segunda-feira, 22 de abril de 2013

Tão contrário a si

Lá estava ela, em seu cavalo negro, aljava nas costas, imóvel, bem em frente ao portal do vilarejo onde ele vivia com os seus velhos pais. Estava muito longe de sua costumeira rota e não saberia dizer há quanto tempo permanecia ali. O trajeto passou pelos seus olhos como se tivesse sonhado.

Mas era real! Ela estava naquele lugar! E lá vivia o bardo! O bardo que agora pretendia ser mestre. Ela sabia que era ao lado da casa amarela. E sabia disso do mesmo modo que soubera de tudo o mais. Sabia por ser a raposa que era. Ele jamais indicaria o caminho. Apenas mentiu e omitiu em todos os encontros, como um bom ladino. E isso devia ter sido suficiente para ela sequer cogitar a possibilidade de fazer aquilo agora.

Tarde demais.

Ainda que fosse preciso viver e deixar morrer, as intenções ali contrariavam este seu mantra. Ela pretendia entender, para dizer o mínimo. Pretendia tentar uma ação grandiosa, ser magnânima. E oferecer um nome, uma vida, um coração...  "Ele sempre mentiu", lembrou-se subitamente. "Desde o princípio. Mas, por que razão? Por que alguém agiria assim? Num dia sorrisos, no outro um completo estranho." O que ela havia feito, primeiramente, para justificar isso?

Apenas se enganou, na verdade. Apenas acreditou, como a platéia do mágico. A caixa sempre esteve vazia...

Um vento frio soprou em seu rosto quente. Suas bochechas ferviam. Sentiu as lágrimas e as matou antes de caírem. Então, friamente, fez questão de lembrar. Lembrou da primeira vez que leu seu nome no papel e de como teve dúvidas quanto à pronúncia correta. Lembrou de como saiu de casa para encontrá-lo, praguejando e amaldiçoando o calor que fazia. Lembrou da estranha sensação de familiaridade quando viu seu rosto. Então, lembrou que nem bem havia passado uma lua e ele lhe enviou uma mensagem, perguntando se haveria disponibilidade para ir ao seu encontro. Mas, logo em seguida cancelou a proposta. Ela lembrou perfeitamente bem de como se sentiu. E lembrou que aquela foi apenas a primeira das inúmeras vezes que ele pareceu brincar. Se fizesse um pequeno esforço, era até mesmo capaz de recordar quantas foram e todos os detalhes das situações posteriores. Mas, para que? Já tinha o suficiente.

Ela não devia estar ali. Entre os detalhes descobertos estava a donzela prometida. E isso era de crucial importância. Não para ela. Nunca levou promessas a sério. Aprendeu a amar total e profundamente, de tal forma que sabia separar as coisas. Amor tinha mais a ver com amizade e liberdade do que com casamentos, contratos e promessas. Mas, o fato poderia indicar as origens de sua crueldade.

A dúvida rachava seu espírito em dois. O corvo da hesitação rondava seu peito. As perguntas congelavam suas ações. "E a familiaridade?" Não encaixava. Não lhe entrava na cabeça. Não fazia o menor sentido. Se havia aquilo desde o princípio, a donzela, a promessa, o conto de fadas, se isso era um problema para ele, então por que procurá-la, primeiramente? Por que enviar mensagens insistentes? Ir ao seu encontro no dia seguinte? Por que se aproximar e em seguida punir em cada palavra ou ato? Era por, simplesmente, permanecer ali, lembrando-o da impossibilidade de seu projeto de perfeição, da sua infidelidade? Ele não merecia sequer ser lembrado. Isso era tão óbvio quanto absurdo, mas e a droga da familiaridade de seus olhos? E a sensação de conhecê-lo de tempos tão antigos? O que fazer com aquilo?

Ofertar um nome, uma vida, e um coração. As mentiras a entristeceram, em cada um dos dias desde o solstício de verão. E agora, ali, em seu cavalo negro, cabelos ao vento, arco na mão, olhar flamejante, já estavam na quarta lua desde o equinócio de outono.

Resolveu voltar. Subir a pequena colina e galopar de volta, antes que notassem a forasteira. Antes que agravasse o que havia acabado de ocorrer. Era preciso aceitar o dilema, é preferível viver a morrer com ele. Sempre ser a luz, nunca a mariposa, não era fácil. E teve esperanças de chegar ao fim daquela história ali mesmo. Mas, não assim. Havia planejado um outro desfecho. Um em que saberia onde estava o erro e todos ficariam felizes. Havia ido até lá para isso, mas já não importava mais. Ele a procurou, somente para ignorá-la depois. Ela havia sido apenas a sua plateia, havia apenas envaidecido sua virilidade, fora usada e descartada. Seriam amigos, sim, só quando ele quisesse lhe cantar uma canção. Ela jamais concordaria com esses termos! Então, guardou de volta os seus desabafos, as suas verdades e confissões. Engoliu sua amizade, seu carinho, suas lágrimas e seu ódio. Prendeu o arco ao lado da aljava. Guardou a carta, quatro longas páginas eloquentes, no casaco vermelho e voltou, tão rápida quanto a flecha que havia acabado de disparar.

Em alguns segundos, seria como se apenas tivesse sonhado. Não haveriam testemunhas, nem canções. Mas, ele saberia. Mais tarde, quando a noite terminasse... Saberia que não se brinca com fogo sem se chamuscar. Saberia que ela estivera ali, diante de sua pequena casa, desejando ofertar-lhe um coração, uma vida e um nome de três letras. Saberia que a mentira só acende a verdade. E por isso, saberia que ela conhecia suas canções não cantadas, sua prometida, sua família, seus parceiros, seu planos, seus passos... E que incêndios acontecem. 

2 comentários:

JP Mayer disse...

Ó... não sei o que é isso ou o que significa mas tá FANTÁSTICO! Espero que seja um livro.

Carol disse...

Apenas um conto. Baseado em fatos reais, mas só um conto. Haverão outros. Estou, finalmente compondo os personagens, os cenários e as cenas da grande história que, sim, será livro. Mais de um, talvez. Finalmente, estou vencendo o perfeccionismo e começando a organizar os capítulos e tudo mais. Depois ainda virão as ilustrações... É um projeto de vida escrever e ilustrar Fantasia. Não morro feliz antes disso. Obrigada pelo incentivo. ;*