quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Distanciados

Acordei com a voz viceral do mestre Steven Tyler cantando o finalzinho da Dream On, na cabeça. E ela continua aqui ainda, aos berros, até agora. DREAM ON! DREAM ON! DREAM ON! Soando como um alarme durante a monotonia do meu dia. E embora sonho tenha muito a ver com sono, com repressão, com a vida não vivida, com o não realizado, também penso que é o grande combustível da chama que nos impele à ação.

O sonhar pode até ser um pouco dramático e triste, ainda que possível de ser revertido à nosso favor, mas triste e dramático de verdade é aquele estágio, numa determinada situação, em que chegamos ao ponto de precisar berrar. Isso sim movimenta as profundezas da alma. Talvez até por essa razão gritos combinem tão bem com Blues - o pai de uma família de estilos que expressa em música grande parte do que não consigo dizer em palavras. Não é curioso? Se começamos a levantar a voz é porque precisamos nos fazer entender e parece estar havendo uma falha na comunicação. O outro não compreende ou concorda com aquilo o que tentamos expor. E é exatamente o que se dá quando tentamos nos comunicar com um estrangeiro, mas não falamos a mesma língua. Como se levantar a voz resolvesse. E também é assim quando falamos com quem tem problemas auditivos, quando o telefone está falhando, ou quando locutor e ouvinte estão distantes um do outro. Precisamos de atenção, mas ela foi perdida.

Não à toa discórdia, ao pé da letra, é o nome dado ao que acontece quando dois corações não batem juntos. E essa necessidade de se fazer entender está ligada à nossa parte mais sensível, essa que nos lembra que estamos vivos, que o sangue está correndo, mesmo quando agimos feito zumbi.

Gritar é um ato catártico, quando o significado das palavras perde completamente a importância e a ditadura do  raciocínio leva um golpe de estado. É uma gota d'água em águas calmas, uma explosão, um despertador no silêncio da manhã. Talvez por isso esteja assim tão associado à dor, é puro sentimento. E tanto dores quanto gritos ligam-se à vida. Gritamos porque estamos vivos, existimos, estamos ali e precisamos lembrar isso à alguém que está longe. E muitas vezes esse alguém somos nós mesmos. 

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