domingo, 14 de junho de 2020

De ausência e lacuna

Enquanto a folha está em branco,  há silêncio, poucos são os que têm a coragem de fazer o primeiro risco, dar a primeira nota. Depois que algumas formas são colocadas, aí aparecem os especialistas com suas opiniões. E raramente a intenção é boa. As palavras denunciam isso. Se alguém ouvisse, se alguém se importasse, se fosse fazer alguma diferença, depois de ouvir um pouco, pediria para todo mundo dar um tempo... Parar. Chega, sabe? Tá chato. Tá cada dia mais difícil interagir... falar... ouvir... Mas, o que eu penso não faz a menor diferença, o que tenho a dizer não muda nada... nem escutar, demonstrando atenção e cuidado... Continuar agindo, fazendo e sendo é só o que resta. Não há comunicação através das palavras. Até a presença é um problema. E cada dia está mais desesperador, menos vantajoso e mais desinteressante viver. Fazia tempo que não me sentia assim.

domingo, 7 de junho de 2020

Baseado em que?

Baseado.

Abrir e fechar de olhos

A gente cresce e vira outra pessoa. Às vezes penso em vidas que já tive, que acabaram um dia. Penso bastante nisso, não sem melancolia... E os momentos que sou especialmente interessada em encontrar, enquanto vasculho o baú, são os finais. 

É difícil falar sobre finais, não apenas pela carga emocional e psicológica que a cultura constrói em nossas cabeças sobre eles. Há dificuldade também em defini-los, porque raramente acontecem num ponto específico. São geralmente uma progressão, nebulosos, sem contorno, como a maior parte da realidade costuma ser. 

No entanto, é poético, embora triste, pensar que houve um dia em que minha mãe me pôs no chão e nunca mais voltou a me pegar no colo. Teve o dia que falei com meu avô pela última vez, antes de descobrir que foi embora, ou tive uma última conversa com meus bisavós ainda lúcidos. Um dia, o sinal tocou pela última vez, saí pelo portão da escola e nunca mais voltei lá. Em muitas ocasiões, nós, em todas as bandas que tive, tocamos a última música e não voltamos a nos ver. Soltei a mão de um namorado e lhe dei um beijo de boa noite, sem imaginar que na próxima vez que nos encontraríamos seria para nos despedir para sempre. Um dia, saí pela porta de casa e não voltei para dormir no meu quarto nunca mais.

Estou em casa desde março, sem sair nem para ir ao mercado. Tenho tentado lembrar da última vez que estive pessoalmente com as pessoas mais importantes para mim, antes dessa pandemia... Alguns eu havia visto um dia antes do início do isolamento. Outros já fazia dias, outros semanas, meses, alguns até, anos que não via... Porque sempre penso na importância de viver o momento presente, o único onde a vida é possível, na verdade. Penso na relevância que isso tem para o despertar total da consciência e no quão crucial para uma existência de valor isso é. Marco na minha cabeça certas cenas, para não esquecê-las, para guardá-las no baú de tesouros como gemas preciosas e sentir tudo que teve realmente valor para a pessoa que sou agora. Essas lembranças me entristecem um pouco, sim, mas a força que trazem vale a dor. Às vezes fujo de todas as formas das despedidas, justamente por levar a sério a idéia que quero guardar de alguma situação, pessoa ou atividade... Justamente por valoriza-los todos os dias ao ponto de tentar mantê-los o máximo que conseguir, de vivê-los como se fosse a última vez, um dia acaba sendo mesmo. Mas, crescer dói, virar outra pessoa dói e embora os finais aconteçam em degradé, a mudança acontece num abrir e fechar de olhos, sem nos darmos conta. E a gente nunca está pronto, nunca nos acostumamos com a mudança, que é um fato e raramente indolor.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Gente feliz não enche o saco

O vazio da existência, o tédio, a monotonia, poderia levar todo mundo por caminhos melhores que descarregar e projetar no outro suas carências. Mas, isso não acontece geralmente. E o mais curioso é o tanto que todos acham que são bons, estão fazendo a coisa certa, sendo sensatos, refletindo sobre a paz e a igualdade na Terra, mesmo armados com um tom que desestimula qualquer conversa. Todo mundo pronto para dar uma aula, lição de moral, para mostrar o que aprendeu de suas leituras ou só para descarregar mesmo as frustrações, a raiva e a falta de criatividade. Sem qualquer atitude prática em seu cotidiano. E não importa o tema. Dúvidas, observações sobre a ilegalidade de alguma decisão, discriminação, fascismo, Chopin, limpeza de canetas nanquim recarregáveis, luzes estranhas que têm aparecido no céu em diversos lugares, um depoimento sobre as medidas que escolas do RJ estão tomando para contornar a crise sem qualquer tentativa de defesa ou ataque ao que for, uma foto de família, um desenho. Absolutamente TUDO, qualquer assunto besta, rompe a represa de negatividade do outro.

Alfinetadas, grosseria, deboche, animosidade, palavras escolhidas a dedo podre... Cansa, sabe? Quando começa a idéia de que há gente boa e gente má no mundo, adia-se qualquer possibilidade de acerto da civilização. O primeiro adjetivo entra e o diálogo termina. A gente podia estar conversando, diminuindo as distâncias, oferecendo apoio, agindo de forma cortês, unindo esforços para atitudes práticas, ensinando, aprendendo, rindo juntos, nos confortando, mostrando coisas que fez, viu, ouviu, leu, pensou... Mas, em geral, a faca é usada para "jantar" os outros em vez de simplesmente preparar a comida. Não tem essa de gente boa e gente má. O que existe é gente que está feliz e gente que está triste. O que eu procuro fazer é: antes de ir até alguém e fazer um comentário negativo, grosseiro, sem qualquer intenção construtiva, vou tomar um sorvete, revejo um filme antigo, ouço meu cd favorito, tento procurar um amigo que não vejo faz tempo,  mato o Maltael do Diablo III no modo Suplício XIII, dou uma olhada no céu lá fora... Depois volto e vejo se vale mesmo a pena.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Entrega

Separe um pouco, só uma parte, daquilo que você tem e arde para mim, guarda em caixa de ébano, fecho de ferro e forro de cetim. Entrega sem cerimônia mas com carinho, deposita em meus portais aquilo que tanto anseio; mas para você, é nada demais.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Uma Muralha da China

De vez em quando é bom fazer uma revisão. Mas, reforço minha posição de preferir estar feliz a estar certa. Porque, a realidade não muda de acordo com a minha opinião sobre o que é certo ou errado. Não muda de acordo com a minha sensibilidade ou falta dela... Não muda se sou solidária e empática, ou se trato o problemas dos outros com frieza... Não muda, se eu consigo entender uma reação catastrófica, se eu mesma já me vi em situações limite e reagi de formas totalmente contraproducentes, ou se faço pouca idéia do que é viver com medo e estar revoltado. O mais apto sobrevive. Isso é a realidade. Diante do estouro do outro, dar espaço, manter a cabeça no lugar e oferecer suas idéias mais racionais é fundamental para se conseguir realmente ajudar. Acompanhar ou incentivar a loucura, não. E não falo aqui em nome de outras pessoas. Sou só eu mesma. Não acredito em coletivizar culpa ou punição. Se queremos ver os problemas resolvidos de verdade, as consequências devem recair sobre um documento de identidade e endereço completo. Tem muita gente mal intencionada tentando se dar bem às custas do sofrimento dos outros. E em qualquer grupo que se junta para lutar por direitos haverá alguém para me envergonhar. Então, o que deveria prevalecer é que me importo ao ponto de refletir, por minha conta, sobre as melhores maneiras de outras pessoas atingirem os objetivos delas. Se paro para pensar e ofereço críticas é porque o outro me importa. Isso não me traz qualquer benefício direto. Não o faço com o intuito de defender o que quer que seja, menos ainda de estipular regras. Mesmo que eu tenha vivido algumas situações meio chatas e tenha duas ou três lições para oferecer sobre elas, não penso que tenho esse direito. Mas, se estou vendo você quebrar, queimar tudo e ainda dizer que só está fazendo isso porque foi o que aprendeu do seu agressor, e sou sua amiga, direi para agir com mais inteligência se quer de fato resolver seu problema. Da forma que está fazendo, você só consegue piorar as coisas para o seu lado. E isso não é uma opinião.