sábado, 30 de abril de 2022

Votos

Não posso especificar como isso começou… Mas, as histórias contam que desde antes dos cronidas houve amor e beleza, atributos da filha do céu estrelado com as espumas do mar. E a cada um dos seus ela indicou um rumo. Daquelas praias da costa do Chipre, para mim, sua bússola sempre mostrou o Oeste. E assim, mesmo sob a tempestade que rasgava as velas, mesmo que os ventos gritassem que naqueles mares não se navega, a proa apontava insistentemente para a terra dos Leões. Desde então, pelo que sei, passados o lendário cavalo de madeira, o protesto dos icenos, a espada fincada na pedra e sabe-se lá quantas ocasiões mais, enfim, graças às artes (amor e beleza) aqui estamos hoje. 
 
Antes do tempo era tudo silêncio, mas isso não quer dizer que a música, bela, já não estivesse lá esperando para nascer. Pois, sempre houve o acalanto, sempre as cordas vibraram; mal sabíamos que dialogávamos. Não que antes não houvessem sorrisos e risadas, apenas desconhecíamos os motivos. Não que a Lua não soubesse o nome para chamar duas pessoas como se fossem uma só, apenas precisávamos chegar um pouco mais perto para entender. Não que antes não nos amássemos, apenas não havíamos ainda nos conhecido. E se as coisas têm sido assim, desde antes do que posso me lembrar, se nem mesmo a infinitude do tempo e do espaço foi capaz de nos distanciar, a essa altura, quem sou eu para contrariar o universo?

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Diário do Cachorro Vivo

Por mais umbralino que nosso mundo seja e por menos ascencionado que seja meu espírito, procuro me cercar das coisas bonitas e enriquecedoras. Invisto minutos só olhando para o céu diariamente, vou onde vale o esforço de me deslocar, falo sobre, o que e com quem o sacrifício do silêncio compensa, trabalho com o que me faz sentir feliz. Durmo com bastante sono, como com bastante fome e se me distraio é porque estou prestando bastante atenção em outra coisa. Tudo meu é na intenção de que seja maravilhoso, pra mim e para todo mundo que posso, isso é fato. 

Por mais que alguns dias sejam de cinco de espadas, outros de oito de copas, alguns de sete de ouros e outros de dois de paus, eu sigo. Na minha. Distraída de tudo mais, fazendo o que considero bom. Mas, mesmo assim, não são poucas as vezes que, no meu trajeto surgem os protestos, a má vontade, os choramingos, as tentativas de dissuasão. Vejo gente que sai do outro lado da cidade, SÓ para tentar minar algo de bom que estou fazendo. Vejo crime de falsidade ideológica e pesquisas sobre novas formas de espionar onde estou, o que faço, para onde vou, o que farei... Recebo observações a respeito do que uso,  faço, sou, de pessoas que sequer me cumprimentam. E gente, de quem o esperado é que se importe, acompanhe, se interesse e saiba da minha vida, aparece apenas para apresentar obstáculos e criar problemas.

E eu não sou nada... sei pouco, faço pouco, erro mais do que devia. Me entristeço profundamente e penso em desistir o tempo todo. Não tenho facilidade para nada. Ter as coisas que tenho, custa. Fazer o que faço, custa. Ser desta forma aqui, custa. Não percebo nada de admirável ao ponto de afetar tanto assim a vida de outras pessoas. Sei lá, deve ser esse o problema. Ou, talvez, simplesmente não estar participando dos jogos delas, me importando com o que fazem para suas vidas, reverenciando, desejando ser aceita, lutando por aprovação, amizade, amor, reconhecimento... Vai saber. De qualquer forma, é sempre curioso quando percebo esses esforços todos, porque são sempre para conseguir, na melhor das hipóteses a minha tristeza e antipatia, na pior, aumentar a minha vaidade. Nada mais.