terça-feira, 25 de agosto de 2026

Conversa de puto eu não escuto

Não venci o concurso de minicontos, mas meu conto mutilado, até conter apenas 300 caracteres, está publicado no livrinho da Academia Teresopolitana de Letras. Concorri com um conto que eu já tinha há muito tempo. Não escrevi um pensado especialmente para ser tão curto. E é claro que essa não é uma boa forma de se escrever algo que valha a pena. Algumas coisas só ficam bem ditas se forem com todas as palavras. E ali, por causa das regras, precisei tirar muitas delas. Não é nem uma justificativa para o resultado porque, na verdade, não esperava sequer isso. Mas ele está lá, junto dos contos de outros autores, incluindo os imortais da Academia.

Não acredito em concursos de arte, como disse anteriormente. A premissa não me parece séria. Talvez porque não seja mesmo e tudo não passe de um jeito de movimentar as coisas, motivar as pessoas. Mesmo que, para os mais competitivos, só sirva para envaidecer ou frustrar, este está longe de ser o meu caso. Não curto disputas pelo que quer que seja e nem tenho uma autopercepção assim tão superestimada. Nunca considerei minha presença, minha opinião, minha existência imprescindíveis. Tenho plena consciência de que tudo acontece perfeitamente bem sem mim.

Vivo demais dentro da minha cabeça, observo demais o mundo, reflito demais sobre os acontecimentos, as atitudes, minhas e dos outros. Tudo parece um sonho... A gente não lembra como começou, acontece um monte de coisas completamente sem sentido, inúmeras reviravoltas desnorteantes exatamente nos momentos em que tudo parece muito lógico e previsível e, então, quando estamos finalmente acreditando estar começando a entender um pouco do que está havendo, fim.

É assim que vejo. Algumas coisas até geram um impacto maior, mas, a curto ou longo prazo, nada fica. Como nos concursos, a realidade não é para ser séria e só acontece mesmo para movimentar as coisas, motivar as pessoas para que ela, a realidade, continue existindo. Envaidecendo ou frustrando, em pouco tempo, tudo passa a ser história e, mais um pouco adiante, nem isso. Coisas, lugares, sensações, pensamentos, sentimentos, ideias, atitudes, grandes e pequenos feitos. Datas. Pessoas... Embora façam um enorme esforço para se manterem, tudo vai descendo pelo ralo do Universo. Deve ser por isso que as galáxias têm aquela forma espiral...

Então, apesar de trilhar a senda transcendental da esperança, deixar que as frutas caiam das árvores ao seu tempo, sem arrancá-las, tenho dificuldade para acreditar. E vejo, com crescente cinismo, o sofrimento, a dor, as lágrimas. Em especial quando tudo isso é dedicado às outras pessoas.

Pra quê, sabe? Pra quê me mutilar intentando caber dentro de expectativas? Pra quê a validação? Pra quê não usar todas as palavras necessárias e dizer do jeito que tenho vontade o que pretendo dizer? Pra quê suportar o peso dos outros nas minhas costas? Pra quê oferecer o meu tempo quando o que acontecerá, no fim das contas, não fará a menor diferença? Pra quê simplesmente perder uma energia que não volta, em dor, se, no fim, meu nome estará no livrinho da realidade ao lado de todos os outros nomes, mais ou menos imortais que o meu? Igualzinho. Estarão lá: meu nome, o nome da montanha aqui de frente, o nome da amendoeira debaixo da minha janela, o nome do maior imbecil que já conheci, o nome da barata que mora ali no esgoto... E para nada que eu tenha sofrido no lugar de alguém, para ninguém com quem eu tenha sonhado, para nenhuma espera, nenhum investimento, nenhuma empatia, receberei qualquer retorno, muito menos positivo.

Se não há seriedade ou sentido, se nada importa tanto assim, sequer eu mesma, e tudo caminha para o esquecimento, que o meu tempo seja bom e a minha realidade, ao menos, seja movimentada com alegria, calma e leveza.