Eu poderia escrever, posso e vou, incansávelmente sobre o meu favorito. Hoje é seu trigésimo aniversário, dos quais em doze deles tive a honra de estar presente. Caramba! Quanto mudou e quanto permaneceu daquele cara desajeitado, cabelos bagunçados e de aparelho nos dentes, que faltava o curso de inglês e a faculdade para bater papo e me ajudar com o peso do teclado e de tudo mais? O que ficou sem dizer, durante todo esse tempo àquele que me acompanhava de noite até a casa e me manteve pelo menos um pouco da sanidade enquanto um furacão devastava todas as minhas certezas? Tantas vezes agradeci. Repito toda vez que o encontro o quanto me considero sortuda por conhecê-lo. Já falei de todas as formas possíveis, com todos os gestos, com canções em todos os tons e modos. Com o meu silêncio. Até mesmo através de minhas escolhas e decisões. E nada pareceu dar conta de mostrar tudo o que há aqui dentro e que é direcionado exclusivamente à ele. Cada conversa é como se fosse a primeira, cada gargalhada, cada piada, até as músicas que tocamos juntos parecem novas e melhores em todas as vezes... Eu só tenho coisas boas para falar dele e é o único no mundo a quem defendo sem condições. Já me perguntaram com certo desdém: ah, então ele é perfeito? E eu só pude responder que é sim. Perfeito e muito mais. Porque até mesmo as imperfeições são apenas uma questão de perspectiva. Há claro, umas duas ou três razões para pendurá-lo de cabeça para baixo e deixá-lo assim por umas duas ou três horas. Mas, será possível? Até mesmo esses demônios são engraçados ou admiráveis, apesar de perigosos. Os sapatos são posicionados milimétricamene no centro de qualquer cômodo. Os panos de prato sempre serão os indicativos de sua presença na cozinha. As guitarras são metalmelódicamente firuladas no meio das músicas. A paciência para as pessoas é inexistente. A delicadeza com as coisas e a disposição para consertá-las são nulas. Me acorda para matar baratas e afins. E o primeiro milhão ainda não saiu. Mas, quem se importa? Se ele ouve cada uma das minhas razões para morrer e as converte em razões para matar? Se ele não me deixa dormir sem antes gargalhar com alguma de suas pérolas da meia noite? Se dele só recebo atenção, carinho e o que ele tem de melhor para dar? E se não existe alguém no mundo que eu compreenda mais, que eu ame mais, ou faça mais questão de ter por perto? Além disso, é tanta força de vontade, tanta dedicação, tanta persistência, tanta inteligência e criatividade, tantos prêmios, plágios e até censura... Só posso dizer que quando crescer, quero ser igual a ele.
terça-feira, 11 de junho de 2013
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Aos 51!
Hoje foi o aniversário do meu pai. E ele é dessas pessoas sobre quem se pode passar o resto da vida redigindo um texto de reclamações a respeito e ainda faltaria o que escrever. Mas também é dessas pessoas que quando você chega em casa está jogando Mario Kart usando capacete de verdade, berrando igual um maluco junto com sua irmã e ainda te desafia para uma partida. Logo você que, ao contrário dele, sabe jogar videogame! Também é dessas pessoas que viram uma caixa de siris vivos dentro do escritório no trabalho só pra ver a reação de quem entra. E ainda leva um sirizinho para passear no shopping amarrado por um barbante e discute com os seguranças porque "se cachorro pode, siri também tem que poder". É dessas pessoas que aparecem na sua casa com quilos de todo tipo de legumes e frutas que ele resolve plantar no quintal... Dessas que estão bem de vida, mas passam o carnaval vendendo latinha de cerveja e refrigerante na casa de praia "pra pagar a viagem". Também é dessas pessoas que param com você, sua mãe, sua irmã, o cachorro e seus amigos, de Bugre, na frente da casa do Sergei e fica berrando "Sergei, cadê você, eu vim aqui só pra te ver." Depois de já haver DISCUTIDO com aquele ser num barzinho! E também é dessas pessoas que riem das coisas mais sem graça e DO NADA fecha a cara e passa uma semana de rabugentisse sem que você saiba o que pode ter causado aquilo. E quando vai descobrir, era simplesmente por que estava chovendo e ele não podia ir jogar bola...
domingo, 26 de maio de 2013
Terreno Fértil
É... O silêncio tem os seus momentos e os seus bons sensos, assunto longo que já até comecei aqui e pretendo retomar. Mas, em geral, é nele que os monstros ganham mais força, sentem-se em casa, e dele nascem as piores confabulações. E hipóteses. Infinitamente.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Questão de Opção
Mais importante que as respostas são as perguntas. Permanecer com a pergunta e apronfudá-la dentro do coração. Não procurar por nenhuma autoridade para respondê-la, nenhum livro, ou mestre, ou guru. Nada. As melhores respostas sempre vêm com a experiência pessoal, individual, sincera e íntima. São sempre silenciosas e impossíveis de transmitir totalmente. Acredito que esta é uma das razões por que alguns dos homens e mulheres mais belos a habitar este planeta jamais escreveram uma palavra sequer sobre as verdades que descobriram. A palavra limita e engana. É sempre incompleta e com a validade vencida. Especialmente a escrita. E a vida é tão cheia de possibilidades, tantas perguntas e tantas seduções... Claro, para quem é essencialmente um aventureiro, um curioso. Não me refiro aqui aos mais conformados à superfície, às portas fechadas e aos limites da visão. Nunca poderia escrever para esses, ou lhes falar... Sempre quero dizer tanta coisa com uma simples palavra e nem nos meus discursos mais longos, nos mais repetitivos, encontro um jeito de dizer tudo, com exatidão. Aprendi a aceitar isso... E procurar outras formas de comunicar, ou só expulsar meus demônios... Mas, a curiosidade é um bom ponto de partida, desde que depois se transforme em paixão. Ser curioso é ótimo, para começar a jornada. Mas, se não vou além da curiosidade, não sinto completude. Dou apenas pulos de curiosidade em curiosidade, vivo como se fosse uma folha ao vento, um barco à deriva seguindo ao sabor das ondas, sem nunca ancorar em algum lugar. E vejo que a vida precisa ser uma busca, não apenas uma curiosidade. São muitas as perguntas, mas a busca é uma só. Quando uma pergunta se torna tão importante que passa a valer a pena dedicar a vida a ela, então ela se torna uma busca. Quando uma pergunta tem tamanha importância, tamanho significado que desejo arriscar e apostar tudo o que tenho, então ela é uma busca. A sociedade ensina: escolha o conveniente, o confortável, vá pela trilha aberta de seus antepassados e os antepassados de seus antepassados; essa é a prova, tantos milhões de pessoas já o percorreram, não pode ser o caminho errado. Mas é bom lembrar que a multidão nunca passou pela
experiência da verdade. A verdade só aconteceu a indivíduos. Sempre que há alternativas, um alarme toca dentro da minha cabeça: todas estão erradas. Então, nunca opto. Nem pelo conveniente, pelo confortável, pelo respeitável, pelo socialmente
aceito ou pelo honroso. Fico apenas com o que faz o meu coração vibrar, com o que eu gostaria de fazer, apesar de todas as conseqüências, com o que não me deixa escolha. Cometer erros não é errado, cometo todos os erros que consigo. E desse jeito acredito que aprendo mais. Só não acho válido insistir no mesmo erro. Duas vezes, é burrice. Três, já virou Alzheimer... É preciso me proteger, isso sim, dos valores de família, das pessoas decentes, de todas essa gente bem intencionadas, que gosta de praticar o bem e que está a todo instante dando opiniões sobre a minha vida, aconselhando a fazer isso ou aquilo, sem nem mesmo esperar pela pergunta! Até ouço o que têm a dizer e agradeço. Muitas vezes, eles não têm a intenção de causar mal. Mas causam! E essa é uma constatação das mais importantes. Portanto, ouço apenas o meu próprio coração. Esse é o meu único professor. Minha cabeça é meu único guia. Essa é a minha jornada e nela minha própria intuição sempre foi a melhor amiga e mestre. Porque no fim de qualquer coisa, sou apenas eu precisando lidar comigo mesma.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Caos, treino e luta.
Estava hoje me desesperando com a bagunça que está a minha casa e lembrei de algo em que sempre penso toda vez que o caos vai se esgueirando e tomando espaço por aqui. Durante meu tempo na Escola de Belas Artes, aquele período negro, estudei com um professor de filosofia excelente. Ele viajava o mundo todo e todas as fotos que mostrava nas aulas eram dele mesmo. Era um exemplo de leveza, organizção e equilíbrio. Não era do tipo que sabia apenas porque leu ou ouviu alguém falando. Conhecia da melhor forma: pela experiência direta. E, portanto, falava com muita autoridade sobre o que procurava nos apresentar. Suas aulas eram às oito da manhã, lááááááá em Mordor e eu não tinha carro, nem águia gigante, precisava pegar dois ônibus, mas às sete estava lá e nunca perdi uma aula sequer. Minha vida caía em queda livre para o fundo do poço e aquele era um dos poucos professores que eu admirava ali. Ouvia cada palavra dele com todos os meus sentidos. Anotava tudo depois da aula. E um dia ele comentava sobre uma de suas idas à Grécia e sobre a organização que as viagens demandavam, pois ele estava longe de ser rico. No meio de seus comentários disse uma das lições que mais trago comigo: se uma pessoa tem uma mala bagunçada, essa é a coisa mais organizada que ela tem na vida, é o menor dos seus problemas. E lembrar disso me leva agora ao drama desses últimos meses desde o fim da obra.
A necessidade de um marceneiro começa a entrar em estado de emergência. A falta de tempo está me esmagando feito uva, porque vou fazendo tudo meio mais ou menos. Mas falta de tempo também é um sintoma de que me descuidei e a sujeira está embaçando os vidros da minha janela. Quando a vida começa a ficar caótica ou o sentido das coisas se perde, o sintoma mais claro é a bagunça que fica a casa. Eu estou longe de me deprimir ou surtar, mas já começo a largar papéis empilhados na prancheta e a ser mais displicente com a limpeza, lavo minha louça sem muita atenção, as varridas ficam mais escassas, como se eu não confiasse mais no propósito da limpeza. O olhar fica vago, vou a outro cômodo e esqueço o que fui fazer lá. Não corro com o mesmo entusiasmo. Saio com o cabelo bagunçado, deixo para me arrumar no último minuto e não uso perfume. Aqui, no microcosmo da minha casa, acontece o que em breve acontecerá com todos os âmbitos da minha realidade. Aqui eu posso observar minha mente começando a se perder, meu corpo começando a entortar. E aqui mesmo eu posso redirecionar tudo com a vassoura, a esponja e o cuidado de guardar cada coisa em seu lugar, na medida do possível. Aumento o vigor, corto a ilusão, sorrio. Pois, se deixar, a confusão cresce para além da casa, e aí fica bem mais difícil encontrar depois algum pensamento Zen para retomar a sobriedade.
O mais importante disso é saber que posso fazer um chá e apenas fazer um chá, escrever um texto e apenas escrever um texto, ler um livro e apenas ler um livro, limpar a casa e apenas limpar a casa. Ou posso aproveitar cada ação para me engajar em algum treinamento, para desenvolver qualidades corporais e mentais que serão utilizadas em muitos outros contextos. E em vez de exercitar apenas o piano exercito tocar minha vida inteira de outro modo. Vinculo cada processo musical com um desafio específico de proporção muito maior. Vou me direcionando de um modo que se torna necessário mudar boa parte da vida para conseguir tocar a Ballada n. 1, ou preparar aquele bolo perfeito sem hesitação, ou escrever mais precisamente, ou pintar de um modo verdadeiramente espontâneo… Qualquer coisa pode servir para espelhar a vida, como um mecanismo orgânico de biofeedback e auto-regulação. É quando relaxo que o traço sai perfeito, a melodia ganha em sentimento e as palavras parecem mais fáceis. Se me desespero, o piano grita isso nos meus ouvidos e no dos outros também. É quase como se eu começasse a enxergar nitidamente meus monstros: o medo e a impaciência. O resultado técnico é o de menos. O que importa é quanto o corpo aprendeu e como ele começou a se mover por trás, em paralelo, ao redor daquele aprendizado específico. Se começo a seguir esse processo com várias coisas, a vida inteira encontra o seu propósito novamente, o de ser um treinamento incessante.
Odeio lutar. Luta, para mim, é sempre o último recurso. Então preciso continuar com o treino, justamente para não ter que lutar.
A necessidade de um marceneiro começa a entrar em estado de emergência. A falta de tempo está me esmagando feito uva, porque vou fazendo tudo meio mais ou menos. Mas falta de tempo também é um sintoma de que me descuidei e a sujeira está embaçando os vidros da minha janela. Quando a vida começa a ficar caótica ou o sentido das coisas se perde, o sintoma mais claro é a bagunça que fica a casa. Eu estou longe de me deprimir ou surtar, mas já começo a largar papéis empilhados na prancheta e a ser mais displicente com a limpeza, lavo minha louça sem muita atenção, as varridas ficam mais escassas, como se eu não confiasse mais no propósito da limpeza. O olhar fica vago, vou a outro cômodo e esqueço o que fui fazer lá. Não corro com o mesmo entusiasmo. Saio com o cabelo bagunçado, deixo para me arrumar no último minuto e não uso perfume. Aqui, no microcosmo da minha casa, acontece o que em breve acontecerá com todos os âmbitos da minha realidade. Aqui eu posso observar minha mente começando a se perder, meu corpo começando a entortar. E aqui mesmo eu posso redirecionar tudo com a vassoura, a esponja e o cuidado de guardar cada coisa em seu lugar, na medida do possível. Aumento o vigor, corto a ilusão, sorrio. Pois, se deixar, a confusão cresce para além da casa, e aí fica bem mais difícil encontrar depois algum pensamento Zen para retomar a sobriedade.
O mais importante disso é saber que posso fazer um chá e apenas fazer um chá, escrever um texto e apenas escrever um texto, ler um livro e apenas ler um livro, limpar a casa e apenas limpar a casa. Ou posso aproveitar cada ação para me engajar em algum treinamento, para desenvolver qualidades corporais e mentais que serão utilizadas em muitos outros contextos. E em vez de exercitar apenas o piano exercito tocar minha vida inteira de outro modo. Vinculo cada processo musical com um desafio específico de proporção muito maior. Vou me direcionando de um modo que se torna necessário mudar boa parte da vida para conseguir tocar a Ballada n. 1, ou preparar aquele bolo perfeito sem hesitação, ou escrever mais precisamente, ou pintar de um modo verdadeiramente espontâneo… Qualquer coisa pode servir para espelhar a vida, como um mecanismo orgânico de biofeedback e auto-regulação. É quando relaxo que o traço sai perfeito, a melodia ganha em sentimento e as palavras parecem mais fáceis. Se me desespero, o piano grita isso nos meus ouvidos e no dos outros também. É quase como se eu começasse a enxergar nitidamente meus monstros: o medo e a impaciência. O resultado técnico é o de menos. O que importa é quanto o corpo aprendeu e como ele começou a se mover por trás, em paralelo, ao redor daquele aprendizado específico. Se começo a seguir esse processo com várias coisas, a vida inteira encontra o seu propósito novamente, o de ser um treinamento incessante.
Odeio lutar. Luta, para mim, é sempre o último recurso. Então preciso continuar com o treino, justamente para não ter que lutar.
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