Às vezes me pergunto por que insisto tanto em continuar coisas difíceis. Mesmo a trancos e barrancos estou lá, empurrando pedra morro acima. E é triste perceber que essas coisas não foram sempre assim, se tornaram difíceis. E por mais que eu tente evitar, quando vejo estou de novo às voltas com equações de cálculo integral, com a pintura da Capela Sistina, com a limpeza da Baía de Guanabara, com a Teoria da Relatividade, com as Fugas de Bach, com a Crítica do Juízo... Mas aí eu penso que poucas são as coisas fáceis que me parecem interessantes, como ler, meditar, contemplar, correr... Além disso, aprendi cedo que se algo merece ser feito, merece ser bem feito, o que por si só já torna tudo mais difícil. Mas, sigo em frente. As respostas para as minhas questões estão sempre no meio das minhas trajetórias por caminhos complicados mesmo. Geralmente o objetivo vale a pena. E não é que eu tenha problema com as coisas simples, veja bem. Simples e fácil não são sinônimos. Na verdade, a maior dificuldade percebo que está mesmo em encontrar coisas interessantes nesse mundo cada vez mais vazio. Sabe? Coisas que antes eram fáceis, ao menos de encontrar... Porque, no fundo, me interesso por tudo. Então, a resposta mais precisa não seria dizer por que continuo apesar da dificuldade. A dificuldade em si não me importa. Sigo apesar dela. O melhor seria dizer que o que me move é a vontade de ter uma vida interessante. É querer transformar qualquer coisa, por mais simples que possa ser ou parecer, em assunto. É ver beleza, calma e luxo até onde já não havia sequer esperança. E para que? Para eu não terminar arrastada pela hipocrisia, sendo vítima das dores e carências dos outros.
Então, entretida com minhas buscas, com meus caminhos e com as tarefas difíceis, não tenho o menor interesse na tragédia dos outros, nem tempo para aturar desaforo ou fazer concessões, não preciso das palmas gratuitas de ninguém, não distribuo sorrisos falsos, não abro espaço para os abusos, não faço questão de presenciar a inconveniência, não construo relações de plástico, não sou escrava de opiniões, não me sinto obrigada a dar satisfação, não gasto bateria do celular me preocupando em mostrar o que estou fazendo, não quero aparecer às custas do brilho dos outros, não saio do meu canto pra torrar a paciência de ninguém, não comento imbecilidade, não passo idiotice adiante, não contribuo com o circo de horrores.
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