.
Mas, pensei bem, reli meus trechos e poemas favoritos, e entendi desta forma que o divino está mesmo em toda parte. Não à toa qualquer religião concluiu isso. Dentro de cada um existe deus. E os grandes artistas são exemplos precisos dessa nossa natureza divina e permanência em toda a impermanência da existência (sim, é contraditório, como todas as grandes verdades). Eles mostram que somos imortais e o quanto o mundo seria diferente se nós não existíssemos. Mas, isso não se deve apenas ao legado de sua arte, deixado para nós, trazendo-os de volta à memória. Mais do que isso, só os grandes mestres sabem como produzir obras vivas, que mesmo após centenas de vezes diante delas, jamais deixam de assombrar, ensinar e surpreender com novidades.
domingo, 16 de maio de 2010
A Toda Velocidade
Quando eu era criança o tempo passava mais lentamente. E é certo que meus pais viveram suas infâncias ainda mais vagarosamente, e por sua vez meus avós viram mais grãos de areia na ampulheta de seus dias dourados. Ainda é viva na memória a eternidade da meia hora de propaganda eleitoral na TV. Eu era capaz de criar mundos em trinta minutos... Num só dia havia espaço para as bonecas, as pipas, as bolas, o pique, os jogos de tabuleiro, os filmes, as leituras, a música, os desenhos, a piscina, as refeições, o banho e o sono. O sonho da gente era ganhar uma bicicleta no aniversário, sonhávamos com o poder de voar ou sermos invisíveis. Mas o tempo já não é mais o mesmo nesses nossos dias. Hoje eu queria é conseguir me tele-transportar e que inventassem uma pílula para o Francês entrar no meu cérebro da mesma forma que se instala um programa de computador. Num minuto, uma infinidade de dados novos! É triste, mas impossível não se ver imerso nessa moda de velocidade, quando tudo é exigido para ontem. Não há tempo para pensar. Acabou-se a contemplação e a criatividade saiu perdendo de nocaute logo no primeiro assalto.
E agora, onde ficam aqueles prazeres e atividades que requerem tempo para se obter algum sucesso? Os eventos passam limitando-se à leitura da primeira e da última página. Ignora-se completamente os acontecimentos, de fato, importantes, os intermediários, e as entrelinhas. As viagens reduziram-se ao cenário de partida e à estação de chegada, eliminando completamente a beleza da paisagem que nos acompanhava durante o trajeto, lá de fora da janela. Neste ritmo, chegaremos ao ponto de resumir a existência à primeira inspiração e a última expiração. Abreviaremos toda uma vida num abrir e fechar de olhos.
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