sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Piores sensações

Pisar num animal sem querer.
Ansiedade na véspera de um evento importante.
Garganta inflamada no dia do show.
Pagar por comida ruim.
Perder a voz.
Se machucar e ficar impedida de fazer coisas simples.
Comer a fruta cristalizada que é amarga no panetone.
Esquecer uma idéia.
Pressa de acabar.
Falta de tempo.
Comer pensando que é azeitona, e constatar que é pimentão.
Sofrer preconceito, incompreensão e desrespeito.
Impotência diante de injustiça.
Medo de começar.
Não saber como resolver um problema.
Cartão bloqueado.
Vergonha alheia.
Não conseguir entender.
Ser enganada.
Tempo perdido.
Vontade de morrer.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Never gone

"Your head is humming and it won't go 
In case you don't know 
The piper is calling you to join him."

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Escravos de Jó

São 21:32h e estou ouvindo passarinhos lá fora. As coisas estão tão confusas... Sempre houveram os ladrões. De dinheiro, de bens, de saúde, de tempo... Sempre houveram trapaceiros. Sempre houveram e haverão os falastrões. Com suas línguas compridas e pouca atitude real. Desde que existe o Homem existe mentira, histórias bem e mal contadas, manipulação, idéias totalmente equivocadas. A ordem é uma mera ilusão momentânea... Assim como o caos. O equilíbrio nunca esteve nos extremos. Mas, como falar a ouvidos surdos de histeria? Como mostrar qualquer coisa a olhos tendenciosos de paranoia? E como ouvir e enxergar nesse mar de balbúrdia desesperada e arrogante?

Sei lá, acho que a falta de sentido sempre esteve aí. Passarinhos às vezes cantam a noite. Pode fazer frio em dias de primavera quase verão. Alguém que você respeita e admira acima de todas as outras pessoas pode considerar você desmerecedor de uma explicação para o que há de errado e simplesmente mandá-lo se foder. Adolescentes podem resolver se achar de igual para igual com alguém que tem o dobro mais sete anos a idade deles... Ou, talvez as máquinas tenham mesmo finalmente se rebelado, a epidemia zumbi se espalhado, a sétima trombeta do apocalipse já tenha tocado e a terceira guerra mundial tenha sido anunciada sim. E eu só estou cansada demais hoje, só tive um dia ruim demais para ter me dado conta. 

Mas, na quarta passada já havia sido ruim. Ontem também. Na verdade, quando não foi ruim? Na maior parte do tempo tudo apenas desmorona enquanto a gente empilha de volta. Pode ter gente de mãos dadas, pirracenta e resistente... Alheios totalmente que àquilo que se resiste persiste. Prestando uma atenção total e fulminante agora a fatos e atitudes que por décadas passavam direto. Uma barbárie e um assistencialismo mal intencionado sem controle. A questão é que no fundo, no meio do mimimi ou acompanhando a boiada que aplaude o próximo salvador da pátria, se você olhar bem, estamos simplesmente todos sozinhos e a mercê dos mais espertos, como sempre. Mudar e não mudar, de vez em quando, parece significar a mesma coisa.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Tanto faz

Ando sem paciência. E nem falo daquela minha velha impaciência diária para trânsito, aglomerações e imbecilidades humanas em geral. Considero que estar contra o movimento ainda é fazer parte dele. Estou apática mesmo. Não está havendo agora sequer identificação, o real problema da maior parte das minhas irritações passadas. Cada vez menos me identifico com qualquer coisa, com qualquer um. Pode parecer contraditório, mas o mundo externo tem se tornado um espelho progressivamente mais nítido. E nem me vejo mais nele. Não vejo mais a minha imagem. Apenas percebo o espelho, que é um espelho. Só isso. 

A comparação com os outros sempre me trouxe a autoimagem de alguém que demora demais. A falta de foco cristalizou a idéia da lentidão e o perfeccionismo a transformou em fato. Na escola, quando todas as crianças tiravam os sapatos pra brincar na areia, eu levava um tempo para decidir se tiraria também os meus. Porque quando tocava o sinal para o almoço, todo mundo era tão mais rápido para calçar de volta que eu acabava sozinha lá fora e levando talvez uns dez minutos a mais para chegar ao refeitório. Precisava ponderar se valeria a pena... Além disso, eu era adiantada e levava mais tempo para realmente entender as explicações, copiar do quadro, ler os textos, terminar as provas, calcular, pintar... Era a última a acabar de comer... a guardar todo o material... a conseguir dormir... Era quase sempre a menor da turma. Por isso, aprendi a correr mais rápido, aguentar mais tempo debaixo d'água, mais cansaço, mais dor, mais medo, segurar mais as lágrimas, fazer penteados mais bonitos, construir as melhores pipas, misturar pó de ferro no cerol, marcar gols de longe, pular bem alto, fazer cestas de 3 pontos, me infiltrar sem ser notada... Me interessava em aprender coisas que ninguém mais estava interessado realmente. Tocar piano, falar alemão, estudar as plantas e as estrelas, desenhar bem, cantar, escrever, lutar... E para conseguir fazer qualquer uma dessas coisas bem feitas me esforçava mais do que a maioria. Eu tinha que conseguir compensar de alguma forma.

Nasci de oito meses e saber disso pode ter causado essa sensação de não estar pronta ainda. De que as boas idéias um dia acabariam. De estar perdendo alguma coisa. Essa desconfiança... 

Então, a minha decepção é muito grande quando finalmente concluo algumas coisas, ao meu tempo. Às vezes leva anos. Até que eu tome distância e veja, sem me identificar, o movimento ressentido de pessoas que eu julgava minhas amigas. Num comentário negativo, numa atitude mesquinha, sem qualquer interesse construtivo, puro recalque, inveja, ciúmes... Quando preciso reconhecer que até mesmo os melhores, os favoritos, não estavam do meu lado nos momentos em que a aprovação deles era meu único norte, no meio das minhas fragilidades e inseguranças. E que muitas vezes cobravam e davam na mesma medida em que trapaceavam e tiravam. Eu apenas fazia vista grossa e descontava o tanto que, apesar disso, me ajudaram. Posso não achar que sou propriedade de alguém e ter agido mal de formas que sequer tenho consciência, mas deslealdade não é uma característica minha.

Passei algumas coisas terríveis sozinha por não poder dividir com ninguém. Medos tão grandes, dores tão profundas, um mal estar tão generalizado que para encontrar as coisas boas, perdidas no meio de toda a bagunça, às vezes ainda é difícil. E isso não tem a ver com a comparação. Não podia, porque isso me traria problemas. E isso certamente me tornou consciente e orgulhosa da minha solidão, mas um pouco desconfiada dos medos e dores alheias. Levo mais tempo até aceitar a levá-los a sério.  Minha vida tem sido difícil por isso também. Demoro a acreditar. Demoro a confiar. Demoro a entender. Demoro a esquecer. Demoro a conseguir. Talvez venha daí a minha admiração pelos persistentes. O que me mantém é puro instinto. Minha impaciência, é uma auto impaciência. Mas, como disse, estou ficando apática. E isso significa que demorou, mas enfim estou deixando um peso que nunca serviu para qualquer coisa boa. Não sinto raiva, nem orgulho, nem medo das consequências do que faço com convicção, do que vão achar, do julgamento que podem fazer...

Ainda devo demorar mais que todo mundo, em quase tudo. Mas, não tenho sequer feito essa comparação. A hora que tudo isso acabar, acabou, por mim tudo bem. Quem sabe antes ainda dê tempo de me tornar uma dessas pessoas admiráveis também? Um século depois de morrer, talvez. Mas, sinceramente, isso nem está fazendo mais diferença.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

TBT

"Eu te conheço mais do que você pensa." Disse a décima pessoa cujas últimas palavras foram: "Não estou reconhecendo você."

E isso me lembra isso:

Ouvi uma piada uma vez: um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto. O médico diz: "O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo." O homem se desfaz em lágrimas. E diz: "Mas, doutor... Eu sou o Pagliacci." Boa piada. Todo mundo ri. Rufam os tambores. Desce o pano. (Alan Moore - Watchmen)