Acho... que muitas vezes soube como é a dor agonizante de uma vítima da fome. Aquela oscilação entre resistir e desistir. Aquele vislumbre de possibilidades para se apegar, versus aquela falta de sentido em sobreviver sofrendo. Então, quando tudo está prestes a acabar, de um canto qualquer surge a imagem borrada de alguém. Raspas e restos são um banquete. Mais um tempo se passa, um tempo que não se pode contar, e a dor nunca esteve nem mesmo perto de seu fim. A esperança espera, a desistencia desiste, outra migalha se come, a dor dói e a vida persiste. A vida dói.
Tudo é muita coisa... Nada também! Porém, um pouco não é o suficiente. O sim pode tanto quanto o não, apresentam possibilidades equivalentes, mas o talvez, o que pode o talvez? A fome, a incerteza, a espera. O maldito talvez. A dúvida "te esmaga feito uma uva." E não há crueldade maior do que essa morte lenta. A vida é cruel.
Toda a energia acumulada durante o tempo que se tem é investida em breves momentos e só de vez em quando. Não há certeza de satisfação na maioria dos casos. Em verdade, a chance maior vem sempre com gosto de decepção, fome permanente. Responsabilizo-me, empunho pena e espada, mantenho abertos coração, mente e espírito. Vivo no último, não deixo passar nada. Busco, procuro, crio, destruo, mantenho, choro, amo, berro, sussurro, dôo, entrego, corro, sorrio, roubo, improviso, renuncio, faço, e para quê? E por que? Não sei. Caio, sofro, sangro e deixo ir... Mas a chama vermelha, embora fraca, continua brilhando e queima, e derrete, e arde. A dor continua. Então, quando o alívio está próximo, o sofrimento perto do fim, a chama prestes a se apagar, surge de algum canto a imagem borrada de alguém... Um sopro suave se torna incêndio. A vida repete seu lema: hoje não.
Nenhum comentário:
Postar um comentário