quinta-feira, 10 de março de 2022

Guns N' Rangers

Lembro de Saramago, numa entrevista dizendo que era ateu, mas cristão até o último dos seus fios de cabelo...

E... assim, já que nunca encontrei um mísero iluminado encarnado nessa vida, tenho certeza disso, qualquer um pelas redondezas está muito longe de fugir da cultura onde nasceu. Porque ela se entranha, tanto em uns quanto em outros. E fatalmente, mesmo desprezando muito do que meus conterrâneos admiram, estamos no mesmo zeitgeist, na mesma egrégora, na mesma vibe, que todo afegão médio acebolado aqui no Ocidente... Sei que, para Narciso, se enxergar acaba sendo difícil mesmo, no fim das contas, mas todo um esforço egípcio apenas para exclusivamente passar seu tempo reagindo e obter palmas de uma plateia, de botafoguenses amigues, provoca tanto riso quanto criar "dicotomias" neste momento histórico. Porque depois de passar décadas não apenas sonhando, mas principalmente, gastando uma grana pesada com TUDO que faz parte de um certo estilo de vida claramente norte-americano muito apreciado pela minha geração (direta, como a Rússia é, ou indiretamente, como os EUA preferem), toda a saliva, a verve e os bytes gastos para mostrar justamente o contrário, forçando a barra para igualar um modelo que claramente se aceita (e até curte) e outro que os impediria de fazer tudo o que  mais se gosta, chega a parecer até patológico. Embora seja necessário um pouco de atenção para se perceber, o desdém sempre deixa claro o interesse do comprador que quer barganhar. Quando a habilidade não foi suficiente, quando só se conseguiu a parte fácil, aquela que o dinheiro compra, que o discurso dá conta, ocupa-se todo o espaço que não se dá a pensamentos mais construtivos, a praticar o que gostaria de saber realmente fazer e a buscar boas idéias, escondendo os fatos para si mesmo ou para qualquer interlocutor desatento. Mas, o recalque é algo tão evidente pra quem está acostumado a lidar com isso... E, às vezes é uma vovó distraída na beira da praia depois de uma onda bem forte desarrumar seu maiô, deixando a mostra o que ela não queria, sem que ela percebesse. Um negócio esquisito, constrangedor, engraçado e impossível não notar. Mais ainda quando se trata de patrulheiros da coerência alheia.

terça-feira, 8 de março de 2022

Palavra Correta e Ironia

"Um monge aproximou-se de seu mestre – que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua – com uma grande dúvida:

– Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?

O velho sábio respondeu:
– As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta.

O monge replicou:
– Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?
– Poderia – confirmou o mestre – e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio.
– Então – o monge perguntou – por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?
– Porque – completou o sábio – da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário.

O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua."

(Tam Huyen Van)

 

Na época do Orkut existia até uma comunidade chamada: O Chato em Ser Irônico... E na descrição vinha o complemento: ...é que quando não entendem, o idiota fica parecendo você.

Toda vez que falo ou publico piada... ironia... sarcasmo... em algum lugar, lembro desse conto Zen. E essa é uma das utilidades para falar ou publicar essas coisas, aparentemente inocentes: selecionar quem fica e quem vai. Interessante notar os tipos humanos e os assuntos que os atraem... Embora o teor da mensagem seja perfeitamente esperado, nem preciso chegar a saber realmente o conteúdo do feedback. Só o fato de a pessoa aparecer apenas em determinados temas, é fácil intuir o teor da mensagem e a escolha de palavras, apesar de sequer entender nem o que eu disse, nem muita coisa a respeito do assunto, em geral. E esses detalhes podem mostrar o suficiente para decidir se quero proximidade ou não. Porque os cães ladram, mas o Projeto Destralhamento Outono/Inverno 2022, não para!

sexta-feira, 4 de março de 2022

Absurdo e Imaturidade

É tão louco esse negócio de crime de guerra, né? Não pode matar civis, não pode enganar o inimigo se disfarçando de civil ou com o uniforme do próprio inimigo, não pode impedi-lo de se recuperar, não pode matar médico, nem jornalista, não pode bombardear áreas civis, quem está de fora não pode intervir diretamente com soldados ou ataques, não pode bomba nuclear. Só pode invadir e destruir a porra toda e prender e matar militares e os integrantes do governo. 

Parece brincadeira de criança. Mas, nem é brincadeira, nem é de criança. Ou é? Sei lá, maturidade tem nada a ver com idade. E por falar em maturidade, imagina o alien pai tentando explicar o que é a guerra na Terra para o alienzinho... Deve ser tão complicado quanto explicar para os gringos que o presidente do Brasil não perde um dia sem se manifestar contra o socialismo/comunismo, mas tem sua simpatia pelo governo da Rússia, tanto quanto o presidente da Venezuela! Ou, que esquerda aqui, em termos amplos, não é liberalismo... democracia..., aqui isso é o "centrão"... direita..., esquerda aqui é um pouco mais pra esquerda. Embora na prática, a verdade seja que aqui não tem nem uma coisa, nem outra. É só um "eles contra nós" mesmo. E se eles nos roubam, é a lei. Se nós roubamos é crime. Um absurdo bem ao jeitinho das guerras. Onde, inclusive, os sábios ensinam que "um capitão deve se esforçar ao máximo para dividir as forças do inimigo, seja fazendo-o desconfiar dos homens que confiava antes ou dando-lhe motivos para separar suas forças, enfraquecendo-as". Se a carapuça serviu, vista. E para com essa mania chata, autoritária, pretensiosa e arrogante de ficar brigando com os outros por diferenças nas maneiras de ver a vida.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Eu sou da Lira não posso negar

Há menos de um ano, as noites aqui em casa têm sido diferentes. São noites que me trazem a mesma sensação das manhãs, quando tudo a respeito daquele dia ainda é apenas possibilidade. Acendo incenso, da mesma forma que faço antes do café da manhã. Cuido das plantas, do Mambo... Quando não está tão frio pra um chá, tomo mate gelado, suco, vinho, wisky... Curto o silêncio, toco algum instrumento ou só ouço música. Escrevo, vou finalizando alguma aula, alguma ilustração... Assisto algo interessante, uma entrevista, um filme, um vídeo... Estudo, leio, seguindo na missão de ler TODOS os livros da casa por inteiro. Jogo videogame. Converso com amigos, namoro, saio para algum lugar... Mas na maioria das noites não procuro companhia. E fico em silêncio aqui, do mesmo jeito que faço numa manhã ideal. Mesmo com toda a capacidade que o mundo tem de produzir problemas, aqui eu sei que posso simplesmente me silenciar. 

Há menos de um ano tenho algo que demorei 40 anos para conseguir: tempo. Descobri que dessa forma, com menos de tudo, o virtuosismo das habilidades ou da originalidade, algo que nunca busquei, acaba sendo genuíno, pois as coisas são o que são e há imensa beleza nisso. Não sei se pelo teor das experiências, se pela forma de apreender as lições, se pelo passar dos anos... o verdadeiro reconhecimento do próprio valor tem sido fundamental para jamais, apesar de tanto estudo, tantos interesses e dedicação a tantas atividades, deixar que a comunicação sem afetação em qualquer das linguagens que uso, especialmente através das palavras simples, seja perdida. Porque, ao menos para mim, todo o meu silêncio e contemplação seriam inúteis sem a capacidade de comunicar algo de relevante e para isso é fundamental a simplicidade. Mas, veja bem, capacidade é diferente de necessidade. Continuo não tendo tempo para explicar, mostrar, ou convencer quem quer que seja, sobre o que quer que seja fora da sala de aula ou das relações profissionais. Muito menos com ares de mestre, doutora, phd ou astronauta. E tenho menos tempo ainda para quem só ocupa a cabeça com a contradição dos outros, as incoerências do mundo, os assuntos chatos, pesados, sérios e passa o dia assumindo uma postura, se posicionando, provando pontos, profetizando, pregando, discutindo com o vento a troco de nada, sem relaxar nem mesmo quando encontra amigos...

Não tenho uma visão romântica da vida. Dou utilidade prática até para o misticismo. Porque realmente sei que os grandes momentos ocorrem durante as pequenas ações cotidianas, durante as pequenas gentilezas e gestos de amor. E não, através de discussões inflamadas, falação, disputas... No fim, esse comportamento só serve para se autoafirmar, para deixar claro o quanto se está cheio de si e se sentir superior aos outros. E a gente só precisa do que não tem. Não me perco pensando em como tudo deveria ser, em coisas impossíveis no momento, no que eu acredito ser o certo, achando que a realidade, "o real", irá mudar se eu encher bastante a paciência com um monólogo egocêntrico baseado numa crença de que o outro só fala merda e eu sim é que sei das coisas. 

Há menos de um ano tenho finalmente paz dentro da cabeça. Neste momento isso é uma alegria que transborda e precisa ser partilhada. É um excelente momento, afinal, além disso, o mundo tem estado mais louco que nunca. E nem falo da gasolina, da inflação, das tragédias ou da III Guerra. Milagres têm acontecido e velhos pequenos sonhos têm se realizado por aqui também. Sejamos gratos: não apenas emendamos o Carnaval com o Natal num ano, como agora teremos dois carnavais! 

Quando deixo pra lá é de coração, sabe? E isso só é possível agora graças àquele trabalho de destralhamento da vida que segue a todo vapor.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

O nome de deus

A verdade pressupõe clareza. Clareza demanda silêncio interior. Tudo que é dito se torna reduzido, limitado e banal. Os medos, as idéias que nos atormentam, sonhos ruins, e também toda a beleza e bondade, o que é infinito, magnânimo, incompreensível. Nomear é definir, limitar, dominar. E existem coisas que devem permanecer ocultas, porque elas só funcionam em sigilo. Como as raízes das árvores.. os bebês em gestação... as formas na noite... o artista em processo criativo... o que se passa em nossos corações...