quarta-feira, 13 de julho de 2011

A Hora das Frutas

Depois do chá eu ia até o salão vermelho rodeado de janelas com arcos alemães e jardineiras de gerânios, que se abriam para o sul e para o oeste, onde ficava o meu piano. Subia numa daquelas cadeiras de ferros retorcidos, art nouveau, para ver se a janela do quarto do meu primo Rafael, na casa dos fundos, estava aberta. Quando estava, tudo bem, era só ir até lá, chamar por ele e pronto, começávamos a decidir se construiríamos casinhas de madeira para onde fugíamos de casa à noite com sacos de biscoito, se caçaríamos tesouro pelo quintal, se faríamos pista de corrida de chapinhas, ou as experiências do meu livro de Ciências, se criaríamos a Nova Terra com as plantas, pedras e a água das torneiras do quintal, ou se faríamos coisas mais simples como brincar de pique esconde, jogar bolinha de gude, pegar frutas para a vovó fazer geléia, ajudá-la a polir a prataria, tomar banho de piscina, fazer e soltar pipas, essas coisas. Mas, se o Rafa ainda estivesse dormindo, eu teria de esperar com os meus desenhos, minhas músicas, meus livros ou meus poemas. A espera poderia durar até meia hora... Uma eternidade.

Às nove era a hora de comer maçãs, tangerinas, pêssegos, abacate, bananas, laranjas, uvas, caquis, frutas do conde, gelatinas, iogurte. Geralmente era a minha avó que chamava para isso, a casa dela também ficava ao fundo, logo depois do caminho de pedras entre as árvores do jardim, do lado esquerdo da casa do irmão dela, onde morava o Rafa. Ela sempre começava a me berrar no mesmo horário. Eu passava por aquele caminho aos saltos e gostava de arrancar uma folhinha roxa de uma arvorezinha que liberava um visgo branco... Lembro do dia que pensei sobre como essa atitude era besta e resolvi parar de arrancar folhas à toa.

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