sexta-feira, 26 de abril de 2013

Caos, treino e luta.

Estava hoje me desesperando com a bagunça que está a minha casa e lembrei de algo em que sempre penso toda vez que o caos vai se esgueirando e tomando espaço por aqui. Durante meu tempo na Escola de Belas Artes, aquele período negro, estudei com um professor de filosofia excelente. Ele viajava o mundo todo e todas as fotos que mostrava nas aulas eram dele mesmo. Era um exemplo de leveza, organizção e equilíbrio. Não era do tipo que sabia apenas porque leu ou ouviu alguém falando. Conhecia da melhor forma: pela experiência direta. E, portanto, falava com muita autoridade sobre o que procurava nos apresentar. Suas aulas eram às oito da manhã, lááááááá em Mordor e eu não tinha carro, nem águia gigante, precisava pegar dois ônibus, mas às sete estava lá e nunca perdi uma aula sequer. Minha vida caía em queda livre para o fundo do poço e aquele era um dos poucos professores que eu admirava ali. Ouvia cada palavra dele com todos os meus sentidos. Anotava tudo depois da aula. E um dia ele comentava sobre uma de suas idas à Grécia e sobre a organização que as viagens demandavam, pois ele estava longe de ser rico. No meio de seus comentários disse uma das lições que mais trago comigo: se uma pessoa tem uma mala bagunçada, essa é a coisa mais organizada que ela tem na vida, é o menor dos seus problemas. E lembrar disso me leva agora ao drama desses últimos meses desde o fim da obra.

A necessidade de um marceneiro começa a entrar em estado de emergência. A falta de tempo está me esmagando feito uva, porque vou fazendo tudo meio mais ou menos. Mas falta de tempo também é um sintoma de que me descuidei e a sujeira está embaçando os vidros da minha janela. Quando a vida começa a ficar caótica ou o sentido das coisas se perde, o sintoma mais claro é a bagunça que fica a casa. Eu estou longe de me deprimir ou surtar, mas já começo a largar papéis empilhados na prancheta e a ser mais displicente com a limpeza, lavo minha louça sem muita atenção, as varridas ficam mais escassas, como se eu não confiasse mais no propósito da limpeza. O olhar fica vago, vou a outro cômodo e esqueço o que fui fazer lá. Não corro com o mesmo entusiasmo. Saio com o cabelo bagunçado, deixo para me arrumar no último minuto e não uso perfume. Aqui, no microcosmo da minha casa, acontece o que em breve acontecerá com todos os âmbitos da minha realidade. Aqui eu posso observar minha mente começando a se perder, meu corpo começando a entortar. E aqui mesmo eu posso redirecionar tudo com a vassoura, a esponja e o cuidado de guardar cada coisa em seu lugar, na medida do possível. Aumento o vigor, corto a ilusão, sorrio. Pois, se deixar, a confusão cresce para além da casa, e aí fica bem mais difícil encontrar depois algum pensamento Zen para retomar a sobriedade.

O mais importante disso é saber que posso fazer um chá e apenas fazer um chá, escrever um texto e apenas escrever um texto, ler um livro e apenas ler um livro, limpar a casa e apenas limpar a casa. Ou posso aproveitar cada ação para me engajar em algum treinamento, para desenvolver qualidades corporais e mentais que serão utilizadas em muitos outros contextos. E em vez de exercitar apenas o piano exercito tocar minha vida inteira de outro modo. Vinculo cada processo musical com um desafio específico de proporção muito maior. Vou me direcionando de um modo que se torna necessário mudar boa parte da vida para conseguir tocar a Ballada n. 1, ou preparar aquele bolo perfeito sem hesitação, ou escrever mais precisamente, ou pintar de um modo verdadeiramente espontâneo… Qualquer coisa pode servir para espelhar a vida, como um mecanismo orgânico de biofeedback e auto-regulação. É quando relaxo que o traço sai perfeito, a melodia ganha em sentimento e as palavras parecem mais fáceis. Se me desespero, o piano grita isso nos meus ouvidos e no dos outros também. É quase como se eu começasse a enxergar nitidamente meus monstros: o medo e a impaciência. O resultado técnico é o de menos. O que importa é quanto o corpo aprendeu e como ele começou a se mover por trás, em paralelo, ao redor daquele aprendizado específico. Se começo a seguir esse processo com várias coisas, a vida inteira encontra o seu propósito novamente, o de ser um treinamento incessante.

Odeio lutar. Luta, para mim, é sempre o último recurso. Então preciso continuar com o treino, justamente para não ter que lutar.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Verborragia

Queria que alguém entrasse agora no meu quarto com uma bandeja de qualquer comida gostosa e um copão de mate com limão. Nem me importaria que fosse um fantasma. Queria que toda a marcenaria da casa estivesse pronta e eu não precisasse mais me refugiar aqui na cama para ler, escrever, desenhar e estudar. Minhas costas agradeceriam.

Ainda pouco observei a Lua cheia pelo telescópio. Passei algumas horas tentando tirar uma boa foto dela com o celular, não é tarefa fácil. Tentei observar Júpter e algumas estrelas próximas mas, com plenilúnio, qualquer observação que não seja da própria Lua parece impossível. Apesar de estar fazendo uma bela noite, queria que estivesse chovendo. O céu assim limpo, com essa lua enorme ofuscando as milhares de estrelinhas orvalhadas, me faz sentir desamparo e o dobro do frio. Mas, ao menos isso, faz frio e eu adoro. Lua cheia raramente me faz bem, mas essa época do ano é maravilhosa, devolve minha sensação de paz. Combina com preto e botas e jaquetas. Sinto mais vontade de fazer coisas e realizar sonhos.

Comecei um novo diário de desenhos hoje. Assim que eu puder organizar todos os livros e materiais empilhados outra vez espero conseguir organizar o resto de todas as pendências. Há músicas para terminar, outras para ensaiar, outras para estudar. Preciso atualizar o portfólio e a lista de contatos. Tem uma pilha de assuntos para escrever e roteiros para organizar. Finalmente, meu romance começa a receber o combustível necessário e já sinto até vontade de começar as ilustrações. São tantas idéias que vou me sentindo transbordar. Minha história em quadrinhos e meu livrinho de poemas também aguardam ansiosos pelo momento do parto. Mas, esse é o ano de encerrar assuntos mais longos, começados há um tempão. Não estarei livre só para a Música, a Literatura e a Ilustração exclusivamente. A graduação vai se aproximando e minha casa começa a ficar mais a minha cara, praticamente em nada lembra o cenário de toda a minha infância e adolescência.

A insônia continua firme. O horário do meu estado de vigília é noturno, por isso tenho dificuldade para dormir à noite. E essa é só uma das insanidades que viver em sociedade nos causa. Faz um tempo que os pesadelos constantes desistiram de mim, mas o sono continua chegando em horas inoportunas. Estou cansada, mas confiante.

As pessoas continuam não falando a mesma língua que eu e achando que compreendem bem o que digo, o que penso... Continuam confundindo sinceridade e liberdade de expressão com falta de bom senso e implicância. Meu interesse em explicar continua cada vez menor. Estar sozinha, por minha própria conta, já foi um terror, no entanto, é tão bem vindo agora. E cada um colhe de mim exatamente o que semeou. Acredito cada vez menos no que ouço dos outros. Saber me interessa, não acreditar. E sei mais pela minha experiência direta do que através de discursos e idéias sem qualquer aplicação.

Acho cada vez mais insano o ódio institucionalizado pelo amor do outro: o ciúme; e o sentimento de posse e controle que são as bases de toda essa loucura decadente. Observar as estrelas talvez esteja me deixando um pouco mais lunática, trazendo mais pensamentos que tanto me afastam quanto me aproximam do convívio social. Diminui em quantidade, mas aumenta enormemente em qualidade. Os amigos pedem fotos do céu, mas o que são fotos diante da experiência de olhar diretamente para o infinito? Sem palavras. Compreendo o significado do silêncio, do Zen e de totalidade. Meus problemas, minhas vontades, se desfazem por alguns momentos. Parecem tão bestas e minha vida tão sem sentido. Ao mesmo tempo, o meu problema é o maior do mundo, porque é o meu, e sem mim o universo seria completamente diferente, porque sou eu.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Tão contrário a si

Lá estava ela, em seu cavalo negro, aljava nas costas, imóvel, bem em frente ao portal do vilarejo onde ele vivia com os seus velhos pais. Estava muito longe de sua costumeira rota e não saberia dizer há quanto tempo permanecia ali. O trajeto passou pelos seus olhos como se tivesse sonhado.

Mas era real! Ela estava naquele lugar! E lá vivia o bardo! O bardo que agora pretendia ser mestre. Ela sabia que era ao lado da casa amarela. E sabia disso do mesmo modo que soubera de tudo o mais. Sabia por ser a raposa que era. Ele jamais indicaria o caminho. Apenas mentiu e omitiu em todos os encontros, como um bom ladino. E isso devia ter sido suficiente para ela sequer cogitar a possibilidade de fazer aquilo agora.

Tarde demais.

Ainda que fosse preciso viver e deixar morrer, as intenções ali contrariavam este seu mantra. Ela pretendia entender, para dizer o mínimo. Pretendia tentar uma ação grandiosa, ser magnânima. E oferecer um nome, uma vida, um coração...  "Ele sempre mentiu", lembrou-se subitamente. "Desde o princípio. Mas, por que razão? Por que alguém agiria assim? Num dia sorrisos, no outro um completo estranho." O que ela havia feito, primeiramente, para justificar isso?

Apenas se enganou, na verdade. Apenas acreditou, como a platéia do mágico. A caixa sempre esteve vazia...

Um vento frio soprou em seu rosto quente. Suas bochechas ferviam. Sentiu as lágrimas e as matou antes de caírem. Então, friamente, fez questão de lembrar. Lembrou da primeira vez que leu seu nome no papel e de como teve dúvidas quanto à pronúncia correta. Lembrou de como saiu de casa para encontrá-lo, praguejando e amaldiçoando o calor que fazia. Lembrou da estranha sensação de familiaridade quando viu seu rosto. Então, lembrou que nem bem havia passado uma lua e ele lhe enviou uma mensagem, perguntando se haveria disponibilidade para ir ao seu encontro. Mas, logo em seguida cancelou a proposta. Ela lembrou perfeitamente bem de como se sentiu. E lembrou que aquela foi apenas a primeira das inúmeras vezes que ele pareceu brincar. Se fizesse um pequeno esforço, era até mesmo capaz de recordar quantas foram e todos os detalhes das situações posteriores. Mas, para que? Já tinha o suficiente.

Ela não devia estar ali. Entre os detalhes descobertos estava a donzela prometida. E isso era de crucial importância. Não para ela. Nunca levou promessas a sério. Aprendeu a amar total e profundamente, de tal forma que sabia separar as coisas. Amor tinha mais a ver com amizade e liberdade do que com casamentos, contratos e promessas. Mas, o fato poderia indicar as origens de sua crueldade.

A dúvida rachava seu espírito em dois. O corvo da hesitação rondava seu peito. As perguntas congelavam suas ações. "E a familiaridade?" Não encaixava. Não lhe entrava na cabeça. Não fazia o menor sentido. Se havia aquilo desde o princípio, a donzela, a promessa, o conto de fadas, se isso era um problema para ele, então por que procurá-la, primeiramente? Por que enviar mensagens insistentes? Ir ao seu encontro no dia seguinte? Por que se aproximar e em seguida punir em cada palavra ou ato? Era por, simplesmente, permanecer ali, lembrando-o da impossibilidade de seu projeto de perfeição, da sua infidelidade? Ele não merecia sequer ser lembrado. Isso era tão óbvio quanto absurdo, mas e a droga da familiaridade de seus olhos? E a sensação de conhecê-lo de tempos tão antigos? O que fazer com aquilo?

Ofertar um nome, uma vida, e um coração. As mentiras a entristeceram, em cada um dos dias desde o solstício de verão. E agora, ali, em seu cavalo negro, cabelos ao vento, arco na mão, olhar flamejante, já estavam na quarta lua desde o equinócio de outono.

Resolveu voltar. Subir a pequena colina e galopar de volta, antes que notassem a forasteira. Antes que agravasse o que havia acabado de ocorrer. Era preciso aceitar o dilema, é preferível viver a morrer com ele. Sempre ser a luz, nunca a mariposa, não era fácil. E teve esperanças de chegar ao fim daquela história ali mesmo. Mas, não assim. Havia planejado um outro desfecho. Um em que saberia onde estava o erro e todos ficariam felizes. Havia ido até lá para isso, mas já não importava mais. Ele a procurou, somente para ignorá-la depois. Ela havia sido apenas a sua plateia, havia apenas envaidecido sua virilidade, fora usada e descartada. Seriam amigos, sim, só quando ele quisesse lhe cantar uma canção. Ela jamais concordaria com esses termos! Então, guardou de volta os seus desabafos, as suas verdades e confissões. Engoliu sua amizade, seu carinho, suas lágrimas e seu ódio. Prendeu o arco ao lado da aljava. Guardou a carta, quatro longas páginas eloquentes, no casaco vermelho e voltou, tão rápida quanto a flecha que havia acabado de disparar.

Em alguns segundos, seria como se apenas tivesse sonhado. Não haveriam testemunhas, nem canções. Mas, ele saberia. Mais tarde, quando a noite terminasse... Saberia que não se brinca com fogo sem se chamuscar. Saberia que ela estivera ali, diante de sua pequena casa, desejando ofertar-lhe um coração, uma vida e um nome de três letras. Saberia que a mentira só acende a verdade. E por isso, saberia que ela conhecia suas canções não cantadas, sua prometida, sua família, seus parceiros, seu planos, seus passos... E que incêndios acontecem. 

terça-feira, 16 de abril de 2013

Surdos Mudos


Já compartilhei esse vídeo do The Amazing Atheist uma infinidade de vezes em vários lugares, mas ele sempre parece atual e pertinente. Uma pena.

Em tempo, o mesmo vale para esse aqui.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

FAQ exclusivo para bons entendedores

Aquela voz, sotaque castellano ou britânico, duas ou três palavras mágicas, bater um papinho, saber usar a língua... Surpresa. Olho no olho, dedos, mãos, braços, força... Beleza, mais ainda: charme, saber usar o que tem. Peito, delicadeza, respiração, dizer a coisa certa, do jeito certo, na hora certa, bem baixo nos ouvidos... Cheiro quente, cheiro de noite, toque. Porte. Elegância. Atenção. Foco. Cuidado. Consideração. Amizade. Carinho. Cabelos, quanto mais melhor. Pelos, apenas o suficiente. Morder, pegar, prender, atacar e fazer o que quiser e fazer confissões e fazer confessar... Decisão, atitude, ousadia, carisma, autenticidade, sinceridade, desprendimento, poder. Tem que haver profunda admiração. Interesse, disponibilidade, doação, tempo... Tempo... Tempo! Ritmo. Uma piscada de olhos, uma olhada para a frente, dentes... sorriso... Preparo. Insistência, persistência... Uma vontade de ferro, vontade de ficar, vontade voraz, vontade inegável! E, só para não deixar dúvidas, aquele solo de guitarra, Blues e... aquela voz. O resto é detalhe.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O tempo é fluido por aqui.

Já escrevi sobre isso muitas vezes, eu sei, mas novamente essa volta a ser uma questão. Na verdade, o DDA torna impossível qualquer desfecho conclusivo sobre este assunto e assim, ele nunca deixou de estar em pauta por aqui. É tanta coisa e são tantas as distrações... O inferno é mesmo os outros. E toda vez que relembro isto aqui (que, a propósito, já foi publicado em Coisas Frágeis vol.2) sendo lido na minha frente pelo mestre dos sonhos himself, ainda sinto arrepios. Gente demais, carros demais. E com isso não há espaço, luxo, calma, ou beleza. Todos os dias, milhares de pensamentos tagarelam sem parar, milhares de cabeças pensam juntas, produzem juntas, confabulam juntas e, princialmente umas contra as outras. E assim caminha a humanidade. Novas infinitas informações a cada segundo. Os carros passam loucos, as pessoas andam com pressa, itens são produzidos em série. Negócios são fechados, os telefones tocam, as mensagens chegam e as engrenagens não param. "Às vezes parece que está tudo parado.". "Carol, nada para." Tudo e todos disputam a sua atenção. Os sentimentos e as palavras são vomitadas, nunca oferecidas, ou digeridas, não há foco e vivemos como se não fossemos morrer a qualquer segundo. E morremos como se nunca tívessemos vivido. A mente, esse relógio de pêndulo, está angustiada com o passado, ansiosa pelo futuro, enquanto o corpo, a vida, só pode existir neste exato momento. Mas, deixamos as melhores idéias no plano dos sonhos, deixamos as pessoas de lado, deixamos de digerir com calma o que nos alimenta e engrandece, deixamos de saborear, deixamos de viver  propriamente o momento, viramos amantes das horas, das teorias, das discussões e dos sonhos não realizados. Vivemos mais na ágora do que no agora. Queremos tudo e quando temos já descartamos! Nos conformamos, nos contentamos com o que dá menos trabalho, com aquilo que vamos levando, empurrando com a barriga. Assim, ficamos pela superfície mesmo, até que alguma outra coisa nos chame mais a atenção. Se aprofundar é ter que lidar com o Balrog, então, permanecemos nesse sexo tântrico, nunca estamos satisfeitos. Fica para depois o que dá trabalho, a dificuldade, o que nos faz suar, sangrar, chorar, por fim, sorrir. E estamos tão cheios de tanto peso inútil, que sentimos dores inúteis e qualquer carga a mais nos estoura, quebra. Somos tão frágeis que nem notamos a força, a ironia, das coisas frágeis: quebram, mas também cortam. E no meio de tanto corte, tanta luta, a delicadeza é igualmente esmagada e partida em mil pedaços. O horror, o horror... A  pressa... Uma vez, a única chance. Não há personagem sem sangue na espada. E nessa guerra, todos saem perdendo. Perdemos o tato, o toque, o beijo, o aroma, a troca, as risadas. Perdemos. Mas, se perdemos é porque existe. E se existe deve estar por aí, em algum lugar, mesmo transformado. Pois, nada se perde... Assim, focando no princípio da impenetrabilidade: "dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo", que para uns define o próprio conceito de solidez, para outros apenas aponta uma consequência dela, a gente acaba deixando passar o outro lado desta lei: um corpo também não pode ocupar dois espaços num só tempo, nem dois tempos num só espaço.