quinta-feira, 7 de junho de 2018

Buried Alive in the Blues

"Nada acontece..." Esse pensamento fixo não a abandona enquanto olha para o mar por trás de seus óculos redondos avermelhados. Ela não consegue relaxar... E sim, nada acontece nas férias. Esse é o espirito da coisa, certo?

Não. Não, se você está tentado ficar limpa. Não, com mil expectativas e sonhos. Não, se o que realmente a mantém viva é o trabalho. 

E pode até não parecer, não do modo como ela age, sorri e brinca... com a aparente facilidade e fluidez de sua performance... Mas para ela, compor, planejar todos os detalhes, subir num palco e liberar seu coração pela garganta é bem sério. O lance é que, em 1970, Música não é bem um trabalho... 

Olhando assim, nem dá para acreditar, mas tudo isso é bem diferentes nos tempos de Diógenes, quando Música estava apenas abaixo de Literatura na pirâmide de nobreza das atividades artísticas. É uma atividade liberal em toda a Europa de Leonardo. E muito antes, desde de sua própria existência, os músicos sempre desempenharam papéis importantes nos ritos mais sagrados de todas as culturas. Durante muito tempo não precisaram se explicar, defender seu status. Foram tratados com reverência pelas pessoas "importantes" do mundo, mesmo sem os discos de ouro... Ser diferente, pensar diferente, viver da sua própria maneira neste momento... Você pode ser castigado pelos colegas desde a escola até a faculdade. Pela cidade inteira até. Simplesmente por mostrar a eles o quanto têm aceitado para si tão menos do que são capazes. A indústria, os produtos, o consumo, as regras... mudaram um pouco essas coisas, e tentam fazer dos artistas, servidores, entretenedores, produtores de conteúdo... No meio de tanta objetividade, dificilmente alguma família se orgulha de seus músicos. Muito menos se são do Texas. Menos ainda se você é uma mulher. 

Os pais depositam muita expectativa em suas crianças. Na melhor das hipóteses, simplesmente temem por seu futuro... Na pior, esperam deles uma continuidade de seus projetos. Pois os consideram extensões de si mesmos. O que parece bem ingênuo para uma jovem com 27 anos recém completados, totalmente focada em sua atividade, sem filhos, solteira, bem sucedida e de férias na praia, durante o carnaval do Rio de Janeiro. Sentir-se bem é bom o suficiente para ela. Tem que ser.

"Nada simplesmente acontece... Se você não faz acontecer."

Então, ao olhar para o lado, a estrela, baixou os óculos vermelhos e cumprimentou o rapaz que se aproximava:

- Oi, gracinha...

- Oi, gracinha! - Um enorme sorriso se abriu.

De repente, todos os seus planos de estrela, a fama, a vida na estrada, as gravações, os palcos... teriam de ser conciliados com a nova vida, casa, marido, filhos... Planos que orgulhariam seus pais, surpreenderia sua cidade. E ela sequer sabia seu nome.

Ele, por outro lado, um viajante holandês rumo a África, não tinha a menor noção do tamanho da moça bem ali na sua frente. Nem sonhava que as revistas a chamavam de rainha e que suas canções eram cantadas em coro por plateias gigantescas. Mas, de certa forma isso só tornava ainda mais especial este rapaz, que em suas andanças em busca do "fim da estrada", havia encontrado a sua garota de Ipanema em Copacabana.

Enfim, algo começava a acontecer e surpreendentemente não tinha a ver com trabalho. Dois estranhos numa terra estranha... Para ele, a estrada ainda continuava, mas talvez não devesse seguir mais tão solitário. Quem sabe... por um tempo... para sempre... Sei lá.

De carona viajaram até o Nordeste do Brasil, por dois meses que pareceram um sonho! E depois foram para San Francisco. Agora, os outros só precisavam se acostumar ao forasteiro e então, ela seria uma garota normal... Pelos quatro meses seguintes desde o carnaval, ela sentia a esperança voltar. Mas, normalidade era um conceito que contrariava totalmente suas maneiras. Isso não era ela. Assim, quando o tédio rondava e a pegava desprevenida, escapar da realidade voltou a parecer uma boa opção. Deste modo, a condição que ele a impunha foi quebrada. E, na opinião dele, fácil demais. Então, ele decidiu que a estrada continuaria sem ela...

E como resgatar um amor frágil, raro, escorregadio... se num impulso súbito para escapar do mundo real a companhia dele, sua nova realidade, parecia ter pouco valor? Restava agora esperar que o fim da estrada estivesse mesmo em Detroit...

Os dias que se seguiram e tornaram-se meses foram doloridos, com aquela sensação antiga de desajuste e desaprovação tão familiar. Havia esperança, no entanto. Talvez, se ficasse limpa outra vez e conseguisse enfim se livrar dos vícios que a tiravam do controle... Talvez ele voltasse... Ela daria seus dias futuros para sentir outra vez seu corpo junto do dele...

Então vieram os novos trabalhos, gravações, planejamentos, vida outra vez! Dias cheios e noites bem dormidas. Um novo rapaz, novos planos... Se informaria sobre todo o necessário para a papelada do casamento. Mas, novamente seus amigos não o consideravam bom o suficiente... Talvez por ser envolvido com atividades ilegais. É uma possibilidade. Mas, ah, logo se acostumam... O chato era ser rejeitada agora. Ele não atendia suas ligações há algum tempo. E agora, quando finalmente conseguiu falar, ele desmarca o encontro. Os caras da banda foram atrás de garotas. Ela será obrigada a passar a noite inteira sozinha.

Há algumas horas, sozinha em seu quarto no hotel, retorna aquele pensamento desanimador " Nada acontece..." Falta apenas uma canção, e as gravações chegarão ao fim. Mas, a noite parece não ter fim hoje. O telefone parece ser sua única alternativa para escapar do tédio, da dor...

Logo o entregador estará na sua porta com a mercadoria e em seis meses o novo álbum será lançado, mas a última canção jamais virá com a sua voz.

No dia seguinte, um telegrama que ela nunca lerá a aguarda na recepção do hotel:

QUER DESCOBRIR COMIGO SE O FIM DA ESTRADA ESTÁ EM KATHMANDU?

segunda-feira, 4 de junho de 2018

La Maison Dieu

Em raros momentos há uma compaixão... Por nada em específico. Pela humanidade como um todo, talvez. A ilusão é interessante... com todos os seus pequenos detalhes, mecanismos e ornamentos... tão real.

Na maior parte do tempo há uma imprecisão... Uma dúvida...  Controle tendendo a zero. As coisas acontecem aos poucos. E isso pode ser uma alívio. Um dia de cada vez para cuidar do seu castelo real. O sol nasce a cada manhã...  Mas pode ser muito angustiante também. Uma prisão de pedra de onde se vê muito pouco. Onde há pouca mobilidade. No isolamento, você conta os dias e o sol se arrasta pelo céu através das horas...

Depende de onde você está.

E tem os momentos cruéis. Há muito para defender na fortaleza que você levanta com tanto cuidado, tanto trabalho, todos os dias um pouquinho... São muitas as tentativas, às vezes ocorre a invasão.  Algo interfere no seu mundo que sozinho já apresenta suas dificuldades. De um jeito ou de outro você se machuca. E aí há uma revolta. Você está lá dormindo, geralmente é assim, e então a ilusão te tritura, mastiga e engole. Se você não acorda, ela te fragmenta, dilacera e reduz a pó.

Há momentos tão estranhos... Fica muito óbvio que tem alguém tentando dizer alguma coisa e a sua audição simplesmente não dá conta. Você se sente impotente depois de tanto acreditar ter algum controle de dentro da sua torre de comando. Como pode? Parece impossível, mas até mesmo no seu sono, onde tudo é moldado por você, ocorre o saque e o pega desprevenido, há dor...

Tudo leva a crer, portanto, que acordar não é o calor e a luz do sol da manhã, onde há clareza e conforto. Acordar é uma tempestade de raios e vendaval devastando a fortaleza que você construiu para se proteger do mundo, te derrubando no chão de cabeça. De onde você pode levantar e por fim caminhar firme contra o vento e em liberdade, transcender a dúvida, a angústia, a crueldade, a estranheza e a compaixão. Ou reconstruir tudo de novo com mais cautela, mais reforços, mais isolamento. Tanto faz acordar agora ou só daqui a cinco minutinhos. A questão é que da segunda hipótese surgirão mais duas alternativas: esperar por outra tempestade ou dar o salto por conta própria.

A queda é inevitável, a coragem é opcional.

And as we wind on down the road
Our shadows taller than our souls
There walks a lady we all know
Who shines white light and wants to show
How everything still turns to gold
And if you listen very hard
The tune will come to you, at last
When all are one and one is all, yeah
To be a rock and not to roll.
(Stairway to Heaven - Led Zeppelin)