Estava hoje me desesperando com a bagunça que está a minha casa e lembrei de algo em que sempre penso toda vez que o caos vai se esgueirando e tomando espaço por aqui. Durante meu tempo na Escola de Belas Artes, aquele período negro, estudei com um professor de filosofia excelente. Ele viajava o mundo todo e todas as fotos que mostrava nas aulas eram dele mesmo. Era um exemplo de leveza, organizção e equilíbrio. Não era do tipo que sabia apenas porque leu ou ouviu alguém falando. Conhecia da melhor forma: pela experiência direta. E, portanto, falava com muita autoridade sobre o que procurava nos apresentar. Suas aulas eram às oito da manhã, lááááááá em Mordor e eu não tinha carro, nem águia gigante, precisava pegar dois ônibus, mas às sete estava lá e nunca perdi uma aula sequer. Minha vida caía em queda livre para o fundo do poço e aquele era um dos poucos professores que eu admirava ali. Ouvia cada palavra dele com todos os meus sentidos. Anotava tudo depois da aula. E um dia ele comentava sobre uma de suas idas à Grécia e sobre a organização que as viagens demandavam, pois ele estava longe de ser rico. No meio de seus comentários disse uma das lições que mais trago comigo: se uma pessoa tem uma mala bagunçada, essa é a coisa mais organizada que ela tem na vida, é o menor dos seus problemas. E lembrar disso me leva agora ao drama desses últimos meses desde o fim da obra.
A necessidade de um marceneiro começa a entrar em estado de emergência. A falta de tempo está me esmagando feito uva, porque vou fazendo tudo meio mais ou menos. Mas falta de tempo também é um sintoma de que me descuidei e a sujeira está embaçando os vidros da minha janela. Quando a vida começa a ficar caótica ou o sentido das coisas se perde, o sintoma mais claro é a bagunça que fica a casa. Eu estou longe de me deprimir ou surtar, mas já começo a largar papéis empilhados na prancheta e a ser mais displicente com a limpeza, lavo minha louça sem muita atenção, as varridas ficam mais escassas, como se eu não confiasse mais no propósito da limpeza. O olhar fica vago, vou a outro cômodo e esqueço o que fui fazer lá. Não corro com o mesmo entusiasmo. Saio com o cabelo bagunçado, deixo para me arrumar no último minuto e não uso perfume. Aqui, no microcosmo da minha casa, acontece o que em breve acontecerá com todos os âmbitos da minha realidade. Aqui eu posso observar minha mente começando a se perder, meu corpo começando a entortar. E aqui mesmo eu posso redirecionar tudo com a vassoura, a esponja e o cuidado de guardar cada coisa em seu lugar, na medida do possível. Aumento o vigor, corto a ilusão, sorrio. Pois, se deixar, a confusão cresce para além da casa, e aí fica bem mais difícil encontrar depois algum pensamento Zen para retomar a sobriedade.
O mais importante disso é saber que posso fazer um chá e apenas fazer um chá, escrever um texto e apenas escrever um texto, ler um livro e apenas ler um livro, limpar a casa e apenas limpar a casa. Ou posso aproveitar cada ação para me engajar em algum treinamento, para desenvolver qualidades corporais e mentais que serão utilizadas em muitos outros contextos. E em vez de exercitar apenas o piano exercito tocar minha vida inteira de outro modo. Vinculo cada processo musical com um desafio específico de proporção muito maior. Vou me direcionando de um modo que se torna necessário mudar boa parte da vida para conseguir tocar a Ballada n. 1, ou preparar aquele bolo perfeito sem hesitação, ou escrever mais precisamente, ou pintar de um modo verdadeiramente espontâneo… Qualquer coisa pode servir para espelhar a vida, como um mecanismo orgânico de biofeedback e auto-regulação. É quando relaxo que o traço sai perfeito, a melodia ganha em sentimento e as palavras parecem mais fáceis. Se me desespero, o piano grita isso nos meus ouvidos e no dos outros também. É quase como se eu começasse a enxergar nitidamente meus monstros: o medo e a impaciência. O resultado técnico é o de menos. O que importa é quanto o corpo aprendeu e como ele começou a se mover por trás, em paralelo, ao redor daquele aprendizado específico. Se começo a seguir esse processo com várias coisas, a vida inteira encontra o seu propósito novamente, o de ser um treinamento incessante.
Odeio lutar. Luta, para mim, é sempre o último recurso. Então preciso continuar com o treino, justamente para não ter que lutar.
A necessidade de um marceneiro começa a entrar em estado de emergência. A falta de tempo está me esmagando feito uva, porque vou fazendo tudo meio mais ou menos. Mas falta de tempo também é um sintoma de que me descuidei e a sujeira está embaçando os vidros da minha janela. Quando a vida começa a ficar caótica ou o sentido das coisas se perde, o sintoma mais claro é a bagunça que fica a casa. Eu estou longe de me deprimir ou surtar, mas já começo a largar papéis empilhados na prancheta e a ser mais displicente com a limpeza, lavo minha louça sem muita atenção, as varridas ficam mais escassas, como se eu não confiasse mais no propósito da limpeza. O olhar fica vago, vou a outro cômodo e esqueço o que fui fazer lá. Não corro com o mesmo entusiasmo. Saio com o cabelo bagunçado, deixo para me arrumar no último minuto e não uso perfume. Aqui, no microcosmo da minha casa, acontece o que em breve acontecerá com todos os âmbitos da minha realidade. Aqui eu posso observar minha mente começando a se perder, meu corpo começando a entortar. E aqui mesmo eu posso redirecionar tudo com a vassoura, a esponja e o cuidado de guardar cada coisa em seu lugar, na medida do possível. Aumento o vigor, corto a ilusão, sorrio. Pois, se deixar, a confusão cresce para além da casa, e aí fica bem mais difícil encontrar depois algum pensamento Zen para retomar a sobriedade.
O mais importante disso é saber que posso fazer um chá e apenas fazer um chá, escrever um texto e apenas escrever um texto, ler um livro e apenas ler um livro, limpar a casa e apenas limpar a casa. Ou posso aproveitar cada ação para me engajar em algum treinamento, para desenvolver qualidades corporais e mentais que serão utilizadas em muitos outros contextos. E em vez de exercitar apenas o piano exercito tocar minha vida inteira de outro modo. Vinculo cada processo musical com um desafio específico de proporção muito maior. Vou me direcionando de um modo que se torna necessário mudar boa parte da vida para conseguir tocar a Ballada n. 1, ou preparar aquele bolo perfeito sem hesitação, ou escrever mais precisamente, ou pintar de um modo verdadeiramente espontâneo… Qualquer coisa pode servir para espelhar a vida, como um mecanismo orgânico de biofeedback e auto-regulação. É quando relaxo que o traço sai perfeito, a melodia ganha em sentimento e as palavras parecem mais fáceis. Se me desespero, o piano grita isso nos meus ouvidos e no dos outros também. É quase como se eu começasse a enxergar nitidamente meus monstros: o medo e a impaciência. O resultado técnico é o de menos. O que importa é quanto o corpo aprendeu e como ele começou a se mover por trás, em paralelo, ao redor daquele aprendizado específico. Se começo a seguir esse processo com várias coisas, a vida inteira encontra o seu propósito novamente, o de ser um treinamento incessante.
Odeio lutar. Luta, para mim, é sempre o último recurso. Então preciso continuar com o treino, justamente para não ter que lutar.