quinta-feira, 4 de junho de 2020

Gente feliz não enche o saco

O vazio da existência, o tédio, a monotonia, poderia levar todo mundo por caminhos melhores que descarregar e projetar no outro suas carências. Mas, isso não acontece geralmente. E o mais curioso é o tanto que todos acham que são bons, estão fazendo a coisa certa, sendo sensatos, refletindo sobre a paz e a igualdade na Terra, mesmo armados com um tom que desestimula qualquer conversa. Todo mundo pronto para dar uma aula, lição de moral, para mostrar o que aprendeu de suas leituras ou só para descarregar mesmo as frustrações, a raiva e a falta de criatividade. Sem qualquer atitude prática em seu cotidiano. E não importa o tema. Dúvidas, observações sobre a ilegalidade de alguma decisão, discriminação, fascismo, Chopin, limpeza de canetas nanquim recarregáveis, luzes estranhas que têm aparecido no céu em diversos lugares, um depoimento sobre as medidas que escolas do RJ estão tomando para contornar a crise sem qualquer tentativa de defesa ou ataque ao que for, uma foto de família, um desenho. Absolutamente TUDO, qualquer assunto besta, rompe a represa de negatividade do outro.

Alfinetadas, grosseria, deboche, animosidade, palavras escolhidas a dedo podre... Cansa, sabe? Quando começa a idéia de que há gente boa e gente má no mundo, adia-se qualquer possibilidade de acerto da civilização. O primeiro adjetivo entra e o diálogo termina. A gente podia estar conversando, diminuindo as distâncias, oferecendo apoio, agindo de forma cortês, unindo esforços para atitudes práticas, ensinando, aprendendo, rindo juntos, nos confortando, mostrando coisas que fez, viu, ouviu, leu, pensou... Mas, em geral, a faca é usada para "jantar" os outros em vez de simplesmente preparar a comida. Não tem essa de gente boa e gente má. O que existe é gente que está feliz e gente que está triste. O que eu procuro fazer é: antes de ir até alguém e fazer um comentário negativo, grosseiro, sem qualquer intenção construtiva, vou tomar um sorvete, revejo um filme antigo, ouço meu cd favorito, tento procurar um amigo que não vejo faz tempo,  mato o Maltael do Diablo III no modo Suplício XIII, dou uma olhada no céu lá fora... Depois volto e vejo se vale mesmo a pena.

Nenhum comentário: