domingo, 7 de junho de 2020

Abrir e fechar de olhos

A gente cresce e vira outra pessoa. Às vezes penso em vidas que já tive, que acabaram um dia. Penso bastante nisso, não sem melancolia... E os momentos que sou especialmente interessada em encontrar, enquanto vasculho o baú, são os finais. 

É difícil falar sobre finais, não apenas pela carga emocional e psicológica que a cultura constrói em nossas cabeças sobre eles. Há dificuldade também em defini-los, porque raramente acontecem num ponto específico. São geralmente uma progressão, nebulosos, sem contorno, como a maior parte da realidade costuma ser. 

No entanto, é poético, embora triste, pensar que houve um dia em que minha mãe me pôs no chão e nunca mais voltou a me pegar no colo. Teve o dia que falei com meu avô pela última vez, antes de descobrir que foi embora, ou tive uma última conversa com meus bisavós ainda lúcidos. Um dia, o sinal tocou pela última vez, saí pelo portão da escola e nunca mais voltei lá. Em muitas ocasiões, nós, em todas as bandas que tive, tocamos a última música e não voltamos a nos ver. Soltei a mão de um namorado e lhe dei um beijo de boa noite, sem imaginar que na próxima vez que nos encontraríamos seria para nos despedir para sempre. Um dia, saí pela porta de casa e não voltei para dormir no meu quarto nunca mais.

Estou em casa desde março, sem sair nem para ir ao mercado. Tenho tentado lembrar da última vez que estive pessoalmente com as pessoas mais importantes para mim, antes dessa pandemia... Alguns eu havia visto um dia antes do início do isolamento. Outros já fazia dias, outros semanas, meses, alguns até, anos que não via... Porque sempre penso na importância de viver o momento presente, o único onde a vida é possível, na verdade. Penso na relevância que isso tem para o despertar total da consciência e no quão crucial para uma existência de valor isso é. Marco na minha cabeça certas cenas, para não esquecê-las, para guardá-las no baú de tesouros como gemas preciosas e sentir tudo que teve realmente valor para a pessoa que sou agora. Essas lembranças me entristecem um pouco, sim, mas a força que trazem vale a dor. Às vezes fujo de todas as formas das despedidas, justamente por levar a sério a idéia que quero guardar de alguma situação, pessoa ou atividade... Justamente por valoriza-los todos os dias ao ponto de tentar mantê-los o máximo que conseguir, de vivê-los como se fosse a última vez, um dia acaba sendo mesmo. Mas, crescer dói, virar outra pessoa dói e embora os finais aconteçam em degradé, a mudança acontece num abrir e fechar de olhos, sem nos darmos conta. E a gente nunca está pronto, nunca nos acostumamos com a mudança, que é um fato e raramente indolor.

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