Os acontecimentos vêm sempre num estouro de represa na minha vida. Deixo muitas coisas de lado e gosto de pensar que de fato elas morrem se eu não lhes der atenção. Sumirão se eu fechar os olhos. Sim, aquilo que não recebe energia morre. Mas a questão aqui é: será que eu abandono essas coisas de verdade? Deixá-las trancadas no porão não é abandonar, é guardar. É acumular. E o espaço ali não é infinito, às vezes aquela porta no fim das escadas estoura e o que quer que saia dela vem de forma violenta. Tudo de uma vez. Como represa. E geralmente não há nada que se possa fazer para evitar meu afogamento.
sexta-feira, 23 de março de 2012
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Dois
Há dois anos, nasceu o retrato, e não houve testemunhas. Fruto de um período conturbado, em que eu estava cansada de dividir meus pensamentos com quem não interessa, mas nem um pouco cansada de escrever. Fechei o outro diário, abri esse, e é engraçado como essa data me traz reflexões. Nada demais, só mais um bloguizinho para alguém transcrever a própria vida. Há um ano, eu disse que "continuo ansiosa, o dinheiro ainda é pouco, o mundo cada vez mais sem graça, as pinturas já formam pilhas acumuladas para terminar, o calor está outra vez uma tristeza e continuo esperando para ver o que vem a seguir na faculdade"; dessa vez não vou cometer este erro. Essas coisas ainda estão presentes e pouco mudou. Minha vida não se tornou, em um ano, nenhum filme de ação. Nem de comédia. Mas algumas transformações realmente profundas ocorreram e continuam ocorrendo. Não farei, portanto, comparações nem criarei expectativas. Se no ano passado eu não estava assim tão feliz por onde eu me encontrava e pelas pessoas que faziam parte da minha vida, tenho hoje a sensação de que nada mudou muito, e algumas coisas até estão bem piores para ser bem delicada. Pessoas mais saíram do que entraram. Preferi assim. A minha concha se abre cada vez menos para ver o que há e sigo imersa em meus próprios planos. A mágica da minha vida é que quando alguém se vai é por alguma iniciativa minha, e por isso não ficam saudades. Por outro lado, minha caminhada interior tem sido muito rica, assustadora, mas surpreendente, estar sozinha trouxe-me introspecção, suavidade e silencio. Embora a tristeza ainda chegue de fora. Mas gosto de olhar para este pequeno espaço de bytes e pixels, não por achar que meus textos são sensacionais ou que o Retrato é irretocável, mas por saber porque ele foi criado e o que já testemunhou. As mesmas recomendações ainda valem. Dois é só o começo.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Enquanto Houver Sol
É curioso como qualquer controle nos escapa. Principalmente quando se trata de pessoas. E fica pior quando se trata de sua própria vida. Você imagina que agora sim, depois de uma convivência conturbada seguida de briga e anos sem se falar, feitas as pazes, concedido o perdão, as coisas estarão bem melhores, o relacionamento mais fácil. Mas basta uma semana de normalidades para tudo parecer ter dado um passo atrás. Nunca entendi muito bem o que dá o direito à família de pensar que pode cuidar da sua vida melhor do que você mesmo. Mas de fato é como se comportam. Não aproveitam seu próprio tempo, não realizam seus próprios sonhos, então julgam, criticam, opinam, aconselham, sugerem. E você sequer solicitou qualquer um desses "favores". Respeito passou longe e será a primeira coisa exigida se você engrossar. Não sei de onde tiram que esta é uma via de mão única...
Mas, quem dera, o pior fosse isso. Essas situações são até bem fáceis de se lidar quando se é fiel seguidora da máxima houseana: "Pare de correr atrás, pare de se importar, seja indisponível, desapegue. Pessoas gostam do que não têm." Ok. Até aí moleza. O verdadeiro problema é que no fim é sempre você com você mesmo, procurando por um caminho, um direcionamento, um sentido. Correndo atrás de toda aquela bagagem cultural, toda a educação, todo o preparo para enfrentar a vida, coisas básicas que ficaram faltando. Exatamente aqueles cuidados que os tais conselheiros, críticos, juízes, deveriam ter transmitido nas horas certas, mas eram imaturos e incapazes demais para a tarefa.
E aí? Como superar os vícios, a ignorância e maus costumes transmitidos durante dois terços da sua vida? Como recuperar a confiança em tudo de bom em você que foi insistentemente reprovado? Como fazer algo de bom com aquilo que fizeram de você? Você elabora um plano para o seu ano. Tudo certo. Inclui na sua pretensa nova rotina todas as coisas saudáveis, úteis e interessantes para os seus objetivos. Então por anos e anos chegam os 31 de dezembro, sempre cedo demais, trazendo as suas metas fracassadas, junto com aquela vontade enorme de culpar tudo e todos, de sentar e chorar, desistir. E aí?
E aí, amigos, é pendurar a hematita no cordão, é coragem. É berrar para si que tempo é apenas um parâmetro. É soprar e abanar insistentemente a faísca, a centelha que qualquer coisinha guardada no lugar mais especial do coração possa provocar. E deixar a chama vermelha germinar de novo enquanto o Sol se levanta. Porque, todos sabemos bem, ele sempre levanta outra vez.
Mas, quem dera, o pior fosse isso. Essas situações são até bem fáceis de se lidar quando se é fiel seguidora da máxima houseana: "Pare de correr atrás, pare de se importar, seja indisponível, desapegue. Pessoas gostam do que não têm." Ok. Até aí moleza. O verdadeiro problema é que no fim é sempre você com você mesmo, procurando por um caminho, um direcionamento, um sentido. Correndo atrás de toda aquela bagagem cultural, toda a educação, todo o preparo para enfrentar a vida, coisas básicas que ficaram faltando. Exatamente aqueles cuidados que os tais conselheiros, críticos, juízes, deveriam ter transmitido nas horas certas, mas eram imaturos e incapazes demais para a tarefa.
E aí? Como superar os vícios, a ignorância e maus costumes transmitidos durante dois terços da sua vida? Como recuperar a confiança em tudo de bom em você que foi insistentemente reprovado? Como fazer algo de bom com aquilo que fizeram de você? Você elabora um plano para o seu ano. Tudo certo. Inclui na sua pretensa nova rotina todas as coisas saudáveis, úteis e interessantes para os seus objetivos. Então por anos e anos chegam os 31 de dezembro, sempre cedo demais, trazendo as suas metas fracassadas, junto com aquela vontade enorme de culpar tudo e todos, de sentar e chorar, desistir. E aí?
E aí, amigos, é pendurar a hematita no cordão, é coragem. É berrar para si que tempo é apenas um parâmetro. É soprar e abanar insistentemente a faísca, a centelha que qualquer coisinha guardada no lugar mais especial do coração possa provocar. E deixar a chama vermelha germinar de novo enquanto o Sol se levanta. Porque, todos sabemos bem, ele sempre levanta outra vez.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
"Sobra Pose e Falta Talento"
Por quanto tempo essas moscas ficarão nesse movimento sazonal, dominando ou sendo dominadas, mas sempre presentes? Por quanto tempo terei de fingir que não vejo, relevar, espantá-las? Não nasci para ser uma espanta-moscas... Na verdade não nasci para nada disso do que sou agora e não vejo de que forma posso ter um desfecho satisfatório. Como seguir em frente? Há tempo demais me esforço para não depender de ninguém e por muito tempo estive sempre fora de casa. A casa era um problema. Eu queria uma casa. Consegui. Queria companhia. Tive. Agora, a casa estranhamente passou a ser uma prisão. A companhia está entediada. Há mais tempo que a maioria das pessoas, luto para fazer algo de realmente bom, ser útil e isso prova que não sou capaz? O tempo sempre me pareceu muito curto, pois o que esperava conseguir era talvez grande demais para mim. Tive tanto medo da dor que agora ela se tornou o meu destino. Eu sou dor. E gostaria muito de poder dizer que no fim serenamente darei o primeiro passo no caminho da eternidade e blá blá blá, mas nada do que sou ficará, não serei história, não deixarei nada, tudo irá comigo. Além disso, me falta coragem e o destino da dor é doer. Infinitamente.
sábado, 5 de novembro de 2011
Um Sentido
As ruas alaranjadas pelas lâmpadas de mercúrio... Mal se vê as estrelas. Árvores contra o céu escuro... O vento frio. A tristeza no fim do dia... Os fones de ouvido. A solidão consentida... Os passos de volta para casa. Cabeças baixas, pensamentos longe. Alguém senta na janela e parte... Alguém passa sem pressa segurando sua bolsa... Alguém acende um cigarro e olha as horas... Alguém enche um copo de cerveja no bar... Alguém conta uma história. Outros riem... Alguém combina os planos para a noite. A festa, o jantar, o banho, o descanso, a bolha... Todos se movendo no fim do dia, sem rumo... Ansiando pelo nascer do sol, o dia seguinte, a segunda chance. Sonhando que estão sós... Esperando pelo ônibus e por um sentido que nunca dobra a esquina.
Assinar:
Postagens (Atom)

