Em algumas vezes eu sumo, em outras finjo, tem vezes que durmo, só me distraio ou é um coma passageiro, mas há dias em que morro. Ninguém nota. Não, todo mundo pensa que eu ali de volta sou a mesma (que geralmente pensam conhecer muito bem). Só porque tenho a mesma cara ou a mesma voz. É, gente, não é só um vírus zumbi que pode mudar definitivamente alguém. Muito mais coisas entre o céu e a terra podem provocar um renascimento e nem é só a interrupção de nossas funções vitais. Sim, porque para nascer de novo, morrer torna-se essencial. Enfim, tanto aconteceu nesse curto período de ausência - entre banda banida, novas séries de TV em que me viciei, greve que ainda não acabou, trabalhos ainda não entregues, proposta irrecusável adiada, noites solitárias e muitas fases de Baldur's Gate vencidas - que nem pretendo atualizar a memória. O que passou já era. Deixa assim. Mas se pelo lado óbvio muita coisa mudou, a minha pouca paciência para lidar com gente permaneceu. E já desisti de tentar me fazer entender, explicar, argumentar. É uma faca sem fio a sinceridade: mais sangra do que corta. Se a minha ironia e meu tom passam direto, quem sou eu para me esforçar em mostrar o quanto podem, por acaso, ser um primor?
domingo, 1 de julho de 2012
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Boa sujeita não sou
Do meu primeiro ano de vida até os seis viajei todo verão para conhecer o nordeste com os meus avós. Íamos de carro, por isso, entre as poucas coisas que haviam para passar o tempo durante o cansativo trajeto estavam as minhas fitas do Balão Mágico e Trem da Alegria. Também haviam as fitas de músicos de blues e jazz do meu avô e algumas das mais temidas fitas de samba da minha avó. Nós revezávamos e foi assim que aprendi a esperar pela minha vez, a respeitar a vez dos outros. Foi assim que começaram minhas aulas de música, com meu avô dizendo para eu identificar os instrumentos no meio da massa sonora e para responder qual instrumento estava tocando. Era divertido até. Mas a vez da minha avó era a parte mais sofrida da viagem. Nada de jogo de perguntas, nada de cantar junto, nem lições, só aqueles lamentos sofridos das letras de samba. Uma das fitas se chamava Festa no Céu, onde estavam reunidos vários representantes da velha guarda sambista e na capa haviam desenhos de suas figuras entre nuvens. Eu achava aquilo tão mórbido e tão chato, que levei anos para aprender a apreciar o que há de bom nesse estilo. E mesmo assim, o trauma nunca foi superado completamente: ainda não sou muito boa da cabeça e meu pé também não é dos melhores.
sexta-feira, 23 de março de 2012
Aconteceu de Novo
Os acontecimentos vêm sempre num estouro de represa na minha vida. Deixo muitas coisas de lado e gosto de pensar que de fato elas morrem se eu não lhes der atenção. Sumirão se eu fechar os olhos. Sim, aquilo que não recebe energia morre. Mas a questão aqui é: será que eu abandono essas coisas de verdade? Deixá-las trancadas no porão não é abandonar, é guardar. É acumular. E o espaço ali não é infinito, às vezes aquela porta no fim das escadas estoura e o que quer que saia dela vem de forma violenta. Tudo de uma vez. Como represa. E geralmente não há nada que se possa fazer para evitar meu afogamento.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Dois
Há dois anos, nasceu o retrato, e não houve testemunhas. Fruto de um período conturbado, em que eu estava cansada de dividir meus pensamentos com quem não interessa, mas nem um pouco cansada de escrever. Fechei o outro diário, abri esse, e é engraçado como essa data me traz reflexões. Nada demais, só mais um bloguizinho para alguém transcrever a própria vida. Há um ano, eu disse que "continuo ansiosa, o dinheiro ainda é pouco, o mundo cada vez mais sem graça, as pinturas já formam pilhas acumuladas para terminar, o calor está outra vez uma tristeza e continuo esperando para ver o que vem a seguir na faculdade"; dessa vez não vou cometer este erro. Essas coisas ainda estão presentes e pouco mudou. Minha vida não se tornou, em um ano, nenhum filme de ação. Nem de comédia. Mas algumas transformações realmente profundas ocorreram e continuam ocorrendo. Não farei, portanto, comparações nem criarei expectativas. Se no ano passado eu não estava assim tão feliz por onde eu me encontrava e pelas pessoas que faziam parte da minha vida, tenho hoje a sensação de que nada mudou muito, e algumas coisas até estão bem piores para ser bem delicada. Pessoas mais saíram do que entraram. Preferi assim. A minha concha se abre cada vez menos para ver o que há e sigo imersa em meus próprios planos. A mágica da minha vida é que quando alguém se vai é por alguma iniciativa minha, e por isso não ficam saudades. Por outro lado, minha caminhada interior tem sido muito rica, assustadora, mas surpreendente, estar sozinha trouxe-me introspecção, suavidade e silencio. Embora a tristeza ainda chegue de fora. Mas gosto de olhar para este pequeno espaço de bytes e pixels, não por achar que meus textos são sensacionais ou que o Retrato é irretocável, mas por saber porque ele foi criado e o que já testemunhou. As mesmas recomendações ainda valem. Dois é só o começo.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Enquanto Houver Sol
É curioso como qualquer controle nos escapa. Principalmente quando se trata de pessoas. E fica pior quando se trata de sua própria vida. Você imagina que agora sim, depois de uma convivência conturbada seguida de briga e anos sem se falar, feitas as pazes, concedido o perdão, as coisas estarão bem melhores, o relacionamento mais fácil. Mas basta uma semana de normalidades para tudo parecer ter dado um passo atrás. Nunca entendi muito bem o que dá o direito à família de pensar que pode cuidar da sua vida melhor do que você mesmo. Mas de fato é como se comportam. Não aproveitam seu próprio tempo, não realizam seus próprios sonhos, então julgam, criticam, opinam, aconselham, sugerem. E você sequer solicitou qualquer um desses "favores". Respeito passou longe e será a primeira coisa exigida se você engrossar. Não sei de onde tiram que esta é uma via de mão única...
Mas, quem dera, o pior fosse isso. Essas situações são até bem fáceis de se lidar quando se é fiel seguidora da máxima houseana: "Pare de correr atrás, pare de se importar, seja indisponível, desapegue. Pessoas gostam do que não têm." Ok. Até aí moleza. O verdadeiro problema é que no fim é sempre você com você mesmo, procurando por um caminho, um direcionamento, um sentido. Correndo atrás de toda aquela bagagem cultural, toda a educação, todo o preparo para enfrentar a vida, coisas básicas que ficaram faltando. Exatamente aqueles cuidados que os tais conselheiros, críticos, juízes, deveriam ter transmitido nas horas certas, mas eram imaturos e incapazes demais para a tarefa.
E aí? Como superar os vícios, a ignorância e maus costumes transmitidos durante dois terços da sua vida? Como recuperar a confiança em tudo de bom em você que foi insistentemente reprovado? Como fazer algo de bom com aquilo que fizeram de você? Você elabora um plano para o seu ano. Tudo certo. Inclui na sua pretensa nova rotina todas as coisas saudáveis, úteis e interessantes para os seus objetivos. Então por anos e anos chegam os 31 de dezembro, sempre cedo demais, trazendo as suas metas fracassadas, junto com aquela vontade enorme de culpar tudo e todos, de sentar e chorar, desistir. E aí?
E aí, amigos, é pendurar a hematita no cordão, é coragem. É berrar para si que tempo é apenas um parâmetro. É soprar e abanar insistentemente a faísca, a centelha que qualquer coisinha guardada no lugar mais especial do coração possa provocar. E deixar a chama vermelha germinar de novo enquanto o Sol se levanta. Porque, todos sabemos bem, ele sempre levanta outra vez.
Mas, quem dera, o pior fosse isso. Essas situações são até bem fáceis de se lidar quando se é fiel seguidora da máxima houseana: "Pare de correr atrás, pare de se importar, seja indisponível, desapegue. Pessoas gostam do que não têm." Ok. Até aí moleza. O verdadeiro problema é que no fim é sempre você com você mesmo, procurando por um caminho, um direcionamento, um sentido. Correndo atrás de toda aquela bagagem cultural, toda a educação, todo o preparo para enfrentar a vida, coisas básicas que ficaram faltando. Exatamente aqueles cuidados que os tais conselheiros, críticos, juízes, deveriam ter transmitido nas horas certas, mas eram imaturos e incapazes demais para a tarefa.
E aí? Como superar os vícios, a ignorância e maus costumes transmitidos durante dois terços da sua vida? Como recuperar a confiança em tudo de bom em você que foi insistentemente reprovado? Como fazer algo de bom com aquilo que fizeram de você? Você elabora um plano para o seu ano. Tudo certo. Inclui na sua pretensa nova rotina todas as coisas saudáveis, úteis e interessantes para os seus objetivos. Então por anos e anos chegam os 31 de dezembro, sempre cedo demais, trazendo as suas metas fracassadas, junto com aquela vontade enorme de culpar tudo e todos, de sentar e chorar, desistir. E aí?
E aí, amigos, é pendurar a hematita no cordão, é coragem. É berrar para si que tempo é apenas um parâmetro. É soprar e abanar insistentemente a faísca, a centelha que qualquer coisinha guardada no lugar mais especial do coração possa provocar. E deixar a chama vermelha germinar de novo enquanto o Sol se levanta. Porque, todos sabemos bem, ele sempre levanta outra vez.
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