Não entendo essa droga de sentido comum de certo e errado. As pessoas não fazem o que sentem vontade, fazem o que não querem, perguntam o que não interessa e deixam de esclarecer o que mais importa. Pensam que possuem e controlam coisas e pessoas. E por isso, vivem acumulando o peso da culpa durante o curto espaço de tempo de suas vidas, numa covardia crônica e numa hipocrisia desnecessária, encobrindo um narcisismo borbulhante, um egoísmo tímido... Duas facetas de um complexo de inferioridade epidêmico.
Se ao menos esse narcisismo trouxesse o verdadeiro amor próprio e esse egoísmo fizesse com que enxergassem dentro de si os verdadeiros tesouros, esses que só aumentam quando a gente partilha... Não. Melhor ser vítima. Melhor transferir o poder para outro. Arrependimento nem dói tanto assim... Responsabilidade dá trabalho. Melhor viver como boi no pasto, pensando que é dono daquela grama toda, que a mordomia vai durar "pro resto da vida", com a cabeça sempre perdida entre o ontem e o amanhã, deixando tudo passar enquanto fica ali comendo, dormindo e pensando, ignorando completamente seu destino, que é virar bife no prato de alguém.
Sei lá, talvez pensem que assim despenderão menos energia e perpetuam os sorrisos falsos, os abraços medrosos, os "bom dia" vazios, as perguntas retóricas, o falso interesse pelo bem do outro, a falta de sinceridade consigo mesmo. Seguem pelos anos a fora fechados numa concha, com medo de errar, cheios de arrependimento, distribuindo migalhas e dormindo com a consciência tranquila. "Fiz o que pude."
A fatalidade é que você pode mentir para todo mundo, mas não pode enganar a si mesmo! Será que não percebem que, em nome da droga do orgulho, perpetuam um modelo de sucesso tosco que nem foi construído por eles? Casamento, filhos, diplomas, emprego... Poucos estão prontos e realmente interessados ou dispostos a construir uma família, a dividir o que tem de melhor com outras pessoas, a tentar conhecer e amar o outro, a manter relacionamentos harmoniosos, a ser um bom amigo, a estudar de verdade, pesquisar e produzir de acordo com seus talentos, estar em alguma empresa ou servir ao país... Que coisa maluca! O cara compra um modelo de sucesso, segue toda a cartilha, só para, no fim do dia, preencher com dados novos seu perfil numa rede social virtual, ou, se chegar a tanto, sentar num bar junto com alguns outros como ele, passar a noite disputando quem é o mais adestrado.
É tão estranho... tudo se compra! Tudo se vende! E está todo mundo de cabeça erguida, batendo no peito, enquanto paga bem caro por esse sucesso vendido por aí. Todo mundo escravizado, pensando que é livre porque tem uma casa, um carro, contatos, conhecimentos e um pouco de dinheiro. Enquanto recalcam, esmagam bem lá no fundo do porão a sua própria idéia de sucesso, o animal selvagem, o verdadeiro sonho. Não conseguem olhar para ele de frente, aceitá-lo, conhecê-lo e apreciá-lo. Fingem que não existe. Tentam matá-lo. Bobagem. "O que os outros vão pensar?". Isso é liberdade? E tem alguém que sinceramente gosta de escravidão? Ainda busco o Caminho do Meio, mas toda essa burrice só me leva a crer que não é estando "em cima do muro" que se chega lá.
2 comentários:
Texto pica.
..das galaxias!
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