terça-feira, 21 de junho de 2022

Canção do Ermitão

Quanto mais penso, menos faço, menos quero e menos sou. 
 
Tenho incontáveis personagens, cada um com sua roupa, seus sapatos, sua maquiagem, seus cabelos, suas palavras e seus trejeitos próprios. Fujo. Dou a volta ao mundo. Procuro por quem está atrás de todo esse figurino. Por quem está puxando todas as cordinhas. E quando penso que encontrei a titereira, que já estou bem longe de casa, de todos os meus problemas, eles assobiam e acenam, vêm passear ao meu lado, puxam um papo. Eu digo que estão certos, ou que estão errados. Dou conselhos. Ouço. Planejo quando, onde e para quê. Julgo, condeno e absolvo tudo, cada ação, cada fato. E sempre procuro outra coisa. Continuo em frente. Mas, é sempre andando em frente que não se chega muito longe. Encontrar é uma questão de descuido. Então, de repente, canso, largo pra lá ou tropeço e apenas percebo. Apenas observo. Paro com o papo furado, paro de passear com os problemas inexistentes e noto que estou dentro de casa e eu sou a artista. Deixo de dar voltas. De fugir. Noto que não tenho trejeitos, nem palavras, nem cabelos, maquiagem, sapatos, ou roupas. Tudo pertence a incontáveis personagens que meus pensamentos escondem para eles mesmos brincarem de procurar. E quando a brincadeira vai cansando, penso cada vez menos. 
 
E quanto menos penso, mais faço, mais quero e mais sou.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Vão se catar, vão.

Arte não é cara. Caro são os papéis, as telas, as tintas, os pincéis, as massas, as estecas, materiais diversos, o equipamento digital, o programa, as impressões, os instrumentos, a manutenção de cada coisa, os livros, os cursos, a conta de luz, a internet, o condomínio, a comida, os sapatos, as roupas, a gasolina, o IPVA, o IPTU, o IR... Arte, não. Arte é baratinha. 

terça-feira, 24 de maio de 2022

Optchá!

Não dou nada pela metade. Não sinto pela metade. Aceito todas as pessoas com quem me importo, com todas as suas bagagens, ainda que muita coisa me incomode, que me contrarie. Porque penso que qualquer tipo de julgamento não cabe a mim. Se eu gosto, se me importo, é 100%. Por isso, desisto de pessoas que não estão prontas para me aceitar com tudo o que trago comigo. Fim. Nessa leva vai família, amigo, conhecido, colega e afetos diversos... Até aqui, talvez seja sempre a coisa mais difícil que volta e meia preciso fazer, mas é também a mais importante. Tem nada mais desgastante do que ter conversas difíceis com pessoas que não estão dispostas a ouvir de verdade, procurar pessoas que não têm interesse real na minha presença, só aceitam se eu der algo específico de mim, nada diferente disso. Faço o que posso para ganhar a apreciação de quem eu gosto, mas em alguns casos é só perda de tempo, energia, saúde mental e física.

Quando resolvo seguir por onde quero, nem todo mundo está pronto para vir comigo. Isso não significa que sou eu que preciso mudar quem sou e o que quero fazer, significa que se alguém não está pronto ou disposto a me acompanhar, que faça o que tem vontade e me deixe em paz. Se sou excluída, insultada, esquecida ou ignorada pelas pessoas a quem dedico o meu tempo, ou se noto que estou numa armadilha, que algo está sendo feito intencionalmente para me atingir, não vejo razão para continuar me importando. A verdade é que não sou para todo mundo e nem todos são para mim. E isso é que torna as reais parcerias, as amizades e amores correspondidos tão especiais.

Eu sei o meu valor, porque sei do que sou capaz por quem amo. Então, separo quem simplesmente para se eu parar de fazer as coisas acontecerem, daqueles que remam junto. E observo bem quem são aqueles que se eu desaparecer, não me procuram. Aqueles que quando eu paro de me esforçar, a relação termina. Aqueles que quando eu paro de enviar mensagens, não há comunicação por semanas. Aqueles que se eu não vou até eles, não movem um milímetro por minha causa. Aqueles que jamais tomaram qualquer iniciativa para que coisas boas acontecessem entre nós. Aqueles que tentam me controlar, que me perseguem, que se entristecem com as minhas alegrias. E deixo pra lá. Isso não significa que eu arruinei algo de bom, significa que a única coisa que sustentava essa troca era a energia que só eu dava para mantê-la. Isso não é amor, é apego. É dar chance pra quem não merece. E eu sei do que sou capaz, e, portanto sei também que mereço mais.

No momento, não estou bem, preciso de ajuda para não seguir de novo por um caminho que já conheço de outros tempos. Preciso de ajuda urgentemente. Agora. Mas, pra notar esse tipo de coisa, parece que chegar perto, olhar nos olhos, não foi suficiente... E tenho especial dificuldade com isso: pedir... falar dos meus problemas...

É necessário proteger a própria energia a qualquer custo, pois tempo e energia são limitados. Não sou heroína, não tenho que ser de ferro, não sou responsável por salvar ninguém ou sequer convencer as pessoas a melhorar. Especialmente quando quem precisa de forças sou eu. Não é trabalho meu existir para as pessoas, viver me desdobrando por elas e dar a elas a minha vida. Preciso da companhia de pessoas saudáveis, prósperas, reais, proativas, verdadeiras e completas, que têm coragem para enfrentar seja o que for e que fazem o que querem de suas vidas, sem responsabilizar o destino por suas derrotas.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

The Great Divide

Ficar sem dinheiro é difícil, ser educado financeiramente é difícil. Estar insatisfeito com o próprio corpo é difícil, ter uma vida saudável é difícil. Ser ignorante é difícil, estudar é difícil. Criar é difícil, aceitar o que já existe é difícil. Ser admirável é difícil, ser desprezível é difícil. Se ausentar é difícil, conviver é difícil. A comunicação é difícil, não se comunicar é difícil. Amar é difícil, se fechar é difícil. Dividir a vida com gente problemática é difícil, dividir com gente simples é difícil. Ter amigos é difícil, se isolar é difícil. Seguir convenções é difícil, ignorar regras é difícil. Viver como esperam é difícil, viver como nos faz feliz é difícil. Estar infeliz é difícil, manter a felicidade é difícil. Assumir um dos muitos caminhos profissionais já existentes é difícil, empreender por conta própria é difícil. Abandonar é difícil, cuidar é difícil. Não ter nada é difícil, gerenciar o que se tem é difícil. Viver no meio da bagunça é difícil, organizar tudo é difícil. Aceitar é difícil, se rebelar é difícil. Depender dos outros é difícil, cuidar da própria vida é difícil. Falar é difícil, ouvir é difícil. Se aproximar é difícil, se afastar é difícil. Guiar é difícil, ser guiado é difícil. Ensinar é difícil, aprender é difícil.  Ser fácil é difícil, ser difícil é difícil. Não poder escolher é difícil e ter opções é difícil. Viver é difícil, morrer também. Tudo será difícil, nos cabe apenas decidir o difícil que queremos para nós.

domingo, 22 de maio de 2022

"Muitas coisas minhas aí."

Poucas coisas são mais frustrantes do que a sensação de que a comunicação não se estabeleceu nem mesmo depois de uma noite inteira de conversa... Uma noite? Na verdade, muitas noites e dias, meses e até anos... Pois, a conversa é sempre em torno da mesma ladainha, parece disco arranhado. Pior quando a isso se soma um sentimento de impotência diante da tragédia há muito tempo anunciada. Adultos deveriam ter como premissas, como óbvias, certas coisas que, quando sou obrigada a explicar, sempre sinto algo de bom morrer um pouco dentro de mim. É desanimador me dar ao trabalho com quem sinceramente não valoriza sequer um segundo da minha atenção, pois enquanto cada palavra é proferida, é interpretada precipitadamente e reinterpretada logo depois de serem ditas e toda essa burrice inerente da presunção e da falta de humildade vai me desanimando num nível crítico e gerando um sentimento tão ruim, que por si só deveria explicar o rumo de certas situações, simplesmente por ser a razão disso. 

A minha parte é que eu não quis algo e não fiz porque não quis e a razão para eu não querer são essas aí deitas anteriormente. E também quis outras coisas e fiz porque quis fazer e a razão para querê-las é que me faziam muito bem, apesar de também haver dificuldades. O que parece que nunca fica claro é que querer uma coisa não exclui querer outra, se as duas são boas. Uma nunca foi motivo para excluir a outra. Se alguma foi excluída é porque não me pareceu tão boa para me esforçar em mantê-la.

Mesmo que no fundo, em nome do que existe de bom, eu desejasse que tudo fosse diferente e que a proximidade fosse possível, minha atitude simples é o distanciamento de corpo e mente. Pois, sinto arrependimento quando vejo que ofereci muito além. E tenho o hábito de queimar pontes toda vez que percebo um lampejo de revanchismo sem cabimento, ameaças pretensiosas, tentativas de controle e manipulação... Enfim, quando não há comunicação.

Qualquer coisa que eu tenha decidido na minha vida, decidi porque quis, como quis e acho justo. Não devo explicações. Estou bem assim. E qualquer coisa que está acima do meu poder de decisão, eu simplesmente aceito como é. Porque não há nada que eu possa fazer. E nisso se engloba a forma como as pessoas são, a forma como me sinto diante disso, meus sentimentos, os sentimentos dos outros. Tudo isso é como é. Não tenho esperança alguma de mudar, cabe aceitar. O que não aceito é justamente alguém achar que sou obrigada a esperar, a ser paciente, a compreender, a aturar, a aceitar, a dar e a negar coisas em mim que são verdadeiras e inegáveis. Não aceito que as decisões que tomo para a minha própria vida sejam questionadas, seja por quem for. Menos ainda em tom de cobrança. Como se eu tivesse dívidas. Se dei algo, se ajudei, se fui compreensiva, se esperei um pouco, se tive empatia em algum momento, foi porque eu quis, não por obrigação. Cabe gratidão aqui, não cobrança.

Mas, às vezes as pessoas têm expectativas irreais sobre as coisas, se recusam a simplesmente ver, compreender o que acontece e responsabilizam os outros pela própria ilusão e tragédia. Acham que merecem, que existem débitos com elas, que lhe fizeram mal deliberadamente. Pouco enxergam milhões de tentativas, frustradas até, de ajuda, amor, dedicação... (Amor, meu deus!  AMOR! Algo tão rico e raro... jogado no chão e pisado porque não é do jeito que se espera.) E como crianças mimadas, se jogam no chão, esperneiam, gritam, numa ânsia desesperada de ter suas necessidades supridas, suas vontades atendidas. E nunca se perguntam por quê não têm. Mas, eu pergunto: por que, floco de neve especial, você deveria ter tudo o que quer e como quer, na hora em que quer, dos outros? Falta maturidade, sabe? Experiência de vida, falta convívio com humanos e problemas reais. Falta sair do mundo fantástico que existe dentro de suas cabeças quadradas.

Sempre me ressinto quando vejo que acabei fazendo o inadmissível: me explicar como se devesse algo. Não espero nada das pessoas, não conto com nada que venha delas, não exijo, não cobro e me sinto dolorosamente desrespeitada quando vejo que estou sendo tratada como se eu estivesse agindo assim. E o engraçado é que antes de ficar magoada eu já perdoo, simplesmente porque na verdade, tudo isso me dá muita preguiça. Mas, é aquela parada, né? Nada está parado. Tudo está sempre desmoronando. A cada episódio de perturbação, coisas que eram enormes vão ficando menores. E isso sim, algo pelo qual vale a pena se preocupar em agir a respeito, fica de lado, ignorado... é ninguém percebe que é o crucial da questão para se conseguir o que se quer.