sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Se toca...

Como o Julgamento de Páris nos ensina muito bem, cada um opta de acordo com sua própria cegueira...  E consigo reconhecer que a minha empatia e a minha piedade estão em dia quando tenho plena condição de descer a porrada em alguém que está tendo um comportamento completamente lamentável (não importa o motivo, nada justifica certas coisas), mas continuo fazendo algo de bom por essa mesma pessoa... E falo de porrada real aqui, sabe? Dessa que te deixa sem dormir em posição fetal na cama por noites inteiras... Já usei a analogia do monge e do escorpião meses atrás, anos atrás até, pela mesma razão. Mas, ei! Não sou monge algum... Só tenho uma paciência que é tão grande que alguns ainda acreditam que é infinita. Embora outros já tenham percebido que não é.

O mundo é mal e injusto, a família é um problema, a sociedade é hipócrita, o governo é corrupto, as religiões são falsas, o trabalho é demais, a escola deseduca... O primeiro sinal de maturidade é perceber que a única coisa que você pode decidir aqui é o que acontece dentro de si mesmo. Isso é responsabilizar-se pela sua felicidade, em vez de oferecê-la de bandeja para os outros. O segundo, é entender que as pessoas (QUALQUER PESSOA) só farão o que acham que é melhor para si. Quantas vidas, quebrando a cara e rastejando aos pés de reis, ainda serão necessárias para aprender a levantar e andar por sua própria conta?

Ah, também tem aquela do construtor de pontes: você constrói mil pontes, você é um construtor de pontes. Você constrói mil pontes e dá a bunda: você é um viadinho fdp. É mais ou menos isso aí. E egoísmo é quando eu penso em mim primeiro, não em você, certo? Entendi. 

 ...é o que te resta.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Mini Eu

Quando eu era criança, meu pai falava que era o Superman e a única coisa que me ocorria perguntar era: "Então onde tá a roupa?" Ouvia muito aquele disco do Dire Straits, "Brother in Arms" e achava que era Lulu Santos em Inglês. Queria ser cientista, porque para mim, um laboratório era um negócio de vidro onde os líquidos coloridos ficavam passando e dando voltas até virar fumaça. Passava um tempão acompanhando as formigas entrarem e saírem do formigueiro e ficava muito intrigada quando surgia um cogumelo no quintal. Cumprimentava as árvores e fiz uma promessa de nunca arrancar folhas a toa. Enterrava coisas para só desenterrá-las quando fizesse 10 anos. Vendia as frutas do quintal pra comprar papel fino, linha, cola de madeira e fazer pipa. Sempre escolhia picolé de uva e sacolé de groselha. Escrevia carta para o Papai Noel pedindo giz pastel e bicicleta. Reclamava quando minha mãe interrompia o queimado mandando subir e tomar banho, sendo que eu nem tinha brincado com terra! Montava uma casinha de tábuas no quintal, levava uma vela e Skiny e fugia de casa pra lá. Minha vó dava dinheiro para que o cachorro e eu pudéssemos tomar sorvete de casquinha. Tocava piano em casamentos e sentia muita vergonha disso. Vendia desenhos na escola e fazia a capa dos trabalhos de pesquisa dos colegas. Tentei escrever uma história onde não acontecia nada de ruim. Tinha medo do Freddy Krueger e do Chuck, mas nenhum medo de fantasmas. Era apaixonada pelo Robin dos Menudos, pelo Van Damme e pelo Zé Trovão. Tinha um namorado em cada lugar que frequentava. Não entendia por quê as meninas mais velhas só conversavam sobre meninos. Acordava às cinco da manhã, fazia meu Nescau, ligava a TV e ficava esperando o SBT entrar no ar para ver os desenhos animados. Subia nas mesas do trabalho da minha avó e cantava Carinhoso. Usava botas ortopédicas e tinha muitas botas de todas as cores. Vivia com o joelho ralado. Comia uma beterraba cozida inteira sozinha. Não gostava de vinho, nem de queijo. Roubava palmito e lata de leite condensado da dispensa; quando não aguentava comer tudo, escondia dentro do piano. Não gostava de lugares muito cheios. Minha irmã era a minha boneca. Eu sempre escolhia a espada do Lion porque acendia o Olho de Thundera e meu primo Rafa usava a do He-Man. Sonhava com um rio cortando o quintal, então abria as 6 bicas ao mesmo tempo e deixava a água escorrer. Fazia contagem regressiva do dia das crianças até o dia do meu aniversário. Passava dias de chuva pintando com aquarela. Gostava de dormir na casa da minha tia. Fui dama de honra no casamento dela. Sempre ia à praia de camisa vermelha e ficava na beira da água de braços cruzados para todo mundo achar que eu era salva-vidas. Um dia eu contei para a vizinha que todas as pessoas eram monstros fantasiados. Nunca dormia bem à noite. Tinha uma coleção de chapéus. Queria sair cada dia com um penteado diferente. Tinha um monte de segredos. Não gostava de ter sardas no nariz. Sempre era a última a calçar o tênis depois do recreio. Também era a última a acabar de comer. Achava que quase ninguém gostava de mim.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

A Irmã da Esperança

Esses dias estava lembrando da minha passagem pelo Copa Studio, quando trabalhei nos cenários de Irmão do Jorel. Lembrei da dificuldade que foi chegar numa sexta e descobrir que não precisava mais voltar na segunda, depois de meses de promessas sobre carteira assinada, novos projetos e coisas assim... Me senti traída, otária, questionei minhas reais habilidades artísticas, comecei a não conseguir mais enxergar nada do que eu achava que mais sabia fazer como bom... E pior, as contas não parariam de chegar. Fora que eu estava amando participar desse desenho animado, daquela equipe... E tudo estava sendo tirado de mim. Onde estava o meu erro? O que eu não tinha visto que deveria? Meu personagem favorito era o Mendigo dos Mares, hahahahaha... um herói bem virginiano, seu superpoder é a Humildade! E isso é algo que admiro e aprendo sempre com o signo de Virgem, especialmente com aquelas pessoas que têm o Sol aí, as vantagens da humildade. Mas, digo humildade mesmo. Não uma cabeça baixa diante de autoridades ou determinadas situações, nem um comportamento passivo e negacionista de minhas habilidades. Calar e fazer nada, quando é necessário falar e agir, tem mais a ver com preguiça e covardia. Falo dessa percepção clara e honesta sobre o que está bom e o que não está, entender o meu exato valor, sem aumentá-lo, nem diminuí-lo. Reconhecendo que não sei, não entendo, não consigo ainda, que tenho limites... Isso exige maturidade, observação sincera e tranquila, exige coragem para manter os olhos bem abertos e exige abandonar o seu oposto que é a presunção. E a principal vantagem é: só isso pode tornar possível meu aprimoramento ao nível da maestria. Essa esperança, essa convicção de que ainda não está bom e dá para ser melhor é o segredo virginiano para a excelência. Que todos temos, conscientes disso ou não, em pelo menos uma área da vida e por esta área fica mais fácil entender esse conceito para aplicá-lo nas demais. Então, do meio do fundo do poço onde fiquei após aquela rejeição tão repentina, comecei a escalar de volta, pois não havia outra opção. E nesse processo de luta pela sobrevivência acabei entendendo onde minhas habilidades eram muito boas sim e onde eu precisava crescer... Ah, também descobri que o acontecido não passou de má fé e mau caratismo, na verdade. Mas, o importante é que cumpri mais um carma e só cresci com isso. A vida seguiu, como sempre.

É isso!


 

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

The Thing That Should Not Be

É tanta coisa... Sei nem por onde começar. Então, nem vou. Só quero ficar em paz, sabe? Tá tudo bem... Eu me importo, amo, sinto falta... Seria bom se fosse possível transmitir a consciência de que todos temos valor, todos somos pequenos universos, cheios de vida, ricos... mas, ninguém tem o direito de dizer ao outro o que pensar, o que fazer, o que sentir, o que é o certo, o que é bom para ele, regulando o que ele pode ou não, sob o pretexto de que ama, quer proteger, quer cuidar, tem medo de perder. E sob a ameaça de se iniciar com isso um joguinho de nervos, cheio de ardis, pequenas mentiras, tentativas de impressionar. Vai impressionar, vai conseguir o que quer, em dois tempos a máscara cai e aí? Aí é o que temos agora. Se você não acha que eu tenho o direito de sentir raiva e expressar o que penso e sinto, se o que eu tenho pra dizer não tem valor algum, se você, afogado aí em suas presunções, com nada na vida no lugar, chegou ontem e já quer me dizer insistentemente, desrespeitosamente, o que é melhor para mim, tentando calar a minha boca, perde de vez o direito à minha atenção. E é bem difícil recuperá-la nesse caso. Acho perigoso ficar para ver até onde se pode chegar com certas reações, especialmente quando o que se fala e o que se faz vive em conflito. E um erro está nessa crença de que o que você pensa é o que é a realidade, sem qualquer abertura para outras possibilidades, outro é achar que alguém é obrigado a te dar alguma coisa, atenção que seja, ou a ficar pra sempre em algum lugar. Eu sei que não sou.