quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Canção da Balança Cega

É sob a vibração da balança que a chegada da primavera sempre traz para mim também o Inferno Astral e suas inevitáveis reflexões sobre equilíbrio, justiça, decisões, escolhas, acertos, consciência...

A química cerebral é cega, a Biologia é cega, a Psicologia é cega, a Ciência é cega, a Religião é cega, a cultura é cega. Pois, a cabeça é cega, o julgamento é cego. O coração, não. Não à toa a personificação ocidental para a justiça, é uma figura feminina (embora o conceito seja positivo, masculino) com a venda nos olhos, segurando uma espada na mão direita e uma balança na esquerda. O peito descoberto... O orixá da justiça, dos raios, Xangô, cruza seus oxés sobre o coração e Thor toma sempre atitudes emotivas... Importantes detalhes que passam direto. 
 
A cabeça é sempre posta como a mestra do corpo, mas o fato é que só o coração vê claramente. Tem nada a perder, não tem medo e não julga, sabe que a verdade tem múltiplas dimensões. Pois, algo fundamental nessa questão não se pode ignorar: quando existem opções, todas estão erradas. E, se julgo preciso escolher, se escolho é porque não estou vendo o óbvio, se não vejo o óbvio só posso estar cega e essa cegueira é causada pelo medo de perder, que por fim vem da ilusão de posse. Assim, o medo de perder alguma coisa obriga a tomar decisões e até que meus pratos estejam alinhados, com o peso distribuído, já perco a hora e me atraso pelo caminho. Precisar escolher atrasa tudo e, embora isso ocorra pela ânsia de equilíbrio e paz, é justamente o que traz desarmonia e guerra. Alguém ganha e alguém perde. Pois, com a indecisão surgem as opções, a confusão, o perfeccionismo, o medo de errar, não o contrário! E isso significa que a dúvida acaba sendo sempre sobre alguma coisa boa, que fará bem ou trará alguma felicidade. 

Falo com propriedade. A gente só tem dúvidas quando tem algo de bom a perder. Mas, é necessário perceber, esse medo de perder, essa desconfiança na própria capacidade de enxergar o único caminho, vem de um treinamento focado na inteligência lógico-matemática que demoniza o erro, na educação iluminista que joga o coração para escanteio e idolatra o raciocínio crítico-verbal, vem da máxima "Tua cabeça, teu mestre.". Porém, nem sempre o que a razão indica é o que nos fará feliz. Na realidade, a maior parte das escolhas determinadas pela mente não são determinadas pela nossa própria Vontade, mas pela cultura, pelo ego, pelos outros. E se baseiam frequentemente no medo, na tentativa de nos protegermos do erro. Então, quando somos simplesmente guiados pela mente, o resultado pode ser desastroso, pois tende a nos levar na direção contrária de nosso coração, nossa Vontade.  Don Juan Matus, o mestre indígena, personagem  de Carlos Castañeda, ensina muitas pequenas coisas ao longo de todos os seus livros, procedimentos mágicos, uso de ervas, maneiras e tempos, mas o fundamento de tudo que ele diz está contido nestes simples tesouros:

"Para mim, só existe percorrer os caminhos que tenham coração, qualquer caminho que tenha coração. Por ali viajo, e o único desafio que vale é percorrê-lo em toda a sua extensão. Por ali viajo olhando, olhando maravilhado."

"Olhe cada caminho de perto e com intenção. Prove-o tantas vezes quanto considerar necessário. Depois, faça a você mesmo, e a você somente, uma pergunta. É uma pergunta que só se faz a um homem muito velho. Eu lhe direi qual é: Tem coração este caminho? Todos os caminhos dão na mesma, não levam a nenhuma parte. São caminhos que vão pelo matagal. Posso dizer que na minha vida percorri caminhos longos, longos, mas não estou em nenhuma parte. Se o caminho tem coração é bom; se não, de nada serve. Nenhum caminho leva a nenhuma parte, mas um tem coração e o outro não. Um faz prazerosa a viagem; enquanto você o seguir, será uno com ele. O outro o fará maldizer a sua vida. Um o faz forte, o outro lhe debilita."

Crowley, o controverso mago telemita, que errou por muitas milhas para longe do alvo várias vezes, quando acertou, deixou alguns tesouros como: 
 
"Faça o que Tu queres, esse há de ser o todo da lei. O amor é a lei, amor sob Vontade." 
 
"Todo homem e toda mulher é uma estrela.". 
 
E até posso me lembrar das maiores pérolas cristãs em consonância com essas idéias: 
 
"Seja feita a Vossa Vontade, assim na Terra como no céu." 
 
"Amar ao próximo como a Ti mesmo."

No entanto, a compreensão de sua própria autonomia individual, de sua individualidade estelar, de a quem se referem aqui como "Tu" ou "Vós" e de que não existe amor sem liberdade, pois sem liberdade também não é possível a manifestação da Vontade, são chaves para a compreensão de conceitos tão condensados. Assim como saber diferenciar bem amor de apego ou carência. 

No momento em que inspirei pela primeira vez e abri meus olhos nesta vida, me encontrava naquela hora da madrugada quando o ar fica mais frio e o céu mais escuro, a constelação de Libra acabava de ascender no horizonte e o Sol estava por ali, já no finalzinho dela. Assim, percebo com a luz que mais brilha em mim, o meu Sol, que a observação consciente, sincera, é o único modo de combater o medo e a confusão. Portanto, treinar a observação e aprender a ficar alerta para evitar as armadilhas mentais: a insegurança e a sensação de ameaça diante de opções, não é uma questão de múltipla escolha, é o óbvio. E, a diferença essencial entre aquele que toma atitudes conscientes e o que se guia apenas por regras alheias é que o primeiro está de olhos bem abertos, disposto a pagar o preço necessário para seguir o seu coração. O segundo, cego e dependente, precisa sempre de garantias antecipadas de que a opção que fará é a mais acertada. Mas, é um dilema, a certeza absoluta de que algo trará felicidade só poderá vir a partir da experiência... Experiência só se obtém fazendo e errando... Por isso, o que ocorre quase sempre é que em não se arriscar, não se acredita, e em não se acreditar não se arrisca. 

Por melhores que sejam as suas análises e hipóteses sobre as probabilidades, por mais que se tente prever o resultado, nada é garantido antes que se vivencie de modo real e concreto. Então, não há escapatória senão o fortalecimento da consciência, intuição, aprender a confiar no próprio faro, naquilo que a visão interior aponta como óbvio. A Sacerdotisa do tarô. O problema é que nenhuma intuição pode ser forte sob a energia do medo. Ela bloqueia toda e qualquer capacidade de percepção da Vontade. Mas, tem sido justamente essa a base da nossa educação: o "se não"... Isso, é claro, não ocorre à toa. Aquele que não tem medo de perder, não obedece, não faz o que se manda, não age como os demais, é imprevisível. O imprevisível é arriscado e perigoso. E tudo o que é perigoso em você vem do coração. Tudo o que te torna único e não manipulável. Além disso, não é possível parar o indivíduo movido por uma vontade de ferro, pela coragem. E confiar na própria percepção, independente de padrões culturais, é a única forma de agir sem o incômodo da dúvida. Por isso é que, já bem cedo, começa o trabalho de se retirar isso de nós, essa coragem, ensinando que errar é feio, errar é mau, errar faz mal, errar é errado. Cedo, cedo, já aprendemos a evitar o risco. Mas a verdade é que, ainda que o erro ocorra, erros não deveriam nunca significar fracasso. Simplesmente porque o erro não é o fim, apenas o meio. Não se aprende qualquer coisa, sem errar.

O ego, a sociedade, ou sei lá o que, não podem ser maiores que a Vontade. Além disso, erro é apenas uma questão de perspectiva. Erro pode ser uma oportunidade. "Às vezes a queda te acorda, às vezes, sim, a queda te mata. Mas, às vezes, quando você cai, você voa." E nada, além da consciência, é necessário diante de uma decisão. Olhar conscientemente para as coisas como elas são, como funcionam e ver o óbvio. Consciência é liberdade. "Conheça a Verdade e ela o libertará." Não é necessário lutar por liberdade, basta se manter alerta e então a liberdade simplesmente acontece e transforma. A Verdade liberta, nada mais. Nem doutrinas, nem teorias, nem dogmas, nem escrituras. Apenas a Verdade. E não existe procurar um meio para encontrar a verdade. Isso é o que os filósofos fazem e, presos em suas mentes, lógicas e raciocínios, até hoje não chegaram a qualquer conclusão. Porque quando se coloca o "como", o "por que" o desejo se evidencia. "Como" ou "por que"gerenciam a mente. E a verdade não é uma questão de como ou por que fazer, é uma questão de experienciar. Daí, outro bullseye do telemita:

“Existe grande perigo em mim; pois aquele que não entender estas runas deverá cometer um grande engano. Ele deverá cair no poço chamado "por que", e lá ele deverá perecer com os cães da Razão.  Agora uma maldição sobre "por que" e seus parentes. Possa "por quê" ser amaldiçoado para sempre! Se a Vontade para e grita "por que", invocando "por que", então a Vontade para e nada faz. Se o Poder pergunta "por que", então o Poder é fraqueza. Também a razão é uma mentira; pois existe um fator infinito e desconhecido; e todas as palavras deles são artifícios. Basta de "por que"! Seja ele danado para um cão!”

Só a consciência traz visão imparcial pois, consciência é liberdade. Com a clareza necessária, os pratos da balança se movem, o mais pesado desce, o mais leve sobe e já não é necessário escolher. É óbvio. A escolha só acontece diante da confusão. Escolha é confusão. "Direita ou esquerda?", "Este caminho ou aquele?", "Sim ou não?", A balança ainda está no seu processo de pesar, está oscilando, está confusa e cega. "Amo ou não?", "Respondo ou não?", "Escrevo ou não?", "Toco ou pinto?", "Trabalho ou lazer?", "Começo por aqui ou por ali?", "Trato com suavidade ou com dureza?", "Confio ou desconfio?", "Aceito ou recuso?" Esses monstros assombram, mas apenas no escuro, apenas antes de acender a luz. Só de noite, nunca de dia. E enquanto pais, amigos, amantes, professores, escritores, filósofos, artistas, cientistas, místicos, sacerdotes e psicólogos continuarem respondendo e escolhendo em nosso lugar, não são de grande ajuda. Pois, assim só fornecem idéias sobre o certo e o errado, um cobertor para se esconder ou um bichinho de pelúcia para se agarrar, quando a solução seria apenas enfrentar o medo, abrir os olhos, levantar e acender a luz. Por isso, pode até não ser muito facil reconhecer um grande mestre, mas reconhecer péssimos mestres é bem tranquilo sim. Pois estão sempre oferecendo um sistema de crenças ou idéias de certo e errado, em vez de apenas apresentar idéias. Sobre isso foram as últimas palavras daquele que disse muitas vezes "Venha e veja", o buda Sidartha, em seu leito de morte:

"Chega de bobagem! Seja uma luz para si mesmo. Lembre-se, estas são minhas últimas palavras. Seja uma luz para si mesmo. ". 
 
Ver as coisas com clareza, e por nós mesmos, essa é a mensagem. Isso é o que diz também o telemita em: "Todo homem e toda mulher é uma estrela." e o personagem de G.R.R. Martin, Syrio Forel: "Veja com os olhos, ouça com os ouvidos, cheire com o nariz, prove com a língua, sinta com a pele e só depois disso é hora de pensar e entender a verdade", e "O medo perfura mais fundo que a espada." Isso é clareza. Se é morte, ver a morte. Se é amor, ver o amor. Se é a vida, ver a vida. Se for raiva, ver a raiva. Se é apenas uma reação exagerada, fruto de uma frustração gerada por uma expectativa que surgiu a partir de uma carência SUA, veja! Quando se tem a capacidade de ver as coisas, há capacidade para ver o óbvio. Vendo o óbvio como óbvio, a escolha desaparece. Isso é o que diz Sri Sri Ravi Shankar: "Quando há opções, todas são ruins." Isso é o que Krishnamurti diz: "Seja sem escolha. Mas você não pode ser sem escolha, você não pode escolher imparcialidade. Você não pode decidir um dia: a partir de agora vou ser sem escolha, pois esta é uma escolha." Imparcialidade não pode ser escolhida, o não desejo não pode ser desejado, o desapego não pode ser praticado. E esta é a mensagem do Zen: Olhe para as coisas e o óbvio se revelará. Quando você sabe o que é a porta e o que é a parede, não precisa escolher por onde entrar.

sábado, 3 de setembro de 2022

Hipocrisia Amarela

Pronto. Bateu Setembro, as mesmas pessoas que passam o ano questionando a depressão dos depressivos - usando parâmetros dos mais absurdos, como observar a idade da pessoa e seu padrão financeiro, considerando que apenas pessoas com dificuldades econômicas e em idade "adulta" teriam "razões" para se deprimir, desqualificando completamente todas as complexidades sociais, culturais, íntimas e até biológicas dos mais diversos tipos humanos - vão compartilhar cartas deixadas por pessoas que se suicidaram e convidar a todos para uma reflexão sobre o quanto a "sociedade" é terrível.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

De Pombos e Vazios

 
 
Justamente no dia de ensinar Ready Mades e Arte Conceitual para pessoas de 14 anos, em 50 minutos às 9h da manhã. Estacionei na rua de sempre, mas cheguei um pouco mais cedo que o normal. Não tinha vaga no lugar de sempre, só embaixo da árvore dos pombos, onde geralmente ficam 4 carros parados. Achei ótimo, pois deu para estacionar justamente um pouco antes da árvore e sair da mira dos pombos. Há realmente muitos pombos somente nessa árvore, pois certamente quem mora na casa em frente não quer que os carros estacionem ali. Há sempre muito milho pelo chão. Alguns gatos transitam por ali também. Talvez por causa dos potes de água. E sempre imaginei isso, porque tenho uma avó que é esse tipo de pessoa e também se incomoda com os carros parados na rua em frente a casa dela. Gente que tem muitas questões em si para resolver, mas prefere distribuir sua infelicidade ao menor lampejo de contrariedade e frustração. Enfim, nesse dia, havia uma senhora bem gorda, de vestido estampado com flores enormes, varrendo a calçada. Bastou estacionar o carro e ela resolveu enfiar a vassoura na rua, no espaço entre as rodas do carro e a calçada, varrendo as folhas do meio fio. Resmungava baixinho e agia como se eu tivesse estacionado bem em cima do lixo que ela varria, na frente da garagem, ou em cima da calçada. Batia a vassoura na calota da roda do carro. Demorei um pouco para sair, conferindo o celular e o texto das aulas do dia, procurando focar nas estratégias para ensinar aqueles assuntos e esquecer que estou há um mês sem gás em casa, pois o condomínio proibiu a entrada de botijões e também não tem o mapa das instalações dos dutos de gás do prédio, que esse ano tenho duas turmas a menos, não estou com alunos particulares, então o dinheiro só para as contas está menor, embora tudo esteja mais caro, que estou precisando fazer mais trabalhos de ilustração do que o normal para também dar continuidade aos projetos que pretendo concluir ainda esse ano, que tenho me sentido progressivamente depressiva e sem motivação para as coisas que antes me davam muito prazer por várias razões, que neste mesmo dia eu precisaria voar para casa para chegar na hora marcada, pois estaria, mais tarde, acompanhando uma cirurgia e precisaria passar a noite no hospital, então teria de passar antes no mercado e na farmácia para já comprar o necessário para a alimentação adequada (sem gás em casa) e os cuidados posteriores, e procurando esquecer também o sono que eu estava sentindo, fora todas as questões que todos carregamos dentro de nós e que precisamos lidar diariamente... Quando saí do carro, às 8:30 da manhã, ela disse:

- Mas tinha uma vaga tão boa ali na frente...

- Claramente não dá para estacionar ali sem atrapalhar a entrada da garagem, senhora.

- Mas aqui tem pombos olha.

- Sim, tem pombos. A senhora joga comida para eles todos os dias...

- Não, eu dou comida para os gatos.

- Claro, gatos adoram milho.

Como ela fez de continuar esse mimimi totalmente sem fundamento algum, as pessoas já iam andando mais devagar por ali pra acompanhar a cena, e eu ODEIO discussões, principalmente as que não servem pra nada, só fiz um último comentário enquanto já me preparava para atravessar a rua e seguir meu caminho:

- Senhora, pensa em todos os problemas que você tem na sua vida. Agora olha para o meu carro e perceba que esse não é um deles.

Tenho certeza que nem parou para refletir. Nem sobre isso, nem sobre seus problemas reais. E eu fui embora um pouco preocupada com o carro, pois ela poderia fazer alguma coisa com ele. Mas, me confortei no fato de ela morar bem na casa em frente. 

Algumas horas depois, voltei, estava tudo em ordem. Havia outro carro estacionado atrás do meu, deixando espaço para mais dois. Girei a chave e deixei a rua em frente àquela casa com um carro a menos, como a mulher queria mais cedo. Finalmente, deixei de ser um dos problemas imaginários que só servem pra esconder os problemas reais de alguém. "Um a menos, por hoje." Eu pensei e ela deve ter pensado quando olhou da janela e viu o espaço vazio ali na rua. Seja como for, naquele mesmo dia, no horário em que me preparava para dormir, já um pouco aliviada, no hospital, pensei nessa mulher. Pensei que talvez durante a noite, com a rua menos movimentada, ela pudesse estar mais feliz. Mas, logo desfiz essa imagem. Era óbvio que, com o vazio da rua deserta, ela finalmente precisaria lidar com os carros estacionados em frente aos muros dentro de sua própria cabeça. O silêncio lá fora só amplia seu barulho interior, deve ser desesperador. Seu único alívio seria o arrulho dos pombos. Então, é lógico que depois de haver varrido a calçada outra vez, enquanto ninguém estava passando, ela foi lá fora e descarregou mais um saco inteirinho de milho. A semana estava só no meio.