sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Fora de ocasião

As pessoas com quem convivemos influenciam mais os rumos que tomamos na vida do que gostaríamos de admitir. Existe até um dito popular: você é a soma das cinco pessoas com quem mais convive. Então, é sempre muito importante escolher a dedo quem aceitamos em nosso entorno. Sejam aqueles que irão conviver fisicamente conosco, sejam aqueles que povoam nossas memórias e pensamentos com suas palavras, gestos, imagens, músicas e outras formas de expressão. E já que, por menos criadores de expectativas que sejamos, afinal somos adultos, nada e ninguém no mundo é exatamente como gostaríamos que fosse, também é importante ter para nós mesmos, muito bem definido, o que estamos dispostos a relevar, aceitar, tolerar... Se não respeitamos nossas próprias regras, a consequência mais óbvia é que ninguém mais vai. No entanto, existe uma outra consequência que passa despercebida aos menos atentos, a desgraça de todo relacionamento que se pretendeu construir um dia: o ressentimento. Sou capaz de afirmar que é esse detalhezinho que implode tudo. Pois, o ressentimento é um campo minado. Você nunca sabe quando algo será detonado. E isso cria uma dinâmica que impossibilita qualquer convivência saudável. 

Aí eu chego ao terceiro ponto dessa trilhazinha chamada texto reflexivo. Como é que surge o ressentimento? Simples, mas nada fácil. Ressentimento é um produto da falta de clareza e direcionamento na vida. Falta de objetivos. Falta de foco. Falta de se saber quem se é, o que se quer e o que não se é capaz de aceitar. Inaptidão para dialogar consigo mesmo e com os outros de forma madura e honesta. Resumindo: falta de auto conhecimento. Ressentimento pode atingir a qualquer um, a qualquer momento. Quem de nós se conhece tão total e profundamente ao ponto de já ser imune a esse mal? Porém, ter o ressentimento por hábito, reflexo inconsciente, é o problema a que me refiro aqui. Viver, dia após dia num emaranhado surreal de imaturidade, presunção, precipitação, prepotência, descontrole emocional, inexperiência com pessoas diversas, incapacidade de lidar com o contraditório, desrespeito a limites, medo de viver, isolamento, privação de experiências, ciúmes, inveja, egoísmo, falta de clareza, falta de consciência, falta de diálogo...  é o ritual para a conjuração da criança que se joga no chão do supermercado quando a mãe diz "não". Foda é quando a criança é uma pessoa que já passou da idade há décadas e a mãe se chama "vida". 

Saber se comunicar é uma arte. Arte é comunicação... e existem tantas formas... Mas, em todas, algo é fundamental: a possibilidade de se estabelecer o diálogo. Dialogar significa que alguém comunica, alguém devolve a comunicação e os dois vão trocando até que algo surja dentro de cada um dos lados da "conversa". É importante lembrar que, num diálogo, qualquer coisa pode surgir. Qualquer coisa mesmo! Então, diante de um tema, surge a comunicação quando alguém propõe e alguém significa a proposta. E nem sempre o significado atribuído à proposta é o esperado por quem propõe. Quantas vezes recebemos uma reação inesperada, negativa, ou até totalmente oposta ao que havia sido proposto por nós? Isso é tão normal! E tão interessante! No momento de se atribuir significado a alguma coisa, mostramos quem somos, o que somos, toda a nossa história de vida aparece ali codificada no simples ato de significar. É ali que nossa consciência fica a mostra, nossa criatividade, inteligência, nosso conhecimento, nossas fraquezas, nossos limites, nossos potenciais... Por isso, CONSEGUIR, estabelecer um DIÁLOGO é tão importante se quisermos viver juntos, em paz. 

Além disso, em qualquer relacionamento humano, a maior parte da energia e do tempo é investida em diálogos, seja apenas pensamentos, registros, seja nas mais diversas formas artísticas, seja em conversas de fato. A possibilidade e a qualidade do diálogo definem relacionamentos curtos ou eternos. Logo, uma boa maneira para se medir os benefícios ou malefícios de uma troca com alguém é analisando a qualidade da conversa. Acrescenta, informa, interessa, eleva? Ou Subtrai, confunde, distrai, diminui? O diálogo é possível nas mais diversas condições? Ou simplesmente se evita uma série de assuntos por motivos que vão desde o descontrole emocional, até a falta de conhecimentos do interlocutor? Há assuntos que interessam? Há boa vontade diante da controvérsia? Nos momentos de discordância, qual é o comportamento? Conversar e entender o pensamento do outro? Ou simplesmente reagir raivosamente como se tivesse sido desafiado? Aguardar e ouvir com atenção enquanto o outro fala e expõe seus pontos? Ou atropelar o discurso do outro elevando o tom e acelerando a própria fala, enquanto saca da manga o ad hominem cuidadosamente embrulhado numa reluzente caixinha de ressentimentos?

Seria bom viver de uma forma que nunca se precisasse pedir desculpas. Na ausência de clareza mental, maturidade, controle emocional e auto conhecimento, acabam existindo situações em que isso é inevitável. Claro, havendo interesse em se estabelecer diálogo... Não havendo... Sigamos o baile.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Poema escrito na pedra

Eu disse a ele que estaria sempre por perto para o que precisasse. Falava diariamente o quanto ele era querido e amado, o quanto todos que o conheceram gostavam dele. Abraçava, beijava e dava todas as coisas que ele gostava diariamente. Ele tinha muitos apelidos e várias músicas que fiz só pra ele. Tinha um monte de manias. Era teimoso, tagarela e exibido. Era pontual, exigente... Dormia e acordava comigo. Pra mim, ele nem parecia ser de verdade, de tão maravilhoso, amigo, companheiro, carinhoso, bonito, corajoso... Tentou pular para a janela do vizinho e caiu do quinto andar. Foi aparado antes de atingir o chão. Coincidência? Sei lá. Toda vez que levava um susto ou estava numa situação nova, eu explicava que nunca deixaria nada de mal acontecer com ele. Entendia quando eu estava precisando de ajuda e oferecia conforto... Gostava muito de música. Brincava demais! Experimentava todas as plantas, gostava de alface como se fosse bife, era super curioso. Nunca ficou doente. Esteve comigo desde poucos dias depois de nascer e me acordou de manhã para que pudesse se despedir. Porque estava na hora... E foi no meu colo o momento em que respirou pela última vez, antes de voltar para o mundo dos deuses. Foram 18 anos juntos, que terminaram ontem... E, apesar da dor, sinto uma imensa gratidão por termos convivido durante tanto tempo! Porque ele foi o melhor que já existiu e eu fiz tudo o que pude para ser a melhor para ele! Nos retratos mais bonitos que guardarei desta vida, com toda certeza ele está presente. Do início ao fim, foi exatamente da forma como desejei para ele. E por isso também sou grata. Mas, só consigo pensar em quando vamos nos ver de novo...